Dia: 20 de outubro de 2026

Há temposHá tempos

Se vivo fosse, Fernando Brant completaria hoje 80 anos de idade. Sempre pensei que ele fosse belo-horizontino, mas ele nasceu em Caldas, no interior mineiro. Sem olhar o mapa, não tenho ideia de onde fica.

Curiosamente, Fernando e Milton têm uma coleção de canções que remetem ao mês de outubro, sendo “Outubro” justamente o nome de uma delas. Uma composição densa que Milton adensa ainda mais dentro da sua voz irretocável. Mas é por um verso de “O que foi feito devera” que o mês de outubro mais se calcificou na memória musical brasileira, isso graças à interpretação visceral que Elis Regina fez para o álbum duplo Clube da Esquina 2.

Curioso também que ambos sejam nascidos em outubro. Fernando, hoje, 09. Milton é do dia 26. Neste ano, a data cairá um dia depois do segundo turno da eleição.

Releio aqui um texto que escrevei há uns oito anos, também em outro outubro, antes do segundo turno da eleição daquele ano, e me vali da obra de Fernando para espelhar um sentimento geracional que mais vi do que vivi, mas que também não deixei de notar nem sofrer seus efeitos.

Por incrível que possa parecer, no ano de 1988 descobri que havia sido fichado pela polícia militar por supostas atividades políticas. Nem tão supostas atividades, é verdade, mas bem pouco políticas. Meu flerte com o movimento estudantil foi breve, mas eu lembro que fui até o Arquivo Público conferir se era mesmo verdade que quase 10 anos após a Lei da Anistia estava mesmo fichado. Eu, um ninguém na fila da revolução. E estava mesmo.

“O que foi feito devera” me parece ser o maior hino da redemocratização, pelo menos na letra de Fernando Brant. É uma letra muito dura, muito auto exigente, que de certa forma resumia um compromisso ético da geração que logo viria a governar o Brasil em estar sempre atenta a si mesma. Era o que Fernando queria dizer, me parece. Mais vale o que será, mas é preciso “cobrar o que fomos” para se poder crescer, ou seja, não é um canto de esperança, mas de compromisso.

Por vias indiretas, ouvi muito essa e outras letras de Fernando e dos mineiros de um modo geral. Talvez por uma afinidade lírica, é da música popular o que mais se acomodou na minha memória afetiva. Agora, quando Lô Borges partiu, não faz muito, fiquei muito triste. Fernando, que não cantava e pouco subia aos palcos não me deixou tão esvaziado, mas foi como um lastro que cedeu. Mas essas são coisas com as quais precisamos nos acostumar, com essa fatalidade inevitável que logo levará Milton também. E assim sucessivamente.

Muitas vezes eu me sinto uma pessoa desacomodada no tempo. Parece que cheguei no fim de uma festa estranha, uma celebração a um mundo que estava se decompondo e um novo não havia se descortinado ainda. Sinto assim ainda hoje, em relação a muitas coisas, principalmente na minha relação com a literatura. Quando adolesci, já ninguém mais ouvia o Clube da Esquina, mas é impossível a quem se educou por aquela poética entregar seu fabro a outra coisa qualquer.

Em meados dos anos 80, no entanto, a música popular entrou em vertigem. Ao mesmo tempo que não soube se tornar autenticamente pop, o gosto de vanguarda já não comovia a nova geração. Quem embalou a nova geração foram o rock nacional e o pop estrangeiro. Goste-se ou não, foi assim. A poética do rock nacional, porém, já vinha despida do lirismo brasileiro. Era ácida, revoltada, mais influenciada pelo punk do que pelo velho folk de Bob Dylan e o rock hippie dos 70.

Na minha alma, tenho o eco dessas duas coisas. A canção de consciência histórica, profundamente engajada na politização da juventude, e a explosão semi desajustada mais ou menos anti sistema da profusão de bandas que tomaram de assalto rádios, corações e mentes. Fato é que havia um recado a ser dado, mas de renúncia à política que lhes legara uma democracia franqueada e corrompida pelo dinheiro.

Dessa geração eu sou também e hoje consigo finalmente sentir mais falta dos meus contemporâneos que dos oitentões da MPB. Por muito tempo não tinha paciência com o rock nacional e seu aparente descompromisso. Hoje consigo fazer uma linha de continuidade porque, de certo modo, é o que ilustra a própria história da minha vida.

De esperançosos e supostamente compromissados, os jovens dos 80 permitiram-se a estupidez da drogadição e um certo culto à irreverência (que um candidato aí tenta simular). Talvez nada dê em nada mesmo, mas, hoje, ao menos para mim, isso dá mais nome ao mundo. E me é bastante amargo ter esse mundo, com esses nomes, para oferecer aos meus filhos, que não têm nada a ver com isso.

Daqui a dois dias, outubro ainda, faz 30 anos da morte de Renato Russo.

Lá em casa tem um poço, mas a água é muito limpa.

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𝗜𝗺𝗮𝗴𝗲𝗺: 𝗟𝗮 𝗩𝗲́𝗿𝗶𝘁𝗲́ 𝘀𝗼𝗿𝘁𝗮𝗻𝘁 𝗱𝘂 𝗽𝘂𝗶𝘁𝘀, 𝗝𝗲𝗮𝗻 𝗟𝗲́𝗼𝗻 𝗚𝗲𝗿𝗼𝗺𝗲

KomorebiKomorebi

Fiquei sabendo esses tempos, por uma música de uma pianista francesa, que os japoneses têm um palavra para a luz e para a sombra que atravessam as folhas de uma árvore ao vento. A palavra é “komorebi”. Eu fiquei pensando se conhecia, na língua portuguesa, uma palavra que significasse tanta coisa, ou melhor, que procurasse se referir a algo tão impreciso. Não me veio nenhuma em mente. De repente, me passou a sensação de uma obviedade idiomática tão grande… Ou vocabular minha, no caso.

Depois lembrei de que, uma vez, uma poeta pediu que eu ajudasse a tentar organizar um livro de poemas e ela tinha um poema que se chamava “Petrichor”. Um lindo poema, por sinal, e eu lembro que disse a ela que aquele, na minha opinião, deveria ser o primeiro do livro. Petricor, sem o “h” é uma palavra do português, de origem grega, e que dá nome ao aroma característico que a chuva produz ao cair sobre o solo. É maravilhoso isso…

Há muitas palavras abstratas no português, mas há poucas palavras que são como pinturas. Eu acho que a palavra mais bela do português é o coletivo de borboletas, o panapaná, que é de origem tupi. Cafuné é uma palavra linda, com um significado tátil, de origem angolana. E a sempre lembrada “saudade”, que é bastante indefinível e abstrata, mas que também não pode ser representada visualmente.

Dizem que nos livros de Guimarães Rosa podem ser encontrados mais de 5.000 neologismos. Eu acho umas lindezas “circunstreza” e “sagarana” e outras mais que não lembro agora. Mas, tirando Rosa e as “ignoranças” de Manoel de Barros (que fazia mais deformações que neologismos), voltamos ao deserto das obviedades e palavras de único referente.

É verdade que todas as palavras um dia foram um neologismo, mas o que eu notava com a palavra japonesa é que a maioria das palavras são como um muro, uma parede, resumitivas, mesmo quando polissêmicas. E há outras que parecem ter nascido abertas, inapreensíveis. Qualquer coisa que fuja ao óbvio é sempre mais interessante.

Poesia e prosaPoesia e prosa

Às vezes, enquanto leio, penso que a diferença entre a prosa e a poesia pode não ser tanta. Trocando em miúdos, parece que é apenas uma questão de dimensão da metáfora, da capacidade do autor em focá-la.

Nesse raciocínio, a potência que se extrai de um poema pode muito bem ser maior que a de um romance de seiscentas páginas. Nem sempre é, mas é evidente que pode.

Imagino a circunstância de uma casa. Ter de construí-la do zero, situá-la na geografia e na história do mundo, alicerçá-la, colocar seu piso e telhado, entalhar as madeiras dos móveis, observar a incidência da luz dos dias e das diferentes estações e ainda habitá-la com pessoas com uma história de vida: um passado, um presente e, às vezes, um destino.

A casa tem a mesma estrutura de uma novela ou romance, mas o principal dela não é estrutura.

Ela pode ser descrita e narrada de mil maneiras possíveis, pouco importa o estilo adotado por quem se decidiu erguê-la. No entanto, há um evento fundamental que ocorre no transcurso dessa experiência e esse evento sequer precisa ser explicado, pode ser um subtexto (talvez até seja melhor assim), mas definitivamente ele precisa existir, caso contrário não se trata de literatura, mas apenas engenharia e arquitetura.

O evento pode ser mínimo, mas precisa ter consequências máximas, sob pena de ao leitor parecer fútil e perda de tempo. Se o evento ocorrer num momento de graça e puder ser pressentido em sua cosmicidade por quem estiver lendo (nunca por quem o escreveu), então aí sim se poderia dizer que este seria um exemplo de prosa poética, de uma prosa que se permeou com tal intensidade à infiltração da poesia que logrou adquirir a qualidade de uma metáfora e ultrapassou a sua dimensão conceitual e propósitos.

É como se todo o trabalho do narrador se dirigisse ao momento em que, finalmente, fosse aberta uma janela pela qual atravessaria a luminosidade que revelaria de um lado nossa ignorância leitora e, do outro, o abismo da criação que lhe abriu passagem.

Quando penso nisso, me parece que a poesia, justamente, são tentativas de flagrar esses momentos luminosos e por isso exige uma energia de atenção absurda, muito difícil justamente pela concentração envolvida.

Para a poesia, não me parece relevante que se tente e fracasse, ou que se publiquem livros fracassados, mas que é indispensável dirigir a atenção a essa busca.

Para a prosa, o trabalho ainda é mais exigente, porque nem mesmo dinamitando a casa pode-se garantir o vislumbre da luminosidade, que costuma acontecer mesmo é na segunda ou terceira leitura e na condição de que o leitor aceite as chaves oferecidas e também consiga não se enganar de porta.

O que fazer com um gaúcho?O que fazer com um gaúcho?

𝘘𝘶𝘢𝘭 𝘰 𝘮𝘦𝘯𝘰𝘳 𝘤𝘪𝘳𝘤𝘰 𝘥𝘰 𝘮𝘶𝘯𝘥𝘰?
𝘌́ 𝘢 𝘣𝘰𝘮𝘣𝘢𝘤𝘩𝘢 𝘥𝘰 𝘨𝘢𝘶́𝘤𝘩𝘰, 𝘱𝘰𝘪𝘴 𝘴𝘰́ 𝘤𝘢𝘣𝘦 𝘶𝘮 𝘱𝘢𝘭𝘩𝘢𝘤̧𝘰 𝘥𝘦𝘯𝘵𝘳𝘰. (𝘈𝘯𝘰̂𝘯𝘪𝘮𝘰)

Não sei se em razão do atribulado momento jurídico-político, da perspectiva eleitoral iminente ou da dispersão informativa característica desses tempos, mas me parece que neste ano o mês de setembro vai passando praticamente em brancas nuvens no que diz respeito ao gauchismo normalmente associado ao mês em que por aqui se rememoram os eventos da Revolução Farroupilha.

A minha impressão é de que este é um fenômeno que vem acompanhando o declínio do poder de influência da mídia no debate público. Eu não acho isso de todo ruim, porque normalmente é um assunto pisoteado tanto no que se refere ao culto quanto à crítica a eventos que, em última análise, parecem ser mais de interesse histórico-literário que propriamente ao tempo de agora. Quero dizer, a Revolução Farroupilha e as farrapiadas*. Mas também não acho essencialmente bom e não tenho uma explicação muito objetiva para esse estranhamento, quer dizer, a explicação que venho esboçando mentalmente também não me satisfaz muito.

À menor atenção da mídia escrita aos debates culturais vem correspondendo um incremento de outras fontes informativas, como influenciadores, podcasters e uma leva de comunicadores que também têm os seus compromissos ideológicos e comerciais. No entanto, o que mais eu tenho visto é informação de baixa qualidade circulando por aí: textos “artificiais” e artificiosos, às vezes sem qualquer respaldo teórico e, em contrapartida, muito efeito retórico. Nesse ponto, é preciso admitir que o debate que acontecia nos jornais era muito mais qualificado. Mas essa é uma página virada e é preciso conviver com essas coisas todas, mantendo-se o discernimento possível.

Mudando de assunto, mas não muito, lembrei de que há não muito tempo uma amiga contou que havia visto um festival de folclore numa cidade do interior e disse ter ficado espantada não com a indumentária feminina, como é mais usual, mas com a masculina. Ela dizia que lhe parecera um despropósito o tamanho e o gasto de tecido nas roupas dos dançarinos. E também não entendia a razão para que os cavaleiros daqui não usassem trajes justos, tais como os utilizados pelas cowboys norte-americanos. Eu não soube o que dizer. Lembrei que minha avó materna trabalhou como costureira em sua cidade natal, a Hulha Negra, e, pelo que me contaram, ela produzia roupas de serviço para os trabalhadores do campo. Bombachas, no caso. Mas desconheço quando as bombachas passaram a ser produzidas industrialmente no Rio Grande do Sul, Uruguai e Argentina, onde foram disseminadas entre a população rural.

Como em relação ao termo “gaúcho”, a origem da bombacha foi também razão de discórdia entre folcloristas no passado, mas a versão mais aceita é que tenha chegado aqui no período da Guerra do Paraguai e teria origem turca. A Guerra do Paraguai, aliás, representou um momento de transição crucial do gaúcho da “era do couro” em direção à modernidade, de caráter capitalista e industrial. Também foi o momento derradeiro do gaúcho livre, bandoleiro, para sua conformação definitiva em peão campeiro, isto é, em trabalhador rural. Isso tanto é real que coexistem no imaginário popular e na representação literária ambos os modos de vida, como se houvessem sido concomitantes, mas o fato é que nunca o foram. Separam-nos, além do tempo propriamente dito, modos de vida bastante diferenciados, inclusive no que diz respeito ao instrumental de trabalho e vestuário.

A Guerra do Paraguai me parece ter sido mesmo um limite, ou melhor, um marco, mas um marco que se estendeu pelo menos até 1923, com as últimas revoltas caudilhistas. Desde aí até após a Segunda Guerra Mundial, ocorreu a primeira grande crise da pecuária rio-grandense do século e o empobrecimento rural conformando um novo tipo humano: o gaúcho despossuído e migrante. Além disso, a cultura norte-americana, vencedora na guerra mundial, tornava-se cada vez mais hegemônica, especialmente por meio do cinema, contribuindo para a anulação das culturas locais.

Logo em 1952, movida pela percepção do horror racista subjacente à guerra e a prevalência do etnocentrismo nas relações culturais entre as nações, a UNESCO encomendou ao antropólogo Claude Lévi-Strauss uma conferência na qual ele estabeleceu o que seriam, mais tarde, os fundamentos da Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural, publicando logo a seguir o livro “Raça e história”. A Declaração, todavia, somente seria adotada em 2001, logo após os atentados de 11 de setembro. Antes disso, em 1971, a UNESCO convocou outra vez o antropólogo, que realizou uma contundente crítica ao que hoje chamaríamos de “globalização” e seus efeitos colaterais. O resultado dessa conferência se encontra por sua vez no livro “Raça e cultura”.

Foi nesse caldo cultural, também composto por um tanto de águas passadas, que se fundou no Rio Grande do Sul o tradicionalismo e foram reestilizadas, vamos dizer assim, as práticas coletivas do povo e uma reinterpretação de sua memória. No centro dessa formulação, todavia, não se encontra um momento ideal e pacífico, um idílio, mas o evento político complexo e conturbado que foi a Revolução Farroupilha. Também ao centro dessa formulação se vai colocar o tipo humano gaúcho e toda uma composição figurativa, inclusive a caricatural indumentária de homens e mulheres.

Para melhor compreender o movimento de representação cultural, no entanto, é necessário um duplo deslocamento. O mais evidente é o que se pode verificar com os próprios olhos e se dá em relação ao tempo presente e o cada vez maior estranhamento dessa representação diante da realidade sociocultural, além da alienação desse modo de vida das condições reais de experiência das pessoas. O outro, são as águas passadas mencionadas anteriormente e certa objetificação da condição humana usada deliberadamente por aqueles que registram e imaginam a vida, quase sempre com base documental e viés interpretativo.

Nesse campo (que não é campo, é cultura), a história cultural é debatida sob as mais diversas influências e interesses. Há interesses de classe, étnico-raciais, de gênero, políticos, históricos e assim por diante. O interessante é notar que, para todas as influências, a disponibilidade histórica é a mesma, mas as interpretações se transformam ao longo do tempo mantendo-se algumas moedas de troca: a identidade ao sul, a vizinhança e as relações com o mundo espanhol e, incrivelmente, o temperamento. Eu desconheço cultura que valorize mais o temperamento do que a que se refere aos gaúchos. No caso, de homens e de mulheres.

Embora no mais das vezes sejam valores e comportamento associados à caricatura do machismo, no campo literário me interessa bastante observar como os escritores movimentam a psicologia dos gaúchos e gaúchas, manipulando-as conforme seus enredos exigem. Embora a maioria das representações literárias costume partir dos protótipos românticos, o gaúcho é quase sempre mais descrito como um componente natural do que um personagem trágico. Toda a literatura gauchesca (platina e brasileira) assenta-se em poucos traços psíquicos e morais: a honra, o culto da coragem, a liberdade, a autonomia, a hospitalidade e a solidariedade. Evidentemente, correspondem a estes valores alguns traços negativos, normalmente associados a outros poucos estereótipos e preconceitos inclusive de fundo racial, mas literariamente não me parece que sejam personagens notáveis.

Como em qualquer lugar do mundo, existe no Rio Grande do Sul uma literatura canônica e uma outra mais popular e próxima à linguagem coloquial. Também existe uma historiografia canônica e outra praticada por diletantes, pessoas apenas interessadas nas tramas da identidade que se vinculam a grupos de maior ou menor projeção municipal ou estadual, normalmente veiculadas em produções independentes e de pequena circulação. Mesmo que a tendência acadêmica venha predominando desde os anos 60, mais ou menos, o relacionamento intelectual com essa representação não se altera muito. Há também o Estado e suas instituições e uma exigência simbólica de manter essa relação disponível como objeto de pensamento.

Ao longo do século XX e, agora, no XXI, algumas dezenas ou centenas de títulos e textos foram produzidos debatendo a respeito das características do presente e o passado político-simbólico, especialmente o farrapo. Nos jornais e na mídia, intelectuais de menor ou maior projeção costumavam reacender esse debate, sob os mais diversos vieses. Até meados da década de 60, a Editora Globo ainda reunia e publicava coletâneas de escritores e estudiosos locais interessados em afirmar seu ponto de vista, mas mantendo em mente um foco local preciso. Depois de sua decadência, outras editoras e novos intelectuais mantiveram o costume do debate e o mês de setembro sempre foi o mais propício para que fosse reencenado.

Pensando assim, é por isso que acho que não consigo avaliar bem por que essas discussões (embora muitas sejam repetitivas e cansativas) desapareçam ou sejam substituídas por textos e imagens artificiais, visto que a história cultural por si só tem riquezas tanto em seus momentos felizes quanto nos dramáticos. Perder o vínculo com autores do passado, esquecê-los, simplesmente, é uma espécie de morte cruel que contamina e desenraiza as pessoas da própria condução da sua vida presente, bem como do sentimento coletivo e solidário. Pode ser inevitável, de fato, esse movimento, e a resposta dos anos 50 se encontre superada em muitos aspectos, no entanto penso que talvez seja ainda das poucas oportunidades que temos de pensar a paisagem social para além do que nos traz cada “ecrã” encalacrante.

Eu comecei a minha vida literária com um livro de contos nos quais esse mundo prevalecia ou se relacionava também, um pouco, com a vida contemporânea. Tenho uma relação ambígua e difícil com esses contos, acho alguns fracos literariamente, e até mesmo mal escritos e algo explicativos. Mas o único que me preocupei na época foi em manter o que eu tinha de experiência daquele universo, em mim, e não rejeitá-lo simplesmente, até porque isso não seria possível nem digno. Sem dúvida, eu me reporto ao que li antes, à tradição literária, mas muito mais ao mundo que aprendi por ser o meu mundo imediato, com a paisagem disponível (que nunca se afasta completamente), os animais, as pessoas e suas vidas reais, em sua miséria e beleza e também a linguagem.

À minha amiga, que gostaria de entender por que os gaúchos usam bombachas e não jeans para montar, eu publico uma imagem de mim mesmo. Usava porque era o que estava à mão. Remendada e manchada do uso, nem um pouco parecida com um produto de vitrine. Por que estava ali? Eu nem sei dizer. Da próxima vez que me encontrar com ela, vou lhe perguntar é por que não deveria estar.

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* De acordo com o Michaelis, “farrapiada” é um substantivo feminino que designa os feitos políticos e militares dos rebeldes republicanos (os farrapos) durante a Guerra dos Farrapos (ou Revolução Farroupilha), que ocorreu entre 1835 e 1845 no Rio Grande do Sul. Não é piada de gaúcho.

A sombraA sombra

Pensava que seria mais fácil não mais começar a escrever um verso, na vida. E que seria bem mais fácil resistir a operar esse maquinário com que tenho me havido desde os meus 14 anos, mais ou menos. No entanto, não é.

Na adolescência (às vezes, depois de adulto também), escrever em versos foi quase sempre uma muleta catártica. Das poucas vezes que não foi, mantive algumas coisas que no meu juízo sobrevieram e depois até publiquei. São bem poucos e eu consigo ainda gostar deles. Não são traumas juvenis. Mas, há uns anos, destruí uma pasta que mantinha uma pequena coleção daquelas antiguidades.

Comigo não haverá, portanto, um volume póstumo daquelas “pérolas”. Seria um baú de horrores, ao invés de “espantos”. Desses impublicáveis, mantive apenas um em razão do seu contexto, certamente a ninguém mais compreensível, embora eu não goste deste.

Escrever para mim sempre foi um exercício de falta, uma locupletação de um estado de desacomodação mental/espiritual. Se tudo vai bem na vida, a poesia excede. Sendo um excesso, torna-se fútil e dispensável. Prefiro fazer outras coisas.

Mas a verdade é que eu também me habituei a escrever sem a “falta” e, embora poemas assim escritos me pareçam gélidos, de alguns eu gosto também, pelo que eles induzem ou sugerem. O estado melancólico, entretanto, parece que me leva a melhores soluções “líricas”.

Mas é verdade que deposito muitas vezes o meu pessimismo ou faço daquilo uma tela com que diluir minhas próprias sombras. Também é que uso para me consolar e iluminar, mas acho sempre isso mais apelativo que simplesmente assumir a melancolia, embora saiba que esse contágio emocional possa comprometer a intenção.

De modo que, em razão da presença desse estado melancólico, apelei ao verso.. Sim, é uma confissão. Porém, como quem deseja dispensar a muleta catártica, fiquei trabalhando ontem, o dia inteiro, em remover a tristeza que havia neles, talvez com a ilusão de que, se conseguisse, removeria de mim também..

Ao menos naqueles momentos, funcionou bem, como um suspiro terapêutico, um efeito placebo, com o qual dilapidei algumas armadilhas verbais e, por certo, caí em outras. Mas assim é escrever poesia comigo. Sempre foi. Eu não me importo do translúcido na mesma medida em que tento evitar ser plano e óbvio. Acho que consegui remover a tristeza, mas posso ter tido sucesso também em não ter removido inteiramente a melancolia..

𝗔 𝘀𝗼𝗺𝗯𝗿𝗮

Um muro cai dos tijolos.

À sombra das letras,
o rótulo de um vidro
mantinha a atenção derretida
em tudo o que o atravessava
já fora dos pesadelos.

Lírios dolentes sacudiam
o vento pelos pés
levantando a terra despojada.

É muito esperar a manhã
quando a tarde se estende
e a noite se adia.

O que fazia?
Buscava encontrar qualquer coisa
que há de nascer aqui mesmo.

Mas não se pode entender
por que outra vez
o inverno regride
às costas deste outro
que não se conclui.

A primavera adormece
em botões apertados
e um sol compungido.