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Além do Rio da Prata

No tempo em que estive pesquisando e conhecendo um pouco mais a respeito dos povos originários do RS e do Uruguai, muitas vezes chegava até as bordas do Rio da Prata e ficava apenas imaginando no que a história da vizinha Argentina guardaria a respeito da relação com os seus próprios povos. Sabia que não era muito diferente da relação deste lado da margem, mas também sabia que havia algumas diferenças de monta.

A terra dos ranqueles, dos tehuelches, dos mapuches, dos querandies, dos pampas, araucanos, onas, kollas, diaguitas, tobas, rankulches, pilagas, m’ bias, chanas, mocovis e charruas também, entre outras etnias, é um universo gigantesco de culturas e histórias. O desconhecimento que temos a respeito da história e desdobramentos antropológicos das nossas próprias etnias dá a dimensão do que é a nossa ignorância quanto aos povos mais próximos a nós.

Mas só o que eu tenho certeza é de que tudo o que atribuímos de ruim aos argentinos é espécie de projeção às avessas do tanto ruim que nós mesmos somos por conta própria. E me parece que a cultura argentina é muito mais permeável e permeada por influências indígenas do que pelo menos me parece ser a rio-grandense.

Quando digo Argentina, penso na imensa nação para além de Buenos Aires, assim como penso no Brasil para além da ponte aérea Rio-São Paulo e como penso o Rio Grande do Sul muito maior do que dois ou três bairros de Porto Alegre. Não que, é claro, sua história não esteja menos recheada de massacres, violências, traições e apagamentos que a nossa. Mas há diferenças, muitas.

Esta imagem, por exemplo, parece vir de um certo Congreso de Aborigenes realizado por lá em 1920. Teria reunido pelo menos essas quase 20 lideranças que trataram, ao que parece, de decisões políticas cruciais, como a questão das reservas e direitos culturais, como o complexo direito de viver segundo os próprios costumes, coisas que o Brasil começou a pensar bastante tempo mais tarde.

No Rio Grande do Sul, em 1920, os indígenas – pelo menos os do pampa – já haviam se dissolvido por completo na miscigenação, isso aquela parcela que resistiu às doenças, guerras e mortes. E por aqui se abominava a ideia e o temor que rondou a Argentina até o terço final do séc. XIX, de que o país se transformasse numa espécie de “império inca” ao sul. O temor provinha de que boa parte das lideranças indígenas lá havia se educado com os franciscanos no período de Rosas e os nativos começavam a ter acesso a armas de fogo, além de um cacicado muito bem organizado militarmente e com fortes relações políticas com o caudilhismo. Foi o que culminou na deflagração da Campanha do Deserto, na qual pelos menos 30.000 indígenas foram massacrados pelo exército.

Mesmo assim, nas primeiras décadas do séc. XX o Estado argentino já reconhecia o direito de organização dos povos. Só isso é uma grande diferença em relação a nós, sem falar na influência direta na produção artística e cultural, muito mais significativa que, por exemplo, a rio-grandense. Essa relação mis direta levou a que recentemente fosse levado a julgamento a promoção de campanhas de massacre, como o de Napalpi, de 1924, o que acabou revelando um desastre da política de aldeamentos forçados e reduções.

Em 1920, não seria muito possível que mulheres participassem desses conclaves militarizados. Por isso não é de estranhar o absoluto masculino do cacicado. A relação dos indígenas do pampa e de suas mulheres é muito complexa e não pouco turbulenta, mas parece que houve, por exemplo, lideranças mulheres entre guenoas-minuanos, não sei se investidas no cacicado. Normalmente, as mulheres ocupavam mais posições religiosas. Hechiceras ou curandeiras, como La Minuana..


Agora, na Feira do Livro de Porto Alegre (27/10 – 15/11),
interessados em conhecer La Minuana poderão
encontrar o livro nas bancas da Livraria Érico Veríssimo
ou da Martins Livreiro. Comigo, tenho ainda alguns
poucos exemplares para venda direta que
podem ser adquiridos neste link: https://abre.ai/g6Bv