Crítica O afiador de versos

O afiador de versos

EW

  • Germina – Revista de Arte & Literatura

Quem, entre qualquer pessoa, poderia atestar sobre os passantes na rua: ali vai um tabelião, um pouco atrás um sapateiro? Um professor, o mais de trás? Aquele outro talvez seja… Quem sabe? Um poeta?

Não sei. Provavelmente ninguém. Para mim ao menos são indistinguíveis. Não sei avaliar (talvez nunca saiba) por que modos ou características precisas, se é que deveriam portá-las ou exibi-las ostensivamente, se poderia diferenciar os criadores de versos dos demais seres humanos. Por isso, poetas e não poetas têm a mesma cara na rua. Pela fisionomia não se pode saber com que termos e palavras a pessoa pensa a si e ao mundo. Talvez pelo brilho nos olhos, mas há quem se aproxime o bastante? Cada vez menos. Que dúvida! Poetas e não poetas caminham como os demais caminham. Frequentam lugares, entram e saem através das portas assim como todos os demais seres viventes. Aqueles que imaginam antever uma espécie qualquer de aura provavelmente enganaram-se de referência: estas são para os santos e anjos. De efetivamente seu, poetas mal têm os versos.

No fim da minha infância, num momento impreciso da vida, conheci um poeta no seu próprio território e talvez até um pouco mais que isso, na sua intimidade, mesmo que de modo indireto. Eu subia, muitas vezes atravessando o vento gelado do inverno, um perau, quase um penhasco mesmo, para chegar lá em seu topo, na rua Líbio Vinhas, em Bagé, a uma casa situada num recôncavo da rua postado de frente ao poente. Um ambiente quente e acolhedor onde morava um amigo muito especial naqueles dias e sua família; entre eles, o tal poeta.

De nome eu já o conhecia, mas muito pouco de vista. Com a família, havia residido muitos anos fora, em Santa Maria e outros lugares e voltavam agora, depois da sua aposentadoria, para Bagé, interior do Rio Grande Sul, fronteira com o Uruguai. Logo eu saberia reconhecê-lo nas ruas, mas, apenas porque já o havia visto na própria casa, eu sabia então de quem se tratava. Definitivamente não caminhava como um poeta porque isso não existe. Fazia-o do seu próprio jeito, o olhar mais para baixo que para cima, por uma cidade que conhecia desde a geografia mais óbvia até a mais imperceptível, a que se desenha no modo de ser de sua gente, seu jeito de ser e de falar e, talvez, até mesmo do jeito de andar: humilde em muitos, altivo em uns poucos – às vezes mais do que o cabível e necessário.

O calor de sua casa tanto provinha dos afazeres ininterruptos de sua esposa Dona Vitória e de sua boa conversa, da amizade dos filhos do “homem” quanto de um detalhe muito especial que eu percebia incomum, porque as casas que eu frequentava, a minha própria, tinha espaço para os livros, mas nada perto do que havia naquelas prateleiras. A casa do pai do meu amigo era tomada por livros. Os livros eram, em sua maioria, de seu pai e muitos, os mais antigos, de seu avô, o também escritor Pedro Wayne, autor de Xarqueada e Lagoa da Música. Pronto, agora não posso mais falar da pessoa sem dar seu nome. O pai do meu amigo, o poeta Ernesto Wayne, eu atesto que era mesmo um poeta de ofício. E digo não porque o tenha reconhecido ao caminhar na rua, mas por vê-lo trabalhando. E não pouco.

Durante os anos que convivi com sua família (não foram muitos, mas intensos), jamais deixei de reparar na dedicação de Ernesto Wayne para com a palavra. Mesmo assim, ouvi de sua voz algumas palavras (eu não diria lições) de bom professor de literatura que ele era. Algumas até de um incipiente incentivo, porque algumas poucas vezes me atrevi a lhe mostrar alguns versos. Não me foi condescendente. Mandou-me ao trabalho, mas de uma forma agradável: através dos livros. Mais tarde, a vida, como ela costuma fazer, levou-me para longe daquele endereço, mas não da amizade e das boas lembranças com este meu amigo e de sua família, ao fim todos carinhosos amigos.

Ourives da palavra, artífice da métrica precisa dos sonetos, não é por isso, entretanto, que sempre me admiro da poesia de Ernesto Wayne. Tanto em Ossos do Vento quanto em Extrato de Conta, o que é notável nele é o seu domínio do ritmo. Mesmo que por muitas vezes a escolha de uma palavra obedeça a uma necessidade formal, o Ernesto Wayne de que me lembro jamais deixou de submetê-la ao ritmo interno, de solfejador disciplinado que ele sempre foi.

Ernesto Wayne viveu a literatura de sua época e isso desde a fundação do grupo de Bagé – formado pelos artistas plásticos Glênio Bianchetti e Glauco Rodrigues e pelo também poeta Jaci Maraschin – até o fim de seus dias, ao que me consta. Sei que muitas pessoas e críticos gostam de classificar geograficamente os escritores. Segundo essa ordenação, o sujeito pode ser tanto um autor universal, nacional, regional ou local. Na minha memória, o seu Ernesto (desculpem, mas sempre o chamei assim) está junto com os livros dos poetas que me mostrou e através dos quais travei contato pela primeira vez, protegido do inverno bageense e do açoitador vento minuano, com os versos de Ezra Pound, Fernando Pessoa, T. S. Eliot, Drummond, Quintana, Neruda, Bandeira, Vinicius e mais uma lista interminável. Pouco me importa se ele seja melhor conhecido aqui ou ali, porque é ao lado destes nomes que para mim estará sempre o deste afiador de versos.

Abaixo, transcrevo do seu Extrato de Conta o poema que o intitula.

EXTRATO DE CONTA

Meu corpo coração tem
Com duas pontes, ramal
Que desvia e passa além

Do estreito e triste canal
Que entupir meu peito vem
De pesares em geral.

Minha alma tem também
Coração, mas esse tal
Vai mal, mal bate, meu bem!

Garranchos do meu final
No eletrocardiograma
Da alma que vai muito mal.

Tão mal que a Velha Dama
A mim, deficiente da alma,
Quer levar, porém reclama

Que relate, antes, com calma
O que fiz de anjo ou de cobra:
– De bem pouco levo a palma,

Pago o que a vida me cobra,
Quitada a dívida, a conta,
Somo e reparto o que sobra.

Obra que não está pronta,
Um que outro amigo disperso
E bens de nenhuma monta.

Do azul licor do universo
Que doido sorvi outrora
Resta um pouco em cada verso.

Do que fui, que fica agora?
– Um resquício, ralo caldo.
Pago juros de mora,

De saudade tenho um saldo,
Mocidade na memória,
Recordação de respaldo:

A minha mulher Vitória,
As minhas sete crianças,
Minha existência ilusória.

Raspo em banco de lembranças
A minha conta-corrente:
Descontadas as cobranças

Disponíveis ao cliente
Rasos créditos escassos
Com que velho me sustente.

Descaminhos de meus passos,
Meus depósitos de ventos,
Meus grosseiros erros crassos.

A dor de tantos momentos
Não sei onde começou,
Termina nestes lamentos.

E do que fui, do que sou
Não me sobrou uma estética,
Luta sim, talvez sobrou.

Mais um certo senso de ética
Por sobre o viver diário
Numa visão meio cética.

Contas perdi do rosário,
As que restam arroladas
Vão aqui neste sumário,

Sem ordem, desarrumadas,
Em anos de desenganos,
A seguir discriminadas:

Me ficam perdas e danos;
Dos raros ganhos nem rasto,
Se dissiparam insanos

Na alma não tenho pro gasto.

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Ontem pela tarde, passando na livraria em busca de um livro de um amigo, me decidi a levar também o lançamento ‘Compaixão’, da poeta norte-americana Anne Sexton, que a editora mineira Relicário publicou no fim do ano passado por aqui, numa tradução da também poeta Bruna Beber.

Eu já havia lido algumas resenhas na Folha de São Paulo e no Jornal Opção, inclusive algumas objeções às traduções, mas me detive em primeiro no prefácio preparado pela filha de Sexton, Linda Gray. Depois, fiquei pensando se seria realmente possível comentar o livro sem mencionar o suicídio de Sexton.

Minha leitura é muito preliminar, mas não me parece que o seu suicídio explique a sua poesia e nem vice-versa. Há uns anos, publicou-se no Brasil uma biografia de Sexton e eu lembro que dei uma olhada numa livraria, mas decidi não comprar nem me aprofundar nos seus detalhes biográficos. Tudo o que se possa dizer da biografia de um poeta parece sintetizado e amalgamado em algumas key-words reiterativas: alcoolista, deprimida, repetidamente internada, suicidada.

Eu até acredito que a recente discussão publicada pelo editor de literatura da Folha de São Paulo, Walter Porto, erra o alvo ao mencionar os poetas e o suicídio. Na verdade, o debate iatrogênico deveria ser colocado em relação a saúde mental, isto é, da possibilidade do indivíduo ser um escritor sem padecer de um caráter psicopatológico.

Pessoalmente, eu não vejo porque não poderia uma pessoa livre de transtornos legar à humanidade uma obra relevante. Da mesma forma, não vejo porque uma pessoa em sofrimento mental também não poderia. Na verdade, essa relação é uma relação forçada que é feita apenas em face de um desfecho trágico. Não agrega nada à obra de ninguém nem deveria ser considerada a chave por excelência de sua interpretação. Acontece que as pessoas procuram encontrar densidade psíquica na escrita alheia e uma pessoa muito tranquila da sua vida, por que mesmo ela interromperia o fluxo do seu legítimo hedonismo para problematizar e metaforizar suas impressões, sentimentos, etc?

Eu não sei bem. Lembro que na época em que foi publicada a obra completa de Orides Fontela pela Hedra, acompanhada de um volume destinado a uma investigação biográfica chamada ‘O enigma Orides’, fiquei incomodado com o tanto de dificuldade e desgraça que o jornalismo cultural lembrou de atrelar à publicação. O desgraçamento biográfico como condição de reconhecimento literário, em qualquer caso e nacionalidade, isso sim me parece psicopatológico. Mas na crítica a tautologia é quase inescapável e parece ser ao fim e ao cabo um artifício argumentativo apresentável e desejável, na medida em que o tempo passa, poetas são publicados, e sua exibição teratológica continua igual.

* * *

Os poemas de Sexton, para não parecer que incorro no que condeno, são volúveis ao extremo. Nela, diferente de Plath que se externaliza mais, a poesia não é exatamente uma confissão de pessoa a pessoa. Não há um espaço muito íntimo nessa leitura, poucas meias palavras e subentendidos. Bem mais um discurso muito organizado, e que raras vezes remete a um presumível desequilíbrio expressivo em função da atribulada vida mental da autora. Cansativo, um pouco, como qualquer poesia muito auto centrada, mas sem dúvida um fluxo avassalador que pretende levar (e me levou) o leitor de enxurrada. Até decidi descansar um pouco e voltar a ler noutro momento, para não homogeneizar mentalmente a sua poesia e aproveitá-la melhor.

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Com cara e nome de best-seller, o lançamento As Visionárias: quatro mulheres e a salvação da filosofia em tempos sombrios 1933-1943 (Todavia, 2022), de Wolfram Eilenberger, transforma a história filosófica do período mais crítico do séc. XX em literatura de fácil digestão. Não é um pecado, sem dúvida, mas o livro de Eilenberger comete várias tentativas de aproximação um tanto exageradas ao afrontar visões políticas antagônicas narrando simultaneamente o percurso de vida e pensamento de Simone Weil, Ayn Rand, Simone de Beauvoir e Hannah Arendt. O que pode parecer à primeira vista algo forçado, afinal, pode não ser mais que uma busca mal declarada por impacto editorial e um contraponto feminino ao seu livro anterior, Tempo de Mágicos (Todavia, 2019), no qual esmiuçou obra e biografia de Walter Benjamin, Martin Heidegger, Ernst Cassirer e Ludwig Wittgenstein.

Precisamente, ele narra o período de uma década sem, entretanto, chegar ao fim da Segunda Guerra Mundial, mas até onde Simone Weil esteve viva e sustentou como pode vida e pensamento quando o mundo desabou de vez sobre a Europa e sob os regimes totalitários. Trata-se de um recorte arbitrário porque, a exceção de Weil, as demais pensadoras continuaram produzindo além da sua data de corte: o ano de 1943.

Das pensadoras que escolheu para seu livro, é Weil quem notadamente aparece mais. Seja enfrentando a derrocada política e histórica das grandes nações europeias, o impacto pós-revolucionário bolchevista, percorrendo pessoalmente as condições de vida dos trabalhadores ou um peculiar caminho filosófico e espiritual, Weil é como a coluna dorsal do livro de Eillenberger. Não é que as demais filósofas tenham menor relevância em seu livro, longe disso, mas a mobilidade de Weil nesse período foi realmente além de uma carreira acadêmica ou literária e o desfecho de sua vida breve, mas lancinante, aos 34 anos de idade, coincide justamente com o ápice do horror da guerra. Se isso pode servir de consolo, é mesmo difícil imaginar que um espírito como o dela sobrevivesse ao horror desse tempo, afinal.

Quanto às demais pensadoras, o livro limita-se muito em sua busca de fugir às perseguições totalitárias e por afirmação intelectual.

No caso de Ayn Rand, vê-se o tanto de trauma que guardou durante toda a vida do processo revolucionário de 1917 e do efeito psicológico e existencial do expurgo sofrido na Universidade Estatal de São Petersburgo. Após esse momento inicial de estudos, quando se revelou superdotada, ela parte para os Estados Unidos e lá inicia seu trabalho como roteirista e escritora, levando muito anos até afirmar-se. Depois disso, o livro preenche suas aparições com citações de A revolta de Atlas e de suas posições ultraliberais, mas, no fundo, Eilenberger parece pouco inclinado a contar mais a seu respeito – ou porque sua vida tenha sido menos movimentada que as demais “visionárias” escolhidas por ele ou, enfim, porque ele entendeu que seria o suficiente.

Quanto a Simone de Beauvoir, a escritora e filósofa francesa aparece desde o princípio  lutando para publicar seus textos inéditos e às voltas com o seu envolvimento afetivo-intelectual com Jean Paul Sartre. Antes, narra também seus encontros com Simone Weil e o impacto desta em sua visão de mundo. Na Paris ocupada, pouco a pouco o ar se torna irrespirável e com Sartre no front, envolvido já em debater com Heidegger em O ser e o nada, ela então mergulha na leitura e escrita de sua obra da maturidade, O segundo sexo. Isso não sem desencontrar-se e reencontrar-se com ele diversas vezes. De alguma maneira, pelo pinçado por Eilenberger, Beavouir parece desenvolver-se intelectualmente melhor quando está distante de Sartre, num relacionamento que vai tomar sua vida e culminar no exasperante relato de A cerimônia do adeus.

Igualmente em processo de fuga dos nazistas, entre todas Arendt é a que comparece menos na narrativa de Eilenberger. O mesmo pode-se dizer dos seus estudos a respeito da ideologia política e do totalitarismo. Mesmo o envolvimento com Heidegger e os encontros derradeiros com o amigo Walter Benjamin aparecem pouco. Já os embates com o movimento sionista por um lado, e o comunista, por outro, reafirmam-na no livro em seu livro como uma pensadora interessada sobretudo nas condições políticas da liberdade.

Arendt, que recentemente teve a biografia de Ann Heberlein publicada no Brasil pela Companhia das Letras (Arendt entre o amor e o mal: uma biografia), é intelectual bem mais exigente do que pode ser obtido numa crônica como a proposta por Eilenberger. Mesmo sem poder ser classificado como simplista, seu livro muitas vezes passa raspando por questões relevantes à filosofia política para deter-se muito mais numa espécie de crônica histórica e jornalística. O mesmo pode-se dizer a respeito das demais “visionárias”, pois mais se saberá a respeito de Simone Weil por meio do trabalho biográfico de Maria Clara Bingemer, Simone Weil: a força e a fraqueza do amor (Rocco, 2007) de Beavouir pela recente biografia de Kate Kirkpatrick, Simone de Beauvoir: Uma vida (Crítica, 2020) e de Ayn Rand pelo há pouco lançado Ayn Rand e os devaneios do coletivismo: breves lições (LVM, 2019). De qualquer modo, como forma de introduzir vida e obra de pensadoras de importância universal, o livro não se perde e é bem movimentado em sua narrativa multifocal. Não se deve imaginar que seja superior aos trabalhos biográficos disponíveis individualmente nem que aprofunde as questões com as quais lidaram em profundidade as “visionárias”, porém, como atração leiga e como forma de mostrar que as mulheres estiveram ao tempo dos grandes dilemas do séc. XX, quando a urgência da guerra mais as provocou, é bastante interessante. Em última análise, é um testemunho da força intelectual de filósofas que, muitas vezes discrepantes entre si, viveram radicalmente os momentos da Segunda Guerra Mundial e deram parte de questões que continuam influenciado o mundo, prova de seu vigor e de que, prefira-se mais a uma ou outra, integram por seus méritos próprios a história do pensamento ocidental.