Li esses tempos numa matéria do UOL que um tsunami teria propiciado, no Japão, em 2011, o cruzamento entre duas espécies distintas de peixe-espinho: uma marinha, habitante das águas salgadas, e outra da água doce.
A força do tsunami teria rompido as barreiras naturais e permitido a hibridização das espécies, gerando novos genomas que, mais tarde, acabaram mostrando-se inviáveis. Em cerca de uma década, as espécies originárias “expurgaram” os genes introduzidos e regressaram à estabilidade anterior, mais ou menos num processo de reespeciação.
Mais comum em plantas, esta seria das poucas observações do processo em animais. Na Origem das Espécies, Darwin dedica um capítulo ao processo de hibridização, processo que ele testava in vivo em estufas que mantinha nos fundos de Down House. Foi ele um dos primeiros naturalistas a atestar que híbridos nem sempre são inviáveis ou estéreis e que a evolução não seria um processo inteiramente linear e previsível. Na natureza, há uma margem de liberdade muito grande entre espécies, assim como de inesperado na evolução.
O que acontece livremente na natureza, no entanto, quase nunca encontra par quando se refere às pessoas e o próprio Darwin incorreu em muitos equívocos ao tentar essa aproximação. Apesar de que somos uma espécie apenas, nos dividimos e separamos de muitas maneiras: territorialmente, linguisticamente, politicamente e assim por diante. Mas eu costumo não aproximar questões da vida racional ao que sejam hipóteses biológicas, a não ser quando me pareçam estimulantes. Se a cooperação humana pode intensificar-se mais na adversidade e diante de uma ameaça comum que por iniciativa espontânea, a exclusão e a violência paralelamente também. Qualquer livro de história do ensino fundamental pode comprovar isso.
Às vezes, a sucessão de conflitos e soluções sangrentas parece resumir a história humana, numa espécie de determinismo macabro. Eu sempre fui muito pessimista quanto ao surgimento de um novo homem ou consciência. Se isso acontecer e eu ainda estiver vivo, será para mim uma surpresa. Mesmo assim, a tendência de aproximações e re-estabilizações sociais também é real e talvez seja um traço instintivo de preservação em contextos adversos. Não sei, é apenas um pensamento.
Há um tempo li um artigo de alguns biólogos brasileiros que desenvolveram um conceito que eu achei muito bonito, muito poético, e que se chama “linha de véu”.
Significa algo como uma dificuldade taxonômica e uma margem de imprevisibilidade biológica na qual poderiam surgir novas variações e mutações para além da capacidade humana em percebê-las. De acordo com eles, a floresta amazônica abrigaria, em seu interior, centenas ou milhares desses processos, inclusive hibridizações entre espécies diferentes que estão sempre a ponto de conformar uma possibilidade inédita de vida e sobrevivência das espécies. Quer dizer: possibilidades que escapam ao nosso catálogo, demonstrando que às vezes não temos radar suficiente para perceber a biodiversidade.
Trazendo a ideia para a vida dos homens, seria muito surpreendente se, afinal, um novo homem surgisse em meio à história que estamos escrevendo, uma história calcada em processos violentos. Mas eu não ficaria triste se isso acontecesse, porque o homem atual é um ser esgotante em quase todos os sentidos.
Mas é uma especulação à toa, essa. Para a racionalidade mais usual, o encobrimento das mudanças é tomado usualmente como uma ameaça, algo a ser repelido e evitado. A fixação em torno de alienígenas exterminadores não me deixa mentir, é uma projeção extremada desse instinto agressivo. Uma vez assisti a um vídeo do Stephen Hawking no qual ele afirmava ser impossível haver evolução tecnológica sem a correspondente Nêmesis. Se chegassem extraterrestres por aqui, seria inevitavelmente um processo de colonização e expropriação.
Engraçado é que, mesmo que não haja evidências de que isso um dia tenha acontecido, vivemos nos preparando para isso, para revidar e agredir. A tradição ordena reputar como ameaça a possibilidade de intercambiar valores e ocupar o mesmo espaço sem uma razão de vantagem direta, como bem atestam as experiências coloniais. Quer dizer, não gostamos da pecha de darwinistas sociais, mas ainda recorremos a lógicas de competição e vantagem, como no séc. XIX. Por muito pouco rasgamos o véu da alteridade sem dó nem piedade. Daí à violência aberta é um passo só. E breve..
No meu último livro de poemas, “Errata”, escrevi um poema inspirado nesse conceito biológico.
𝗟𝗶𝗻𝗵𝗮 𝗱𝗲 𝘃𝗲́𝘂
Numa de nossas casas venta demais,
noutra ele não passa.
Numa um cofre aprisiona silêncios:
os naquela reclamados;
noutra sempre é o anoitecer —
ainda amanhece.
À janela, um pássaro bateu.
Soprou, empurrou, entrou.
Ele nunca reagiu ou soube,
mas a casa o colou às paredes
e tudo o que foi sonhado —
o apalpado às pressas,
o corpo ao inverso,
roupas retidas sob a linha de véu.
Numa, o vento o expôs a tudo.
Noutra, irreconhecível, viveu.
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Imagem: Pacita Abad
