Às vezes, enquanto leio, penso que a diferença entre a prosa e a poesia pode não ser tanta. Trocando em miúdos, parece que é apenas uma questão de dimensão da metáfora, da capacidade do autor em focá-la.
Nesse raciocínio, a potência que se extrai de um poema pode muito bem ser maior que a de um romance de seiscentas páginas. Nem sempre é, mas é evidente que pode.
Imagino a circunstância de uma casa. Ter de construí-la do zero, situá-la na geografia e na história do mundo, alicerçá-la, colocar seu piso e telhado, entalhar as madeiras dos móveis, observar a incidência da luz dos dias e das diferentes estações e ainda habitá-la com pessoas com uma história de vida: um passado, um presente e, às vezes, um destino.
A casa tem a mesma estrutura de uma novela ou romance, mas o principal dela não é estrutura.
Ela pode ser descrita e narrada de mil maneiras possíveis, pouco importa o estilo adotado por quem se decidiu erguê-la. No entanto, há um evento fundamental que ocorre no transcurso dessa experiência e esse evento sequer precisa ser explicado, pode ser um subtexto (talvez até seja melhor assim), mas definitivamente ele precisa existir, caso contrário não se trata de literatura, mas apenas engenharia e arquitetura.
O evento pode ser mínimo, mas precisa ter consequências máximas, sob pena de ao leitor parecer fútil e perda de tempo. Se o evento ocorrer num momento de graça e puder ser pressentido em sua cosmicidade por quem estiver lendo (nunca por quem o escreveu), então aí sim se poderia dizer que este seria um exemplo de prosa poética, de uma prosa que se permeou com tal intensidade à infiltração da poesia que logrou adquirir a qualidade de uma metáfora e ultrapassou a sua dimensão conceitual e propósitos.
É como se todo o trabalho do narrador se dirigisse ao momento em que, finalmente, fosse aberta uma janela pela qual atravessaria a luminosidade que revelaria de um lado nossa ignorância leitora e, do outro, o abismo da criação que lhe abriu passagem.
Quando penso nisso, me parece que a poesia, justamente, são tentativas de flagrar esses momentos luminosos e por isso exige uma energia de atenção absurda, muito difícil justamente pela concentração envolvida.
Para a poesia, não me parece relevante que se tente e fracasse, ou que se publiquem livros fracassados, mas que é indispensável dirigir a atenção a essa busca.
Para a prosa, o trabalho ainda é mais exigente, porque nem mesmo dinamitando a casa pode-se garantir o vislumbre da luminosidade, que costuma acontecer mesmo é na segunda ou terceira leitura e na condição de que o leitor aceite as chaves oferecidas e também consiga não se enganar de porta.

