Crítica One Mile Upstream

One Mile Upstream

Nem parece que foi há dez anos que ouvi pela primeira vez a lindíssima voz de Flo Morrissey. Na época, uma garota que compôs um dos discos que eu mais ouvi nestes dez últimos anos, Tomorrow Will Be Beautiful.

Nesse meio tempo, Florence gravou um disco excelente com Matthew E. White e casou-se com o espantoso cantor e compositor Benjamin Clementine, com quem teve um filho e uma filha.

Não poderia saber o que esperar do seu novo disco, mas é certo que vou me ocupar dele por um longo tempo pela frente.

Florence Clementine, como se chama agora, tem um timbre de voz muito peculiar, e neste disco em que vai um pouco mais ao blue do que ao folk, me remeteu ainda mais à sonoridade de Billie Holiday e Karen Dalton.

Eu não diria que é um som retrô, mas uma continuidade de uma tradição folk com a qual ela sempre esteve identificada.

Com arranjos e produção de Benjamin, o disco é uma grande jornada em torno das suas raízes musicais e do intervalo que ela fez na carreira de compositora nos primeiros anos dos filhos.

Eu não preciso de muito mais que um pouco de vinho e deste novo disco de Florence. Por mim, o ano já pode acabar. <3

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Hors-concoursHors-concours

Artigo publicado na Revista Parêntese, de 20/08/2020.

Mal chegou agosto e já tenho escolhido o meu livro do ano. Meu livro não foi escolhido nem por algoritmos e nem por recomendação de terceiros, nada disso. Ele que me descobriu num dia de trabalho e foi-me apresentado não por seu autor, mas pela mãe dele. Antes que pensem que é cedo demais para uma afirmação dessas, eu garanto que não é. E, se me acompanharem, entenderão o porquê de eu afirmar isso de forma tão categórica.

A julgar pela capa e pelo titulo, A angústia de uma alma, qualquer um imaginaria de imediato um livro religioso ou doutrinário, mas não é disso que se trata. De autoria de um certo Mike Lorry Loudney Joseph, o livro se apresentou a mim de uma forma irrecusável. Eu não conheço o Mike pessoalmente (pelo menos ainda não), mas conheço a mãe dele, que é também é sua maior entusiasta e mercadora. Ela trabalha numa empresa terceirizada que presta serviços à instituição na qual eu trabalho. É uma “colaboradora”, como agora se convencionou chamar – este que é mais um dos eufemismos pós-capitalistas já normalizados no mundo – as pessoas empregadas em serviços terceirizados.

O livro do Mike é muito triste. Triste como a história dos haitianos que emigraram para o Brasil nos últimos anos. Formalmente, não é um livro impecável, mas quase não se nota isso à leitura de um poema que trata de uma prima sua que perdeu a vida num naufrágio, de outro a respeito de um amigo também afogado e, sobretudo, das ruínas de um lugar do qual se quer fugir a todo o custo e da esperança que um outro lugar que damos também como em ruínas – o Brasil – pode encerrar para um garoto de 18 anos de idade.

O Mike viveu o terremoto que atingiu quase em cheio a capital Porto Príncipe no ano de 2010. Separado da família, somente foi reencontrar-se com ela em 2017, quando veio tentar a vida em Porto Alegre. Eu não imagino qual foi a tiragem do seu livro, certamente é bastante restrita, mas tenho certeza que seria sempre pequena, mínima, em relação ao impacto de um livro de um autor que precocemente encontrou a experiência da devastação, do desterro e da morte desde o início de sua vida.

Proporcionalmente ao seu volume, o livro não saiu barato. São cerca de 40 páginas e com o valor que paguei poderia comprar com tranquilidade um pocket-book da L&PM ou da Companhia das Letras, mas acontece que o livro do Mike conta com as suas pernas e as da sua mãe para ganhar a rua e os leitores que entendem da importância e da dignidade de um livro como o dele. Vale cada centavo.

Além de ser tocante por si só, o livro me induz a pensar que a história do livro e da leitura é muito maior que a história do comércio de livros. A bem da verdade, deveria separar-se as duas coisas, mas como isso seria possível num sistema, como diria Walter Benjamin, hipertrofiado? Ou seria exagero usar desse termo para descrever-se uma indústria livreira que, no Brasil, destina milhões de exemplares anualmente à indústria de picotagem e ao final menos honroso que o papel poderia ter em seu nem tão longo ciclo industrial?

Por duro que seja admitir, a indústria do livro tem mais semelhança hoje com a indústria petroquímica do que com a cultural. Para ela, não há problemas na produção de excedentes de milhões de exemplares quando o preço de capa dos lançamentos paga por tudo isso, mesmo que por conta disso Cervantes ou Shakespeare acabem transformando-se em aparas e não cheguem jamais às bibliotecas públicas e escolares do país, despidos definitivamente de sua “aura”.

Não é um escândalo. Há anos, aliás, sabe-se muito bem disso por meio das pesquisas encomendadas pela Câmara Brasileira do Livro e Sindicato Nacional dos Editores de Livros e que vinham sendo desenvolvidas anualmente pela Fipe. Neste ano, coube a Nielsen Book atestar a estabilidade destes números e o encolhimento de 20% do setor em quinze anos.

Quando a Cosac Naify anunciou que seus excedentes teriam esse mesmo destino, em 2016, o meio cultural esboçou um grande lamento. Mas quem salvou os livros caprichados de Charles Cosac e vendeu todos os exemplares foi a temível Amazon (de acordo com as pesquisas, responsável por 3% de vendas no mercado nacional) com sua política de preços imbatível. Hoje, não há mais nem um exemplar à venda dos livros cujo destino seria virar rolos de papel Neve, a não ser em sebos nos quais chegam a valer até 5 vezes o seu valor de capa original.

No começo deste ano, foi noticiado que apenas o MEC poderia se desfazer de 3 milhões de exemplares intactos, num gasto estimado de R$ 20,3 milhões. Não parece ser uma grande tragédia, já que cíclica. A pujança brasileira, ou a ilusão de sua sustentabilidade, há de dar conta desse desbalanço comercial que se verifica entre produtores, preços e consumidores. Tudo é muito triste e revoltante e me dá a sensação de afogamento em livros.

Bem mesmo quem fez talvez tenha sido o Tyrteu Rocha Viana, poeta modernista rio-grandense, que, na primeira metade do séc. XX, obrigado a uma tiragem de 1.000 exemplares, pagou por todos e mandou imprimir apenas uma dezena deles para distribuir a quem acreditava que realmente o leria. Ou então a mãe do Mike e ele mesmo, decididos que estão a bater perna até vender o último dos exemplares de A angústia de uma alma.

Impecável pela modéstia, Mike é o poeta que, tendo vivido isso tudo, afirma apenas “não sou herói / sou apenas a vitima do destino”. Destino, aliás, é das palavras que mais aparecem nos seus poemas, como se ele desejasse muito sobrepujar a sua vontade. O livro do Mike é mesmo um livro inconformado com o destino e que não pretende calar sozinho com a sua angústia. “Alguém para ouvir o meu grito de desesperança?”, ele indaga. O livro dele é dos que certamente não vai se conformar em virar aparas, num destino trágico, porque não é um livro de um sobrevivente, mas um livro hors-concours, de sobrevivência.

Uma resenha tardia de ‘O filho eterno’Uma resenha tardia de ‘O filho eterno’

Com fortuna crítica comparável à fortuna obtida em prêmios e vendas, poucos romances como O filho eterno, de Cristovão Tezza, oferecem uma perspectiva tão abrangente a respeito de um conteúdo tantas vezes dramatizado como o da geração que viveu os estertores da ditadura militar brasileira (1964-1985), a democratização e a mentalidade forjada na transição do Brasil subitamente moderno dos anos de Juscelino, os anos mais caóticos e obscuros do período do “milagre” brasileiro chegando ao triunfo e ao conjunto de esperanças populares depositadas na Nova República (1988). De modo muito particular, e porque Tezza é um autor que pensa a si próprio enquanto crítico, O filho eterno toma de um enredo complexo, obtido no plano psíquico, e o transfere exemplarmente para o plano social e crítico.

Ao contrário do que sugere o título, o romance de Tezza, que se inicia em meio à malfadada Copa do Mundo de 1982, tem como personagem central muito mais a figura de um pai e seu psiquismo do que exatamente da condição do filho. Ambos coincidentes com a vida pessoal de Tezza que, assim como seu protagonista anônimo, tem um filho (no livro, Felipe, o único personagem com nome próprio) que nasceu com a alteração genética que determina a síndrome de Down. Sem nunca ocultar o fundo autobiográfico do romance, mas recriado com o distanciamento de quem atravessou uma jornada pessoal bastante tormentosa, o enredo de O filho eterno detrata o drama de consciência de uma geração contestadora e “contracultural” ao defrontar-se com o impasse da diferença in vivo.

Para além do inesperado e dos temores que o nascimento de Felipe e sua condição inata instalam na vida mental do protagonista, um escritor em formação, Tezza irá conduzi-lo ao que talvez seja o maior drama pessoal de todas as pessoas que geram (e recebem) um filho com deficiência intelectual: a aceitação afetiva.

“Ninguém está preparado para um primeiro filho, ele tenta pensar, defensivo, ainda mais um filho assim, algo que ele simplesmente não consegue transformar em filho.” (p. 32)

Na frase acima e em outras nas quais aparece ainda mais evidente o pânico existencial de um adulto (e escritor) em formação diante de uma situação irreversível, a moralidade de toda uma geração que se acreditava o motor de um novo tempo mostra-se numa fragilidade e ambiguidade moral que, se não confere diretamente com o estado de consciência política, descortinam a fragilidade do discurso redentor e revolucionário predominante principalmente na juventude formada em meio à redemocratização brasileira. Valendo-se da experiência pessoal, “o pai” de Tezza representa, de certo modo, um traidor do sonho geracional, antevendo na sua própria sorte a fragilidade das ambições morais e políticas da qual é também, na condição de escritor, um observador privilegiado e intérprete.

Por meio do distanciamento obtido com um narrador onisciente, Tezza observa e conduz esse pai de uma maneira muitas vezes cruel, sem qualquer condescendência e, em que pese o caráter autobiográfico, O filho eterno não oferece uma visão edulcorada ou vale-se do clichê “superacionista”, para finalizar o romance como uma ode redentora à personagem do pai. Longe disso. O filho eterno está muito mais para a denúncia de uma mentalidade geracional do que a particularização de um drama envolvendo reflexões culturais a respeito da condição de deficiência do filho. Prova disso é que a aparição dos demais personagens, mesmo o filho e a mãe, são incidentais. No decurso do seu amadurecimento pessoal, a aceitação ocorre mediante a humilhação daquela prévia arrogância paterna – eis o aspecto mais duro de todo o romance e, certamente, a razão para sua consagração para além da qualidade literária em si mesma, dado que “aquele pai” denuncia o caráter e a fragilidade da ambição humana em estar para as condições inerentes à vida desde um lugar privilegiado que, em efetivo, não existe para ninguém.