Crônicas O que fazer com um gaúcho?

O que fazer com um gaúcho?

𝘘𝘶𝘢𝘭 𝘰 𝘮𝘦𝘯𝘰𝘳 𝘤𝘪𝘳𝘤𝘰 𝘥𝘰 𝘮𝘶𝘯𝘥𝘰?
𝘌́ 𝘢 𝘣𝘰𝘮𝘣𝘢𝘤𝘩𝘢 𝘥𝘰 𝘨𝘢𝘶́𝘤𝘩𝘰, 𝘱𝘰𝘪𝘴 𝘴𝘰́ 𝘤𝘢𝘣𝘦 𝘶𝘮 𝘱𝘢𝘭𝘩𝘢𝘤̧𝘰 𝘥𝘦𝘯𝘵𝘳𝘰. (𝘈𝘯𝘰̂𝘯𝘪𝘮𝘰)

Não sei se em razão do atribulado momento jurídico-político, da perspectiva eleitoral iminente ou da dispersão informativa característica desses tempos, mas me parece que neste ano o mês de setembro vai passando praticamente em brancas nuvens no que diz respeito ao gauchismo normalmente associado ao mês em que por aqui se rememoram os eventos da Revolução Farroupilha.

A minha impressão é de que este é um fenômeno que vem acompanhando o declínio do poder de influência da mídia no debate público. Eu não acho isso de todo ruim, porque normalmente é um assunto pisoteado tanto no que se refere ao culto quanto à crítica a eventos que, em última análise, parecem ser mais de interesse histórico-literário que propriamente ao tempo de agora. Quero dizer, a Revolução Farroupilha e as farrapiadas*. Mas também não acho essencialmente bom e não tenho uma explicação muito objetiva para esse estranhamento, quer dizer, a explicação que venho esboçando mentalmente também não me satisfaz muito.

À menor atenção da mídia escrita aos debates culturais vem correspondendo um incremento de outras fontes informativas, como influenciadores, podcasters e uma leva de comunicadores que também têm os seus compromissos ideológicos e comerciais. No entanto, o que mais eu tenho visto é informação de baixa qualidade circulando por aí: textos “artificiais” e artificiosos, às vezes sem qualquer respaldo teórico e, em contrapartida, muito efeito retórico. Nesse ponto, é preciso admitir que o debate que acontecia nos jornais era muito mais qualificado. Mas essa é uma página virada e é preciso conviver com essas coisas todas, mantendo-se o discernimento possível.

Mudando de assunto, mas não muito, lembrei de que há não muito tempo uma amiga contou que havia visto um festival de folclore numa cidade do interior e disse ter ficado espantada não com a indumentária feminina, como é mais usual, mas com a masculina. Ela dizia que lhe parecera um despropósito o tamanho e o gasto de tecido nas roupas dos dançarinos. E também não entendia a razão para que os cavaleiros daqui não usassem trajes justos, tais como os utilizados pelas cowboys norte-americanos. Eu não soube o que dizer. Lembrei que minha avó materna trabalhou como costureira em sua cidade natal, a Hulha Negra, e, pelo que me contaram, ela produzia roupas de serviço para os trabalhadores do campo. Bombachas, no caso. Mas desconheço quando as bombachas passaram a ser produzidas industrialmente no Rio Grande do Sul, Uruguai e Argentina, onde foram disseminadas entre a população rural.

Como em relação ao termo “gaúcho”, a origem da bombacha foi também razão de discórdia entre folcloristas no passado, mas a versão mais aceita é que tenha chegado aqui no período da Guerra do Paraguai e teria origem turca. A Guerra do Paraguai, aliás, representou um momento de transição crucial do gaúcho da “era do couro” em direção à modernidade, de caráter capitalista e industrial. Também foi o momento derradeiro do gaúcho livre, bandoleiro, para sua conformação definitiva em peão campeiro, isto é, em trabalhador rural. Isso tanto é real que coexistem no imaginário popular e na representação literária ambos os modos de vida, como se houvessem sido concomitantes, mas o fato é que nunca o foram. Separam-nos, além do tempo propriamente dito, modos de vida bastante diferenciados, inclusive no que diz respeito ao instrumental de trabalho e vestuário.

A Guerra do Paraguai me parece ter sido mesmo um limite, ou melhor, um marco, mas um marco que se estendeu pelo menos até 1923, com as últimas revoltas caudilhistas. Desde aí até após a Segunda Guerra Mundial, ocorreu a primeira grande crise da pecuária rio-grandense do século e o empobrecimento rural conformando um novo tipo humano: o gaúcho despossuído e migrante. Além disso, a cultura norte-americana, vencedora na guerra mundial, tornava-se cada vez mais hegemônica, especialmente por meio do cinema, contribuindo para a anulação das culturas locais.

Logo em 1952, movida pela percepção do horror racista subjacente à guerra e a prevalência do etnocentrismo nas relações culturais entre as nações, a UNESCO encomendou ao antropólogo Claude Lévi-Strauss uma conferência na qual ele estabeleceu o que seriam, mais tarde, os fundamentos da Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural, publicando logo a seguir o livro “Raça e história”. A Declaração, todavia, somente seria adotada em 2001, logo após os atentados de 11 de setembro. Antes disso, em 1971, a UNESCO convocou outra vez o antropólogo, que realizou uma contundente crítica ao que hoje chamaríamos de “globalização” e seus efeitos colaterais. O resultado dessa conferência se encontra por sua vez no livro “Raça e cultura”.

Foi nesse caldo cultural, também composto por um tanto de águas passadas, que se fundou no Rio Grande do Sul o tradicionalismo e foram reestilizadas, vamos dizer assim, as práticas coletivas do povo e uma reinterpretação de sua memória. No centro dessa formulação, todavia, não se encontra um momento ideal e pacífico, um idílio, mas o evento político complexo e conturbado que foi a Revolução Farroupilha. Também ao centro dessa formulação se vai colocar o tipo humano gaúcho e toda uma composição figurativa, inclusive a caricatural indumentária de homens e mulheres.

Para melhor compreender o movimento de representação cultural, no entanto, é necessário um duplo deslocamento. O mais evidente é o que se pode verificar com os próprios olhos e se dá em relação ao tempo presente e o cada vez maior estranhamento dessa representação diante da realidade sociocultural, além da alienação desse modo de vida das condições reais de experiência das pessoas. O outro, são as águas passadas mencionadas anteriormente e certa objetificação da condição humana usada deliberadamente por aqueles que registram e imaginam a vida, quase sempre com base documental e viés interpretativo.

Nesse campo (que não é campo, é cultura), a história cultural é debatida sob as mais diversas influências e interesses. Há interesses de classe, étnico-raciais, de gênero, políticos, históricos e assim por diante. O interessante é notar que, para todas as influências, a disponibilidade histórica é a mesma, mas as interpretações se transformam ao longo do tempo mantendo-se algumas moedas de troca: a identidade ao sul, a vizinhança e as relações com o mundo espanhol e, incrivelmente, o temperamento. Eu desconheço cultura que valorize mais o temperamento do que a que se refere aos gaúchos. No caso, de homens e de mulheres.

Embora no mais das vezes sejam valores e comportamento associados à caricatura do machismo, no campo literário me interessa bastante observar como os escritores movimentam a psicologia dos gaúchos e gaúchas, manipulando-as conforme seus enredos exigem. Embora a maioria das representações literárias costume partir dos protótipos românticos, o gaúcho é quase sempre mais descrito como um componente natural do que um personagem trágico. Toda a literatura gauchesca (platina e brasileira) assenta-se em poucos traços psíquicos e morais: a honra, o culto da coragem, a liberdade, a autonomia, a hospitalidade e a solidariedade. Evidentemente, correspondem a estes valores alguns traços negativos, normalmente associados a outros poucos estereótipos e preconceitos inclusive de fundo racial, mas literariamente não me parece que sejam personagens notáveis.

Como em qualquer lugar do mundo, existe no Rio Grande do Sul uma literatura canônica e uma outra mais popular e próxima à linguagem coloquial. Também existe uma historiografia canônica e outra praticada por diletantes, pessoas apenas interessadas nas tramas da identidade que se vinculam a grupos de maior ou menor projeção municipal ou estadual, normalmente veiculadas em produções independentes e de pequena circulação. Mesmo que a tendência acadêmica venha predominando desde os anos 60, mais ou menos, o relacionamento intelectual com essa representação não se altera muito. Há também o Estado e suas instituições e uma exigência simbólica de manter essa relação disponível como objeto de pensamento.

Ao longo do século XX e, agora, no XXI, algumas dezenas ou centenas de títulos e textos foram produzidos debatendo a respeito das características do presente e o passado político-simbólico, especialmente o farrapo. Nos jornais e na mídia, intelectuais de menor ou maior projeção costumavam reacender esse debate, sob os mais diversos vieses. Até meados da década de 60, a Editora Globo ainda reunia e publicava coletâneas de escritores e estudiosos locais interessados em afirmar seu ponto de vista, mas mantendo em mente um foco local preciso. Depois de sua decadência, outras editoras e novos intelectuais mantiveram o costume do debate e o mês de setembro sempre foi o mais propício para que fosse reencenado.

Pensando assim, é por isso que acho que não consigo avaliar bem por que essas discussões (embora muitas sejam repetitivas e cansativas) desapareçam ou sejam substituídas por textos e imagens artificiais, visto que a história cultural por si só tem riquezas tanto em seus momentos felizes quanto nos dramáticos. Perder o vínculo com autores do passado, esquecê-los, simplesmente, é uma espécie de morte cruel que contamina e desenraiza as pessoas da própria condução da sua vida presente, bem como do sentimento coletivo e solidário. Pode ser inevitável, de fato, esse movimento, e a resposta dos anos 50 se encontre superada em muitos aspectos, no entanto penso que talvez seja ainda das poucas oportunidades que temos de pensar a paisagem social para além do que nos traz cada “ecrã” encalacrante.

Eu comecei a minha vida literária com um livro de contos nos quais esse mundo prevalecia ou se relacionava também, um pouco, com a vida contemporânea. Tenho uma relação ambígua e difícil com esses contos, acho alguns fracos literariamente, e até mesmo mal escritos e algo explicativos. Mas o único que me preocupei na época foi em manter o que eu tinha de experiência daquele universo, em mim, e não rejeitá-lo simplesmente, até porque isso não seria possível nem digno. Sem dúvida, eu me reporto ao que li antes, à tradição literária, mas muito mais ao mundo que aprendi por ser o meu mundo imediato, com a paisagem disponível (que nunca se afasta completamente), os animais, as pessoas e suas vidas reais, em sua miséria e beleza e também a linguagem.

À minha amiga, que gostaria de entender por que os gaúchos usam bombachas e não jeans para montar, eu publico uma imagem de mim mesmo. Usava porque era o que estava à mão. Remendada e manchada do uso, nem um pouco parecida com um produto de vitrine. Por que estava ali? Eu nem sei dizer. Da próxima vez que me encontrar com ela, vou lhe perguntar é por que não deveria estar.

______________

* De acordo com o Michaelis, “farrapiada” é um substantivo feminino que designa os feitos políticos e militares dos rebeldes republicanos (os farrapos) durante a Guerra dos Farrapos (ou Revolução Farroupilha), que ocorreu entre 1835 e 1845 no Rio Grande do Sul. Não é piada de gaúcho.

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Não são muitas as vezes em que sinto necessidade de falar ou escrever sobre meu filho. É sério isso. Nestes quase dez anos, posso contar nos dedos de uma mão apenas as situações em que isso me ocorreu. Isso de não resistir ao ímpeto de lançar-me ao recurso caudaloso da escrita. Isso é estranho para mim mesmo porque, desde o seu nascimento, boa parte (ou pelo menos a melhor parte) de tudo o que tenho feito ou pensado tem a ver direta ou indiretamente com ele, embora isso não signifique que me coloque antes dele em nada nem situe ele no centro absoluto e copernicano da minha vida. Até porque ele tem a sua própria vida e a sua particular maneira de interagir com o mundo e de ser quem e o que ele é. Porém, porque sou seu pai, é obvio que, assim como eu o tenho, ele também tem a mim, daí ser isso tudo um sistema, vamos chamar assim, dinâmico.

Mas hoje, desde muito cedo, diferente da maioria dos outros dias, quando a rotina ordena idas e vindas, enumera atividades, lista deveres e faz agenda até mesmo dos nossos minutos, hoje acordei pensando muito em que, talvez de um modo um pouco diferente do que sinta a maioria dos pais e mães de crianças com deficiência intelectual que tenho conhecido, eu sinto necessidade de falar menos dos meus “sucessos” que dos meus “fracassos”. E por pensar num fracasso em especial entre os muitos que devo estar acumulando nesse meio tempo, esse sentimento me invadiu de uma maneira irrefreável.

E logo cedo uma certeza se tornou inegável para mim mesmo: a de que fracassei em ensinar ao meu filho ou em fazê-lo perceber que, praticamente desde a sua concepção intrauterina, quando era um mero amontoado de células multiplicando-se alucinadamente, e que isso está escrito no seu genoma como uma espécie assustadora de sistema operacional inextirpável, que ele nasceu com e tem e terá pela vida inteira a síndrome de Down.

Pois é isso: eu fracassei. E percebi claramente a dimensão do meu fracasso ao perceber que o trouxe comigo nesta enrascada: nem eu e nem ele sabemos o que é a síndrome de Down. Nem ele para notá-la em si mesmo; nem eu para ensiná-lo do que não sei ao certo o que seja.

Pelo menos quanto a mim, sei muito bem de onde vem essa falha. Vem de eu não saber nem como definir a mim mesmo. O que sou, afinal, além de um genérico ser humano, como os outros 8 bilhões de genéricos seres humanos praticamente todos essencialmente iguais a mim mesmo? Salvo algumas particularidades visíveis e outras nem tão visíveis, ser “humano” é o que de melhor posso dizer a meu próprio respeito, mas posso e desejo dizer isso a respeito de todos os outros 8 bilhões também. Então isso embora pareça relativamente pouco, é o máximo para exatamente todos.

Posso dizer também minha profissão, minha  identidade de gênero e orientação sexual, minha idade, minha condição econômica e, talvez, a cultural. Posso dizer também, se isso me definir para alguém, o salário que declaro à receita federal, minhas últimas opções eleitorais e outros pormenores do mesmo gênero. Além disso ou, ainda com tudo isso, que diferença isso tudo faz à minha condição de humanidade? Pois é. Isso mesmo. Nenhuma. Mas, por um convenção social a meu ver completamente equivocada, para ele, meu filho, isso deveria fazer toda a diferença.

Quanto a ele, talvez eu devesse ajudá-lo a ter maior autoconsciência, maior metacognição. Mas a verdade é que ninguém pode, a rigor, ensinar a quem quer que seja uma consciência arbitrada sobre si mesmo. A verdade é que somos como podemos ser e como podemos nos imaginar. Meu filho com certeza não imagina que tenha a síndrome de Down. E nem eu imagino que ele devesse imaginar uma coisa dessas.

Eis a complexidade da situação.

Se para qualquer pessoa definir a si mesmo é uma tarefa complicada, seja porque muitas vezes não sabemos como abordar a nós mesmos, ou porque nos falte consciência ou até mesmo coragem de assumir a integralidade da própria condição, como então esperar que uma criança, justamente uma criança, possa compreender e assumir irrevogavelmente essa condição pétrea, essa identidade fixa, isso que os adultos todos, pais, professores, médicos, comunidade e etc. dizem sempre que não faz a menor diferença, ou seja, a sua própria diferença?

É complexa e mais difícil do que parece a situação, na verdade.

Fosse tudo diferente, se soubéssemos o que estamos fazendo nesse intervalo particular a que chamamos “nossa vida”, certamente videntes, astrólogos e psicólogos estariam falidos, bem como possivelmente os poetas estariam em silêncio e viveríamos sem maiores inquietações criativas e nem haveria necessidade da arte, matriz e expressão final das mais estranhas inquietações humanas. Não é o que afirmamos implicitamente ao dizer que arte é vida e precisamos dela assim como de oxigênio: às vezes um pouco mais, às vezes um pouco menos?

Acho que sim. E que, ao contrário dos demais seres vivos, nós – os seres humanos – sentimos uma imensa necessidade de atribuir e conferir significado à vida, seus intervalos, etapas e, se possível, até aos mais triviais minutos e segundos. Então dizemos por aí ou assumimos como verdadeiras algumas sentenças e verdades acerca de nós mesmos porque o tempo de autorreflexão é cada vez mais exíguo diante das urgências da vida, as reais e as “virtuais”. Daí a pressa toda.

Pensamos que somos belos ou feios, estúpidos ou inteligentes, egoístas ou altruístas, legais ou chatos, ricos ou pobres e assim por diante. E muitas vezes, isso também eu suspeito que seja verdade, nos enganamos a fartar a respeito de nós mesmos. Algumas vezes até deliberadamente. Por que então não nos enganaríamos a respeito dos outros? Por que tentaríamos não deliberar sobre os outros se dispomos até mesmo da nossa própria identidade e condição humana, como kits avulsos, como rótulos de produtos e embalagens? Como nomes cujo sentido muitas vezes sequer entendemos por completo?

Por outro lado, duvido que nunca nenhum de nós tenha pensado que a vida do “deficiente”, do “doente mental” ou de um “desviante” qualquer que se possa escolher como objeto de racionalização não contenha mais verdade, ou pelo menos felicidade, do que qualquer outra vida corriqueira e cheia de rotinas e tudo isso que “faz uma vida”… E duvido por uma única e exclusiva razão: a chance desse pensamento estar correto é tão plausível quanto o seu oposto e pensar-se em uma única forma de vida válida é apenas a expressão da mais subjetiva arrogância, isso que exacerbamos como conquista e mérito na nossa cada vez mais egocêntrica e tendenciosa compreensão do mundo, dos outros e de nós mesmos.

Então, vamos ver. Pelo menos a complexidade da situação parece simplificar-se um pouco. Mas tem mais.

Lembro que logo que meu filho nasceu, ou nos seus primeiros anos de vida, acompanhei mais ou menos à distância um diálogo, num grupo de pais e mães reunidos via internet, de que determinada criança, não sei filho de quem, também nascida com a síndrome de Down, de que essa criança de não mais de quatro ou cinco anos de idade “sabia” que tinha nascido com a síndrome de Down.

Lembro de que imediatamente essa informação me pareceu chocante e estarrecedora e não somente por conhecer desde aquele momento um pouco a respeito das dificuldades cognitivas inerentes à síndrome, mas porque, na ponta do lápis, ainda hoje o que se sabe melhor a respeito da síndrome de Down é a sua etiologia, sua causa, mas não no que ela implica biológica e psiquicamente. Pelo menos não na sua totalidade. Pelo menos não com a mesma clareza que se entendem outras condições, porque o genoma humano é um complexo relacional dinâmico e não um mapa astral, de onde não se tem muita saída e ao qual se estaria fatalmente atrelado. Para completar, a síndrome também falha em ser abordada como patologia justamente porque esse é um limite impreciso que, como se vê, provém do interior da vida intracelular e chega até a vida social e em suas tentativas de explicá-la, bem mais tarde, na vida adulta propriamente dita.

Naquele momento, entretanto, a questão para mim era outra. O que me importava era entender o que essa criança efetivamente sabia sobre a síndrome e saber o que os seus tutores no assunto sabiam também a respeito dela e teriam conseguido transmitir-lhe assim tão precocemente. Ou se ela apenas dizia que “era Down” como dissesse “sou menino” ou “sou menina”.

Provavelmente era isso mesmo, mas a conversa na época não prosperou a ponto de que eu pudesse entender melhor isso porque pelo menos eu não lembro mais nada significativo que tenha se dito, a não ser o anúncio estarrecedor de que uma criança com deficiência intelectual teria hipoteticamente consciência de uma condição que, na verdade, nem hoje ainda a ciência sabe dizer o que poderia defini-la, para além da trissomia do cromossomo 21 e sua atabalhoada expressão.

Quando me lembro dessa situação, fico pensando ainda hoje em que tipo de lições ou instruções eu deveria ter fornecido e estar fornecendo ao meu filho para que ele entendesse o que é “ser Down”. E, sinceramente, duvido que ele fosse conseguir entender! E afirmo isso nem tanto pelas suas dificuldades cognitivas, mas por culpa das minhas dificuldades explicativas. Não existe a possibilidade que meu filho, mesmo quase aos dez anos de idade, possa entender as implicações genéticas e bioquímicas da síndrome de Down, das quais sou assumidamente um quase total ignorante.

Esta possibilidade, portanto, está completamente descartada.

A possibilidade seguinte me parece pior ainda. Parece hedionda do ponto de vista ético e humano. Se eu procurar explicar-lhe, por exemplo, que as suas dificuldades em tudo humanas são elas mesmas a síndrome, será antes de qualquer coisa cientificamente errado, além de ser uma violência de minha parte, ou uma espécie de fuga, como é sempre o gesto de atribuir ao desconhecido a razão de ser de qualquer comportamento ou característica. Seria como admitir que a fase lunar ou a estação do ano estariam agindo nesse sentido. Seria uma fraude de minha parte. E uma violência para ele, porque eu estaria condicionando a minha visão a seu respeito com base numa fantasia pela qual optei unilateralmente, uma crença qualquer ou até mesmo uma ideologia que eu determinaria e que poderia falsear ao meu bel prazer entre o que é deficiência e o que ela não é, conforme os pressupostos e interesses ideológicos em questão, sejam meus ou tomados de empréstimo.

A verdade, ou pelo menos a única verdade que me interessa, é que eu não sei e espero nunca saber lhe explicar o que é a síndrome de Down. E isso não é uma opção simplista por viver na ignorância, mas talvez seja a opção mais difícil entre todas: a de assumir para mim mesmo que a diferença não existe. Que ela é um atributo linguístico. Uma imposição clínica determinada por uma convenção cientificamente provisória, como são todos os diagnósticos clínicos, como é todo o conhecimento científico.

A verdade é que eu penso que meu filho não precisa saber de nada disso, porque acredito que nem isso vai lhe parecer compreensível, dada a sua condição intelectual, e nem vai lhe fazer falta nenhuma saber. É o que eu penso e como tenho agido desde que ele nasceu.

Ele é assim e, a despeito de procurarmos melhorar suas condições de vida, o respeitamos. Jamais irei lhe dizer, mesmo nas previsíveis situações de discriminação, que ele não recebeu um convite de aniversário de um colega, por hipótese, porque “é Down”, e sim porque os outros são estúpidos, porque a estupidez é muito mais difícil de ser autoidentificada e assumida que uma alteração cromossômica, por mais incrível que pareça.

Também as suas dificuldades cognitivas e/ou comportamentais eu jamais pensei ou pensarei em atribuí-las a um erro de expressão de um gen qualquer, mas simplesmente vou tentar convencê-lo que dificuldades dessa ordem eu e todos os 8 bilhões de outros seres humanos temos também em relação a muitas, inumeráveis e incomparáveis situações e que, bem, temos sobrevivido com isso…

Por que haverei eu de complicar as coisas para ele? Não sou seu pai? Tudo bem que é função dos pais fornecer limites comportamentais aos filhos e não penso em fugir a essa incumbência social (está bem, às vezes penso em dar umas escapadelas, sim, a este dever…) nem em criar por minha própria vontade um selvagem, mas inculcar preconceitos precoces, além de liquidar com a autoestima de qualquer pessoa e ainda por cima dar um nome a isso, me parece de uma perfídia incomum, mas a sorte é de que ela seria pelo menos de um tipo a qual se poderia compreender e, mesmo que a duras penas, sendo o caso e caso a caso, lógico, corrigir.

Não vou lhe dar esses limites conceituais, sobretudo porque gosto de vê-lo assim, sem pensar neles nem confirmar nessa idade da vida uma identidade pétrea, um rótulo, uma caricatura humana qualquer… Suas opções, escolhas, seu desejo cheio de vontades (que coisa mais estranha isso!) às vezes até o fazem um tipo difícil, mas se eu quisesse formar uma criatura totalmente dócil e passiva eu não teria filhos, teria ficado nos animais de estimação.

Talvez seja esse sentimento, seja tudo isso, uma espécie de negacionismo tardio de minha parte. Não sei. Pode ser. Apenas sei que meu filho nasceu com a síndrome de Down e de que ele não tem a menor noção disso. Eu espero que, por respeito ao ser humano que ele é, no seu futuro pessoal não fiquem lembrando a ele disso desnecessariamente, de um nome que não faz nenhuma diferença nem muda nada na sua vida. Se alguém espera de mim, como pai, que lhe ensine isso e “seu lugar no mundo”, eu sinto muito, mas pode contar desde já com a sua própria decepção. A dar-lhe essa lição, se é a mim que caberia ensiná-la, já falhei “de nascença”. Ele com a síndrome de Down e eu como sou, nós somos mesmo irrecuperáveis.

Ex-fumoEx-fumo

Você nunca ouviu um poeta queixando-se que perdeu as palavras. Isso quando acontece ao poeta lhe põe em silêncio. O seu ânimo recolhe-se seguramente de um modo que não se diga que ele até ontem escrevia como se pudesse impulsionar desde si uma máquina geradora de sentidos. Ele está quieto e pensa que a máquina quebrou-se e talvez nunca mais volte a engrenar. E ao pensar nisso ele (ou ela, tanto faz) vê o desfile de palavras a comando dos outros perguntando-se onde nele foi parar esse fenômeno que lhe fazia adiar compromissos, atrasar deveres e que às vezes o arrastava como um animal é subjugado por uma força superior que, aparentemente sem razão nenhuma, agora esmaga seus olhos no nada, de modo que nada se vislumbre para ele ou a partir dele. O poeta tomando um café e nada lhe ocorre a não ser a noção de que talvez nunca mais volte a ser um poeta. Ele está cansado, sim, da semana, e pensa em tomar banho, lavar-se. Talvez assim remova-se nele o musgo da mudez e da fadiga mental que o castiga da mesma forma que antes o fazia sentir-se livre pela palavra, liberto por ela dos sentimentos inacreditavelmente expostos em versos, como sacrifícios. A palavra o libertava e ele tinha um pacto secreto com elas, que lhe cediam o direito de criar metáforas mais esclarecedoras (pelo menos para ele mesmo) que a ciência exata. O poeta cheio de competências, o ser absoluto de si, as suas habilidades como talheres estranhamente preparados para um banquete que já não será servido e essa consciência consumindo a sua fome, legando em seu lugar a inapetência do símbolo e do signo, a incomunicabilidade que lhe dá certeza que qualquer palavra sua será proferida no vácuo e de lá despencará para uma margem desconhecida do universo onde vivem palavras desconexas, versos inacabados, vírgulas, apóstrofos, reticências. Olhando para isso, o poeta não enxerga direito o que se dá no mundo e não entende o que aos outros ainda parece tão claro. Confunde-se com o que lhe parece ilusão, mas é real. Distingue mal entre os mundos, o seu e o dos outros. Isso me aconteceu mesmo? Ele pensa… Ou foi a outra pessoa? Ele pensa também como poderia, nesse caso, dizer o que fosse para estabelecer um nexo mínimo, uma coerência mínima, entre o mundo interno e o externo. O poeta que perdeu suas palavras pensa que poderia, nos seus melhores dias, ter suspenso no céu uma nova constelação, ter arranjado novas formas da natureza, ter levado sossego ao desassogado, conforto aos desesperados, ter feito alguma coisa consequente e não se desperdiçado em futilidades e compromissos para consigo mesmo. Com suas palavras deveria ter realizado uma obra factível e não uma coleção de desacontecimentos. O poeta pisca os olhos e olha para tão longe quanto consegue e de pronto a distância se resume. Tudo é próximo, rente, e se esfrega nele. Ele coça os olhos e a nova noite não lhe dá esperanças, mas a contabilidade do passado aumentando como uma cadeia de montanhas se acotovela noutra. E assim se formam o tempo e a memória. A consciência de que é dispensável já não o assombra, muito mais ser considerado. O poeta pensa em fumar e lembra que já não fuma. Ele escreveria com um cigarro, pensa. Pensa que o fumo lhe deu (em intensidade e gozo) mais poemas que as palavras, e de bom grado. Estranho que não é o fumo que lhe tenta, mas elas. Malditas… Onde o deixei?