Turismo para cegos

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  • Revista Amálgama

A pior reação que um livro, seja de que gênero for, pode causar em uma pessoa é nenhuma. Ser uma leitura como a de uma bula de remédio ou do invólucro de uma pasta de dentes é, para os efeitos da leitura, o mais alto anticlímax que um livro pode obter. Do outro lado da moeda, há os livros que desde o primeiro parágrafo sacodem os nervos do leitor, desacomodando-o. Fazendo com que desperte do seu ensimesmamento. Aos livros que têm essa capacidade, para todos os efeitos, eu costumo dizer que são meus livros de boxe. São livros que não me espantaram pelo rigor formal ou por qualquer inovação estética, mas por terem sacudido, como em um ou mais golpes, os sentidos e o que vai por dentro deles, seja qual for o nome que se use para isso.

Turismo para cegos, romance de estreia de Tércia Montenegro, é um livro que se impôs muito sutilmente nessa classificação. Digo sutilmente porque é um romance permeado de nuances psicológicas e personagens apenas aparentemente delicados que se revelam mais humanos justamente na medida em que mais se pode percebê-los complexos e falíveis.

O livro conta o romance entre Laila e Pierre. Ela, uma estudante de artes visuais que vai se descobrindo cega em razão de uma doença degenerativa denominada retinose pigmentar. Ele é um funcionário público que se decide a ajudá-la nesse momento crucial da vida, mas com a perplexidade afetiva de quem se encontra, por sua vez, também desamparado e buscando conhecer-se melhor.

Na literatura brasileira, personagens cegos não são novidade, mas também não há muitos. No papel de protagonista, então, diminuem bastante. Via de regra, a deficiência sensorial costuma surgir como uma característica redentora da pessoa, como um poder especial ou uma dificuldade tornada artifício, assumindo como se uma forma de compensação. A Laila de Tércia Montenegro, contudo, passa muito longe do estereótipo. Ela é irresignada, em certa medida amargurada e nem um pouco interessada em transformar sua vida num transbordo de piedade e comiseração.

Talvez este confronto de Laila com um mundo que se dobra forçosamente à condição da deficiência e que é espontaneamente inadequado e inacessível, inclusive delimitando o discurso e o raio de ação dos demais personagens, possa criar ao leitor um ambiente desconfortável. Isso acontece porque Tércia não se ampara na hipótese da condescendência, nem a social nem a afetiva. O tom por vezes até agressivo de Laila para com Pierre, ou de sua recepção ao modo como ele presta cuidados, parece ser um reflexo da sua própria interlocução com o mundo, interrompida pela deficiência que lhe tomou justamente o que lhe era mais caro: a estética visual. No romance Laila é, além de estudante, também artista plástica. E Pierre é também o nome que ela dá ao cão-guia que irá ajudá-la em sua mobilidade.

No novo mundo de Laila, não cabem eufemismos politicamente corretos nem uma jornada pela superação, como é presente em muitas narrativas sobre deficiências, mas o enfrentamento da realidade social e individual, mesmo que ao custo do endurecimento afetivo e de muitos desencontros interpessoais. De certo modo, muito do que se depreende da personalidade de Laila é predominantemente dado pelo que é narrado de sua voz interna, uma vez que sua ação delimita-se pela relação de dependência com Pierre, que é ao mesmo tempo asfixiante. Imbuída de um temperamento instável, a Laila de Tércia vai tentar romper no plano real com as amarrações que a deficiência lhe impõe, exigindo uma dose considerável de coragem para conduzir-se com coerência e veracidade. Coragem e alguma temeridade, portanto, são as apostas de Tércia tanto para sua protagonista quanto para o enredo proposto.

Coincidentemente ou não, Turismo para cegos é também um livro bastante visual. Mesmo quando Tércia internaliza a narrativa, ela o faz como se procurasse demonstrar a eficácia da palavra em transmitir as impressões sensoriais e em fixar o mundo de forma objetiva. Em muitos momentos da narrativa, quando a ação é suspensa e a introspecção toma corpo, torna-se muito fácil entender as reações psicológicas de Laila, justamente porque são descritas com o rigor e a vontade de quem procura não deixar dúvidas sobre os sentimentos, mesmo em suas repercussões mais veladas, já que em última análise é deles que provêm a força narrativa do romance.

É esta coragem precisamente que, para mim, o faz com que o coloque junto ao que chamo de “livros de boxe”, porque é um romance que se realiza através de um esforço que luta contra os desfechos previsíveis e personagens caricaturais, quando só aparentemente a deficiência poderia impor soluções fáceis ou cartadas certeiras. Em Turismo para cegos, se a inocência não resiste a um round inteiro, tampouco os leitores serão conduzidos através de um cenário plenamente sólido. A consistência do romance de estreia de Tércia talvez encontre-se justamente na impossibilidade de antecipar-se o comportamento humano, mesmo diante do abismo imposto pela deficiência visual.

Mesmo que a autora pinte com nitidez o ambiente psicológico de seus personagens, seu livro fixa-se mais por tornar evidentes as incertezas inerentes à vida e seus efeitos nas decisões dos personagens do que por traçar-lhes um destino inescapável, dado ou não pela condição da deficiência. Neste caso, por irascível que possa parecer à primeira vista, sua Laila tem a inconformidade necessária a quem deseja, a despeito de tudo, permanecer em combate e não se dar por vencida. Se um livro “de boxe” precisa de um lutador, o certo é que Turismo para cegos conta com um deles.

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Em negativoEm negativo

Não sei em quantos, nunca contei, mas em boa parte dos poemas que escrevi costumo falar “em negativo”. Não o negativo da negatividade “psíquica”, me refiro à negatividade “narrativa”.

Escrever “em negativo” não tem nada de mais. É dar a ver o presente pela ausência, o aparente pelo oculto, enfim, o positivo pelo negativo.

A mim me agrada eu acho que pela sugestividade, quer dizer, pelo que se consegue entregar de incompleto ao leitor e que ele terá de por si mesmo preencher com a sua imaginação “positiva”. É como se fosse escrito apenas um baixo relevo, para depois ser preenchido por quem estiver lendo, com a sua matéria-prima, repertório, etc.

No mundo da poesia, a perspectiva nem sempre é bem reputada. Especialmente por aqueles devotos à concretude poética e à racionalidade — os detratores da subjetividade. Alguns diriam que se trata de uma impossibilidade, porque o que assim se procuraria narrar é o não acontecido, o não-fato, a inexistência. Seria um esforço, portanto, inútil.

Eu nem discordo quanto à “utilidade”, embora o conceito seja exógeno à arte, mas o que eu acho é que é apenas pouco imaginativo nos limitarmos pelo mundo visível, das imagens verbalizadas, e marcá-los na linha do tempo para que existam.

A vida mental, do espírito, é muito mais larga que essa pequena ruela da realidade visível. É claro que alguma pessoa pode desejar muito isso e fixar-se nestes limites e neles encontrar tudo do que precisa de simbólico, mas daí a uma generalização instrutiva vai uma grande distância, já que do lado do leitor felizmente não temos qualquer possibilidade de controle.

Nada me aborrece mais, como leitor de poesia, quando sinto que o/a poeta quer me tanger página afora, conduzir ou delimitar meu campo mental e imaginação. Esta perspectiva de apreciação “plástica” do poema não funciona bem comigo. Não por acaso, funciona bem com as artes plásticas. A perspectiva que me motiva é muito mais musical – mas não no sentido matemático da música, senão por sua capacidade de induzir o aparelho sensorial e perceptivo.

É claro que isso não significa que não posso ou não consigo apreciar um poema “positivo”, “solar”, “assertivo” ou “concreto”. Não apenas posso como costumo apreciá-los. No entanto, eu aqui estou dizendo do que prefiro, e prefiro os “negativos”, “sugestivos” e “lunares”.

Isto também não significa que prefiro o mundo desconhecido e místico ao palpável e tridimensional. Até porque quanto ao “desconhecido” não se pode fazer muito mais do que um grande silêncio, porque para ele não temos nem palavras. Ao menos me parece que não deveríamos ter.

Não, não é quanto a esse “assombro” que me refiro, mas à sutileza de notar no mundo a sua incompletude, as coisas que o tempo fez acabar, o residual das coisas materiais e a permanência da ação humana sobre o mundo, que é impalpável, certo, mas que pode ser percebida se não estivermos limitados pela condução inclemente do aqui e agora arbitrário e informativo.

O que me faz pensar nisso é que a nossa atenção e pensamento são constantemente desviados para camadas não aparentes da realidade. Há um mundo invisível ocupando o visível. Isto é uma obviedade fisicamente comprovada, basta pensarmos na atmosfera e no que a compõe. Embora não a vejamos, está ela sempre interferindo diretamente em nossa condição existencial. Também os microorganimos e as ondas de radiofrequência que transportam mensagens para lá de complexas. E o que mais pudermos imaginar mesmo sem o ver.

O que acontece é que muitas vezes apenas conseguimos demonstrar algumas coisas por exclusão. Se isto vale na lógica, que demonstra a forma pela qual pensamos, por que não funcionaria em outras formas de pensamento? Mas com isto eu não quero dizer que podemos forjar qualquer imagem e significação a uma realidade passada ou narrada. Na verdade, podemos, mas, ao fazermos, positivamos esta historicidade e então precisamos confrontá-la com a experiência dos outros.

Com essa minha “defesa” da negatividade, eu somente quero mesmo é demonstrar que não é apenas por um juízo moral ou amoroso que se pode ou deve ler um poema. Uma leitura assim, na verdade inutiliza o poema. Um poema que “diz muito”, “assevera” ou “instrui” torna-se, no meu juízo, ainda que belo e correto, intragável. E como diz Hannah Arendt em “A vida do espírito”, o pensamento sempre lida muito mais com ausências do que com o que lhe é reconhecível e óbvio.

Não “é o que temos”, como diz o bordão conformado das redes sociais. Por outro lado, é “o que não temos”. É o que precisamos imaginar, até mesmo para poder ambicionar mudar o que somos e assim nos sentirmos, talvez, um pouco menos vegetativos e dependentes da identidade.

Sair de si mesmo exige uma mudança profunda de perspectiva. E se a poesia me deixa no mesmo lugar onde estou sempre, não sei do que me serviria. Um auto-encanto, um narcisismo de motivos, coisas que não me importam. Eu preciso mesmo é de que me leve, como a música, para o mais longe possível do mundo das aparências, das reais e das inventadas. Mesmo que às vezes ela se dissolva no instante mesmo de sua apreensão.


Poema presente no livro “Inventário”, de 2021.

O atado de ervas de Ana MarianoO atado de ervas de Ana Mariano

Conheci tardiamente a autora gaúcha Ana Mariano. Se tivesse conhecido antes, já a teria lido. Ao fechar a última página do seu Atado de ervas (e ao abrir a primeira de Pra amanhecer ontem) foi muito difícil evitar a sensação de tempo perdido em outras leituras e autores. Se isso parece um elogio, então é porque consegui me expressar com clareza: é disso mesmo que se trata.

Sempre detestei, para falar de um livro ou autor, compará-los a outros. Penso que cada qual tem seu valor e demérito próprios e que a graça dos livros, pelo menos no que diz respeito aos leitores, reside justamente na diversidade de estilos, tendências, dicções, etc. Algumas vezes, porém, é muito difícil evitar comparar-se um autor com uma tradição, seus contemporâneos ou, principalmente, às tendências de determinada época. A despeito de tudo isso, minha impressão final ao concluir a leitura de Atado de ervas é de quem esteve por muitos momentos diante do inusitado. E de que as vantagens comparativas do romance acabaram quase sempre por superar suas desvantagens.

Leitores pouco afeitos à ficção escrita com narrador externo, onisciente, talvez se sintam um tanto deslocados ao dar com o livro. Como é sabido, em tempos recentes têm prosperado bem mais as narrativas em primeira pessoa, assim como a controversa autoficção. Há muitos destes livros que gosto bastante, mas confesso certa (na verdade uma bem significativa) saturação para com o estilo. Isto não se refere a nem um autor em específico, mas, no que me toca como leitor, preciso dizer que um livro como Atado de ervas funcionou, de fato, como um inesperado respiradouro.

Há fatores que poderia apontar para a sensação. O primeiro deles é o arejamento geográfico da trama: a paisagem ampla e inesgotável do pampa rio-grandense. A sensação, porém, não é só devida à paisagem pela paisagem, como numa finalidade em si mesma: deve-se bem mais à possibilidade de acompanhar-se a narrativa não sob o encurralamento da percepção de alguém em específico, mas de um universo mais amplo e multifacetado. Das personagens de Atado de ervas podem-se distinguir biografias, nexos afetivos e motivações psicológicas. Não se trata de uma coleção impessoal de nomes e isto por si só propicia ao leitor o escape da sensação de asfixia que muitas vezes acompanha as narrativas monocráticas. Este é bem o segundo fator de arejamento ao que me referia.

Na perspectiva de uma literatura predominantemente escrita por homens, Ana Mariano inculca na aspereza de trato da linguagem e da cultura do meio rural gaúcho uma intensidade poética não muito sensível nos autores locais, mesmo nos pontos máximos do romance histórico rio-grandense, como em Érico Veríssimo ou Luis Antonio de Assis Brasil. Isto, porém, não torna o romance nem mais fácil ou, por outro lado, mais suave. Muito pelo contrário: é uma dicção que humaniza o elemento histórico, destacando-lhe de qualquer aparência historicista ou didática. Também não custam sequer vinte páginas para perceber-se que Atado de ervas está completamente fora da detestável caixa conceitual “literatura feminina”. Se as personagens femininas são centrais ao romance, isto se deve a outra perspectiva: a de que os indivíduos diferenciam-se do cenário independentemente de qualquer característica e muito mais pela relevância de suas personalidades e em função da coerência narrativa.

Porque iniciei falando em vantagens e desvantagens (e para que não pareça elogio deslavado), evidentemente há momentos mais e menos intensos no romance, assim como personagens melhor desenhados que outros. À exceção óbvia, dos excepcionais, acho quase impossível encontrar-se um livro de ficção indefectível, constante, perfeitamente solfejado. Sempre há momentos de fraqueza, fadiga e também de alguma falha na autocrítica do autor. Tudo muito normal e humano, penso eu.

Pensando ainda melhor, admiro muito a capacidade dos escritores em contornar os maus momentos narrativos e transformá-los em peças integrantes de suas tramas. Não sei a razão, mas a mim isso (ou a atitude em salvar um personagem mediano da mediocridade, por exemplo) confere um maior realismo à ficção ou, pelo menos, maior proximidade com a vida real que, como se sabe, jamais é um enlevo permanente. É uma tarefa das mais complicadas e trabalhosas. Notar isso, portanto, não me remete a qualquer problema estrutural ou desvantagem, mas ao trabalho intenso que um romance requer.

Autoral sem deixar ser agradável e lírico sem deixar de ser reflexivo, Atado de ervas é um romance que atende unicamente por literatura. Permitindo antever uma poesia nem um pouco superficial, mas inerente às minúcias da vida das personagens, o romance evita a rudeza com que se costuma pintar a vida no meio rural e, ao mesmo tempo, providencia um sentido histórico, causal, às muitas amarrações que o romance dá entre pessoas e famílias que acompanham as mudanças históricas e políticas no Rio Grande do Sul entre as décadas de 30 e 60 do séc. XX.

Finalista do Prêmio São Paulo de Literatura em 2012, talvez devesse ter iniciado a ler e escrito sobre Pra amanhecer ontem, lançado no fim de 2017 pela L&PM, mas calhou de conhecer por primeiro seu romance de estreia. Ainda dissolvendo o efeito da leitura de um, deixo que aos poucos o enredo do outro vá imiscuindo-se em minha memória. Como se estivesse também de alguma forma amarrado, acho que vou também precisar de um “atado” de Miguelina para dar jeito nisso.