Crítica A reabilitação do afeto por Andrew Solomon

A reabilitação do afeto por Andrew Solomon

Capa de Longe da Árvore

O que podem ter em comum pessoas surdas, anãs, pessoas com síndrome de Down, pessoas com autismo, pessoas diagnosticas com esquizofrenia, com deficiências físicas, superdotados, crianças que nasceram a partir de violência sexual, transgêneros e outras que se tornaram criminosas? Talvez muito, mas este possível elo não é necessariamente o foco do novo livro de Andrew Solomon, Longe da árvore: Pais, filhos e a busca da identidade.

Colhidos em centenas de entrevistas e pensados na perspectiva de ampla leitura e bibliografia, os relatos de Solomon têm como principal ponto de contato a qualidade da diferença. De uma diferença estabelecida primeiramente dentro de casa, na própria família, na relação entre filhos e pais, sob a sombra da “copa da árvore” (o que ele chamou de identidade vertical). Depois disso, ele vai ainda mais além ao examinar os intrincados percursos sociais que as pessoas fazem ao longo da vida, sedimentando ou às vezes arruinando suas identidades pessoais (denominada como identidade horizontal, aquela baseada na interação social).

Mas o que ele deseja com esse mosaico, afinal?

Como o próprio título do livro diz, talvez demonstrar que mesmo aqueles mais próximos a nós – nossos descendentes – podem nascer ou vir a estar distantes de nossa própria identidade, do nosso tronco parental. Lá, longe da árvore, e expostos ao mundo tal como ele é, são pessoas cuja vulnerabilidade demonstra não necessariamente um destino marcado pela infelicidade pessoal, mas certo fracasso social (e também uma possibilidade de mudança), no sentido de que são pessoas portadoras de identidades desajustadas, mesmo que em grande parte devido a razões alheias à própria vontade.

Solomon, entretanto, é otimista. Estas identidades horizontais (que bem podem ser chamadas de ortogonais), mesmo que definidoras de uma distinção à filiação idealmente desejada, aquela na qual o descendente perpetua e verticaliza as características e a história de vida dos seus progenitores, são entendidas como mera expressão da diversidade e, o amor, o único elemento de adesão possível entre as pessoas.

Que outros livros você lembra-se de ter recebido uma crítica como a feita pelo The Observer em relação ao livro? – “Fazendo uma matéria sobre o Google, descobri que uma das dez perguntas mais feitas no mecanismo de busca é ‘O que é o amor?’. No futuro, o Google fará bem se indicar o extraordinário livro de Andrew Solomon àqueles que digitarem essa recorrente questão.”

No entanto é disso mesmo que se trata. O próprio Solomon corrobora essa perspectiva ao dizer que “a predisposição para o amor dos pais prevalece na mais penosa das circunstâncias.”

Longe da árvore faz uma aposta em um futuro menos árido para pessoas com identidade horizontal, segundo os próprios termos do autor. Isso depende, entretanto, menos das próprias pessoas em anular ou mascarar suas características do que pela necessidade cada vez mais expressa de reconhecimento e aceitação.

Embora seja uma palavra de simples significado, a aceitação comporta em um gesto bastante complicado, principalmente quando relacionada a filhos que até bem pouco eram renegados ou segregados institucionalmente. Isso vale para pessoas com síndrome de Down, esquizofrênicos e com todas aquelas pessoas cujas vidas deveriam ocorrer a partir de uma dissociação social e, principalmente, afetiva. Vidas afastadas umas das outras, como um arquipélago desconectado. O livro de Andrew Solomon é também como um grande mapa sobre pessoas que, no mundo contemporâneo, passam a existir socialmente a partir do reestabelecimento das relações afetivas e do reconhecimento.

Antes de chegar à solução do amor e da aceitação, ele descortina as grandes dificuldades inerentes ao convívio humano, especialmente porque envolvendo pessoas cujas especificidades biológicas e/ou culturais destoam do que poderia ser chamado de eixo da normalidade. Frustrações, negações, rejeições e exclusões estão presentes no livro. Mas também o afeto, a aceitação, a reciprocidade e a inclusão.

Lançado ano passado nos Estados Unidos, o livro foi vencedor do National Book Critics Circle Award 2012 na categoria não ficção. No website promocional do livro e no do próprio autor, vídeos com a participação de muitas das pessoas entrevistadas para a construção do livro (sim, construção, trata-se de um livro de 1050 páginas) dão uma amostra do colossal empreendimento do escritor e jornalista que já havia trabalhado a fundo sob o tema da depressão, a qual acometeu a ele próprio, em O demônio do meio-dia, que lhe valeu o National Book Award em 2001 e em 2002 chegou a finalista do Pulitzer.

No TED, em abril deste ano, Solomon antecipara alguns elementos do novo livro e apresentou suas ideias centrais, equiparando identidades e reafirmando que a disposição em amar é universal e que as identidades com as quais trabalhou em Longe da árvore são algumas entre tantas. Ele crê que a diversidade configura uma nova maioria, a maioria das minorias. Uma imagem social bem mais ampla que a previsível no “eixo normal”. A grande aventura do livro, entretanto, é o empreendimento da desconstrução de conceitos que por muito tempo articularam a rejeição e exclusão das minorias. Convertendo em identidades conceitos como doença, condição, síndrome, defeito e outros, ele recupera a trajetória humana de indivíduos reais, identificando as diferentes expressões pelas quais os vínculos sociais se estabelecem.

Sem deixar de ser um livro jornalístico para se transformar em uma espécie de Sociologia da contemporaneidade, ele como que ultrapassa o sentido de identidade estabelecido no clássico de Erving Goffman, Estigma: Notas sobre a manipulação da identidade deteriorada, no qual o indivíduo é sempre uma espécie de refém do social. Mesmo que não ultrapasse de todo, suas histórias de vida demonstram que já estamos ou podemos estar a caminho de um pacto social mais tolerante. Sua felicidade extrema foi ter reabilitado o sentido do amor como fundamento do humano e das relações sociais e afetivas.

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O mais recente livro de Yuval Noah Harari tem tudo para mais dia menos dia ser daqueles livros com os quais todos irão fatalmente tropeçar em qualquer grande livraria, ou se irá bater os olhos nele nas gôndolas dos aeroportos, ou ainda saltará na sua tela, qualquer que seja ela, em recomendações algorítmicas do seu fornecedor preferido. Talvez se devesse imaginar que isso tudo se tratasse do efeito de uma grande campanha de marketing viral, a começar pelo sugestivo título do livro, e completada pelas seguidas aparições midiáticas do autor, mas o mais certo talvez fosse considerar que Yuval novamente acertou a mão (que o digam seus editores) ao escrever um livro que as pessoas desejam ler e mais ainda porque suas “lições” agora dizem respeito ao tempo presente e seus fantasmas e fantasias mais atuais.

Um leitor inocente indagaria com o livro em mãos (ou em mente): mas isso é bom ou mau? Depende, seria talvez o mais apropriado a responder-se. Dependendo, sim. Dependendo, não. Ou, sendo o mais tolerante o possível, ambas as situações e respostas ao mesmo tempo.

Num país de alegado e documentado desinteresse pela leitura, não deixa de ser interessante que um livro de divulgação científica esteja disputando a atenção dos leitores contra uma variadíssima gama de subliteratura e isto por certo pesa a seu favor. Por outro lado, por sua própria presença na posição de mais vendido, seria possível alegar-se que então se trata de mais um livro fácil, um caça-níqueis, e isto talvez pesasse contra o autor e seu novo título.

Seja como for, ambas são apreciações superficiais e, desde que são colocados à venda, o que se espera é que livros vendam bem, portanto pelo menos aparentemente não há nem um crime em vista. Além do mais, essa é uma discussão que não chega ao limiar da relevância do livro em si mesmo, que é o que deveria importar, mas apenas demonstra a intensa desconfiança que tem cercado a publicação de qualquer livro de interesse histórico.

Algumas décadas de jornalismo histórico sobressaindo-se aos livros de e sobre história (e assim sucessivamente em outros campos do conhecimento) haveria de resultar num custo destes: neste caso, uma paranoia exorbitante. Para leitores que se acostumaram a identificar por livros de história apenas aqueles fartamente ilustrados e redigidos numa linguagem coloquial extremada, para não dizer banal, é importante dizer que o livro de Harari pode e deverá ter ainda muitas leituras críticas, inclusive desta espécie taxativa. Ocorre que na maioria das vezes estas são críticas irrelevantes, enquanto que seu livro é apenas acessível e um tanto quanto repetitivo no que confere aos seus argumentos e temáticas, mas isto parece não desapontar suas legiões de leitores mundo afora.

A noção de “irrelevância”, aliás, é das mais abordadas ao longo das lições por ele propostas e rapidamente se pode perceber que se encontra no fundo de muitas de suas preocupações com o tempo presente e também com o porvir. Ao passo em que fundamenta sua crítica ao tripé narrativo preponderante no séc. XX (o fascismo, o comunismo e o liberalismo), segundo ele em vias de ruir em prol de um mundo cada vez dominado e orquestrado por algoritmos, Harari localiza na expansão da tecnologia a nova grande ruptura no modo de viver de toda a humanidade a causar não apenas uma grande onda de desemprego em massa, mas a irrelevância de pessoas e até mesmo de nações inteiras diante da emergência tecnológica e seus grandes artífices, configurados principalmente graças ao desenvolvimento das inteligências artificiais. Com um assunto assombroso como esse e trabalhando sempre numa margem de que isso tudo venha a ocorrer em algumas décadas, Harari já ganhou a atenção de meio mundo a despeito de seus exageros, sejam deliberados ou não.

Não se trata, segundo suas lições, da obsolescência de ocupações e modos de viver que estariam por acontecer, mas do que está acontecendo já e cujos sinais se fazem sentir por toda a parte. Para Harari, o tempo presente é carregado por nuvens a impedir sua percepção com a clareza que anos de estudo em Oxford, na Universidade Hebraica de Jerusalém e longos períodos dedicados à meditação Vipassana permitiram-lhe entender de forma diferenciada. Talvez por essa razão é que a clareza, ou sua busca, de fato, parece ser o tom preferencial da maioria de suas argumentações. Apesar de localizar em torno do ano de 2050 o derradeiro colapso da humanidade, Harari o faz através de uma narrativa envolvente que em muitas vezes parece-se mais a um conto de fadas sombrio no qual o grande mal espreita o mundo globalizado enquanto os incautos creem poder dormir sob uma segurança apenas aparente.

Seria de esperar que suas 21 lições, ainda que tenham sido coligidas e baseadas nas ideias de muitos artigos, entrevistas e apresentações, trouxessem, para além de um diagnóstico circular, saídas viáveis para pelo menos boa parte da humanidade. Ao contrário daqueles que costumam postular na ascensão tecnológica a redenção da humanidade e a solução racionalizante para as mazelas tanto do corpo físico quanto social do humano, Harari prefere fazer as vezes do condutor da inevitável catástrofe, valendo-se para tanto de uma combinação de ceticismo e humanismo.

É em determinada altura de sua lição para a educação do século 21 que ele, no entanto, registra aquele que parece ser o grande conselho no que se refere ao futuro em todo o livro: “O mais importante de tudo será a habilidade para lidar com mudanças, aprender coisas novas e preservar seu equilíbrio mental em situações que não lhe são familiares. Para poder acompanhar o mundo de 2050 você vai precisar não só inventar novas ideias e produtos – acima de tudo, vai precisar reinventar a você mesmo várias e várias vezes.” Bem, para um país como o Brasil, tido como a “nação Rivotril” e que amarga o incômodo ranking de líder mundial em transtorno de ansiedade e quinto lugar em casos de depressão, segundo dados da OMS, trata-se de um conselho desanimador, ou então (preferivelmente) pueril.

Não que seja próprio do ser humano acalentar esperanças inúteis, mas esta parece ser mais uma revivificação da ideia marxista da decomposição da solidez, retomada tantas e tantas vezes sob diferentes formas durante o séc. XX a ponto de ainda conseguir parecer inédita ou, mais que isso, converter-se em aconselhamento de sobrevivência no mundo pós-capitalista. Este parece ser o ônus com o qual têm de arcar todos aqueles que se aventuram a predizer o futuro: esbarrar na muralha de antigos conceitos e da imprecisão histórica. Também parece um pouco a sina de que Philippe Ariès comenta no seu O tempo da história, da dificuldade em conceber-se claramente o contemporâneo, já que ele traz consigo o sentimento natural de uma época.

De qualquer forma, a partir da publicação da sua ambiciosa trilogia histórica, Harari tornou-se um debatedor importante ao longo da última década, ainda que muitas vezes reverbere como apenas mais uma dissonância sutil do tempo presente e seus insights fugazes enquanto o tempo engole a todos indiscriminadamente. Suas preocupações, recheadas de exemplos obtidos da história comparada, têm lastro e muitos interessados num mundo com excessiva pressa para ler e comparar e ávido por lições de quem advoga para si um misto de qualidades ímpares, tais como o ceticismo, a isenção e o distanciamento misantrópico. Condenando rapidamente aquele que talvez ainda seja o bem mais caro à civilização, o livre-arbítrio, a um papel subalterno no ordenamento dos fatos políticos e subjetivos, Harari realiza em suas lições muitos alertas importantes, mas corre o grande risco de ele mesmo acabar por denegar a espécie humana sua capacidade de discernir por conta própria.

Em sua narrativa, em lugar da consciência há cada vez mais a onisciente inteligência artificial do Google e de outras gigantes do Vale do Silício. No lugar da espontaneidade das relações humanas, a aventura seletiva das redes sociais e a desintegração das comunidades. No lugar do conhecimento e da diversidade humana, apenas algoritmos e Big Data. No lugar das idiossincrasias regionais e culturais, uma teia cultural reordenando o mundo em estruturas anômicas e situadas para além da compreensão humana.

Num mundo e tempos tão complexos como os narrados em sua não tão breve história da humanidade, é chegado o tempo em que Harari se tornou imprescindível para entendê-los e isso só pode ser muito bom para ele mesmo e seus leitores. Ocorre que mesmo em posse de livros sem dúvida bem elaborados e escritos, ainda assim é impossível garantir que o seu maior temor, o da irrelevância, não possa igualmente vir a atingi-lo numa outra narratologia superveniente, e isso não seria exatamente uma boa notícia. Bem mais prudente seria afirmar que, por enquanto, seus livros colaboram em acautelar-se com o presente e com o futuro. Trata-se de mais uma ambiguidade, mas dada a gravidade e a irrevogabilidade dos processos históricos, não cabe ser inocente nem com livros, nem muito menos com alertas apavorantes sobre o futuro.

Nude antsNude ants

É maio de 1979. Você dá por si e bem que poderia estar em Nova York, no Village Vanguard, escutando a gravação de Nude Ants (mas que título é esse, “formigas nuas”?). Tudo ali é muito curioso. Mas, nesta noite, tudo deve ser mesmo muito curioso, portanto acomode-se. Tente não estranhar nada. E, afinal, você sabe que não entende nada mesmo. E se tentar entender, adeus, já está perdendo, já está perdido. Não é meio estranho ouvir esse sujeito do sax improvisando, ele que nunca pareceu à vontade com isso, ele simplesmente aceitou todos os pontos de fuga solicitados pelo piano e que o contrabaixo não deixou sem costura e o baterista não permitiu desabar. E as coisas vão indo desde o começo de um modo impensado. Obstinados como formigas, eles comunicam-se apenas pelas ondas sonoras e olhares relampejantes. KJ está, como sempre, de olhos fechados na maior parte do tempo. JG, pelo contrário, está vertical como uma palmeira. PD sorri para todos (não sei a razão, mas contrabaixistas sempre sorriem para todos; parece que ele está dizendo-lhes algo como “podem viajar” aí que eu busco vocês) e JC, bem, você não deve tentar entender isso, JC pensa que está tocando piano nos cymbals – e o pior: você pensa que está entendendo perfeitamente. Nude Ants é de uma música doce demais para o jazz estridente do fusion. É estridente demais para o smooth vindouro. Era música demais para um neófito como eu, que o conheceu da forma certa, subfluindo tanto na delicadeza de Innocence, ouvindo a esmo os trinta minutos de Oasis, quanto na balbúrdia extasiante de New Dance. E as formigas, e nuas ainda por cima? Meu amigo, minha amiga, se depois disso você ainda consegue pensar em formigas, é claro que elas só poderiam estar mesmo nuas..