E R R A T A – p/ Lucio Carvalho Crítica Todos os outros silêncios

Todos os outros silêncios

Publicado também na Especiaria.

Não com todos, mas com alguns, raros, a leitura de poesia me traz certa sensação de invasão de privacidade. O poeta confessional decerto é uma pessoa que previamente consente com isso, no entanto a privacidade a que me refiro é mais intrincada do que aquela que dá a ver uma rotina, trajetos, modos, gestos; quero dizer da privacidade do pensamento, este laboratório onde a vida se transforma algumas vezes — não muitas, é verdade —  em boa poesia.

Os tempos de hoje são indiscretos. Pouco ou nada se permite de intimidade ao poeta. Muito pelo contrário, a ausência de certa autoevidenciação repercute quase sempre em um correspondente apagamento público. De outro modo, o excesso de evidência repercute igualmente num apagamento, mas então numa forma de dessubjetivação, isto é, por anulação consentida do eu em prol do eu-lírico. Ao mesmo tempo, opera-se uma forma de descompensação entre a criação e a atenção alheias, colando-se ao artista uma película com vida própria e aquilo, externalizado a ele, passa a animar uma performance, raras vezes uma poética. Com a poesia confessional, se dá exatamente o oposto disto. A exposição faz o artista desaparecer e só então pode surgir a pessoa, mas sem uma desassociação, porque esse surgimento se dá ante ao outro, e não antes dele.

Eu ainda estou tentando entender se este livro que tenho em mãos é, de fato, um exemplo de poesia confessional ou não. Seja como for, é um livro que abre uma porta para que se conheça da pessoa esse objeto inapreensível: o seu modo de pensar e de ser.

Todos os outros silêncios, de Lucia Fonseca, é um livro de experiência. Em muitos aspectos, reflexões sobre acontecimentos e sensações de uma vida que são trazidos à superfície do papel pela delicada recomposição da própria vida. São situações no mais das vezes silenciosas, quase ausentes, e para as quais a poesia serve de espécie de elemento de fixação. Não se trata do prosaico ou do casual, mas do narrativo permeado de análise e reflexão, do lírico que emerge do distanciamento de cenas e experiências. Estas poderiam permanecer em silêncio, mas a poeta cede ao poema e permite que sejam vistas sob nova perspectiva pelos leitores. Isto é mesmo uma oportunidade, espécie de um presente. É como eu penso.

Removido o invólucro da poesia, o livro e seus anteparos, de imediato se vê que se está diante de um “eu” dono de sua linguagem, imperativo em sua poética. Em Teia, com uma epígrafe nebulosamente sugestiva de Wislawa Szymborska, a poeta se apresenta mínima, como um detalhe da própria poesia:

Teia

”Sou quem sou,
Inconcebível acaso
como todos os acasos.”

Wislawa Szymborska

Sou quem sou
por obra de deusas e de genes.
Sou quem sou
pelos meus antepassados
pelos acontecimentos.

Se um único gene falhasse
nessa infinita corrente
se da teia que me prende
outras malhas se soltassem

se eu escapasse de mim
me esgueirasse do destino
pelas falhas de algum ontem
se de mim me derramasse;
seria talvez um Outro.
Talvez mancha no assoalho.

Quanto mais se avance no livro, mais o objeto em papel vai se desvanecendo, como um fruto que se descarna. Primeiro, na poesia elegíaca da amorosa seção que ela dedicou ao marido Gabriel, depois em poemas até certo ponto nostálgicos que conversam com a infância, a família e amigos de uma vida. Nestes, a poeta, cada vez mais ciente da própria pessoa, confessa o espanto da vida para uma incógnita Regina, a quem dedica o poema Quando:

Quando

Para Regina

Tenho setenta e sete anos.
Desenho, pinto
mas já não escrevo tão bem.
Há muito, perdi meus pais, meu irmão
perdi meu marido.
Tenho três filhos e três netos.

Quando fico triste
lembrando os ausentes
abro a gaveta da copa:
panos de bandeja cercados de renda
pequenas toalhas de linho bordadas.
Fico olhando muito tempo para eles
admirada
como diante de anjos.

Mais adiante há uma sorte de poemas que são como retratos, que se valem da experiência estética de outros artistas e obras, como a pintura de Paul Klee e a literatura de Fernando Pessoa, Proust, Borges e Clarice Lispector. São referências, é verdade, mas que transfiguram-se em sua poesia menos como homenagem e mais como um retratismo. Poemas cuja narratividade que são quase prosas-em-poema, mas dos quais nunca se ausenta o olhar lírico e afetivo da poeta, como se pode ver em Pose para retrato:

Pose para retrato

A moça e seus filhos parados e sérios diantes das lentes
cercados de céu.
Seus olhos miram planetas, constelações, galáxias.
Mas eles não sabem nada
não sabem nada.
Como nós, como todos nós.

Quase ao final do livro, na seção intitulada Canções, a paisagem natural desdobra-se como um diorama interno ao livro, onde, talvez, resida o núcleo de sua atenção manifestando-se num olhar afetivo sobre o mundo e suas coisas. É onde a poeta diz ainda mais de si mesma. Desta seção, não convém destacar um poema a fim de não prejudicar a integridade da obra. É preciso cercar-se de cuidado, pois o nível de exposição é tamanho que, fragmentado, pareceria afetar a apreensão dessa poesia terna e ao mesmo tempo nada autocomiserativa que Lucia produz em relação a si mesma, no que talvez seja o ponto mais alto do livro, pelo menos no seu viés mais confessional.

Ao final da leitura de Todos os outros silêncios, não pude deixar de me perguntar a respeito de como uma poeta de tal consistência havia me passado em brancas nuvens por tanto tempo. Para quem se pretende um leitor atento ao gênero, me parece criminoso, pois este é o primeiro livro de sua autoria que conheci e sua trajetória vem ativa pelo menos desde os anos 80.

Trato de investigar a situação e não demoro a compreendê-la. Já um poeta que se faz notar pela sua qualidade não encontra, infelizmente, o mesmo reconhecimento que se dedica, na cultura de consumo visual destes tempos, a quem se coloca permanentemente em evidência. Não se trata de julgar a situação, apenas de constatá-la. O que se pode julgar, no entanto, é a incapacidade persistente da percepção crítica em relação aos poetas contemporâneos e sua visada de vitrine, sem a menor profundidade. No entanto, se as referências quanto ao seu trabalho são restritas, a obra felizmente é vasta e irei com certeza dela me ocupar, com bom proveito, ainda por muito tempo dos seus demais livros, que indesculpavelmente ignorava.


Lucia Fonseca é autora de pelo menos dez livros de literatura. Ao mesmo tempo deste Todos os outros silêncios, lançou o livro de contos A menina que me visita, ambos pela 7Letras. No website Vestígios (https://www.vestigios.net.br) disponibiliza alguns de seus livros para donwload, além de uma generosa seleção de contos e poemas.

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Assim como há música que são como calçadas, espalhadas Brasil adentro, onde se encontra de tudo – e isso é uma benção de poucos lugares – há músicas que parecem que encontramos nas ruas, como um vizinho antigo, uma fachada intacta ou lugares que mudaram, aqueles que nos últimos tempos puderam mudar pra melhor.

Assim é o radinho da Simone, que encontrei quase sem querer pipocando de lá pra cá, nessa chapa quente que é a internet. A Simone de quem falo é a Simone Guimarães, a cantora que tem a voz do Brasil de dentro por dentro de si e que, quando bota isso pra fora, faz a gente sair procurando onde está o Brasil dentro de nós. E ela nos diz (sem mesmo saber) que ele está onde esteve sempre esteve, lá, ali, aqui, um pouco aos nossos pés, um pouco oculto e inacessível, mas ainda assim inteiramente nosso.

No radinho da Simone há coisas gravadas há bastante tempo, desde os tempos miraculosos de Piracema até os trabalhos mais recentes, não menos miraculosos, de Casa de Oceano ou Flor de Pão, registrados pela Biscoito Fino. Há também coisas pra descobrir: letras antigas de um Cacaso, canções plantadas no leito de um rio, na borda de uma janela em flor ou noutras jóias e pepitas desse pequeno grande tesouro esperando ser descoberto…

Sempre resta uma dúvida ao escutar a Simone: é preciso decidir rapidamente se as suas escolhas foram feitas pensando em sua voz ou se sua voz é que foi forjada por suas escolhas. Como a resposta não está escrita em lugar nenhum, o jeito é botar o radinho pra tocar mais uma vez. E tentar decidir jamais.
Com licença, por obséquio, que eu preciso ouvir esse radinho aqui um pouco mais.

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De década em década, o argentino naturalizado canadense Alberto Manguel refaz do seu principal objeto de estudo: a história da leitura e dos livros. No final de 2017, foi a vez das Edições SESC engrossarem sua bibliografia brasileira com a publicação de O leitor como metáfora.

Autor de dezenas de títulos, dentre os quais os já clássicos A história da leitura (1996) e A biblioteca à noite (2006), Manguel, que em 2016 voltou a Buenos Aires para dirigir a Biblioteca Nacional da Argentina, empreende em seu mais recente livro uma criteriosa investigação taxonômica a respeito dos leitores. Mesmo que possa tratar-se de modelos ideais, ou protótipos, é de pensar se seu objetivo não seria justamente identificar as pessoas potenciais com que atingir tanto através de suas obras quanto por sua atuação a frente da prestigiosa instituição. Seja como for, é bastante provável que ele se valha muitas vezes de sua própria experiência como leitor para uma das mais antigas tarefas que se realiza em bibliotecas: a classificação.

Na proposta de seu ensaio, basicamente o que se distinguiria são três espécies de leitores. Como expresso com muita clareza no título, haveria por primeiro o leitor viajante, ou seja, aquele que porta e deixa-se levar pela silenciosa aventura livresca; os que buscam o isolamento mundano e o conhecimento através da leitura (os ocupantes da torre); os que devoram (e porventura por eles são devorados) livros com avidez indiscriminada e que não poderiam ter denominação diversa de “traças”.

Embora simples, a taxonomia de Manguel tem o apuro de um leitor dos mais experimentados. Ao invés de uma proposição meramente literária ou historicista, Manguel vai organizando, das tradições literárias, as metáforas e significações que o ato de ler revela da relação do humano com o mundo; ao menos em sua experiência, não haveria interpretação do mundo sem leitura e por essa razão o ato de ler espelharia as próprias capacidades interpretativas dos indivíduos. Mas, se serve de advertência, é provável que quem buscar encontrar em seu livro apenas laivos de uma erudição afetada será, entre os leitores, o que mais se frustrará. As citações de Manguel também não obedecem a nem uma espécie de crivo acadêmico e dizem mais respeito aos encontros que escritores e leitores parecem operar durante a experiência de leitura mesmo que séculos após a morte dos primeiros; mesmo que os meios para tanto não sejam necessariamente o do texto impresso. A felicidade da leitura e de seu “ofício”, para Manguel, estaria mais relacionada ao empenho e enlevo que o leitor desenvolve pelos livros a partir do efeito da leitura do que por qualquer culto material do objeto livro.

Transportando as suas diferentes “espécies” de leitores através dos tempos, ele vai dessa forma dirigindo os leitores às suas respectivas metáforas; em determinado momento chega a parecer que deseja mesmo encaminhar os leitores de encontro aos autores que vai identificando em sua taxonomia. Remetendo-se desde a antiguidade sumeriana, através da epopeia cuneiforme de Gilgamesh, passando pelos manuscritos de Dante, os códices de Leonardo e chegando aos já impressos Shakespeare, Cervantes e Montaigne, Manguel avança em direção ao séc. XX ao mesmo tempo em que regressa livremente a autores de todas as épocas, sempre que um autor possa lhe servir na exemplificação das muitas formas de existir no mundo, de comportar-se nele e também de recriar continuamente a experiência da vida, esta que seria a tarefa inadvertida dos escritores de todos os tempos e culturas.

Ao passo em que pode ser percebido tanto quanto uma continuidade de sua permanente exortação à leitura, para leitores menos experientes, todavia, seu livro pode ter um efeito, digamos, acachapante. Ou como poderiam sentir-se leitores inexperientes diante de um desfile intermitente de nomes, títulos e citações? Dotado de um conhecimento que se poderia denominar por enciclopédico e não fossem escritos sem o menor traço de pedantismo, seus livros poderiam muito bem ser tomados como proselitismo cultural ou fútil ostentação. Porém não é disto que se trata; longe disso.

Antes de qualquer coisa, é preciso saber que se trata de um autor cuja principal preocupação é a difusão do hábito da leitura e, a menos que se tenha inventado alguma espécie de malabarismo telepático, parece totalmente impossível a qualquer um a tentativa de advogar em nome dos livros sem mencioná-los. Além disso, em sua gestão na Biblioteca Nacional da Argentina, notadamente Manguel vem investindo em todas as frentes: na conservação de originais, na expansão de coleções, na digitalização e difusão intermidiática e na promoção e atração de novos leitores. Em entrevista concedida ao portal Perfil, logo ao assumir o cargo ele já afirmava desejar perseguir a ideia de uma biblioteca para todos os leitores e interessados. Parece que a ideia borgeana de uma biblioteca universal, pelo menos em solo argentino, encontrou finalmente quem a desejasse continuar.

Não é à toa. Enquanto ao mesmo tempo abandonava a instrução formal da Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Buenos Aires, por considerar os estudos formais aborrecidos, o diletante Manguel iniciava sua carreira literária concomitantemente a de editor. Em meados da década de 60, tornara-se “ledor” de um Jorge Luis Borges já cego e que coincidentemente dirigia a Biblioteca Nacional da Argentina na mesma época; desse encontro é como se houvesse estabelecido para ele um encantamento pela literatura e, sobretudo, pela leitura enquanto hábito individual. Sua formação, completada pelo trabalho como jornalista e editor, é a de quem erigiu uma carreira viajando através de vários países e investigando incessantemente a história literária. É muito provável, portanto, que Manguel tenha desenvolvido a taxonomia do seu novo livro também a partir da auto-observação.

Quanto ao que se refere ao desejo de fomentar a curiosidade nos demais, este parece ser um hábito comum entre os bibliófilos de um modo geral. Porém, como parece ser recorrente a quem tem por missão institucional propagar o livro e a leitura, um impasse oculto às vezes mostra suas sombras em seu livro. Trata-se da irresolução peremptória da efetividade de qualquer política cultural voltada ao assunto e expressa na dicotomia estabelecida entre, por um lado, a popularização do hábito da leitura e, por outro, a especialização do público leitor.

Provavelmente por ser um autor prolífico e a primeira vez que Manguel está atuando institucionalmente (e logo na mesma biblioteca que Borges dirigiu), outras reflexões a respeito do assunto deverão advir da experiência. Isso no que toca aos interessados no assunto deverá ser um deleite por si só, ainda mais que, após a morte de Umberto Eco, há cada vez mais poucos autores notabilizados pela devoção e divulgação da cultura livresca universal quanto Manguel. Há com certeza os historiadores que se dedicaram ao tema, como Roger Chartier e Robert Darnton, mas em ambas as investidas historiográficas o que se mais pode notar são preocupações que giram em torno de explicar a evolução da tecnicidade da instrumentação escrita, sua reprodutibilidade, análises sobre o colapso do espaço físico das bibliotecas, a expansão contínua dos formatos digitais e a segurança e conservação do conhecimento em vista ao desenvolvimento das tecnologias da informação.

Sem dúvida que todas as preocupações e iniciativas em utilizar beneficamente os recursos tecnológicos são bem vindas e necessários, mas em absoluto não é este o centro das inquietações de Manguel. Para ele, interessa mais seduzir e cativar ao leitor do que porventura ele possa estar perdendo do que condená-lo à danação da ignorância, como, aliás, convém a um bibliotecário proceder. De todo o modo, não se imagine que equilibrar uma equação dessa natureza é tarefa fácil do ponto de vista da gestão cultural de acervos bibliográficos. O que não parece faltar em Manguel, todavia, é o cimento de não desviar-se de um trabalho de lenta e muitas vezes invisível consolidação dos espaços afetivos e também físicos com que uma sociedade se relaciona com a cultura letrada, que parece cada vez mais dispensar de quem a organize, valorize e promova.

Seja como for, na vizinha Argentina ou aqui mesmo, no Brasil, as dificuldades são inumeráveis e o cenário educacional e cultural um tanto quanto amedrontador. Não são comparáveis, portanto, aos moinhos do Quixote, os desafios de quem propugna por valorizar os livros e a leitura. Neste caso, os gigantes podem ser compreendidos em dados obtidos regularmente através de pesquisas e levantamentos que se fazem em todo o mundo, inclusive no Brasil.

No Brasil, quanto e como se lê?

Dos indicadores e estatísticas a respeito do Brasil contemporâneo, poucos soam tão assustadores quanto os dados sobre proficiência em leitura levantados pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e Banco Mundial através do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa).

No relatório, pode-se saber entre outras coisas que no que diz respeito à eficiência com que um texto escrito é interpretado, o Brasil mantém-se estável desde 2006, mas com indicadores mais distantes da média dos demais países aferidos e, por outro lado, mais próximos das piores taxas, além de projetar uma defasagem em relação aos países desenvolvidos que se resolveria em séculos ainda (cerca de 256 anos). Unindo-se os resultados aos de outras pesquisas, como a Retratos da Leitura no Brasil, promovida pelo Instituto Pró-Livro e realizada pelo IBOPE, a sensação é de premência de uma calamidade. Trata-se, porém, de uma calamidade silenciosa e que ao longo do tempo tem ensurdecido autoridades, editores, educadores, bibliotecários, autores e também o público leitor.

De que se trata de uma situação complexa quase ninguém duvida e não raro as manchetes dos periódicos triunfam com os maus indicadores brasileiros. O caminho da resignação, sempre o menos escarpado, todavia parece sempre conduzir a um senso de conformidade reincidente. Ajuda menos ainda a combalida autoestima nacional a também reincidente comparação com os dados de leitura da vizinha Argentina. Ainda que a afirmação de que apenas Buenos Aires (ou, num arroubo platino, apenas a Calle Corrientes) pudesse ter mais livrarias do que o Brasil inteiro seja fantasiosa, dados da Market Research World, no assim denominado Índice de Cultura Mundial, informam que, apesar da veracidade comparativa, o país vizinho também não anda fazendo um retrato dos mais excepcionais.

O que se sabe definitivamente é que, de fato, a situação da leitura é grave e afeta o desempenho cognitivo e cultural de toda a sociedade e de muitos países. Uma vez que o possível amparo da resignação mostra-se incapaz de recolocar em movimento a dinâmica e complexa relação entre a cultura letrada e uma população que ainda deveria ser mais e melhor estimulada a relacionar-se com o livro e os bens culturais literários, o que se pode antever é muito trabalho coletivo pela frente e a necessidade de reflexões ponderadas tanto no que confere ao sistema educacional quanto ao literário.

O cada vez mais difícil de contestar é o fato de que o impasse que a crescente expansão tecnológica deveria colocar entre leitor e leitura vem na realidade esgarçando-se cada vez mais. Não se trata de imaginar que isoladamente e sem projetos consistentes o emprego dos recursos tecnológicos resolverá a situação. Conforme os mesmos dados da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, o constatável é um decréscimo constante do tempo dedicado à leitura (24% entre a preferência total) em comparação ao incremento do uso individual da internet (47% entre a preferência total).

Nos ensaios e artigos que publicou na imprensa a respeito das questões da escrita e do livro reunidos no livro Papel-Máquina, de 2001, o filósofo franco-magrebino Jacques Derrida veio reforçar sua ideia visionária de 1969, em Gramatologia, quando afirmou que desde aquela época o leitor passava a exercer papel imperativo em relação aos meios e suportes de leitura. Derrida, apesar de ter sido a princípio mais um dos estudiosos a denunciar o “fim do livro”, teve a prudência de ponderar igualmente pela infinitude desse processo. Resta entender se a isso convém chamar de impasse ou paradoxo e aguardar por que outros estudiosos venham também refletir a respeito, afinal trata-se de tema de interesse permanente e universal.

De um modo muitas vezes reducionista, boa parte das análises a respeito da vereda tecnológica e da sobrevivência do livro e do texto literário têm, desde o início do novo século, refletido por vezes mais das apreensões individuais do que uma observação mais apurada do contexto cultural amplo senso. Se na história da civilização certa vez a leitura ocupou papel central na formação cultural e de identidade das nações, de fato é preciso admitir que a tecnologia expandiu boa parte dos limites e cerceamentos que havia até meados do séc. XX. Se já foi o veículo de informação por excelência, fonte de entretenimento e suporte privilegiado de comunicação dos bens culturais, hodiernamente a leitura parece-se mais ao substrato multitudinário de uma gama imensa de informações que o veículo de um determinado cânone literário.

A esse ponto, verificar a inundação de livros (e livros nem sempre são obras, como adverte Derrida) e outros formatos de informação é tarefa de facílima constatação. Se a literatura, de fato, vem convertendo-se em testemunhos autorais de um interesse ao mesmo tempo segmentado e restrito e se há como ainda hoje vivificar o interesse de novas gerações por um mundo distante ou por um passado remoto, livros como os de Manguel, usando aqui de metáfora, parecem-se a faróis avulsos de um mundo mais profundo, instigante e enriquecedor que a leitura criteriosa certamente ainda dá a desvendar às pessoas. Pois a prevalência do livro agora possivelmente esteja mais relacionada a uma necessária recuperação e valoração da leitura propriamente dita do que uma substituição de técnicas e formatos. A falta de tempo, justificativa reiterada pelos desinteressados contumazes na leitura, não é furto que se flagre ou perda que aconteça isoladamente, mas a perda (tanto para pessoas quanto para instituições) é lamentavelmente irreparável e o tempo, como se sabe, brevíssimo.

A alma perdidaA alma perdida

Acho que somente a um prêmio Nobel o negócio literário permite a luxúria de um livro como “A alma perdida”. Olga Tökarczuk é uma dessas pessoas. Ganhou o Nobel em 2018 e, como tem acontecido no Brasil recente, permanece ainda pouco conhecida do grande público. Talvez porque o Nobel tenha perdido sua relevância e aura, eu não sei, mas também a poeta Louise Gluck, galardoada no ano passado, padece do mesmo sintoma – ser imediatamente alvo de curiosidade geral para, a seguir, voltar a um certo anonimato. Talvez seja uma tendência do mercado editorial essa volatilidade maior de nomes. Há um tempo nem tão distante, uma casa editorial que publicasse um Nobel tinha garantida expressão de vendas por eras a fio. Mas o mundo mudou, os tempos vem mudando, como também disse outro Nobel, Bob Dylan, que sequer o mercado livreiro abastece.

Eu havia lido e assistido a adaptação para o cinema do livro mais conhecido de Olga, “Sobre os ossos dos mortos” e fiquei mesmo muito impressionado. Uma história envolvente e fluida como as dos bons contadores de histórias.

Agora, com “A alma perdida” em mãos, eu entendo a razão: Olga é uma fabulista e aparentemente gosta de nutrir os leitores dessa carência atávica de receber uma mensagem e de deixar-se envoler pela atenção. Fábula para adultos, “A alma perdida” é um produto da luxúria editorial na qual a autora divide as páginas do livreto em igualdade com a ilustradora Joanna Concejo. É até um pouco estranha a experiência de folhear várias páginas sem texto algum, só as ilustrações, e perceber que a história é contada também a partir do trabalho visual, que ele não apenas ilustra o texto, mas substitui o que não é dito por ele – e o completa.

A fábula em si não repete a fórmula moralista que consagrou o estilo através dos tempos, desde Esopo, a quem se atribui a autoria de muitas fábulas que ainda hoje repercutem por si só e em outras narrativas. A fábula contada por Olga não conta uma busca, mas uma rendição do homem ao seu próprio tempo e da recuperação do contato dele com a sua própria alma, como o título diz. De uma vida corriqueira e com um contato cada vez mais precário com a própria intimidade até ao final no qual João, seu personagem, finalmente entende que não precisa empenhar-se numa corrida contra o tempo para evitar sentir o paradoxo do tempo esvaindo-se. Pelo contrário, ele não quer mais sair em viagem o tempo inteiro e buscar-se no mundo.

“E das malas de viagem brotaram grandes abóboras com as quais João se alimentou durante todos os invernos tranquilos que se seguiram.

A alma perdida
de Olga Tökarczuk, (Todavia, 2020).