O primeiro não

A silhueta de um macaco

Quando, em meados dos anos 60, o escritor argentino Jorge Luis Borges declarou em entrevista à Paris Review (a entrevista está na edição compilada pela Companhia das Letras, Os Escritores, de 1988, e republicado neste ano sob o nome As Entrevistas da Paris Review) que os faroestes de Hollywood seriam sua preferência cinematográfica, talvez quisesse apenas gerar algum tipo de impacto, de polêmica. Em plenos anos 60, época de prolíficas declarações e proclamadas revoluções, por outro lado Borges talvez estivesse apenas revelando a verdade. O autor que posicionou no mundo o remoto Uqbar e tinha predileção confessa pelo épico, via no faroeste um gênero onde este poderia ainda subsistir, ao tempo que o cinema enveredava por outras lentes e se desenvolvia em plenitude no que hoje é chamado de “cinema autoral”.

Pois é amparado na entrevista de Borges, que já completou pelo menos quarenta anos de vida, que posso revelar que, neste ano, entre o badalado Árvore da Vida, premiado em Cannes, e o derradeiro Melancolia, do polemista Lars von Trier, eu fico com O Planeta dos Macacos – A Origem (The Rise of Planet of Apes, no original em inglês). E tudo em razão de uma única palavra presente no filme que, para muitos, pertence a um gênero que sequer poderia ser chamado de cinema. Há quarenta anos, provavelmente diriam o mesmo dos faroestes de John Ford.

Debater Árvore de Vida ou Melancolia sem incorrer numa repetição de tantas opiniões já publicadas é algo impossível de pretender, por isso nem cogito em tentá-lo. Também não compararei um espécime de um gênero menor do cinema, a ficção científica, a filmes que têm a aura e o esplendor das obras de arte, quer se as considere sublimes ou terríveis. O problema é que uma palavra dita por um macaco, que é cotado inclusive para o próximo Oscar de melhor ator, me mantém estarrecido desde o dia em que assisti ao filme até hoje. A palavra é um sonoroso não. A evolução do homem ao macaco

Na voz do macaco, aquele “não” soa como se fosse a primeira palavra da espécie humana. Contraditoriamente, a sua primeira afirmação autoconsciente, o seu primeiro desejo manifestado como recusa e negação, como alternativa expressiva do ser e do existir, mesmo que entre jaulas ou a barbárie. É o não que tem faltado às pessoas que vivem como que reduzidas a animais pela miséria, pela segregação e pela opressão, seja econômica ou civilizatória. É o não que dorme na boca dos famintos do Sudão e dos escravizados na China, é o não que explode nas ruas do Oriente Médio e do Chile, o mesmo que está sinalizado num mundo onde cada vez mais cabem carros e cada vez menos pessoas. Pois aquele macaco disse não. E assim ele me faz lembrar que estamos ficando menos humanos, porque nós mesmos aceitamos a miséria do mundo por falta de confiança em dizermos não, essa que é a primeira palavra, entre todas.

Um dos elementos que difere a ficção científica dos outros gêneros cinematográficos é justamente a possibilidade de colocar dilemas da humanidade em situações ortogonais, não lineares ou mesmo irracionais. A ficção científica é bem mais que um conjunto de efeitos especiais de encher os olhos. Seu modo de tocar em elementos críticos da humanidade é incomum e, se boa parte dos filmes produzidos hoje podem ser considerados um pastiche de conhecidos sucessos e colagens visuais, há aqueles que conseguem distinguir-se exatamente por abordar situações que, na realidade, são complexas e inacessíveis a boa parte das pessoas. Os filmes de ficção científica, ou sci-fi, conseguem fazer isso de um modo muito peculiar. Não por acaso, um dos grandes últimos filmes do gênero, o blockbuster Avatar, aborda a devastação dos recursos naturais, a indústria bélica e a necessidade um novo pacto com a natureza de uma forma impactante, evidenciando que muitas tentativas reais de educação ambiental e de acordo entre nações beligerantes ainda estão muito aquém do que se pode imaginar e desejar, considerando um planeta que precisa sobreviver a si mesmo.

Muito provavelmente The Rise of Planet of Apes não seja, nem de perto, o melhor filme de ficção científica já feito. Talvez nem considerando os últimos anos. Mas me recuso a discutir seus problemas de coerência e refutabilidade científica, como tem se tentado fazer. É só um filme, talvez nem seja cinema, como querem afirmar alguns. Mas é um filme que grava na mente de quem o vê um não como nunca parece ter sido dito ou, pelo menos, testemunhado. O primeiro não. O não da dissidência, talvez o mesmo que tenha separado Caim de Abel. O não épico, como gostava Borges, e que talvez tenha sido o mesmo que tirou o ser humano de dentro do buraco de uma caverna e o fez fundar a humanidade.

Eu não sei. Um não desses a gente não vê todo o dia.

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De década em década, o argentino naturalizado canadense Alberto Manguel refaz do seu principal objeto de estudo: a história da leitura e dos livros. No final de 2017, foi a vez das Edições SESC engrossarem sua bibliografia brasileira com a publicação de O leitor como metáfora.

Autor de dezenas de títulos, dentre os quais os já clássicos A história da leitura (1996) e A biblioteca à noite (2006), Manguel, que em 2016 voltou a Buenos Aires para dirigir a Biblioteca Nacional da Argentina, empreende em seu mais recente livro uma criteriosa investigação taxonômica a respeito dos leitores. Mesmo que possa tratar-se de modelos ideais, ou protótipos, é de pensar se seu objetivo não seria justamente identificar as pessoas potenciais com que atingir tanto através de suas obras quanto por sua atuação a frente da prestigiosa instituição. Seja como for, é bastante provável que ele se valha muitas vezes de sua própria experiência como leitor para uma das mais antigas tarefas que se realiza em bibliotecas: a classificação.

Na proposta de seu ensaio, basicamente o que se distinguiria são três espécies de leitores. Como expresso com muita clareza no título, haveria por primeiro o leitor viajante, ou seja, aquele que porta e deixa-se levar pela silenciosa aventura livresca; os que buscam o isolamento mundano e o conhecimento através da leitura (os ocupantes da torre); os que devoram (e porventura por eles são devorados) livros com avidez indiscriminada e que não poderiam ter denominação diversa de “traças”.

Embora simples, a taxonomia de Manguel tem o apuro de um leitor dos mais experimentados. Ao invés de uma proposição meramente literária ou historicista, Manguel vai organizando, das tradições literárias, as metáforas e significações que o ato de ler revela da relação do humano com o mundo; ao menos em sua experiência, não haveria interpretação do mundo sem leitura e por essa razão o ato de ler espelharia as próprias capacidades interpretativas dos indivíduos. Mas, se serve de advertência, é provável que quem buscar encontrar em seu livro apenas laivos de uma erudição afetada será, entre os leitores, o que mais se frustrará. As citações de Manguel também não obedecem a nem uma espécie de crivo acadêmico e dizem mais respeito aos encontros que escritores e leitores parecem operar durante a experiência de leitura mesmo que séculos após a morte dos primeiros; mesmo que os meios para tanto não sejam necessariamente o do texto impresso. A felicidade da leitura e de seu “ofício”, para Manguel, estaria mais relacionada ao empenho e enlevo que o leitor desenvolve pelos livros a partir do efeito da leitura do que por qualquer culto material do objeto livro.

Transportando as suas diferentes “espécies” de leitores através dos tempos, ele vai dessa forma dirigindo os leitores às suas respectivas metáforas; em determinado momento chega a parecer que deseja mesmo encaminhar os leitores de encontro aos autores que vai identificando em sua taxonomia. Remetendo-se desde a antiguidade sumeriana, através da epopeia cuneiforme de Gilgamesh, passando pelos manuscritos de Dante, os códices de Leonardo e chegando aos já impressos Shakespeare, Cervantes e Montaigne, Manguel avança em direção ao séc. XX ao mesmo tempo em que regressa livremente a autores de todas as épocas, sempre que um autor possa lhe servir na exemplificação das muitas formas de existir no mundo, de comportar-se nele e também de recriar continuamente a experiência da vida, esta que seria a tarefa inadvertida dos escritores de todos os tempos e culturas.

Ao passo em que pode ser percebido tanto quanto uma continuidade de sua permanente exortação à leitura, para leitores menos experientes, todavia, seu livro pode ter um efeito, digamos, acachapante. Ou como poderiam sentir-se leitores inexperientes diante de um desfile intermitente de nomes, títulos e citações? Dotado de um conhecimento que se poderia denominar por enciclopédico e não fossem escritos sem o menor traço de pedantismo, seus livros poderiam muito bem ser tomados como proselitismo cultural ou fútil ostentação. Porém não é disto que se trata; longe disso.

Antes de qualquer coisa, é preciso saber que se trata de um autor cuja principal preocupação é a difusão do hábito da leitura e, a menos que se tenha inventado alguma espécie de malabarismo telepático, parece totalmente impossível a qualquer um a tentativa de advogar em nome dos livros sem mencioná-los. Além disso, em sua gestão na Biblioteca Nacional da Argentina, notadamente Manguel vem investindo em todas as frentes: na conservação de originais, na expansão de coleções, na digitalização e difusão intermidiática e na promoção e atração de novos leitores. Em entrevista concedida ao portal Perfil, logo ao assumir o cargo ele já afirmava desejar perseguir a ideia de uma biblioteca para todos os leitores e interessados. Parece que a ideia borgeana de uma biblioteca universal, pelo menos em solo argentino, encontrou finalmente quem a desejasse continuar.

Não é à toa. Enquanto ao mesmo tempo abandonava a instrução formal da Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Buenos Aires, por considerar os estudos formais aborrecidos, o diletante Manguel iniciava sua carreira literária concomitantemente a de editor. Em meados da década de 60, tornara-se “ledor” de um Jorge Luis Borges já cego e que coincidentemente dirigia a Biblioteca Nacional da Argentina na mesma época; desse encontro é como se houvesse estabelecido para ele um encantamento pela literatura e, sobretudo, pela leitura enquanto hábito individual. Sua formação, completada pelo trabalho como jornalista e editor, é a de quem erigiu uma carreira viajando através de vários países e investigando incessantemente a história literária. É muito provável, portanto, que Manguel tenha desenvolvido a taxonomia do seu novo livro também a partir da auto-observação.

Quanto ao que se refere ao desejo de fomentar a curiosidade nos demais, este parece ser um hábito comum entre os bibliófilos de um modo geral. Porém, como parece ser recorrente a quem tem por missão institucional propagar o livro e a leitura, um impasse oculto às vezes mostra suas sombras em seu livro. Trata-se da irresolução peremptória da efetividade de qualquer política cultural voltada ao assunto e expressa na dicotomia estabelecida entre, por um lado, a popularização do hábito da leitura e, por outro, a especialização do público leitor.

Provavelmente por ser um autor prolífico e a primeira vez que Manguel está atuando institucionalmente (e logo na mesma biblioteca que Borges dirigiu), outras reflexões a respeito do assunto deverão advir da experiência. Isso no que toca aos interessados no assunto deverá ser um deleite por si só, ainda mais que, após a morte de Umberto Eco, há cada vez mais poucos autores notabilizados pela devoção e divulgação da cultura livresca universal quanto Manguel. Há com certeza os historiadores que se dedicaram ao tema, como Roger Chartier e Robert Darnton, mas em ambas as investidas historiográficas o que se mais pode notar são preocupações que giram em torno de explicar a evolução da tecnicidade da instrumentação escrita, sua reprodutibilidade, análises sobre o colapso do espaço físico das bibliotecas, a expansão contínua dos formatos digitais e a segurança e conservação do conhecimento em vista ao desenvolvimento das tecnologias da informação.

Sem dúvida que todas as preocupações e iniciativas em utilizar beneficamente os recursos tecnológicos são bem vindas e necessários, mas em absoluto não é este o centro das inquietações de Manguel. Para ele, interessa mais seduzir e cativar ao leitor do que porventura ele possa estar perdendo do que condená-lo à danação da ignorância, como, aliás, convém a um bibliotecário proceder. De todo o modo, não se imagine que equilibrar uma equação dessa natureza é tarefa fácil do ponto de vista da gestão cultural de acervos bibliográficos. O que não parece faltar em Manguel, todavia, é o cimento de não desviar-se de um trabalho de lenta e muitas vezes invisível consolidação dos espaços afetivos e também físicos com que uma sociedade se relaciona com a cultura letrada, que parece cada vez mais dispensar de quem a organize, valorize e promova.

Seja como for, na vizinha Argentina ou aqui mesmo, no Brasil, as dificuldades são inumeráveis e o cenário educacional e cultural um tanto quanto amedrontador. Não são comparáveis, portanto, aos moinhos do Quixote, os desafios de quem propugna por valorizar os livros e a leitura. Neste caso, os gigantes podem ser compreendidos em dados obtidos regularmente através de pesquisas e levantamentos que se fazem em todo o mundo, inclusive no Brasil.

No Brasil, quanto e como se lê?

Dos indicadores e estatísticas a respeito do Brasil contemporâneo, poucos soam tão assustadores quanto os dados sobre proficiência em leitura levantados pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e Banco Mundial através do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa).

No relatório, pode-se saber entre outras coisas que no que diz respeito à eficiência com que um texto escrito é interpretado, o Brasil mantém-se estável desde 2006, mas com indicadores mais distantes da média dos demais países aferidos e, por outro lado, mais próximos das piores taxas, além de projetar uma defasagem em relação aos países desenvolvidos que se resolveria em séculos ainda (cerca de 256 anos). Unindo-se os resultados aos de outras pesquisas, como a Retratos da Leitura no Brasil, promovida pelo Instituto Pró-Livro e realizada pelo IBOPE, a sensação é de premência de uma calamidade. Trata-se, porém, de uma calamidade silenciosa e que ao longo do tempo tem ensurdecido autoridades, editores, educadores, bibliotecários, autores e também o público leitor.

De que se trata de uma situação complexa quase ninguém duvida e não raro as manchetes dos periódicos triunfam com os maus indicadores brasileiros. O caminho da resignação, sempre o menos escarpado, todavia parece sempre conduzir a um senso de conformidade reincidente. Ajuda menos ainda a combalida autoestima nacional a também reincidente comparação com os dados de leitura da vizinha Argentina. Ainda que a afirmação de que apenas Buenos Aires (ou, num arroubo platino, apenas a Calle Corrientes) pudesse ter mais livrarias do que o Brasil inteiro seja fantasiosa, dados da Market Research World, no assim denominado Índice de Cultura Mundial, informam que, apesar da veracidade comparativa, o país vizinho também não anda fazendo um retrato dos mais excepcionais.

O que se sabe definitivamente é que, de fato, a situação da leitura é grave e afeta o desempenho cognitivo e cultural de toda a sociedade e de muitos países. Uma vez que o possível amparo da resignação mostra-se incapaz de recolocar em movimento a dinâmica e complexa relação entre a cultura letrada e uma população que ainda deveria ser mais e melhor estimulada a relacionar-se com o livro e os bens culturais literários, o que se pode antever é muito trabalho coletivo pela frente e a necessidade de reflexões ponderadas tanto no que confere ao sistema educacional quanto ao literário.

O cada vez mais difícil de contestar é o fato de que o impasse que a crescente expansão tecnológica deveria colocar entre leitor e leitura vem na realidade esgarçando-se cada vez mais. Não se trata de imaginar que isoladamente e sem projetos consistentes o emprego dos recursos tecnológicos resolverá a situação. Conforme os mesmos dados da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, o constatável é um decréscimo constante do tempo dedicado à leitura (24% entre a preferência total) em comparação ao incremento do uso individual da internet (47% entre a preferência total).

Nos ensaios e artigos que publicou na imprensa a respeito das questões da escrita e do livro reunidos no livro Papel-Máquina, de 2001, o filósofo franco-magrebino Jacques Derrida veio reforçar sua ideia visionária de 1969, em Gramatologia, quando afirmou que desde aquela época o leitor passava a exercer papel imperativo em relação aos meios e suportes de leitura. Derrida, apesar de ter sido a princípio mais um dos estudiosos a denunciar o “fim do livro”, teve a prudência de ponderar igualmente pela infinitude desse processo. Resta entender se a isso convém chamar de impasse ou paradoxo e aguardar por que outros estudiosos venham também refletir a respeito, afinal trata-se de tema de interesse permanente e universal.

De um modo muitas vezes reducionista, boa parte das análises a respeito da vereda tecnológica e da sobrevivência do livro e do texto literário têm, desde o início do novo século, refletido por vezes mais das apreensões individuais do que uma observação mais apurada do contexto cultural amplo senso. Se na história da civilização certa vez a leitura ocupou papel central na formação cultural e de identidade das nações, de fato é preciso admitir que a tecnologia expandiu boa parte dos limites e cerceamentos que havia até meados do séc. XX. Se já foi o veículo de informação por excelência, fonte de entretenimento e suporte privilegiado de comunicação dos bens culturais, hodiernamente a leitura parece-se mais ao substrato multitudinário de uma gama imensa de informações que o veículo de um determinado cânone literário.

A esse ponto, verificar a inundação de livros (e livros nem sempre são obras, como adverte Derrida) e outros formatos de informação é tarefa de facílima constatação. Se a literatura, de fato, vem convertendo-se em testemunhos autorais de um interesse ao mesmo tempo segmentado e restrito e se há como ainda hoje vivificar o interesse de novas gerações por um mundo distante ou por um passado remoto, livros como os de Manguel, usando aqui de metáfora, parecem-se a faróis avulsos de um mundo mais profundo, instigante e enriquecedor que a leitura criteriosa certamente ainda dá a desvendar às pessoas. Pois a prevalência do livro agora possivelmente esteja mais relacionada a uma necessária recuperação e valoração da leitura propriamente dita do que uma substituição de técnicas e formatos. A falta de tempo, justificativa reiterada pelos desinteressados contumazes na leitura, não é furto que se flagre ou perda que aconteça isoladamente, mas a perda (tanto para pessoas quanto para instituições) é lamentavelmente irreparável e o tempo, como se sabe, brevíssimo.

Na fila com Roberto DaMattaNa fila com Roberto DaMatta

Para o antropólogo Roberto DaMatta, o brasileiro é um povo avesso à igualdade e a qualquer vestígio de horizontalidade social. Segundo ele, estas seriam noções e práticas sociais por aqui fadadas à burla, à negligência e a serem ignoradas. Ideias como estas, na verdade, ele vem desenvolvendo desde o célebre ensaio “Sabe com quem está falando? – Um ensaio sobre a distinção entre indivíduo e pessoa no Brasil”, presente no livro Carnaval, malandros e heróis, de 1978. Agora, em Fila e democracia, seu mais recente livro publicado pela Rocco, ele de certo modo reposiciona estas ideias e procura confirmar seu vigor quarenta anos após a primeira exposição, examinando o lugar da fila (isso mesmo, a fila) enquanto prática coercitiva e instrumento de ocupação igualitária do espaço público.

Escrito a quatro mãos e tendo como substrato uma pesquisa de campo desenvolvida para a pós-graduação de Alberto Junqueira, o livro retoma a investigação do individualismo e da igualdade como valor no Brasil contemporâneo, temas já explorados por ele em sua bibliografia. O livro, entretanto, não fica apenas nisso e indiretamente aborda também os contornos culturais da democracia brasileira, sempre tão permeável aos fenômenos de distinção social, e também as características da cultura política nacional. Entre as hipóteses dos autores, a aversão à alternância no poder e a formação de reservas de atuação e de mercado seriam alguns exemplos de como a mentalidade do “preferencial” se reproduz e ganha escala nas estruturas sociais e do Estado, encontrando nos partidos políticos os instrumentos ideais de ocupação do poder, tal como um coronelismo redivivo.

DaMatta, já apontado como o continuador do legado de Gilberto Freyre e de Sérgio Buarque de Holanda, sendo o mais citado escritor brasileiro na produção acadêmica de ciências humanas e já laureado dezenas de vezes pelo alcance e profundidade de seus trabalhos, é alguém que está sempre pensando o Brasil desde as suas exterioridades mais explícitas, tanto as comuns e corriqueiras quanto as mais entranhadas em tabus e no nosso modo de ser. Não é por outra razão, inclusive, que ele não deixa de examinar as mazelas políticas brasileiras, ainda que por isso muitas vezes desagrade aos setores e intelectuais que estiveram nos últimos anos, por exemplo, ao lado dos governos do PT, os quais ele não tem poupado em suas críticas.

Crítico desde a primeira hora das formas de congraçamento dos partidos brasileiros e do nominalismo político, ele chegou a considerar em entrevista concedida ao jornal Panorama Mercantil que a experiência do PT no poder comprovaria a tese de que as utopias podem ser enganativas e de que muito acaba ficando pelo caminho na promoção e venda de esperanças. Mais tarde, ao vislumbrar na ida do candidato do PSDB, Aécio Neves, ao segundo turno na eleição de 2014 a possibilidade de, conforme disse, “defenestrar o PT do poder, mas não da política”, foi alçado a posição de inimigo político do partido.

Em que pese julgar-se a correção ou incorreção de suas avaliações e a considerar a posição que ocupa nas ciências sociais, suas opiniões costumam causar tumulto. Porém, é muito relevante para a saúde de qualquer democracia que seus intelectuais sujeitem-se efetivamente ao debate público, mesmo que no calor eleitoral. Em se tratando de DaMatta, desqualificá-lo não é tarefa das mais simples, embora não falte quem queira refutar suas colocações e encontre alguma reverberação – dado que o debate político é aberto, nunca esteve tão aberto, chegando a ser obsceno muitas vezes. Talvez por possuir uma visão abrangente e histórica dos problemas brasileiros, crítica tanto do comportamento social quanto do institucional, suas opiniões contundentes, bem como seus livros, costumam repercutir bastante. Além disso, o fato de ser um partidário de políticas inclusivas e de ações afirmativas o descola da identificação de uma critica à direita ou conservadora, dificultando sobremaneira qualquer apressado enquadramento ideológico.

Como não há tantos cientistas sociais no Brasil com o seu histórico, ou empenhados em investigar a forma como noções de seletividade e distinção social permeiam as relações humanas e políticas, quase sempre é preciso referir-se ao trabalho de DaMatta para se falar apropriadamente do Brasil. A verdade é que poucos pensadores vêm registrando, como ele, o trânsito dos valores da casa para a rua e da rua para as instâncias políticas. Neste trabalho, ao observar a relutância do indivíduo a sujeitar-se à norma social – e isso configurando uma espécie de nota distintiva do modo de ser brasileiro –, é difícil não associar o comportamento civil às razões pelas quais têm prosperado por aqui sentimentos avessos ao menor republicanismo, como a impunidade e outras violações normativas, e manifestações derivadas do seminal “jeitinho”. Se uma mera fila de pessoas é capaz de ensejar o desejo de excepcionalizar a regra, é bem compreensível que o comportamento venha a se estender, diante de uma cultura que o valida e autoriza, a outras searas, inclusive a política.

Seja de esquerda ou direita, terminará frustrado o leitor de Fila e democracia que procurar encontrar nele a sedimentação de um estereótipo comportamental ou a definição taxativa do caráter do brasileiro. Pelo contrário, DaMatta e Junqueira atravessam muitos olhares, à luz de leituras clássicas e contemporâneas nas ciências sociais, sobre o estado de coisas que resultam no indivíduo e seus valores compartilhados. Abordando temas candentes como a oposição entre identidade x diferença, igualdade x desigualdade, e sem deixar de olhar para os significantes da antropologia cultural, este seu novo trabalho permite que se entreveja um pouco mais do estado de espírito da cultura brasileira em sua complexidade, mesmo ao abordar comportamentos aparentemente banais, como deveria ser um simples “aguardar a vez”. De fato, para o olhar antropológico nada deve ser inteiramente banal, se pensado com cuidado e visto mais de perto, e o Brasil, como é sabido, ainda está longe de ser um lugar dos mais simples no mundo.

Contos do sulContos do sul

Acho que foi em 2020 que o prêmio Jabuti instituiu como categoria especial o romance de entretenimento. Eu achei a medida estranha e ainda não me convenci da sua necessidade, afinal, não me parece que existam romances que não sejam entretenimento. Ou melhor dizendo, se existem, é porque, por tabela, existem os que não são.

“Do” que seriam esses outros romances? Instrução? Esclarecimento? Ciência? Eu não sei, realmente não entendo e, como não tenho grande interesse nos regulamentos do concurso, também não me demorei procurando entender. Nem vou.

Todavia, com a transparência obtida pelas redes sociais, não demora muito para que qualquer pessoa interessada descubra perfis dos seus escritores diletos ou não tão diletos. Por ali, se pode saber das muitas motivações dos escritores em relação às suas obras. Incrivelmente, são muito mais amplas do que propiciar “entretenimento” – ainda que no nascimento do romance em geral essa tenha sido a ideia central e prática familiar das mais comuns, antes que houvesse mesmo energia elétrica nas residências, que dirá internet e redes sociais.

Há poucos dias revivi uma experiência que há muito não tinha, a de realizar a leitura como se na ausência absoluta dessa parafernália toda. Digo “como se” porque se trata de uma sensação. Na verdade, li o livro na forma e-book, via Kindle, que comprei de uma auto publicação da própria autora na livraria Amazon. A autora é a Simone Saueressig, escritora com vasta bibliografia, ainda que, ao que me parece, muito pouco difundida na proporção que sua criação mereceria. Este, aliás, parece ser um drama comum a todos os escritores que no tempo contemporâneo não se comportam como sociólogos ou cientistas políticos e têm seu trabalho reduzido pelo sistema literário a mero “entretenimento”. É uma situação ridícula mesmo, mas não é de rir.

Eu não posso falar de todos os livros de Simone porque li poucos ainda, contos dispersos como o que ela enviou no passado à Sepé e gostei muitíssimo. Minha experiência enquanto leitor de literatura “fantástica” é bem precária. Li esparsamente e nem sei se consigo delimitar direito o que há entre “fantástico” e o “realismo mágico”. No Brasil, como em toda a América Latina, o “realismo mágico” se fez muito visível pelo menos até a década de 70, limiar de 80, do séc. XX. A literatura fantástica muito menos, mas teve um incremento significativo a partir da década de 90, embora autores canônicos a tenham praticado esparsamente desde o séc. XIX. No entanto, como movimento, os anos 90 liberaram das correntes o estilo, mesmo que para voltar a aprisioná-lo logo a seguir numa subclassificação no meu ponto de vista absolutamente preconceituosa. O tal “entretenimento”.

Chame-se do que for, o livro de contos da Simone que acabei de ler – a coletânea “Contos do Sul” – é, como disse, um livro de transporte mental, como são os bons livros de fantasia. Os contos do livro são de uma ambientação precisamente imaginada e isso favorece muito a projeção das histórias assombrosas que ela conta de um “sul” rugoso, com elementos folclóricos e imaginativos interagindo na esfera de uma narrativa linear e realista. Talvez por também não valer-se de experimentações linguísticas ou uma concepção arrojada esteticamente, seus contos induzam a que se pense estar em contato com uma literatura antiga – o que não significa “velha”, mas atemporal e anacrônica no bom sentido -, de quem não se prende a articulações temporais e suas (in)determinações históricas.

Essa a minha impressão externa.

A interna, como disse, foi a de reviver a experiência da leitura da infância, surpreendente, a luz de velas ou lampião, quando personagens não tinham mais a ganhar no mundo do que a aventura de estar vivo. Eu, que vinha do enfaro de certa leitura, deliciei-me e devorei o livro como se fosse eu mesmo o monstro sedutor da “cisterna” ou, de outra forma, eu que fui devorado e não percebi ainda.

Contos do Sul
de Simone Sauaressig, (Ed. do autor, 2020).