Prepare-se para cair

Eu não sabia que Diogo Mainardi escrevia sobre capoeira, até que terminei, em cerca de 120 minutos, de ler A queda. É uma novidade que me faz olhar mais uma vez para a capa do livro como quem olha para um pedestal, já que o seu efeito imediato não é outro que o de uma rasteira, de uma rasteira de só quem frequentou muito o chão sabe desferir. Minha dificuldade no momento é me recompor da minha própria queda, providenciada pela leitura do livro, mas é daqui mesmo, do chão, que posso avaliar melhor o estado de coisas antes e depois da leitura porque, por minha própria experiência, atesto que estar em pé é uma transição permanente, um tipo de concessão da gravidade ou, como para muitas pessoas, um desafio da vontade, uma experiência cuja compreensão requer boa parte da energia de viver.

A queda é um livro econômico. As frases são objetivas. Os trechos são curtos como comunicados, o que dificulta um pouco a tarefa de classificá-lo em algum dos gêneros literários disponíveis. Em determinados momentos, lembra um caderno de notas ou um tipo de blog impresso. É dentro dessa forma imprecisa que nasce a tensão do livro, suplantando a própria necessidade de classificá-lo, por mostrar um Mainardi tal como ele é, pelo caráter confessional e autobiográfico que reconstrói em 424 passos uma trajetória na qual ergue-se e pode caminhar com o filho Tito, seu pequeno búlgaro, e onde enfim pode tombar o próprio Diogo.

Não faz muito tempo que os pais, os homens, frequentam o chão. Antes dos hippies, a masculinidade vivia como numa clausura, na imagem de um eterno galanteio como os atores de Hollywood ajudaram a fixar. De terno e gravata ninguém vai ao chão. E a própria noção do chão enquanto espaço infantil é igualmente recente. Foi a médica e pedagoga italiana Maria Montessori uma das primeiras pessoas a considerar o ângulo próprio da infância, de quem vê de baixo um mundo gigantesco. Para ela, que inclusive chegou a conceber espaços pedagógicos miniaturizados, são as crianças que gestam o homem, e não se pode pretender mudar este último sem valorizar a experiência daquelas. Nada como uma criança, como um filho com deficiência, para deitar ao chão a inutilidade da formalidade, para sujar a alvura do distanciamento, para valorizar o que efetivamente importa, para reduzir a nada as imagens cristalizadas. Como se pode saber em A queda, foi Tito quem acostumou Mainardi ao chão, para que ele pudesse ver-se livre inclusive da imagem que se colou a ele ao longo da última década, quando Mainardi encarnou um tipo de personagem de si mesmo, angariando tanto a devoção de alguns quanto o ódio de seus detratores.

Como ele mesmo diz, o livro o deixou nu. Parece impossível, aliás, que um homem trate da paternidade sem que fique nu, para o bem ou para o mal. Mainardi não foi o primeiro pai a escrever sobre a vida com um filho com deficiência, mas foi o primeiro a abordar a paternidade a partir do seu efetivo exercício. A queda é autobiografia em estado puro. Não há personagens ali. Não há trama. Não há cenário senão uma colagem de referências que arquitetam e refazem lugares, trajetos e situações que fazem todo o sentido para o livro, justamente porque fazem parte da vida do autor. Não há uma construção, mas um tipo de descolamento que deixa ver um pai e um filho através de pequenas confissões capazes de destruir a imagem de um pai poderoso e recolocar em seu lugar um pai como qualquer outro, nem sombra de um pai “especial” ou “escolhido”. Como bom capoeirista, ele derruba num golpe só a fantasia heroica e o abandono depressivo, deitando ao chão quem sabe e não sabe cair, levando de roldão o desamor que tem se fixado junto à literatura sobre filhos com deficiência.

Repetindo, A queda é autobiografia em estado puro. Ali estão um pai, um filho, uma mãe, um irmão e outras pessoas, não personagens, que marcaram suas vidas indelevelmente. Não há espaços vazios, silêncios, fantasmas do filho desejado ou laivos de rancor e decepção. Mainardi ama seu filho como ele é e faz de seu livro um tipo de ode à paralisia cerebral, sem envergonhar-se disso. A queda consegue a façanha de colocar “felicidade” e “deficiência” numa mesma frase, sem efeito algum a não ser o da própria realidade. Talvez Diogo não saiba quanta felicidade isso pode causar principalmente aos pais de outros filhos com alguma deficiência, porque a um tempo só torna possível abandonar o tom trágico que cerca o tema e abraçar a realidade da vida como a vida pode ser, com ou sem paralisia cerebral, com ou sem alguma deficiência. O testemunho dos 424 passos de Tito não permite saber aonde ele vai, mas permite saber que ele logrou sua ida e que há um pai que o permitiu, que há uma paternidade para este filho que passa a viver, ao cabo da leitura, livre da contabilidade de seu sucesso ou fracasso, mas cada vez mais dono de sua própria vida.

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Liberdade e opressão em Simone WeilLiberdade e opressão em Simone Weil

Revista Amálgama

Em julho de 2020, a editora Âyiné fez jorrar para o público brasileiro um tanto mais da obra da filósofa francesa Simone Weil (1909-1943). Por meio da tradução de Pedro Fonseca, um dos sócios da editora nascida veneziana e já naturalizada brasileira, veio a público o trabalho que Simone terminou de redigir quando contava com apenas 25 anos de idade, em 1934, Reflexões sobre as causas da liberdade e da opressão social (Âyiné, 2020). É um opúsculo que impressiona desde a primeira página (leia no Estado da Arte a reprodução do trecho inicial do livro) tanto por constituir uma crítica contundente (e precoce) em relação à experiência revolucionária russa de 1917 quanto mais por situá-la e situar-se ainda mais em favor daqueles que, de acordo com ela, continuaram submetidos à tirania produtiva que a revolução de outubro em nem um momento cessou ou fez modificar a relação de opressão exercida dali em diante pelo regime bolchevique por intermédio do Estado.

Trata-se de uma cronologia bibliográfica que aos poucos se vai montando, apesar de que apenas nos melhores sonhos dos seus leitores imagine-se vertida ao português uma obra que em sua edição critica é composta por sete tomos, dezesseis volumes e cerca de sete mil páginas, de acordo com o projeto editorial da Gallimard para as suas Ouvres Completes. O público brasileiro, acostumado à oferta em conta-gotas de trabalhos esparsos e coletâneas de Simone, ganha agora a possibilidade de conhecer esta que, de acordo com ela própria, seria sua “primeira grande obra”, e que ela redigiu pouco antes de partir para as linhas de montagem da Renault na qualidade de operária.

Alguns anos antes, em 2018, a Âyiné já havia publicado de Simone o ensaio/manifesto Pela supressão dos partidos políticos (Âyiné, 2018). Escrito logo após a ocupação nazista e sob o impacto do colapso político francês de 1940, o texto foi um dos reunidos por Albert Camus para a coleção Espoir para a Gallimard em 1948, sob o título geral Écrits historiques et politiques. Camus, aliás, reconheceu desde o primeiro momento em Simone a consistência do seu pensamento político, principalmente a partir da sua leitura de L’Enracinement (O Enraizamento, em edição esgotada e publicada no Brasil pela EDUSC – Editora da Universidade Sagrado Coração, em 2001).

Obra derradeira e, de acordo com ela, sua “segunda grande obra”, O Enraizamento (cujo título completo em português seria O Enraizamento. Prelúdio a uma declaração aos deveres relativos ao ser humano) teve o texto interrompido pela morte de Simone, em 1943. No entanto, desde sua publicação póstuma, em 1949, logrou a consideração de filósofos que confirmaram a impressão de Camus quanto à consistência teórica da sua percepção ética e política e clareza de princípios, tais como como Hannah Arendt, Giorgio Agambem, Michel Serres, Maurice Blanchot, Georges Bataille e Emmanuel Levinas.

Porém o interesse por sua obra não tem se limitado, desde então, ao mundo dos estudos formais. Se for certo que a recepção de seu trabalho possa ter repercutido mais em função da intensidade do seu desfecho biográfico e suas inclinações místico-religiosas do que por ter deitado influências em seguidores acadêmicos, por outro lado é possível entendê-la como uma pensadora não autolimitada, mas definitiva em si mesma. Talvez por essa razão seu nome seja frequentemente lembrado em momentos de crise política e moral.

Deste modo foi que provavelmente descobriram-na os norte-americanos embrenhados nos conflitos dos anos 60 do séc. XX, por influência de Susan Sontag; de maneira semelhante, redescobrem-na hoje, em meio à era Trump, por intermédio da recriação proposta por Patti Smith em Devoção (Companhia das Letras, 2018); e, talvez do mesmo modo, a editora Âyiné tenha pensado no Brasil contemporâneo ao lançar por aqui um trabalho de forte crítica ao mundo politico como em Reflexões sobre as causas da liberdade e da opressão social.

Não deixa de ser curioso que é na autora que aos 25 anos já havia compreendido as limitações da ordem politica e viu as utopias revolucionárias bordarem-se do sangue de inocentes e procurou ver e viver na própria pele a experiência da opressão pelo trabalho – ao mesmo tempo que recusava qualquer entusiasmo partidário e a frivolidade burguesa – que se busque alguma forma de inspiração ou, que seja, consolo. Há mesmo na filosofia de Simone Weil o sentido de devastação histórica que é muito presente nos artistas que viveram a vertigem do entre guerras e a ascensão do horror nazista. É equivocado pensar que, todavia, trate-se de uma pensadora de fragmentos levada ao sabor da história ou da loucura, como insinuaram personalidades que travaram contato com ela, tais como De Gaulle, que a denominou por “louca”, e Leon Trotsky, que a definiu como uma “revolucionária melancólica” e “anarquista barata”. Ainda assim, não é menos sintomático de um século em chagas que tenham sido poetas como T. S. Eliot, W. H. Auden, Czeslaw Milosz, Seamus Heaney e Flannery O’Connor a perceber a potência do pensamento de Simone e a redimir sua memória.

Eliot, que prefaciou a primeira edição em inglês de O Enraizamento, em 1952, recomendou àqueles que buscam conhecer o trabalho de Simone para que não evitem seus paradoxos, mas que busquem compreendê-los tanto no que se referem às questões religiosas ou políticas, e que procurem ao máximo evitar a refração moral e o simples antagonismo intelectual na sua leitura. Para o poeta de The Waste Land, “she appears as a stern critic of both Right and Left; at the same time more truly a lover of order and hierarchy than most of those who call themselves Conservative, and more truly a lover of the people than most of those who call themselves Socialist / ela surge como crítica severa tanto da direita quanto da esquerda; ao mesmo tempo mais verdadeiramente uma amante da ordem e da hierarquia do que a maioria daqueles que se autodenominam conservadores e, mais verdadeiramente, amantes das pessoas do que a maioria daqueles que se autodenominam socialistas”.

Essa percepção totalizante da visão de mundo e do trabalho de Simone que, de acordo com uma de suas principais estudiosas no Brasil, Maria Clara Bingemer, está presente nela desde suas inclinações infantis e juvenis, transparece na consistência e contundência com que formula sua crítica desde os rascunhos que resultaram nestas Reflexões sobre as causas da liberdade e da opressão social.

Desde que iniciou seu trabalho como professora até sua morte, Simone Weil viveu intensamente o período mais intenso da história do séc. XX e justamente em seu epicentro. Simone esteve na Alemanha, lutou na Espanha, participou da resistência francesa, esteve em Londres, viajou aos Estados Unidos, à Itália e viveu a vida como uma experiência religiosa, de aprendizagem sensível. Além de encontrar-se com a vivência da experiência mística e da leitura precoce de muitas tradições (sejam orientais ou ocidentais), nunca deixou de pensar a filosofia política. Possivelmente, também por evitar alienar o seu pensamento ou ter seccionado o ser político do espiritual, tenha-lhe sido tão natural entregar-se ao pensamento teológico. Mesmo assim, até o último momento de sua vida, Simone manteve a critica política ao purismo religioso em face sua repulsa ainda maior à violência, jamais deixando de lado a consideração da Inquisição e das suas ideias sobre a força política (1) e seus usos moralmente cediços.

Neste momento crucial brasileiro, a publicação de seus textos políticos é muito bem vinda, uma vez que permitem e convidam a uma reflexão desembaraçada e desimpedida. Longe de qualquer comparatismo, é relevante perceber-se que o tempo de agora não pode parecer acelerar-se mais do que aquele que no espaço de menos de uma década levou o mundo de uma mera eleição ao colapso geopolítico mundial. Ao publicar os trabalhos de Simone Weil, a editora Âyiné lança a esperança de que possa continuá-lo, talvez, a seguir, com O Enraizamento. Uma obra que trata de reconstruir o mundo devastado pode colaborar e muito em que não se desperdicem esforços políticos e vidas humanas em vão.

(1) Assista no link a seguir a leitura dramática que Simona Giurgea, professora titular de inglês no University Theatre, Colgate University, fez de Ilíada ou o poema da força, ensaio no qual Simone Weil explora o trabalho de Homero para ilustrar a sua tese a respeito da força. O texto encontra-se publicado no Brasil nos livros Simone Weil: a força e fraqueza do amor, de Maria Clara Bingimer (Rocco, 2007) e Ilíada, de Homero, trad. de Trajano Vieira (Ed. 34, 2020).

Desbaratando Fernando PessoaDesbaratando Fernando Pessoa

De todos os poetas do século XX, a poucos – talvez a nenhum outro – se tenha incorporado tão bem a pecha de incompreendido quanto a Fernando Pessoa. Nele, tudo é ao mesmo tempo corriqueiro e misterioso. É corriqueiro como quem esteve agora mesmo a beber em algum café da baixa, como um transeunte a mais; é misterioso como quem perscrutou o mais difícil dos temas, o conhecimento de si mesmo, aventurando-se por ele em inúmeras tradições culturais e até mesmo no ocultismo. E ainda assim, e a despeito de tudo isso, de alguém que, ao morrer, era um desconhecido “das gentes” e poucos notaram-lhe, em vida, a dimensão do gênio. No ano de sua morte, em 1935, Miguel Torga anotava em seus diários:

Vila Nova, 3 de dezembro de 1935.

Morreu Fernando Pessoa. Mal acabei de ler a notícia, fechei a porta do consultório e meti-me por montes a cabo. Fui chorar com os pinheiros e com as fragas a morte do nosso maior poeta de hoje, que Portugal viu passar num caixão para a eternidade sem ao menos perguntar quem era.

(Miguel Torga, Diário I, página 19)

Toda essa incompreensão e desinformação que, muito por causa de sua heteronímia e também por suas investidas nos domínios do ocultismo parece às vezes até fruto de mais uma de suas maquinações, durante todo o século passado parece ter paulatinamente consolidado uma espécie de aura (e também um estereótipo) do que seria o poeta atormentado por excelência. Some-se isso tudo às escassas fotografias do poeta míope e a uma produção prolífica e complexa e têm-se então, como resultado, texto e imagem de um personagem misterioso, ainda que reconhecidamente ícone inseparável do modernismo de todo o mundo e da proximidade de seus maiores nomes.

É bem por isso também, por esse mistério todo, que um ponto a que fatalmente chega (ou emperra) todo leitor de Pessoa é o de tentar entender quem ele mesmo fora, o ser humano Pessoa; e o de entender qual a voz que ele realmente tinha, se é que tinha apenas uma ou se não era mesmo todas.

Dentre os seus mais de 130 autores fictícios e dos heterônimos mais conhecidos, Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos e Bernardo Soares – para quem traçara mapas astrais, assinaturas individuais, biografias e a partir de quem inclusive chegava a expedir correspondências – como seria possível saber de quem realmente se trata alguém que diz a respeito de si mesmo: “Eu vejo-me e estou sem mim,/Conheço-me e não sou eu”? E mais, como saber o que é invenção do poeta e onde ele se esconde nos demais, porque afinal é do seu ortônimo “Fernando Pessoa” a célebre Autopsicografia que sugere que aquém e além de tudo, que todo esse universo possa ser mera invenção e “fingimento”?

Seja como for, se já é complicado dar a ver a “alma” de um poeta, mesmo daquele que possivelmente mais tenha mostrado de si mesmo entre todos, o certo é que Pessoa tem dificultado bastante a vida de seus críticos e biógrafos. Mesmo contemporâneos seus, como João Gaspar Simões e Adolfo Casais Monteiro, ambos fundadores da prestigiosa revista Presença, com a qual por volta de 1927 passou a colaborar regularmente, divergem em especulações sobre a poesia de Pessoa e sua despersonalização em muitos. Em carta remetida a Casais Monteiro no ano de sua morte, ele revela concordar com a interpretação que este havia feito de sua heteronímia:

O fenômeno da minha despersonalização instintiva (…) conduz necessariamente a essa definição. Sendo assim, não evoluo: VIAJO. (…) Vou mudando de personalidade, vou (aqui é que pode haver evolução) enriquecendo-me na capacidade de criar personalidades novas, novos tipos de fingir que compreendo o mundo, ou, antes, de fingir que se pode compreendê-lo.

(Carta a Casais Monteiro datada de 20-1-1935)

Já a Gaspar Simões ele diz taxativamente, em dezembro de 1931, entre uma longa explicação sobre a natureza da mesma heteronímia: “Voo outro – eis tudo. (Carta a João Gaspar Simões, datada de 11-12-1931)”. Simões, que havia escrito sobre e poesia de Pessoa durante a vida daquele, continuou mesmo depois da sua morte a preconizar o que Casais Monteiro chegou a chamar de psicologização da obra de Pessoa, ou seja, a interpretar a obra através de elementos da sua vida. Isto era, porém, justamente o que nesta mesma carta Pessoa o advertira a não fazer:

Desde que o crítico fixe, porém, que sou essencialmente poeta dramático, tem a chave da minha personalidade, no que pode interessá-lo a ele, ou a qualquer pessoa que não seja um psiquiatra, que, por hipótese, o crítico não tem que ser. Munido desta chave, ele pode abrir lentamente todas as fechaduras da minha expressão.

Isto posto, parece simples concluir que então talvez seja impossível ser fiel a uma interpretação biográfica ou abordar-se a vida do poeta de uma maneira absolutamente crível. Entretanto, não é exatamente nisto que creem o colombiano Jerónimo Pizarro e o carioca Carlos Pittella-Leite. Com o sugestivo título Como Fernando Pessoa pode mudar a sua vida – primeiras lições (Tinta da China, 2016), os pesquisadores foram buscar na aventura documental o esclarecimento de pequenas “humanidades” do poeta, como se demonstrações cabais e objetivas de que mesmo por detrás de um gênio multifacetado como Pessoa existe obviamente um ser humano tão envolvido em mazelas mundanas quanto todas as demais pessoas.

O livro é o primeiro a trazer para o Brasil novidades do universo pessoano que Pizarro tem investigado anos a fio, sendo o responsável direito ou indireto pelas mais recentes publicações dos inéditos de Pessoa. Para ele, que trabalhou diretamente no espólio do poeta, trata-se de um trabalho para várias gerações, ainda mais que há um percentual do espólio, com anotações e outros originais, que se mantêm em posse dos herdeiros. Ainda assim, Pizarro e Pittella conseguiram reunir e contextualizar muitos documentos inéditos (e inesperados) do grande poeta português e através do livro pode-se saber, por exemplo, que o mesmo autor de Mensagem e de Tabacaria foi o responsável pela criação publicitária de anúncios, entre os quais um da multinacional de refrigerantes Coca-Cola (com a frase “Primeiro estranha-se, depois entranha-se”…) e fez com que o heterônimo futurista Álvaro de Campos dirigisse um Chevrolet, no que seria, de acordo com eles, o primeiro “product placement da poesia portuguesa”.

Se coisas assim fazem diferença ou não no aspecto qualitativo da poesia de Pessoa, definitivamente não é essa ideia principal de ambos os autores com a publicação, mas a de colaborar na desmistificação e também na popularização da sua obra e biografia. O livro, em tudo semelhante a um curioso almanaque, é bem mais do que isso, na verdade, porque localiza os fatos tanto na biografia quanto na repercussão literária de sua obra.

Nos outros exemplos inusitados da produção de Pessoa, convertidos no livro em aparentes lições de “como fazer”, encontram-se coisas como condutas e “regras” para reinventar o jogo de futebol, sugestões de xingamentos (com um soneto inédito exemplificativo), instruções para interpretar narizes, diversificar bibliotecas, ganhar um concurso em segundo lugar, instruções de como “mentir sinceramente” e outras tantas relativas utilidades às quais o maior gênio literário da língua portuguesa do séc. XX esmerou-se em registrar e que os autores do livro catalogaram e ilustraram na forma de uma espécie de pseudomanual.

Mas nem todas as notícias são boas para os amantes do poeta, pois através do livro pode-se saber que poemas aparentemente em tudo líricos, como o poema Liberdade, não seria senão uma mensagem cifrada dirigida ao presidente Antonio Salazar, a quem ele considerava um financista inculto e a quem dirigira uma série de poemas, como Coitadinho e outros.

Liberdade

(…)

Grande é a poesia, a bondade e as danças…
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca…

Sem dificuldades maiores pode-se concluir, ao final do livro, de que é correta a constatação de que mesmo alguém tão inesperadamente multifacetado acaba por deixar muitos vestígios concretos ao longo da vida e que estes registros podem explicar em muito vários aspectos de sua criação e personalidade. No caso de Pessoa, muitos destes vestígios encontravam-se desconhecidos até 2006, ano em que sua obra caiu pela segunda vez em domínio público e veio a conhecimento geral a existência de mais de uma arca de inéditos em posse de herdeiros e, nela, muitos projetos inacabados, rascunhos, livros, revistas, correspondências, fotografias, versões de poemas, etc.

Assim como o de muitos outros escritores, o espólio de Pessoa esteve no centro de disputas entre herdeiros e instituições portuguesas, como a Casa Fernando Pessoa e a Biblioteca Nacional. Em 1986, por força da legislação vigente ao seu nascimento, sua obra passou ao domínio público até que, em 1993, por iniciativa de sobrinhos herdeiros (que neste meio tempo leiloaram partes importantes do espólio), uma diretiva ampliou o prazo até 2006, depois do que finalmente decaiu a proteção legal e se multiplicaram no mundo inteiro edições dispersas e incompletas de sua obra.

Se confere com a realidade (e isso pode ser comparado pela leitura de sua correspondência) que o próprio Pessoa procurou algumas vezes esclarecer a natureza da heteronímia e de seus inúmeros personagens, por outro lado a extensão de sua criatividade competiu no que poderia dizer-se como uma espécie de desentendimento entre vida e obra. Isso a ponto de suscitar diversas interpretações, algumas inclusive com inspiração na psicanálise, como as realizadas pela professora e crítica literária Leyla Perrone-Moisés. Dado, porém, que ele mesmo refletiu sobre essa dicotomia entre “ser” e “sentir”, essa compulsão gnóstica e existencial aparece ao longo de toda a sua obra, desde as mais singelas quadras populares até às extensas odes de Álvaro de Campos ou nos seus mais herméticos poemas dramáticos. Como se trata do “proprietário” de um dom rítmico incomum e vocabulário inesgotável, é mesmo uma revelação (no sentido investigativo do termo) o aparecimento do indivíduo entre os seus vários “eus”. É certo que isto não poderia ser feito, sem dúvida, a não ser através da imersão na sua pessoalidade, mesmo que isto possa parecer mero trocadilho.

Talvez Pessoa seja mesmo um poeta incontável, incontabilizável, nem mais nem menos do que isso. Mas o livro de Pizarro e Pittella, mesmo que parecendo um álbum de recortes (e, pelo título, em suas “primeiras lições”), acaba por colaborar e muito em tornar o Pessoa real em alguém finalmente menos misterioso e mais cognoscível. Certamente isso não o diminui em nada em relação a outras abordagens biográficas, pelo contrário. Através dos seus achados cada vez mais fica notável que seu gênio era tamanho a ponto de “sentir” e “fazer” com a mesma intensidade e profundidade, ainda que travestido em distintas formas de dizer.