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Submergir é preciso

Um desenho infantil de um submarino

A festejada ascensão a novos patamares de consumo das camadas populares, fato reapontado a exaustão como o principal mérito e herança dos anos Lula, tem gerado novas repetições de um fenômeno aparentemente inextinguível na sociedade brasileira: a distinção econômica e o preconceito visceral contra a pobreza. Um tipo de iniciativa em especial, produzida no contexto do novo milagre econômico brasileiro, vem criando oportunidades ímpares para pessoas comuns vivenciarem na própria pele inconfundíveis experiências, digamos, de cunho quase antropológico. Trata-se dos sites coletivos de compras, fenômeno derivado desta ascensão e do comércio eletrônico, uma das mais crescentes fatias nas operações comerciais do Brasil recente.

Por definição, estas iniciativas (ClickOn, YouClube, Imperdível, Coquelux, Peixe Urbano, etc.) são sites de descontos e oportunidades de consumo. São sites convidativos e simples, assim como o público a que se destina. Na tela de entrada, prepondera um design clean no qual um simples formulário sela o ingresso do internauta nos sistemas de compras, sem maiores dificuldades ou mesmo sem ser necessário entender toda a extensão de seu funcionamento. São serviços via de regra gratuitos e possibilidades de imersão imediata no universo do consumo em promoção.

A partir daí, através do envio sistemático de e-mails, as ofertas veiculadas através dos sistemas de promoção e vendas passam a oportunizar condições excelentes e acesso, por preços módicos, a serviços e produtos de outro modo inacessíveis a grande parte das pessoas que compõem as classes C e D, hoje sabidamente o principal nicho de mercado na novíssima sociedade de serviços brasileira. Se essa oportunidade por si só pode ser tomada como o prato principal da iniciativa é preciso, todavia, dar a ver o seu acompanhamento. E torcer para que ele não venha logo na entrada.

No cardume dos consumidores, quem é VIP e quem é VUP?

Relatos de dissabores no atendimento aos consumidores que se utilizam de tais sistemas para adquirir serviços são incontáveis e, registre-se, a culpa exclusiva é daquelas empresas que optam livremente por aderir aos sistemas e depois promovem, sem o mínimo constrangimento, um atendimento diferenciado ao “cardume”, em clara discriminação. Os dissabores vão de constrangimentos sutis a afrontas diretas ao direito do consumidor. Mas são situações que demonstram, essencialmente, o hiato que há entre ser consumidor e ser cidadão e o impasse que se estabelece na realização do sentimento de cidadania através do ato de consumir na e-sociedade contemporânea.

Assim como são colecionáveis os relatos de consumidores vigiados em restaurantes, preteridos em filas de espera e adiados sem prévio aviso nas mais diferentes espécies de estabelecimentos, no que se flagram humilhados e desprotegidos, também os clientes naturais destes lugares (ou espaços público-privados, como gostaria Habermas), pessoas com poder aquisitivo suficiente para prescindir destes recursos, têm se encontrado diante de situações inusitadas. E aqui reside um dos fatos mais interessantes propiciados pela inovação trazida pelos sites de compras.

São aqueles clientes acostumados a receber um tratamento diferenciado (aqui no sentido qualitativamente positivo) e que, ao invés dos cupons impressos remotamente via internet, portam cartões de crédito especiais oferecidos muitas vezes de forma desonerada pelas instituições financeiras (trata-se, afinal, de pessoas com imenso lastro bancário e que precisam ser tratadas a pão-de-ló), que tem se colocado e exposto na nova “criteriologia” praticada pelos estabelecimentos comerciais. Isso acontece, de modo claro, ao entrar-se num restaurante e ser convocado a responder a crucial questão colocada pela gerência: “Vocês são do …?”.

Um reforço nas lições de História

A indelicadeza da pergunta que finaliza o último parágrafo não é senão uma variante da mesma indelicadeza com que a população pobre vem sendo tratada no Brasil desde sempre. Na época dos barões e dos quilombos (no passado, é claro) já era assim. Poucos países do globo parecem ter tanto apreço à ideia e ideologia da supremacia de uma elite, dos preferenciais, dos amigos do rei e dos VIPs como o Brasil. Não é preciso nem recorrer a um Roberto da Matta para perceber isso, basta sair por aí, numa livre e autogestionada imersão antropológica.

O que o fenômeno dos sites de compras traz consigo não é senão a emergência dos VUPs, ou very unimportant persons enquanto potenciais pagantes e candidatos à cidadania no único modo pelo qual o termo parece ganhar significado sensível no tempo presente. O lamentável é que, no Brasil, historicamente ao pobre foi dito que ele deveria saber o seu lugar e a ideia parece ter criado raízes num tipo de inconsciente coletivo nacional.

As pessoas que estão sendo submetidas a tal tipo de exposição, na verdade estão apenas recebendo um reforço dessa lição, numa versão e-moderna na qual os cardápios eletrônicos são convidativos e amistosos mas as relações entre classes e suas representações mantêm intacta a ideologia do “você sabe com quem está falando/onde está pisando?”. Mas enfim, o que esperar de um país onde ainda é preciso que se proponham dispositivos legais para que patrões e empregados domésticos possam compartilhar um mesmo elevador?

Da cartografia da exclusão ao mergulho da subjetividade

Uma duas, capa do livro de Eliane Brum

Eliane Brum é uma autora boxeur. Afirmo isso não pela sua habilidade em derrubar o leitor em cruzados infalíveis, mas por saber conduzi-lo como ninguém ao esgotamento de uma forma que não possa perceber que está indo a nocaute quando, na verdade, já beijou a lona. Assim é a experiência da leitura de Uma duas, seu primeiro romance, publicado há pouco pela editora Leya.

Foi por um cruzado (ou seria um gancho?) que prestei atenção na sua escrita. Isso aconteceu há pelo menos doze anos, quando publicou em Zero Hora um texto chamado Enterro de pobre e que pode ser lido no livro A vida que ninguém vê, vencedor do Jabuti de 2007. Trata-se de uma crônica-reportagem para ser lida sem respirar e que tem como tema a pobreza. Não a pobreza como é descrita pelo IBGE, que afirma haver no Brasil de 2011 pelo menos quinze milhões de pessoas vivendo além do que seria o limite da pobreza extrema (o que há além da pobreza extrema?), não como quem trata de forma evocativa ou numérica a realidade da pobreza ou a classifica, e sim como quem lhe dá qualidade, nome, endereço e destino. No texto, conta o que acontece a uma família que se despedaça e, pela pobreza, não tem sequer onde depositar os seus pedaços. E ela o faz como se friccionasse as palavras em direção aos olhos do leitor, para que se misturem a ele e este não possa mais saber com que olhos está fazendo a leitura. Mas é improvável que se possa explicar uma coisa dessas.

Em Uma duas, Eliane mostra que vem aperfeiçoando essa destreza. Semanalmente ela tem praticado em pé, em sua coluna semanal em Época, e tem enfrentado adversários de peso. Nos últimos tempos, tem escrito sobre a questão ambiental, a vida dos sem-teto, a vaidade dos com-tudo, a frieza da vida urbana, pessoas sem nome, periféricos, estratosféricos, maternidade, pessoas trabalhando, ciberespaço, escolas, ruas, shoppings, violência, identidades, que mais? Em Uma duas ela exercita outra técnica, a do mergulho. O mergulho psíquico de suas duas personagens centrais: mãe e filha. Às vezes fundo quase a ponto de não sobrar tempo para voltar-se à superfície.

Como é sabido, todo mergulho tem o seu risco. Às vezes até pode que seja um risco calculado. Mas há vezes em que um mergulho tem por causa um naufrágio. Em Uma duas, mãe e filha são náufragas exauridas uma pela outra. O cenário da narrativa é quase todo feito por imagens incompletas, como destroços, de uma casa, de um hospital, de uma redação de uma revista, escadarias, janelas para a rua e cenas interrompidas. Mas as lembranças, as impressões, o medo, a raiva, os sentimentos e as sensações são pintados com o pincel da inclemência, da dubiedade e da humanidade, erguendo-se mais alto que as paredes, os sons e o estrondo do mundo físico, das coisas palpáveis. O risco de ler um livro como esse é o de ser arrastado ao seu fundo muito mais que por um pedaço de alguma coisa, como um caco de um elemento decorativo, por um chamado inaudível, uma palavra sem resposta, pelo crispar de unhas, pelo silêncio, companhia da imaginação ou pela imaginação, companhia da solidão.

É do encontro e do desencontro dessas duas mulheres solitárias que surge a narrativa de Eliane, esgueirando-se no estremecimento afetivo e percorrendo trajetos psíquicos sem destino certo e sem qualquer promessa ou indício de um final feliz. São personagens centradas em si mesmas, confundindo espaços, olhares, palavras e afetos. Uma duas tem como uma variante subtropical da cor interior bergmaniana, de quem pode buscar e sabe encontrar a expressão subjetiva do ser humano e seus desejos, mesmo que nas situações mais periclitantes e improváveis.

Essa busca, o desenvolvimento dessa capacidade, Eliane tem feito desde os tempos de Enterro de pobre, sua crônica-gancho-no-queixo. E desfere seus golpes por vislumbrar um outro que descortina sua humanidade aos poucos, às vezes em lágrimas represadas ou sangrando aos borbotões. Seu mergulho em Uma duas poderá consagrar ainda mais sua perícia de boxeur sensível e trazer aos seus leitores a experiência inconfundível de mergulhar no alheamento da vida das pessoas mais comuns e sofridas, como se tivéssemos sempre uma última de chance de darmos as mãos e inutilizar em definitivo os discursos prontos e fáceis. Ainda não concluí a leitura de Uma duas, mas preciso dizer que ela já me fez mergulhar na lona.

Políticas públicas impublicáveis

Fila quilométrica de pessoas na rua

Das tantas palavras mágicas que ganharam notório sentido auto-explicativo na política contemporânea brasileira, poucas se comparam às políticas públicas quando o efeito que se quer é causar impressão imediata de que algo presente está sendo feito pelos agentes públicos estatais no sentido de atender às demandas incessantes da população por serviços, produtos, atendimento etc. Causar impressão não é o mesmo que falsear, causar impressão é uma estratégia de convencimento capaz de fazer cessar as expectativas populares, na perspectiva de um vir-a-ser contínuo, na tradução concreta dos investimentos públicos e respectivo efeito nos orçamentos e contas públicas.

Apesar de inicialmente restritas a um fazer próprio do poder executivo, hoje assiste-se a uma proliferação ostensiva da apropriação semântica do tema, podendo-se encontrá-lo tanto no raio de ação do poder judiciário quanto no dos grêmios estudantis, onde ainda existam. Mas as políticas públicas não são mera expressão unilateral da vontade executiva. Antes, dependem de um substrato cultural apropriado para sua reprodução e agentes sociais convencidos de sua eficácia. Quando a sociedade, enfim, dá-se por satisfeita em saber que finalmente as políticas públicas estão sendo planejadas, levadas a efeito e avaliadas por agentes interessados em seus resultados objetivos, chega-se então ao que seria seu ponto ideal de percepção social, na forma de relatórios, releases à imprensa, noites de eventos e uma factível repercussão pública. Mas essa não é única forma de perceber sua efetividade e relevância, e isso pode comprovar-se tirando os olhos da(s) tela(s) ou dos relatórios oficiais e saindo um pouco pelas ruas, onde o povo está.

Fontes fidedignas: onde encontrar?

Um modo prático de revelar a efetividade das políticas públicas voltadas para a saúde, por exemplo, é de simples verificação numa visita desinteressada às emergências médicas que atendem o SUS, política pública por excelência no que se refere a saúde pública de toda a nação. Ali, nas filas de espera, os relatórios governamentais parecem definitivamente obras escritas em grego antigo e, mesmo que de forma desinteressada, ainda assim não é difícil perceber que suas tabelas e gráficos não se destinam a causar risos, mas um genuíno espanto. Em outras áreas de interesse social, já que as políticas públicas são transversais, vale o mesmo.

É o que intuem os jovens que sobrevivem ao ensino básico e tentam atravessar o ensino médio em direção ao mercado de trabalho. Com que desengano enfrentam salas de aula e políticas pedagógicas elaboradas em remotos gabinetes climatizados! E o que dizer de áreas e temas críticos, como a escalada do crack ou a superlotação prisional? Neste último caso, não é a falta de políticas públicas que pode explicar o colapso do sistema, como as autoridades competentes têm pretendido passar de forma sistemática à opinião pública, mas o nenhum interesse em prover seus ocupantes de um mínimo de dignidade. Por essas e outras é que todas as questões atinentes ao imenso espectro das políticas públicas depende de algo tão simples como o ponto de vista. Se são analisadas pela ótica de quem as trama ou de quem é, por outro lado, seu objeto, ainda que isso possa parecer uma redução do fazer político à mera coisificação pública.

Os grandes especialistas em políticas públicas não são professores universitários de terno amarrotado, como os que costumam aparecer em entrevistas televisivas, mas experts talhados no dia-a-dia das sucateadas instituições públicas e que falam perfeito brasilês. Pessoas que têm carga horária suficiente para um doutorado em horas perdidas em salas de espera e filas que atravessam a noite. Da mesma forma, alguém ainda ignora que sejam os próprios desempregados as melhores fontes sobre as consequências das políticas e ajustes econômicos governamentais? Pois é essa miopia, que joga para longe da visão pública as pessoas e seus problemas concretos, que tem notabilizado uma visão distorcida da realidade social. Os dramas comuns, que se passam com pessoas comuns, quando subitamente visibilizados pelo absurdo que trazem consigo, serão debitados em sua própria conta pois, afinal, as políticas públicas dependem de controle público e participação social.

Da efetividade propositiva aos possíveis efeitos

Da mesma forma que passou a inscrever-se no discurso e jargão político da última década como o termo definidor de qualquer ação e vontade políticas, a concorrência em torno de sua primazia parece dispensar todo e qualquer tipo de interlocução privilegiada. Desde empresas que atuam no lugar do Estado, prestando serviços públicos, até os poderes de Estado que deveriam cuidar do cumprimento das leis e do zelo constitucional no processo legislativo, aparentemente todos os setores sociais, com exceção dos trabalhadores e consumidores ordinários, estão imbricados de uma forma ou de outra nesse novo nome encontrado para a boa e velha burocracia. É claro que também é compreensível que este nome, repleto de pó e que exorta sinonimamente à ineficiência, seja substituído pelos novíssimos “gestores”, “controles”, “parcerias” e siglas que não chegam a durar mais que seis meses para serem lembradas.

Aqueles que veem nas políticas públicas mais um campo de ação devem ter claro o que estão a buscar com isso. Seja em políticas que afetam grupos específicos de pessoas, como a infância, idosos, trabalhadores, grupos étnicos ou ainda a outra espécie de objetivos até mais abstratos e de percepção menos clara, as políticas públicas tornaram-se a via de acesso por excelência a qualquer ato público, de qualquer dos poderes e em qualquer esfera administrativa. Se muitas das políticas públicas tem sido motivo de grande visibilidade para seus ideólogos e gestores, é de esperar que seus efeitos práticos sejam visíveis também no universo das pessoas e grupos que são objeto final de seu escopo.

O que se verifica em grande parte é que muitas destas iniciativas culminam em lançamentos de campanhas, peças de marketing, eventos, debates nos quais legitimam-se práticas e discursos e que resta dirigido ao público final – beneficiário hipotético dessa ação social – não mais que panfletos, cartilhas e slogans que resultam em palavras desconectadas ao final de cada ano. O bom é que um ano novo sempre vem. O mal é que ele pode ser apenas repeteco do mais do mesmo, que já causa enfaro. No futuro há de chegar o tempo em que as políticas públicas impublicáveis, aquelas que não resultam em benefício público algum, sejam reportadas como exemplos a serem lembrados como iniciativas menosprezáveis, que não se repitam jamais e que possibilitem que o interesse público autêntico venha a ser o objetivo central e requisito sine qua non de toda e qualquer ação social.

Comemorar, ma non troppo

Há mais de cinquenta anos, o geneticista francês Jérôme Lejeune descobriu a orígem genética da síndrome de Down. A presença de um terceiro cromossomo no par 21, finalmente esclarecida, foi identificada como causa do que por muito tempo se chamou de “mongolismo”, uma entre as tantas causas possíveis de deficiência intelectual. Se ainda hoje a síndrome de Down é motivo de discriminação, por sua vez ela não faz qualquer distinção em relação às pessoas que nascerão com essa característica genética. Não há, portanto, classe, credo ou cor preferencial para que uma pessoa nasça com síndrome de Down. De tudo o que já foi apurado pela ciência, sabe-se apenas que a idade materna é um elemento que pode ser decisivo, embora haja inúmeros casos que contradigam isto.

Pelo menos há cerca de trinta anos, principalmente em decorrência dos avanços na medicina, a expectativa de vida das pessoas com síndrome de Down saltou de vinte para quarenta anos. Crianças que nasciam sob o decreto médico de que não andariam ou falariam por seus próprios meios, passaram a andar, a falar e até mesmo a aprender a ler e escrever, naquela que foi a época do apogeu das escolas especiais, movimento pioneiro de pais e mães que recusavam-se a trancafiar e esconder seus filhos no porão das casas, longe de qualquer vida social. Também foi a época em que a Organização Mundial de Saúde recomendou que fosse abandonado em definitivo o termo “mongolismo”.

Na atualidade, pessoas com síndrome de Down estão vivendo com saúde até os sessenta ou setenta anos. Jovens estão concluindo o ensino médio e até mesmo cursos superiores. Casais estão formando-se. Como cidadãos plenos de direito, vê-se adultos com síndrome de Down trabalhando e tendo vida cada vez mais autônoma. Consequência também do esforço individual e familiar, tudo isto tem sido possível principalmente pelo reconhecimento social de que pessoas com síndrome de Down devem ter todos os seus direitos fundamentais garantidos, para que possam também viver com dignidade em uma sociedade que se pretende democrática e heterogênea.

Há não mais que quatro anos é comemorado no Brasil o Dia Internacional da Síndrome de Down, marcado no dia 21 de março como forma de reforçar o terceiro cromossomo naquele par de DNA. Comemorar a síndrome de Down pode parecer até estranho num primeiro exame, mas neste caso é o termo preciso, pois felizmente não vivemos mais em uma época em que seja preciso lamentar o nascimento de um filho com a síndrome. Comemorar não nos deixa esquecer tudo o que já foi feito nem tampouco descansar diante do que ainda seja necessário enfrentar.

* Coordenador de Comunicação da Federação Brasileira das Associações de Síndrome de Down.

Educação e inclusão: ano-velho ou ano-novo?

Uma onda do mar apaga da areia a data de 2010 e preserva a de 2011

A universalização do atendimento escolar, preconizada como a segunda grande diretriz do Plano Nacional de Educação (PNE) 2011-2020, enviado ao Congresso Nacional em fins de dezembro (15/12) pelo Ministro Fernando Haddad, do MEC, enfrenta desde já um importante desafio pelo menos no que se refere à educação especial. Caberá aos deputados federais eleitos, que assumem suas funções em 1º de fevereiro de 2010, conhecer, analisar e decidir pelo PNE e também sobre proposta de Decreto Legislativo que visa anular a aplicação de regulamentação proposta pelo Conselho Nacional de Educação (CNE) no que diz respeito à matrícula de estudantes com deficiência nas classes comuns do ensino regular.

É o que pretende o PDC-2846/2010 , de autoria do Deputado Eduardo Barbosa (PSDB-MG) que também é presidente da FENAPAES, Federação Nacional das APAES (Associações de Pais e Amigos dos Excepcionais). Barbosa alega a inconstitucionalidade da Resolução 4/10 da Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação (CBE/CNE) e propõe anular o artigo da resolução que trata do caráter complementar e/ou suplementar do atendimento educacional especializado, justificando que alunos com deficiência possam receber exclusivamente a educação oferecida pelas escolas especiais, deixando de frequentar o espaço comum das escolas regulares, tendo em vista que o projeto de decreto visa tão somente a suspensão do efeito da norma expedida pelo CNE e publicada pelo Ministro Fernando Haddad em julho de 2010 e a obrigatoriedade dos sistemas de ensino em matricular alunos com deficiência.

A principal barreira legal que o projeto do Deputado Barbosa vai encontrar pelo caminho é a legislação federal atual, que incorporou com força de emenda constitucional a Convenção sobre os Direitos da Pessoa com Deficiência e que assegura, em seu Art. 24, um sistema educacional inclusivo em todos os níveis e prevê que todos os apoios necessários sejam dirigidos a inclusão plena dos indivíduos na sociedade. A proposta ainda impacta o desejo da Conferência Nacional de Educação (CONAE) que confirmou em abril de 2010 o sentido de universalização a partir da instituição de uma escola unificada.

Avanço nas matrículas e na qualificação

O último ano foi o segundo em que o número de alunos com deficiência matriculados em classes comuns do ensino regular superou as matrículas em escolas especiais. De acordo com o Censo Escolar 2010, o número de alunos com deficiência matriculados em todos os sistemas de ensino aumentou cerca de 10% e, segundo o INEP, isso resulta de uma maior presença social através do desenvolvimento da educação inclusiva. Por todo o país, dezenas de cursos envolvendo professores e gestores na área de educação aconteceram no sentido de qualificar a escola comum como um espaço efetivamente democrático e capaz de atender às diferenças inerentes a população de alunos, seja através dos poderes públicos municipais e estaduais como no meio universitário, atingindo novos profissionais da educação. Muitas escolas especiais, inclusive algumas APAES, redimensionaram sua forma de atendimento e passaram a atuar em regime de colaboração com a escola regular. Elas oferecem, no contraturno, o atendimento educacional especializado (AEE), que é um serviço disponibilizado aos alunos com deficiência também pelas próprias escolas e constitui a base da Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva, sustentada pelo MEC e recentemente regulamentada pelo CNE.

Resistências não são novidade

Não são exatamente novidade as resistências em torno da atual política de inclusão. Além das escolas especiais, que vêem seus recursos ameaçados e seus serviços com uma clientela cada vez menor, também muitas escolas particulares ainda rejeitam essa nova perspectiva de atendimento. Mesmo sendo integrantes do sistema geral de ensino e obrigadas a cumprir a legislação educacional em vigor, ainda são muito frequentes situações de constrangimento às famílias de crianças com deficiência que encontram dificuldade inclusive para matricular seus filhos e imposições contratuais desiguais, como obrigações de pagamentos adicionais e outras necessidades específicas negociadas em particular. Sob o pretexto de aumentar custos em decorrência de necessidades não habituais, cria-se um espírito de animosidade que vai encontrar solução muitas vezes judicialmente. O judiciário, por sua vez, ainda vem assimilando os valores expressos na nova ordem constitucional sobre o tema e o resultado disso são prejuízos desnecessário à população, que apenas quer ver cumpridos os seus direitos. As decisões judiciais, entretanto, cada vez mais tem favorecido aos cidadãos e também o Ministério Público tem agido como indutor de políticas públicas, orientando e fiscalizando tanto escolas públicas quanto privadas, em todas as modalidades de ensino.

No legislativo, o tema tem sido objeto de disputa e debates há pelo menos dez anos, desde que o MEC assumiu posição em prol da educação inclusiva e despertou a reação das escolas especiais, principalmente através da FENAPAES. Desde então, o debate ganhou importância na comunidade escolar, no meio acadêmico e também na cobertura jornalística, escapando do discurso especializado e ganhando relevância na sociedade de um modo geral. Em dezembro, o Senado Federal promoveu o 6º Fórum Senado Debate Brasil, com o objetivo de capacitar os agentes legislativos a observar e efetivar os princípios propostos na Convenção sobre os Direitos da Pessoa com Deficiência. Resta saber se o legislativo que irá tomar posse em fevereiro próximo irá acompanhar a vontade pública expressa na CONAE e no PNE e respeitar a hierarquia legal em vigor no Brasil ou se irá prevalecer o desejo de quem quer voltar atrás na implementação da educação inclusiva, abrindo brechas para que crianças com deficiência e suas famílias voltem a submeter-se à exclusão precoce do convívio social escolar e alijando-as do direito indisponível à educação e participação plena na sociedade.

* Coordenador da revista digital Inclusive: inclusão e cidadania (www.inclusive.org.br)

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Fonte: Inclusive

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Sequestro eleitoral

A maior das dívidas eleitorais não é aquela a quem cabe julgar, já consagrados os vencedores do pleito, os Tribunais de Contas. Tampouco é a que está nas mãos dos costumeiros e pomposos doadores de campanha que, pasmados pela ambiguidade, chegam mesmo a fazer donativos a campanhas até mesmo oponentes, espreitando qualquer resultado possível. A maior das dívidas eleitorais, entretanto, é aquela que o povo tem para com seus representantes.

Ao contrário do que possa parecer num exame apressado, são os governantes e demais ocupantes de cargos públicos que tomam do povo sua confiança e credibilidade, e não vice-versa. Logo que acaba o período eleitoral, um vazio intenso assola a sociedade. Esse vazio é a expressão do desejo e da esperança de cada um que foi tomada pelos candidatos e transmitida agora através das urnas eletrônicas que se instalam por todo o país, coletando o voto das periferias e dos bairros nobres, dos confins setentrionais e meridionais e também das grandes capitais, no que é chamado por alguns de “a mais legítima festa democrática”.

Ruim com ele, pior sem ele

A definição de democracia como o mero direito ao voto, apesar de muito encontrada na cobertura jornalística nestes dias, é praticamente um sequestro que se pratica nas intenções individuais. É como se ao cidadão fosse dito: “Muito bem, você já fez sua parte e mostrou no que crê, agora nós daremos um jeito nisso (de acordo com a nossa própria agenda de interesses, é claro), você não precisa mais se preocupar com isso. Volte daqui há 4 anos.” Assim, sequestrado, o cidadão guarda seu comprovante de votação e pode assistir a máquina burocrática do Estado recompor-se para, entre muitas outras coisas, passar a preocupar-se em como fixar-se no poder ou, no caso dos derrotados, equipar-se em novas estratégias mais eficazes para tentar chegar lá mais uma vez.

Sem quem se ofereça a pagar pelo resgate de sua credibilidade e sem nenhuma instituição formal para a qual possa reclamar a titularidade de sua dívida, o cidadão comum já pode vagar tranquilamente mais uma vez, sabendo-se refém e impotente diante de sua própria impotência delegada. Ao longo destes quatro anos, farão com que frequente eventos fundamentais que chegarão a sobrepor-se no calendário, lhe dirão que ocupe espaços participativos nos quais o Estado tem sempre a palavra final ou, quando não a tem, faz desses ínfimos momentos participativos exatamente o que bem entende, de acordo com as influências mais influentes e, em temas mais críticos como aborto, ensino laico, homossexualidade, reforma agrária e ações afirmativas, por exemplo, os muxoxos costumeiros através dos quais vem conduzindo a sociedade brasileira desde sua redemocratização.

Mas, ao menos, há o direito ao voto. Um direito obrigatório, é verdade, e que se fosse opcional talvez mostrasse o único possível verdadeiro raio x da sociedade brasileira. Ruim com ele, muito pior sem ele. Mais importante que o voto só mesmo o Twitter porque, afinal, de que vale ter um candidato em segredo? Muito provavelmente no futuro, com a democracia “aperfeiçoada”, a urna eletrônica terá conexão até mesmo com as redes sociais, dispensando definitivamente a duplicação de esforços. Ou então as redes sociais poderiam até mesmo substituir a urna eletrônica, bastaria verificar o candidato mais mencionado e pronto, sem falar na possibilidade do retorno do voto nulo, onde os inconformados sempre puderam exercer, na época do voto em papel, o seu pleno direito à contrariedade.

Retornar à vida comum

Agora que está acabando o período de escândalos, pelo menos o período em que oportunamente eles vêm à público, que está terminando finalmente o período de promessas, cartas coletivas de apoio a A ou B, marketing político, promessas, jingles enfadonhos, compromissos esquivos, declarações medievais e tantas outras espécies de fenômenos típicos do período eleitoral, o sopro da esperança voltará ao seu estado de sempre, o de permanente adiamento. A vida prática da população comum continuará a ocupar as páginas do que em muitos jornais chama-se “Geral”, e também da polícia, não se pode negar isso. Seus sonhos serão transferidos para a crônica esportiva e à antecipação dos capítulos das telenovelas.

Profecias à parte, os exemplos acima referem-se ao passado, não ao futuro, e é muito provável que ele torne mesmo a repetir-se. Um déjà-vu sinistro que revelará mais uma vez a mesmice e a perpétua imobilidade social brasileira. No último momento, provavelmente ainda restará dúvida em todas as mentes, afinal tentaram lhe convencer de que esta eleição, como nunca antes, se trata de algo como um cara ou coroa e que a moeda em questão tem duas faces, bem e mal. Diante da perspectiva de continuidade do atual governo ou diante da opção contrária, os dias que restam deveriam ser decisivos para algo mais que o resultado final, mas é tolice pensar nisso, numa hora dessas.

Por sorte que você já sabe que foi sequestrado. Só falta lhe colocarem de encosto à parede.

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Do que depende a sobrevivência da leitura?

Lucio Carvalho

Também publicado na Via Política, Observatório da Imprensa, Planeta Educação, Pauta Social, UbaWeb, O Educacionista, Inclusive, Guia Global, BC UFRGS, Ministério da Cultura, União Brasileira de Escritores RN, Senai – SP, Movimento Cultura Brasil, Tudo Sobre Leitura, Pró-Leitura, eBook Reader.

O término da 21ª Bienal do Livro de São Paulo mais uma vez colocou em evidência um espectro que ronda o mercado editorial e o universo de leitores já há alguns anos: o fantasma do livro digital. É bom lembrar, antes de mais nada, que um fantasma não é essencialmente uma entidade maléfica, assim como não o é, em essência, o livro digital, ou e-book. Mas algumas leituras muito apressadas e propagandas mais apressadas ainda têm causado reações precipitadíssimas, para o bem ou para o mal mas, sobretudo, por uma compreensão parcial de tudo o que envolve o livro digital, o próprio livro, a leitura e até mesmo a educação como ela é, pois ainda trata-se da principal fonte de formação de novos leitores.

Muitas pessoas têm confundido o conceito de livro digital com os aparelhos leitores, ou e-readers. Ao contrário do livro convencional, vendido em exemplares únicos, o livro digital tem outra forma de distribuição. Depois de adquirido, poderá ser lido nos aparelhos leitores, equipamentos portáteis capazes de reproduzir o conteúdo escrito, seja qual for o seu gênero, em telas com tecnologias diversas e alguns outros recursos com conexão remota a redes, internet, entre outros. Portanto o que muitas vem se chamando de livro digital não é um livro, é meramente um conjunto digital de dados decodificado e exibido em um equipamento. No plano comercial, os aparelhos leitores não estão atrelados a editoras, mas a empresas de tecnologia que podem arbitrar formatos tecnológicos específicos e proprietários impedindo, inclusive, que um determinado conteúdo possa ser lido em qualquer outro dispositivo que não aquele através do qual foi comercializado. Diferentemente dos volumes impressos, cujo suporte é único, os livros digitais trazem à seara da informação escrita um fantasma ainda muito pouco conhecido no meio editorial, mas que tem poderes muito significativos. O fantasma atende por DRM, ou digital rights management, e já revela-se mesmo que disfarçadamente em muitos destes equipamentos, principalmente nos mais vendidos entre eles: o Kindle, da Amazon e o iPAD, da Apple.

DRM e o futuro dos direitos autorais

De acordo com a Free Software Foundation, o DRM seria mais apropriadamente denominado por digital restrictions management, uma vez que sua funcionalidade está muito mais para a gestão das restrições de uso do conteúdo digital do lado do usuário que do fabricante. Tratam-se de parâmetros inseridos nos conteúdos digitais com capacidade para coletar dados do uso bem como determinar padrões de durabilidade, acesso a cópias e intercâmbio de formatos. Desenvolvido inicialmente por demanda dos fabricantes e distribuidores de música, é um tipo de tecnologia utilizada na transferência de vários tipos de conteúdo digital, inclusive na transmissão televisiva em formato digital.

Ao passo em que muitos avanços e iniciativas tem ocorrido em função de ampliar e não restringir os direitos do lado dos consumidores e a sociedade procurado garantir o acesso universal à informaçao principalmente em ambientes educacionais, o mercado editorial tem se movido fundamentalmente em torno das iniciativas que podem lhe garantir a sobrevivência e sustentabilidade. A discussão recente em torno da reforma da Lei de Direitos Autorais e os interesses que aí têm se debatido comprovam que muitos rounds serão travados no sentido de deitar à lona as possibilidades concretas de um avanço num curto espaço de tempo. Como o movimento de livre distribuição e licenciamento não deixa de crescer, é de esperar que o mercado venha obrigatoriamente a reconfigurar-se em função do novo habitus de acesso à informação, e não vice-versa. A novíssima sociedade da informação, que acostumou-se a ver na informação e em sua circulação um mercado a ser explorado, tem necessitado redimensionar-se constantemente, sob pena de inadequar-se aos novos meios de troca e acesso que são criados de forma incessante.

Consumidores no lugar de leitores

Criadas como peças fundamentais na geografia urbana das cidades desde antes da idade moderna, as bibliotecas públicas encarnam desde então um espírito democrático como poucos espaços públicos tem obtido. Seja pelo acesso franqueado como por suas características elementares, como o empréstimo domiciliar, seria muito ingenuidade imaginar que as corporações empenhadas na criação de aparelhos leitores de livros guardam esse tipo de preocupação ou, acaso, seria imaginável que a Amazon ou o iTunes venham a emprestar gratuitamente seus conteúdos digitais?

Por isso, a grande diferença entre os serviços de bibliotecas públicas e o negócio dos conteúdos digitais está em que a perspectiva lucrativa aqui se instala em definitivo entre editores e leitores. Mesmo as iniciativas de implantação de grandes bibliotecas digitais, patrocinadas muitas vezes por gigantes tecnológicos como HP ou a Google, não visam alterar em praticamente nada as relações de acesso ao conteúdo da informação. Sua revolução está nos meios e na sempre presente perspectiva de oferta de serviços comerciais agregados. Assim, tais iniciativas assentam-se sobre obras em domínio público ou criadas já dentro do espírito de livre reprodução, como as obras licenciadas através da Creative Commons. Para novas edições e conteúdos presentes e futuros não há um projeto descrito ou tão benevolente a ponto de imaginar-se que a intenção edificante destas corporações visa exclusivamente a universalização do acesso à informação.

Iniciativa pioneira e que se mantem há 40 anos de forma voluntária, o Projeto Gutenberg é o exemplo vivo de que iniciativas não comerciais emperram em limites de expansão por falta de investimento. Contando com donativos e sem o apoio de grandes bibliotecas ou de seus consórcios, mesmo assim guarda a semente de um plano ousado: reinventar em formatos não-proprietários o sonho de uma fonte livre de consulta e leitura. Mesmo iniciativas que contam com o apoio do governo no caso brasileiro, e destinado a pesquisa de ponta, como a produção científica da pós-graduação patinam ainda em dificuldades técnicas para levar a idéia de uma Biblioteca Digital de Teses a ser popularizada entre instituições menores, como faculdades do interior do Brasil.

Em 2003, o jornalista Élio Gaspari já advertia ironicamente que o único banco que não dá certo no Brasil é o banco de teses. Passados sete anos, nem o MEC nem a CAPES forneceram sequer uma explicação remota acerca das razões pelas quais o projeto mantem-se sem acesso a conteúdo integral e é realizado em separado a outras iniciativas particulares de divulgação científica. Talvez sejam razões semelhantes as que levam a Google manter indefinidamente em versão beta seu projeto Schoolar. O que pode estar custando a ser percebido é a necessidade de democratizar as fontes antes de fomentar-se o acesso e de o meio acadêmico comprometer-se a dar o exemplo abrindo mão de direitos comerciais e a sociedade, por sua vez, desconsiderar propostas que visam o monopólio ou uso terciário da informação, oferecida como subproduto de iniciativas essencialmente comerciais.

Um desenho universal para os e-readers

Reclamado principalmente pelas pessoas com deficiência visual, que vêem os livros em braille sendo progressivamente relegados à edições especiais e a perspectiva de que novos recursos tecnológicos venham a possibilitar seu acesso a conteúdos de outra maneira indisponíveis, os recursos de acessibilidade dos e-readers são duramente criticados por esta parcela da população. No Brasil, iniciativas como o MOLLA – Movimento pelo Livro e Leitura Acessíveis no Brasil , são pertinazes na denúncia de práticas editoriais discriminatórias e realizam um trabalho que procura garantir que o acesso à informação, como um direito universal, seja efetivado através de compromissos sociais que atendam às especificidades humanas como um todo, como recomenda o conceito de desenho universal. Nessa perspectiva, tem chamado atenção quanto a algumas dificuldades de uso dos e-readers, como a inacessibilidade das telas de toque (touchscreen) e incapacidade de conversão texto-áudio, fatores limitantes do acesso por pessoas com deficiência visual ou mobilidade reduzida.

Umberto Eco e a obsessão terminativa

O semiólogo e escritor italiano Umberto Eco lançou no começo deste ano o livro-entrevista “Não contem com o fim do livro” no qual discute algumas questões como a segurança de dados dos conteúdos digitais, a fidedignidade e a história da humanidade e seus registros. Em dado momento da entrevista, Eco comenta que não entende as razões pelas quais iniciou-se o que ele chamou de “obsessão” pelo fim do livro. Para ele os livros continuarão a existir porque não trata-se de uma experiência, mas de um produto com uma credibilidade de 500 anos, ao passo em que os recursos tecnológicos têm sido substituídos pelo menos a cada cinco anos. No seu caso, diz que não trocaria sua biblioteca por outra digital pela simples razão de que nada o asseguraria de que as informações estivessem disponíveis a qualquer momento e a salvo de bugs. Uma leitura sem risco de bugs ou perdas maiores para Eco continua a ser um privilégio exclusivo dos impressos.

Do hipertexto à hipoleitura

É possível que estas palavras, cada uma delas, jamais sejam gravadas na celulose do papel, matéria-prima dos impressos de um modo geral, sejam livros, revistas ou jornais. A bem da verdade, nem uma prova em rascunho para revisão será impressa numa simples impressora doméstica. Seu único registro estará no meio digital, no código binário e na memória de quem, ao lê-las, decida por utilizá-las em algum tipo de raciocínio que possa somar ou contestar alguma informação previamente assimilada. O registro da informação é uma necessidade que a capacidade de atenção e memória humana exigem. A medida em que evoluiu, a humanidade foi criando mecanismos acessórios para estes fins. Dicionários, enciclopédias e outras formas sistematizadas de informação que hoje convergem, aparentemente de forma inexorável, para os recursos digitais.

A internet é formada essencialmente por recursos digitais interconectados e multiplicados em uma desrazão. Muitas das pessoas que afirmam tratar-se de bilhões de páginas não erram, mas não acertam jamais em saber o quanto de informação repetida ou informação incompleta é armazenada e acessada permanentemente. Por muito tempo soube-se que a Bíblia e o Manifesto Comunista foram os livros mais impressos do mundo. Hoje sabe-se que muitas páginas da internet superam este número em n vezes. Por muito tempo soube-se que quem lia o Novo Testamento ou o Manifesto Comunista teriam conhecido a vida de Cristo ou as idéias centrais do comunismo. Hoje é impossível saber o que todas as pessoas que acessaram determinada página da internet, como por exemplo a página de pesquisa do Google, foram até lá buscando, o que leram e o que conheceram efetivamente a partir daí. A distinção fundamental entre os exemplos supra são os suportes de inscrição. No primeiro, o texto e a estrutura convencional, circunscrita. No outro, o hipertexto e a estrutura aberta, diametral.

Seria um tipo de limite absurdo imaginar um novo recurso tecnológico capaz de fazer o processamento e exibição de um texto e ao mesmo tempo compartilhar uma conexão com a internet que não contasse com esse tipo de recurso e que não tivesse por base alguma forma derivada de hipertexto. Quando pensa-se em dispositivos capazes de ler o livro digital somente um purismo radical pensaria num dispositivo que imitasse o livro em papel. Já houve quem sugerisse que os e-readers devessem inclusive emitir o odor produzido pelos ácaros, para preservar-se a leitura como se tratassem de brochuras antigas. São devaneios curiosos mas que não interessam ao principal, que é sobrevivência da leitura, apesar das tecnologias.

Antes que o livro mudasse, a própria leitura mudou. Em uma época marcada pelo exagero do uso da imagem, a palavra talvez encontre-se em decadência e o discurso fragmentado e cada vez mais dissociativo. Mesmo assim, o desafio da leitura continua a ser como uma busca por consistência no acesso aos bens culturais. Maiores ainda são as dificuldades de concretizar uma leitura on-line porque há sempre uma forma de que anúncios publicitários resolvam sacudir as telas de leitura e inúmeras portas de saída convocando a atenção do incauto leitor. As pessoas que estão atualmente preocupadas em saber qual tecnologia vai consolidar-se em lugar do livro nos próximos cinco anos poderiam parar de pensar um pouco em aparelhos e pensar mais em como a leitura e seu acesso poderão ser garantidos e ampliados a todas as pessoas porque, do contrário, não haverá evolução a encontrar neste processo, mas uma ainda maior elitização do que a já existente.

Eu, também (Yo, también): diferente como ele mesmo

Cartaz do filme, onde vê-se Lola Duenas e Pablo Pineda sorrindo juntos

“Para que quer ser uma pessoa normal?” Essa é pergunta que Laura, a personagem interpretada por Lola Dueñas, em Yo, también, premiado em 2009 no Festival de Cinema de San Sebastián e ainda inédito no Brasil, faz a Daniel, vivido nas telas pelo espanhol Pablo Pineda. Apaixonado, Daniel vê no apelo à normalidade algo como uma credencial para a concretização de seu desejo de viver integralmente seus próprios desejos. Entretanto é a personagem de Lola quem é desafiada a despir-se de seus preconceitos e aceitar o potencial afetivo dessa relação que une em um extremo uma mulher de meia-idade insatisfeita com a própria vida e, no outro, Daniel, homem que, nascido com a síndrome de Down, luta com ganas por sua emancipação existencial.

Na crítica estrangeira, Yo, también é muitas vezes tratado como se fosse um documentário sobre a deficiência intelectual. Longe disso, é um filme sobre relações humanas, estabelecida entre seres humanos adultos e que buscam sua felicidade e realização em meio ao cotidiano de pessoas comuns. Talvez então fosse mais apropriado classificá-lo entre os filmes de ficção científica, ou você já viu (no cinema ou até mesmo na vida real) pessoas com síndrome de Down sendo retratadas como pessoas adultas e donas do próprio nariz e desejos?

Muito melhor que tudo isso, é um filme divertido, sem ser um filme humorístico ou abusar de apelos cômicos. É divertido porque, como dizem seus diretores, os novatos Antonio Naharro e Álvaro Pastor, na vida é preciso um certo humor, até para poder sobreviver-se a ela. Mas é igualmente dramático na medida em que não abdica de mostrar portas fechadas, desilusões, frustrações ou perdas. O melhor de tudo é que consegue voltar a ser divertido quando mostra a possibilidade vívida de ir-se sempre muito além dos limites sociais e da trivialidade dos preconceitos e dos “nãos” que a vida, em todas as suas formas e estruturas sociais, insistentemente apresenta a quem quer somente o direito de viver a pleno a própria vida.

Trailer do filme

De uma maneira muito própria ao cinema espanhol contemporâneo, no qual as relações afetivas aparecem muito vinculadas ao desejo e à liberdade, seus diretores não procuram um casal com química perfeita, idealizações mesmo que vistos pela lente da “diferença”, mas um choque explosivo de temperamentos no qual o afeto anda de mãos dadas com a angústia, com a incompreensão, mas que é obtido em sua plenitude fora de qualquer clichê costumeiro quando da exposição de pessoas aparentemente “incapacitadas” para a vida afetiva e sexual.

Yo, también exigirá muito da capacidade do público em torcer o nariz diante de relações aparentemente improváveis. Irá incomodar quem pensa que as pessoas têm lugares próprios para existir e o espaço social limitado por abstrações arbitrárias. Surpreenderá aqueles que estão presos a estereótipos e às visões simplistas do ser humano e da deficiência intelectual. De ideias que os reduzem a eternos filhos e crianças, acabando por anulá-los em imagens cristalizadas e condená-los a um mundo ínfimo e sem esperança. Yo, también vai, sem que se possa perceber muito claramente, contar-nos que toda essa representação finalmente está ruindo e que daí não há mais volta. Se há dúvida que isso é possível, assistir o filme poderá ser uma forma simples de perceber o que pessoas como Pablo Pineda e tantas outras estão, pelo mundo afora, fazendo já por suas próprias vidas.

Ator, mas só por um momento

Ao contrário de Lola que, como atriz, já atuou em dois outros filmes, ainda em pós-produção, após Yo, también, Pablo já declarou em entrevista (ver vídeo a seguir) que não pretende voltar a trabalhar como ator. Antes dessa experiência, Pablo já era relativamente conhecido no mundo inteiro por ter sido a primeira pessoa com síndrome de Down, em solo europeu, a lograr um título universitário. Formado em Pedagogia em 1999 e prestes titular-se psicopedagogo, diz que sua participação na produção mudou sua vida, mas queixa-se das perguntas repetitivas dos jornalistas que já o denominaram inclusive de “superdotado”. Dizendo-se uma pessoa realista, Pablo está mais preocupado em lançar novos olhares sobre a síndrome de Down e que, longe de imaginar-se como um ator, prefere ver-se no papel de alguém que luta por oportunidades para as pessoas com deficiência intelectual e que não esquece, por mais holofotes que sejam lançados em sua direção, que esse compromisso diz respeito ao verdadeiro sentido de autonomia individual e responsabilidade coletiva do qual ele dá indícios também na composição de seu papel.

Pablo em entrevista ao programa Cuatro A Raíz

Antes de Pablo, Pascal Duquenne fora premiado em Cannes, por “O Oitavo Dia”

Cena de “O Oitavo Dia”, onde Pascal Duquenne e Daniel Auteuil caminham num campo verde

Treze anos antes da premiação de Yo, también em San Sebastián, em 1996, o belga Pascal Duquenne dividiu com o consagrado ator francês Daniel Auteuil a Palma de Ouro de melhor ator por Le huitième jour (no Brasil, “O Oitavo Dia”), refilmagem de um filme finlandês de 1960. Motivo de grande comoção, O Oitavo Dia estreou a presença de um ator com síndrome de Down representando vigorosamente sua personagem na cena dos festivais internacionais. Foi a primeira vez em que a pessoa com deficiência intelectual era mostrada em grande estilo, em primeiro plano, já não mais como cenário. Ali, entretanto, o tom dramático se fazia bem mais intenso e a personagem vivia como que à deriva, numa situação de abandono que acabaria por levá-la a um desfecho fatal, a despeito de seu “efeito transformador” sobre os outros, principalmente a personagem de Auteuil. Desde então, outros filmes de ficção foram feitos com a presença de atores com síndrome de Down, como o espanhol León y Olvido e o norte-americano My Brother. Igualmente dramáticos e com roteiros muito centrados nos dramas familiares, suas personagens não chegam a transpor as questões de dependência pessoal e focam preferencialmente os aspectos incapacitantes de suas vidas. No mais recente “A Outra Margem”, realização portuguesa de 2007, o tom dramático é amenizado, mas a presença quase-angelical, transformadora dos outros – como em O Oitavo Dia, lança luz a um resgate de dignidade para a vida dos “diferentes”, sejam pessoas com deficiência ou, no caso do filme português, do outro protagonista, um travesti vivido pelo ator Filipe Duarte.

Yo, también não é um filme melhor ou pior que os acima citados, mesmo porque são histórias muito diferentes as aí contadas. O distal entre eles está, entretanto, na proximidade que realiza entre as personagens, como se atravessassem uma ponte que os demais focam à distância ou ignoram por completo. Essa é uma diferença muito importante que não deve ser esquecida. Se os filmes acima podem ser categorizados como filmes sobre a deficiência intelectual, Yo, también deve ficar fora dessa relação e aparecer em uma outra que acaba de inaugurar, como filmes que mostram pessoas e seus desejos, esperanças e dificuldades, entre elas as pessoas com deficiência intelectual. Fora isso, nada de “anormal”. Ainda assim, é um filme diferente. Diferente como ele mesmo. Afinal, não é isso mesmo a diferença?

O ciberativismo e o deserto do real

Tenho um problema em minha vida. Todos têm, com maior ou menor gravidade, em maior ou menor número. Alguns problemas de algumas pessoas chegam a durar uma vida inteira e passam, mesmo assim, insolúveis. Problemas podem mesmo dar causa ao fim de muitas vidas. Podem mudar seu rumo. Podem tirar do rumo uma vida que parecia ter tido desde sempre e para sempre um destino certo. Um problema pode ser um tipo de fatalidade, mas também pode ser previsível. Imprevisível é maneira como as pessoas tratam dos problemas. Os seus e os dos outros. Em seu tempo, o Barão de Itararé diria que o “mal alheio pesa como um cabelo” mas, no tempo presente, nos dias de hoje, no modo de vida contemporâneo (hoje é 12 de maio de 2010, são 10 horas da noite), inventou-se um modo prático de exorcismo dos problemas alheios, chama-se o “ciberativismo”.

Trinta anos antes de morrer, ainda em 1978, o francês Jean Baudrillard anunciava o fim do social e a sobrevivência passiva das massas, as multidões, a maioria silenciosa. O ciberativismo é como o corolário do fatalismo denunciado por Baudrillard e, apesar, da interconectividade rondar cada impulso elétrico do planeta, cada bit emitido e recebido, ela não chega a romper o silêncio do real, o silêncio do deserto do real. Não que o cyberatvismo vá, por seu próprio instrumento, provocar a derrocada do movimento social feito na sola do sapato, mas ele traz consigo a mesma sina da democracia representativa, ou seja, o fim da necessidade do diálogo social, da contraposição, da denúncia, do debate, do embate, da dúvida. É como a sacralização da representação política através de um único motor: simplesmente a razão do indivíduo. Esse é o ponto, aliás, que responde bem às expectativas contemporâneas: os dilemas sociais resolvidos num mero exame de consciência. Os efeitos, as consequências dos problemas soam como nomes remotos de coisas que acontecem aos outros. Miséria? Sim. Dá-se um clique contra a miséria. Na fantasia proposta, o problema passa a estar nas mãos de quem os pode resolver. Fome? Um horror. Dá-se um clique contra a fome, mas um bilhão de pessoas continua a sem ter o que comer e o clique, o fabuloso clique, não converteu sequer um centavo em favor destas pessoas. E o seu problema continua lá. Lá dentro. Na barriga delas.

Não é estranha a adesão dos indivíduos a estes instrumentos da impessoalidade que a internet propiciou. As causas pelas quais se procuram adesão através das e-petitions (petições eletrônicas) são mesmo nobres e não nega-se a importância de que as pessoas criem canais de manifestação que, de outra forma, estariam fechados e circunscritos aos interlocutores privilegiados da burocracia inerente ao sistema de representação. O que está em questão não é uma disputa ideológica, mas a extensão do instrumento enquanto potência criadora de interesses e o que é feito dessa energia. O que está em questão é que o instrumento em si mesmo não significa a expressão do sentimento individual ou coletivo, mas uma amarração em torno de uma idéia representada virtualmente, um tipo de intenção delegada com efeito demonstrativo. Demonstrada a simpatia ou antipatia por uma idéia, a adesão ou condenação de um gesto ou ato político, então, o que vem a seguir?

A falta de respostas, a replicação e manutenção dos problemas: este é o nosso deserto do real. Muito em breve talvez a cyberparticipação seja a forma exclusiva de manifestação cívica. Talvez faça parte da televisão interativa, que deveria acompanhar a televisão digital. Talvez os orçamentos públicos sejam decididos como se decide o Big Brother, por telefone, talvez o voto deixe de ser obrigatório, o fato é que nada disso garante a operacionalização concreta do real no real, que sempre dependerá de que alguém imprima um gesto e altere o gesto de outra ou outras pessoas. Talvez isso pudesse garantir que os problemas de todas as pessoas fossem resolvidos. Na pior das hipóteses, que pudessem ser redimensionados, reequacionados. Mas a dimensão fantástica da experiência virtual impõe como uma película revestindo o real, o intocável real.

O ciberativismo não é um novo movimento social, mas é um novo movimento de massas. Talvez possa ser o único instrumento aceitável numa sociedade de indivíduos cada vez mais enclausurados nos seus instrumentos de conexão, seus computadores, telefones e dispositivos. Campanhas virtuais estão mobilizando cada vez mais as pessoas a pensar e a clicar. O desafio agora está em ir além do clique, além da decisão do clique, além da intenção. Um clique não é uma procuração de interlocução social. O indivíduo não pode se abster da sua vontade política, mesmo que seja para exercer a passividade e pregar o ceticismo mais completo.

Quando um organismo como a FAO propõe como ação uma petição on-line para pressionar os governos a erradicar a fome (ver aqui), é de pensar se seu objetivo é simplesmente mobilizar as pessoas a dar um clique e nada mais ou se efetivamente há alguma expectativa concreta de que os governos sintam-se pressionados por esse tipo de iniciativa e que, por conta disso, resolvam solucionar o problema da fome em definitivo. Betinho, o irmão do Henfil, foi a pessoa que mais lutou contra a fome no Brasil e no seu documento de fundação da Ação da Cidadania Contra a Fome, a Miséria e pela Vida, a primeira grande rede de pessoas e instituições que se reuniu em torno de um objetivo no Brasil pós-ditadura, disse que “quando uma sociedade deixa matar crianças é porque começou seu suicídio como sociedade.” O que é preciso pensar nesse momento é se o ciberativismo e sua rede de cliques sem face tem alguma proposta para conter esse suicídio, pois ele já se encontra em curso. Caso contrário estamos ainda falando do mesmo deserto do real. E nele tudo segue igual: nem sequer a chuva chove mais no molhado. Se estiver vendo alguma coisa, leve em consideração a possibilidade de ser um holograma ou uma miragem.
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Se ainda não leu, leia também. Se já leu, leia novamente: A alma da fome é política, por Herbert de Souza e Carla Rodrigues.

Saiba também o que diz o presidente da FAO. Mas cuidado que ele está furioso!

Dina Di. Como não noticiar a morte de uma rainha.

Leia também os textos de Jéssica Balbino,
Negligência de clínica leva Dina Di a morte.
e Um Adeus a Rainha do Rap.

Nessa história, uma mulher me servirá de exemplo.
(Assim começa a letra de “Confidências de uma presidiária”)

A rainha está morta. Está morta, mas a dúvida persiste: como noticiar a morte de uma rainha? Pela lógica, seria suficiente reservar o destaque dos jornais, a manchete dos portais ou, da forma atualmente mais usual, disparar uma torrente de tweets na internet. Mas como levar isso a efeito se a rainha é uma brasileira e tem como nome Viviane Lopes Matias? Como, tratando-se de uma rainha que nasceu numa família brasileira, viveu uma vida de brasileira e morreu por complicações no parto de um filho, mesma causa que acaba anualmente com a vida de milhares de mulheres brasileiras?

A essa altura, é conveniente fazer outra pergunta: mas afinal, de quem se trata? Que rainha pode ter tido uma vida descrita dessa forma e, mesmo rainha, mesmo depois de morta, continuar incógnita, transitando entre os nomes dos jornais em linhas escassas, junto aos “meros mortais”? Viviane era mais conhecida pelo seu nome de cantora, Dina Di, e provavelmente nunca tenha feito questão de apartar-se do povo, das pessoas comuns, e isso pode explicar em parte o quase nenhum destaque da notícia de sua morte, no último 19 de março.

Apesar de ter habitado nos últimos 20 anos, com todo o direito, a alta cúpula do rap brasileiro, Dina Di é muito mais conhecida como “guerreira” do que como “rainha”. É claro, onde estão os reis, mesmo simbolicamente? No trono, longe das dores do povo, a quem conhecem por mensageiros, cercados por bajuladores e traidores. Dina Di sempre esteve à vontade na linha de frente, empunhando o ritmo e a poesia (rythm and poetry) como armas de quem combate de peito aberto as agruras da vida e, por isso mesmo, as conhece do princípio ao fim.

Pensando bem, que rainha diria em alto e bom tom que “tem que ter base e pó pro seu olhar de cansaço”?

Enquanto viveu, Dina Di nunca esteve em trono algum, com exceção ao ganhar em 2009 o Prêmio Hutúz, iniciativa de Celso Athayde e da Central Única das Favelas, na categoria de grupo feminino da década, que levou junto com o Visão de Rua. Sua voz, como ela mesma declarou, encontrava a paz quando podia confortar presidiárias. Foi a elas a quem dirigiu sua primeira “canção” de trabalho, “Confidências de uma presidiária”. E quando abraçava as mães que perdem seus filhos precocemente pelo vício, pelo tráfico e pela violência habitual de quem habita as periferias de São Paulo, de Campinas, sua cidade, ou de qualquer outro lugar, porque, como diz a rima, “periferia continua sendo periferia em qualquer lugar”. A voz de Dina Di, que tem o perfeito sotaque brasileiro, jamais acariciou a hipocrisia de uma sociedade cindida entre possuidores e excluídos, mas rasgou noites e noites em bailes de rap e tocou muitos corações, fossem femininos ou não.

Em algum das centenas de blogs que registraram o merecido destaque pela sua morte, há um depoimento que demonstra a força de sua presença: “por causa da Dina Di eu não abandonei minha família e não descuidei dos meus filhos.” É o sinal definitivo de que o recado chegou ao ouvido de quem precisava ouvir e que a mensagem não foi meramente jogada aos quatro ventos.

Como lembra GOG, ou mais simplesmente Genival Oliveira Gonçalves, seu parceiro e amigo, voz seminal do rap brasileiro e militante desde antes do nascimento do hip-hop, em artigo publicado em seu site, lembra a fala de outro parceiro do rap, Gato Preto: “dê-me as rosas ainda em vida, porque morto não sentirei o seu perfume.” E a guerreira Dina Di soube espalhar como ninguém rosas (e suas dores) por toda sua vida e trajetória. Não viveu por suas dores e feridas, mas jamais deixou de respeitá-las.

Os “súditos” da rainha Dina Di são os habitantes urbanos que se embalam como podem nessa vida onde o que resta é, como define a gíria, “jogar-se”. Como eles, Dina Di também se jogou. Antes disso, a vida jogou-a na própria vida. Sua biografia se parece à biografia de milhares de mulheres que vivem uma vida muito real, com a diferença de que decidiu escrevê-la a partir da sua vontade de viver. Quem conhece ou ainda venha a dedicar-se a conhecer o trabalho de Dina Di e de tantos outros compositores do rap nacional vai perceber que ali há, além de uma construção muitas vezes primorosa, uma narrativa construída totalmente através de suas vidas, de sua verdadeira identidade.

Em 2002, a jornalista Eliane Brum, de Época, reportou a insurgência feminina na cena do rap nacional e Dina Di foi seu destaque. Ali, dá para saber, entre outras coisas, que ela tinha consciência perfeita de sua vida e de suas possibilidades: “uma mina que não tem emprego, nem estudo, nem chance” e que muitas vezes fazia e cantava rap para mostrar que estava viva, que não esquecessem sua existência.

A “família real” de Dina Di não é composta de pessoas reunidas por um sobrenome pomposo, mas por pessoas que se ajudaram, deram as mãos, samples e scracths em muitos momentos, em faixas produzidas em estúdios muitas vezes caseiros. Casada, deixa dois filhos e um marido, a quem dedicou o CD “A Noiva de Thock”. Em sua biografia, o pai faleceu precocemente e a mãe foi assassinada em casa. Passou muitas vezes pela FEBEM e estudou numa escola que não confere diplomas, mas sentenças. Sobreviveu não por heroísmo: por ser da família brasileira e que muito bem Rappin Hood lembra que por essas e muitas outras “o brasileiro é aquele que não desiste nuuuunca”.

Dina Di também não desistiu, tentou viver de todas as formas, porém acabou por confirmar a estatística que denunciou em suas próprias composições. Mulheres morrendo em maternidades, em seus corredores ou longe deles, segundo dados da UNICEF e divulgados pela BBC, atingem as raias da indecência. Nos países subdesenvolvidos, as chances de não sobreviver ao procedimento do parto, por complicações, é 300 vezes maior que nos países desenvolvidos. Essa é o mesmo tipo de indecência que exclui crianças e adolescentes, de forma sistemática, do ensino básico e os colocam na rua, no subemprego e na marginalidade antes do fim do ensino médio. Em alguma faixa de seus discos, ela diz: “terceira série foi o suficiente”. É desse jeito. Mesmo assim Dina Di será sempre autora de uma epopeia em versos. Impressionante? Impressionante mesmo é ter mantido a vontade e convicção de traduzir em ritmo e poesia uma vida vivida nessas condições.

Numa de suas letras, talvez a mais marcante delas, “Marcas da adolescência”, ela confessa: “eu quero educar meu filho e quem sabe até paz”. Um desejo que revela o sonho de viver uma vida tranquila, mas, ficar por aí, mesmo que pareça simples, também comporta grandes dificuldades, não se resolve em um passe de mágica. Não no Brasil ou quando se está abaixo da linha da pobreza. Quem explica isso é uma de suas fontes e referências, os Racionais MCs, que, na letra de “Negro drama”, sentencia que “para quem vive na guerra, a paz nunca existiu”. Dina Di, ou Viviane, comprovou isso até o último de seus dias.

Manuel Bandeira disse, lá pelas tantas de sua vida, que fazia versos como quem morre. Dina Di, a guerreira, não a rainha, fazia versos como quem vive. Fazia versos como vivia. Por isso é custoso aceitar sua partida. Que vá assim, nesse tipo de circunstância. Dina Di, a rainha, não a guerreira, tem dois fihos que viverão sob o seu exemplo e uma multidão anônima que ainda lhe permanecerá fiel por muito e muito tempo. Este é o grande poder dos poetas, não dos reis e daqueles que assim se autoproclamam. Isso mostra que guerreiros também deixam legado e geram descendência. Isso, para muitas pessoas, é razão de alívio.