E R R A T A – p/ Lucio Carvalho Crítica Os altos decibéis de Luciana Pestano

Os altos decibéis de Luciana Pestano

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No centro de Porto Alegre, há uns anos atrás, conheci um curioso vendedor de discos. Sua loja ficava quase escondida em um prédio antigo de salas comerciais e não tinha letreiro, placa na calçada, coisa nenhuma. Propaganda zero. Mas tinha clientes assíduos e um acervo incomum de gravadoras pouco usuais nas grandes lojas do ramo. Discos independentes brasileiros, em sua maioria. E também selos importados de jazz, blues, rock e otras cositas más.

Deixava com ele boa parte do pouco dinheiro que tinha na época (não que esteja distribuindo hoje, frise-se). Hoje vejo claramente que, se tivesse investido na bolsa de valores, eu até poderia estar rico, mas com certeza bem mais pobre de espírito. Ele era engraçado, tinha discos que não gostava de vender. Dizia: “Pôxa, tu vai me levar esse aí?”, mas no fim concordava, afinal tinha contas a pagar no fim do mês, como qualquer cidadão.

Foi das mãos dele que recebi muitas gravações que guardo com carinho e espanto renovado, porque parecem conservadas por alguma magia que as mantém como se intactas, como se num desvão do tempo. Muito antes que se encontrasse de tudo na internet, por meios às vezes pouco legais, foi que tratei de garantir para mim um exemplar do disco homônimo de “Luciana Pestano”.

O disco, gravado em 1997 pelo selo Antídoto, da Acit, foi o primeiro da cantora e compositora gaúcha e é aberto por uma faixa que ganhou, na época do lançamento, as rádios locais e, logo a seguir, a atenção de muita gente Brasil afora, principalmente depois da veiculação do clipe na MTV e o relançamento do disco pela Polygram. É a vigorosa “Vá embora”. Mas, além de “Vá embora”, o disco traz um apanhado de excelentes composições nas quais a voz marcante de Luciana vibra pesado, imprimindo seu tom muito pessoal no rock tardio dos anos 90, como as faixas “Abalada”, “Santo Cristo” e outras. Talvez todas.

Depois de lançar aquele álbum, Luciana ganhou a estrada, tocou Brasil afora, atravessou fronteiras, encontrou parceiros e continuou compondo, isso dentro de um processo muito particular e, de certa forma, um pouco desencontrado do pop que passou a dominar a cena musical da virada do milênio. Ainda assim, mesmo que com sua evidente identificação com o rock e o blue, muitos compositores perceberam que nela o ritmo vibrava em alto decibel (para não dizer quilate), sendo uma extensão quase natural tanto do seu timbre vocal quanto da sua expressividade.

Nesse período, Herbert Vianna foi um parceiro importante, coincidindo com sua mudança para o Rio de Janeiro. Anos depois de participar no álbum dele, “O Som do Sim”, na faixa “Eu não sei nada”, ele retribuiu no segundo disco dela, “Tigra”, de 2008, na faixa “Entre você e eu”. Além de Herbert, o disco trouxe parcerias com Antônio Villeroy, Mu Chemabi e outros músicos.

Em “Tigra”, produção independente, Luciana não fez senão confirmar o que se anunciava em seu primeiro disco. As baladas levadas pelo violão de aço e as batidas ácidas, às vezes flertando, às vezes nitidamente abraçadas ao post-punk e ao rock industrial amadureceram em letras cuja interpretação e vigor vocal não perderam em nada desde o primeiro disco. Para confirmar o que tento dizer, basta ouvir aqui a faixa “Leonino”.

Se na música brasileira pode-se dizer que a figura majestosa de Rita Lee impôs-se por um conjunto ímpar de características como a “roqueira por excelência”, não foram muitas as cantoras que adotaram ou seguiram o estilo para forjar sua expressividade. Mesmo Ângela Rô Rô ou Cida Moreyra, que gravaram baladas roqueiras principalmente nos anos setenta, fizeram-no incidentalmente e não integralmente como vem fazendo Luciana em sua carreira.

Talvez porque a música brasileira sempre tenha oferecido possibilidades interpretativas abundantes em outros estilos e absorvido a atenção de compositoras e intérpretes, apenas com a ascensão do rock nacional nos anos 80 pode acontecer uma aproximação cultural mais amigável com o rock, possibilitando o surgimento de novos compositores. Ainda assim, é de contar nos dedos ainda hoje as cantoras que realmente fazem jus ao estilo, sem que pareçam simulações mais ou menos bem produzidas de artistas estrangeiras. E hoje, como estilos fundem-se e reinventam-se sem parar, quem é que vai dizer o que está ou não valendo?

Por isso é interessante ouvir com atenção o que cada um tem a cantar antes de declarar o que quer que seja. Luciana Pestano, no momento finalizando a produção de seu novo trabalho, mostra que, além de qualidades vocais, tem uma persistência fincada na identidade do rock, coisa que desde o primeiro acorde que se escuta em seus discos pode-se deixar de duvidar.

Ainda não sei quando vai ser o lançamento nem onde vou encontrar (provavelmente não vai mais ser numa loja obscura no centro de Porto Alegre) o seu novo (até onde sei pagão) trabalho, mas para manter a coerência discográfica da minha modesta coleção a aproveitar ainda mais a sua voz, o certo é que este também não vou deixar faltar.

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A sobrevida de Sherlock HolmesA sobrevida de Sherlock Holmes

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Exceto na forma de plágio, diferentemente da música e eventualmente até mesmo das artes visuais, a literatura é uma arte que não suporta interpretações. Por isso que as tentativas de imitação de obras consagradas costumam parecer transgressões de puro mau gosto, e isso vale desde as tentativas não noticiadas (supostamente originais) até os chamados livros psicografados, nos quais os “espíritos” de autores voltam a escrever, ainda que sua passagem para a outra vida já tenha acontecido há anos. Uma forma efetivamente original de prolongar a vida de um personagem, embora questionada por muitos que não apreciam esse tipo de ficção, há poucos anos rendeu na literatura e no cinema um momento que seria impossível perceber na vida de um dos maiores, senão o maior entre todos, personagens da literatura policial de todos os tempos: Sherlock Holmes.

Mr. Holmes, filme apresentado no Festival de Berlim de 2015 e que aportou tardiamente no Brasil, posteriormente até a edição de 2016 do festival, chega quase ao mesmo tempo nos cinemas e nos formatos DVD, Blu-Ray e streaming. O filme mostra a velhice de Sherlock Holmes e é uma adaptação do romance A slight trick of the mind, do norte-americano Mitch Cullin, autor inédito no Brasil.

Vivificado por um Ian McKellen que nem de perto lembra seus personagens mais conhecidos,  como o mago Gandalf, de O senhor dos anéis, ou o mutante Magneto, de X-Men, no filme dirigido por Bill Condon o clássico personagem de Conan Doyle se encontra em franca luta pela manutenção de um dos mais importantes recursos de todo o investigador e talvez o principal artefato cognitivo de qualquer pessoa: a memória. Além disso, no filme Holmes se vê confrontado com limitações naturais da velhice, como o enfraquecimento físico e o adoecimento, mas principalmente com as dificuldades de aceitação da condição. No filme, Holmes está bastante velho, mas continua trabalhando.

Mérito de um roteiro muito bem arquitetado e um excelente conhecimento do personagem, o filme obtém um ritmo narrativo sequencial, paulatino, no qual a experiência e vida pregressa de Holmes vão oferecendo contornos cada vez mais precisos ao momento atual de vida do personagem, intrincando a trama em um caso investigativo cujo apagamento progressivo da memória exige dele o uso de seus mais conhecidos atributos: a sagacidade dedutiva e o método científico. As surpresas do filme, porém, não se encerram por aí, e um de seus méritos é justamente dimensionar o homem preservando-se o mito do personagem, e este feito, em se tratando de ficção biográfica, é por si só um atestado de qualidade, principalmente por fugir da banalização e do uso venal de um personagem consagrado da literatura universal.

Numa época em que, tanto na literatura quanto no cinema policial, os conflitos são cada vez mais resolvidos com base na violência ou em superpoderes, não deixa de ser notável a busca por recuperar no uso da razão e da inteligência formas de compreensão dos fatos e enquadramento da realidade. Na extensa galeria de personagens investigadores da literatura, desde os criados por Edgar Allan Poe, Raymond Chandler, Maurice Leblanc, George Simenon, Agatha Christie e tantos outros clássicos do gênero policial, o que costuma estar marcado é o refinamento da inteligência em contraposição à ignorância e ao obscurecimento.

Que a literatura e o cinema estejam indo buscar inspiração e personagens no século XIX talvez possa ser um sinal de que, no tempo presente, nos esteja sobrando brutalidade em detrimento de qualquer sutileza. Pode ser uma interpretação apressada, claro que pode, mas a verdade às vezes não se revela ou demonstra apenas por um tipo de sugestão mais ou menos convincente? Para a maioria dos meros mortais é quase certamente que sim, mas isso jamais seria concebível para Sherlock Holmes. E mesmo em um filme em que se prolonga a sua existência para muito além do que imaginou seu autor original, a ele caberá dissolver tanto mistérios e culpas passadas quanto compreender sua própria condição. Trata-se de uma tarefa que mesmo a ele é custoso admitir, já que a ninguém é facultado saber tudo e as razões para uma pessoa perceber isso só fazem sentido individualmente, e quando fazem. No caso do bom e velho Sherlock Holmes, é uma dúvida que só ao final da história se pode saber. Além da atuação magnífica de McKellen, essa é mais uma razão pela qual o filme não permite sequer piscar os olhos.

O radinho da Simone: espalhado Brasil adentroO radinho da Simone: espalhado Brasil adentro

Assim como há música que são como calçadas, espalhadas Brasil adentro, onde se encontra de tudo – e isso é uma benção de poucos lugares – há músicas que parecem que encontramos nas ruas, como um vizinho antigo, uma fachada intacta ou lugares que mudaram, aqueles que nos últimos tempos puderam mudar pra melhor.

Assim é o radinho da Simone, que encontrei quase sem querer pipocando de lá pra cá, nessa chapa quente que é a internet. A Simone de quem falo é a Simone Guimarães, a cantora que tem a voz do Brasil de dentro por dentro de si e que, quando bota isso pra fora, faz a gente sair procurando onde está o Brasil dentro de nós. E ela nos diz (sem mesmo saber) que ele está onde esteve sempre esteve, lá, ali, aqui, um pouco aos nossos pés, um pouco oculto e inacessível, mas ainda assim inteiramente nosso.

No radinho da Simone há coisas gravadas há bastante tempo, desde os tempos miraculosos de Piracema até os trabalhos mais recentes, não menos miraculosos, de Casa de Oceano ou Flor de Pão, registrados pela Biscoito Fino. Há também coisas pra descobrir: letras antigas de um Cacaso, canções plantadas no leito de um rio, na borda de uma janela em flor ou noutras jóias e pepitas desse pequeno grande tesouro esperando ser descoberto…

Sempre resta uma dúvida ao escutar a Simone: é preciso decidir rapidamente se as suas escolhas foram feitas pensando em sua voz ou se sua voz é que foi forjada por suas escolhas. Como a resposta não está escrita em lugar nenhum, o jeito é botar o radinho pra tocar mais uma vez. E tentar decidir jamais.
Com licença, por obséquio, que eu preciso ouvir esse radinho aqui um pouco mais.

A tirania do amorA tirania do amor

Em dado momento do mais recente livro de Cristóvão Tezza, (A tirania do amor – Todavia, 2018) a personagem de Rachel, recém-separada do protagonista do romance, de sugestivo nome Otávio Espinhosa, é revelada como uma “leitora voraz de romances”; alguém capaz de resumi-los em duas ou três frases. O protagonista, por seu turno, embora tenha o perfil intelectual de quase um gênio matemático, trata-se de alguém que nunca foi um grande leitor de literatura. Autor sob pseudônimo de um best-seller de auto ajuda, o economista em vias de ser demitido de uma importante financeira lembra-se de ter aprendido tudo o que importa saber da alma humana em Crime e Castigo, de Dostoievski e a avaliá-la consultando a Ética de seu “antepassado” Baruch Espinosa. E o que mais ele se interessa em ler são as notícias da economia sobre as flutuações cambiais, mercadológicas e economicistas do Brasil do ano de 2017.

Este pequeno esclarecimento de Tezza a respeito de seus personagens centrais é irrisório diante de tudo o que ao longo do livro se pode saber a seu respeito, mas, ainda assim, não deixa de ser uma amostra simbólica de suas personalidades e também um disfarçado elogio do autor à literatura. No caso, o intensamente racionalizador Otávio é contraposto a supostamente acolhedora Rachel. Fosse o contrário, ele o ávido leitor e ela a economista insípida, não se alteraria o valor do que é proposto e se saberia exatamente o mesmo, isto é, que o interesse pela literatura pode favorecer no indivíduo o florescimento e amadurecimento de suas capacidades compreensivas e afetivas e que a matemática, áspera e gélida, pode muito pouco no sentido de melhorar o humano, embora em muitas situações possa ajudar a explicá-lo.

Mesmo longe de ser o mais relevante a ser dito a respeito do mais novo romance do autor do realmente best-seller O filho eterno, a relação do casal em processo de desfazimento para com a literatura diz muito a respeito de seu protagonista (e também de seu autor). Tendo por nome quase um trocadilho, Otávio Espinhosa é pessoa de uma afetividade opaca e de uma inteligência lógico-matemática vibrante. De sua biografia, pouco se sabe além de sua formação em Harvard e um presente caótico, no qual sua capacidade de cálculo magnífica e a obsessão por contabilizar até mesmo os passos na rua se mostra incapaz de ampará-lo da ruína iminente. É de um estado de descalabro afetivo, existencial e moral, isto é, totalmente generalizado, que Tezza deseja nos mostrar os descaminhos do mais tormentoso dia da vida de seu difícil e pouco empático personagem de meia-idade.

Não leva muito para que se consiga notar o caos mental e existencial em que se encontra Otávio Espinhosa. No mesmo dia em descobre que a mulher tem um amante e deseja separar-se e está por perder o emprego, ele decide abdicar em definitivo da vida sexual ao mesmo tempo em que passa a entabular mentalmente todo um jogo de racionalizações que vão conduzindo-o como que para dentro de um furacão. Espinhosa parece muitas vezes nem respirar e é jogado de lá para cá pelos fatos presentes, pelas suas projeções futuras e por lembranças de um passado que pouco a pouco já não lhe diz respeito e do qual vai se alheando cada vez mais, a despeito das tentativas de fixar-se e conter os efeitos das decisões dos outros e também as decorrentes de suas próprias ações e passividade.

Diante do futuro imponderável, a amargura de quem foi preparado pelas convicções de seu pai para ser nada menos que um gênio, o “seu Mozart”, ele topa-se frontal e incessantemente contra a autonomia da alteridade. A essa altura da vida, tudo lhe soa vulgar e seu cambiante heterônimo filosófico, Kelvin Oliva, com seu livro de dicas milagreiras de bem estar financeiro e emocional, parece constantemente punir-lhe com suas pregações inúteis e filosofia de quinta categoria, além do “parente” Espinosa.

Na vida real, Espinhosa é confrontado pelos filhos adolescentes, pelos fantasmas da ex-mulher, de uma antiga e de uma nova namorada que o atormentam ao desnudá-lo mentalmente a todo o instante, como se formassem um superego abrangente sobre o qual ele necessita sobreviver. Sua situação apenas não é mais tenebrosa do que a da empresa em que trabalha, cujos escândalos prestes a serem revelados talvez lhe custem o emprego e a sobrevivência. Nesse fatídico e interminável dia, todo o mundo lhe parece tragado pela fantasia da vulgaridade econômica e cultural. Ele mesmo, em perspectiva, vê-se como um embuste, principalmente em razão de sua realização intelectual mais notória: o sucesso provisório de seu livro A matemática da vida.

Contra o pano de fundo da contemporaneidade brasileira, Otávio Espinhosa (nome que de acordo com a ex-mulher Rachel se parece a um ouriço), é um personagem acidulado que vai buscando reorganizar-se mentalmente (sempre muito mais mentalmente do que emocionalmente) a fim de sobreviver à própria percepção de inadequação de um modo de vida que, afinal, lhe trouxe aonde trouxe, mas do qual não sabe sequer se deseja mesmo livrar-se ou superá-lo.

Se o senso comum dita que a idade traz a sabedoria, Espinhosa parece tão imaturo e renitente quanto seu filho Daniel, um estudante de jornalismo engajado em novíssimos movimentos sociais que em arroubos pseudoindependentes vem deflagrando uma guerra contínua contra ele, o modo de vida burguês que ele representa e o filho naturalmente abomina. Ele também não conta com a mesma placidez da filha Lucila ao buscar diante de um futuro vestibular um caminho em que apenas lhe interessa a auto realização. Espinhosa, entretanto, parece cada vez mais influenciado e obsidiado pelos conselhos do pai falecido há muitos anos, pelos fantasmas de seus relacionamentos anteriores e até mesmo pelo alterego Kelvin Oliva, o filósofo de mentirinha que vive de conselhos fajutos.

Talvez o que Otávio Espinhosa procure vislumbrar ao fim desse dia, vencidas as exigências interpessoais para ele insuportáveis, seja um pouco de liberdade. Em sua perspectiva calculista, entretanto, o resultado a que pode chegar independe de trabalhar ou não para uma instituição comprometida com a corrupção financeira, independe de ser dispensado de um casamento no qual se acomodara por duas décadas. Tudo isso para ele está perdido. Com exceção de Débora, um affair repentino com a herdeira da financeira que aparentemente vai-se arruinando, Espinhosa deixa-se levar pelo núcleo do furacão com a vitalidade que lhe é ainda disponível, depois de tudo.

Bem como em O filho eterno, Tezza constrói um personagem geracional e complexo. No caso, alguém em tudo revelador da decomposição moral de uma geração que tendo alcançado o poder político e financeiro e flagrada em plena crise, parece incapaz de sustentar-se discursivamente de forma convincente. O brilhante economista que dava conta perfeitamente bem de uma atenção multitarefa e a três monitores sobre a mesa de trabalho, em algum momento (não por suas brilhantes deduções, mas porque viver é mesmo emaranhado) vê-se compelido a ter de viver na transitoriedade de sua condição e a lidar com a vida conforme ela se apresenta. Nada que evidentemente lhe garanta que ela logo mais não venha a apresentar-se, cedendo aqui finalmente ao trocadilho, ainda mais espinhosa.