Ex libris

Finalmente, graças ao belo trabalho do Paulo Pedott, da Exlibris Bookstamps, tenho meu Ex libris personalizado.

A frase é de Lúcio Aneu Sêneca e quer dizer “somente a sabedoria é liberdade”. A ilustração é a representação da sapientia entre as sete virtudes cardinais, esculpida na tumba do Papa Clemente II na Catedral de Bamberg, em 1047.

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Além do Rio da PrataAlém do Rio da Prata

No tempo em que estive pesquisando e conhecendo um pouco mais a respeito dos povos originários do RS e do Uruguai, muitas vezes chegava até as bordas do Rio da Prata e ficava apenas imaginando no que a história da vizinha Argentina guardaria a respeito da relação com os seus próprios povos. Sabia que não era muito diferente da relação deste lado da margem, mas também sabia que havia algumas diferenças de monta.

A terra dos ranqueles, dos tehuelches, dos mapuches, dos querandies, dos pampas, araucanos, onas, kollas, diaguitas, tobas, rankulches, pilagas, m’ bias, chanas, mocovis e charruas também, entre outras etnias, é um universo gigantesco de culturas e histórias. O desconhecimento que temos a respeito da história e desdobramentos antropológicos das nossas próprias etnias dá a dimensão do que é a nossa ignorância quanto aos povos mais próximos a nós.

Mas só o que eu tenho certeza é de que tudo o que atribuímos de ruim aos argentinos é espécie de projeção às avessas do tanto ruim que nós mesmos somos por conta própria. E me parece que a cultura argentina é muito mais permeável e permeada por influências indígenas do que pelo menos me parece ser a rio-grandense.

Quando digo Argentina, penso na imensa nação para além de Buenos Aires, assim como penso no Brasil para além da ponte aérea Rio-São Paulo e como penso o Rio Grande do Sul muito maior do que dois ou três bairros de Porto Alegre. Não que, é claro, sua história não esteja menos recheada de massacres, violências, traições e apagamentos que a nossa. Mas há diferenças, muitas.

Esta imagem, por exemplo, parece vir de um certo Congreso de Aborigenes realizado por lá em 1920. Teria reunido pelo menos essas quase 20 lideranças que trataram, ao que parece, de decisões políticas cruciais, como a questão das reservas e direitos culturais, como o complexo direito de viver segundo os próprios costumes, coisas que o Brasil começou a pensar bastante tempo mais tarde.

No Rio Grande do Sul, em 1920, os indígenas – pelo menos os do pampa – já haviam se dissolvido por completo na miscigenação, isso aquela parcela que resistiu às doenças, guerras e mortes. E por aqui se abominava a ideia e o temor que rondou a Argentina até o terço final do séc. XIX, de que o país se transformasse numa espécie de “império inca” ao sul. O temor provinha de que boa parte das lideranças indígenas lá havia se educado com os franciscanos no período de Rosas e os nativos começavam a ter acesso a armas de fogo, além de contar com um cacicado muito bem organizado militarmente e com fortes relações políticas com o caudilhismo. Foi o que culminou na deflagração da Campanha do Deserto, na qual pelos menos 30.000 indígenas foram massacrados pelo exército.

Mesmo assim, nas primeiras décadas do séc. XX o Estado argentino já reconhecia o direito de organização dos povos. Só isso é uma grande diferença em relação a nós, sem falar na influência direta na produção artística e cultural, muito mais significativa que, por exemplo, a rio-grandense. Essa relação mis direta levou a que recentemente fosse levado a julgamento a promoção de campanhas de massacre, como o de Napalpi, de 1924, o que acabou revelando um desastre da política de aldeamentos forçados e reduções.

Em 1920, não seria muito possível que mulheres participassem desses conclaves militarizados. Por isso não é de estranhar o absoluto masculino do cacicado. A relação dos indígenas do pampa e de suas mulheres é muito complexa e não pouco turbulenta, mas parece que houve, por exemplo, lideranças mulheres entre guenoas-minuanos, não sei se investidas no cacicado. Normalmente, as mulheres ocupavam mais posições religiosas. Hechiceras ou curandeiras, como La Minuana..


A dor comumA dor comum

Miguel de Unamuno (1864 – 1936)
trad. do espanhol

Cala-te meu coração, os teus pesares
são dos que não se devem dizer, deixa
que se acabem num sonho; tua queixa
é só tua, e quando a proclamares

cuida de aos demais não importunares
com demasiado grito. O teu lamento,
sendo só teu, é um sentimento
de tua mera vaidade. Nunca separes

a tua dor da dor comum e humana,
e busca o íntimo em que habita
a humanidade que aos demais te irmana,

é o que engrandece a mente e não
a estreita; somente o que pode amar
nos comunica, o resto é a solidão.

Eu, também (Yo, también): diferente como ele mesmoEu, também (Yo, también): diferente como ele mesmo

Cartaz do filme, onde vê-se Lola Duenas e Pablo Pineda sorrindo juntos

“Para que quer ser uma pessoa normal?” Essa é pergunta que Laura, a personagem interpretada por Lola Dueñas, em Yo, también, premiado em 2009 no Festival de Cinema de San Sebastián e ainda inédito no Brasil, faz a Daniel, vivido nas telas pelo espanhol Pablo Pineda. Apaixonado, Daniel vê no apelo à normalidade algo como uma credencial para a concretização de seu desejo de viver integralmente seus próprios desejos. Entretanto é a personagem de Lola quem é desafiada a despir-se de seus preconceitos e aceitar o potencial afetivo dessa relação que une em um extremo uma mulher de meia-idade insatisfeita com a própria vida e, no outro, Daniel, homem que, nascido com a síndrome de Down, luta com ganas por sua emancipação existencial.

Na crítica estrangeira, Yo, también é muitas vezes tratado como se fosse um documentário sobre a deficiência intelectual. Longe disso, é um filme sobre relações humanas, estabelecida entre seres humanos adultos e que buscam sua felicidade e realização em meio ao cotidiano de pessoas comuns. Talvez então fosse mais apropriado classificá-lo entre os filmes de ficção científica, ou você já viu (no cinema ou até mesmo na vida real) pessoas com síndrome de Down sendo retratadas como pessoas adultas e donas do próprio nariz e desejos?

Muito melhor que tudo isso, é um filme divertido, sem ser um filme humorístico ou abusar de apelos cômicos. É divertido porque, como dizem seus diretores, os novatos Antonio Naharro e Álvaro Pastor, na vida é preciso um certo humor, até para poder sobreviver-se a ela. Mas é igualmente dramático na medida em que não abdica de mostrar portas fechadas, desilusões, frustrações ou perdas. O melhor de tudo é que consegue voltar a ser divertido quando mostra a possibilidade vívida de ir-se sempre muito além dos limites sociais e da trivialidade dos preconceitos e dos “nãos” que a vida, em todas as suas formas e estruturas sociais, insistentemente apresenta a quem quer somente o direito de viver a pleno a própria vida.

Trailer do filme

De uma maneira muito própria ao cinema espanhol contemporâneo, no qual as relações afetivas aparecem muito vinculadas ao desejo e à liberdade, seus diretores não procuram um casal com química perfeita, idealizações mesmo que vistos pela lente da “diferença”, mas um choque explosivo de temperamentos no qual o afeto anda de mãos dadas com a angústia, com a incompreensão, mas que é obtido em sua plenitude fora de qualquer clichê costumeiro quando da exposição de pessoas aparentemente “incapacitadas” para a vida afetiva e sexual.

Yo, también exigirá muito da capacidade do público em torcer o nariz diante de relações aparentemente improváveis. Irá incomodar quem pensa que as pessoas têm lugares próprios para existir e o espaço social limitado por abstrações arbitrárias. Surpreenderá aqueles que estão presos a estereótipos e às visões simplistas do ser humano e da deficiência intelectual. De ideias que os reduzem a eternos filhos e crianças, acabando por anulá-los em imagens cristalizadas e condená-los a um mundo ínfimo e sem esperança. Yo, también vai, sem que se possa perceber muito claramente, contar-nos que toda essa representação finalmente está ruindo e que daí não há mais volta. Se há dúvida que isso é possível, assistir o filme poderá ser uma forma simples de perceber o que pessoas como Pablo Pineda e tantas outras estão, pelo mundo afora, fazendo já por suas próprias vidas.

Ator, mas só por um momento

Ao contrário de Lola que, como atriz, já atuou em dois outros filmes, ainda em pós-produção, após Yo, también, Pablo já declarou em entrevista (ver vídeo a seguir) que não pretende voltar a trabalhar como ator. Antes dessa experiência, Pablo já era relativamente conhecido no mundo inteiro por ter sido a primeira pessoa com síndrome de Down, em solo europeu, a lograr um título universitário. Formado em Pedagogia em 1999 e prestes titular-se psicopedagogo, diz que sua participação na produção mudou sua vida, mas queixa-se das perguntas repetitivas dos jornalistas que já o denominaram inclusive de “superdotado”. Dizendo-se uma pessoa realista, Pablo está mais preocupado em lançar novos olhares sobre a síndrome de Down e que, longe de imaginar-se como um ator, prefere ver-se no papel de alguém que luta por oportunidades para as pessoas com deficiência intelectual e que não esquece, por mais holofotes que sejam lançados em sua direção, que esse compromisso diz respeito ao verdadeiro sentido de autonomia individual e responsabilidade coletiva do qual ele dá indícios também na composição de seu papel.

Pablo em entrevista ao programa Cuatro A Raíz

Antes de Pablo, Pascal Duquenne fora premiado em Cannes, por “O Oitavo Dia”

Cena de “O Oitavo Dia”, onde Pascal Duquenne e Daniel Auteuil caminham num campo verde

Treze anos antes da premiação de Yo, también em San Sebastián, em 1996, o belga Pascal Duquenne dividiu com o consagrado ator francês Daniel Auteuil a Palma de Ouro de melhor ator por Le huitième jour (no Brasil, “O Oitavo Dia”), refilmagem de um filme finlandês de 1960. Motivo de grande comoção, O Oitavo Dia estreou a presença de um ator com síndrome de Down representando vigorosamente sua personagem na cena dos festivais internacionais. Foi a primeira vez em que a pessoa com deficiência intelectual era mostrada em grande estilo, em primeiro plano, já não mais como cenário. Ali, entretanto, o tom dramático se fazia bem mais intenso e a personagem vivia como que à deriva, numa situação de abandono que acabaria por levá-la a um desfecho fatal, a despeito de seu “efeito transformador” sobre os outros, principalmente a personagem de Auteuil. Desde então, outros filmes de ficção foram feitos com a presença de atores com síndrome de Down, como o espanhol León y Olvido e o norte-americano My Brother. Igualmente dramáticos e com roteiros muito centrados nos dramas familiares, suas personagens não chegam a transpor as questões de dependência pessoal e focam preferencialmente os aspectos incapacitantes de suas vidas. No mais recente “A Outra Margem”, realização portuguesa de 2007, o tom dramático é amenizado, mas a presença quase-angelical, transformadora dos outros – como em O Oitavo Dia, lança luz a um resgate de dignidade para a vida dos “diferentes”, sejam pessoas com deficiência ou, no caso do filme português, do outro protagonista, um travesti vivido pelo ator Filipe Duarte.

Yo, también não é um filme melhor ou pior que os acima citados, mesmo porque são histórias muito diferentes as aí contadas. O distal entre eles está, entretanto, na proximidade que realiza entre as personagens, como se atravessassem uma ponte que os demais focam à distância ou ignoram por completo. Essa é uma diferença muito importante que não deve ser esquecida. Se os filmes acima podem ser categorizados como filmes sobre a deficiência intelectual, Yo, también deve ficar fora dessa relação e aparecer em uma outra que acaba de inaugurar, como filmes que mostram pessoas e seus desejos, esperanças e dificuldades, entre elas as pessoas com deficiência intelectual. Fora isso, nada de “anormal”. Ainda assim, é um filme diferente. Diferente como ele mesmo. Afinal, não é isso mesmo a diferença?