Inclusão em pauta

Inclusão em pauta: debates sobre mídia, bioética, educação, políticas públicas e comportamento é uma coleção de artigos, ensaios curtos e crônicas sobre a temática da inclusão social, seus protagonistas e muitas interfaces.

Publicado na forma de e-book em 2015, o livro foi agora revisado e ampliado com artigos mais recentes e novas crônicas e poderá desde agora ser adquirido também na forma impressa.

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Eu, também (Yo, también): diferente como ele mesmoEu, também (Yo, también): diferente como ele mesmo

Cartaz do filme, onde vê-se Lola Duenas e Pablo Pineda sorrindo juntos

“Para que quer ser uma pessoa normal?” Essa é pergunta que Laura, a personagem interpretada por Lola Dueñas, em Yo, también, premiado em 2009 no Festival de Cinema de San Sebastián e ainda inédito no Brasil, faz a Daniel, vivido nas telas pelo espanhol Pablo Pineda. Apaixonado, Daniel vê no apelo à normalidade algo como uma credencial para a concretização de seu desejo de viver integralmente seus próprios desejos. Entretanto é a personagem de Lola quem é desafiada a despir-se de seus preconceitos e aceitar o potencial afetivo dessa relação que une em um extremo uma mulher de meia-idade insatisfeita com a própria vida e, no outro, Daniel, homem que, nascido com a síndrome de Down, luta com ganas por sua emancipação existencial.

Na crítica estrangeira, Yo, también é muitas vezes tratado como se fosse um documentário sobre a deficiência intelectual. Longe disso, é um filme sobre relações humanas, estabelecida entre seres humanos adultos e que buscam sua felicidade e realização em meio ao cotidiano de pessoas comuns. Talvez então fosse mais apropriado classificá-lo entre os filmes de ficção científica, ou você já viu (no cinema ou até mesmo na vida real) pessoas com síndrome de Down sendo retratadas como pessoas adultas e donas do próprio nariz e desejos?

Muito melhor que tudo isso, é um filme divertido, sem ser um filme humorístico ou abusar de apelos cômicos. É divertido porque, como dizem seus diretores, os novatos Antonio Naharro e Álvaro Pastor, na vida é preciso um certo humor, até para poder sobreviver-se a ela. Mas é igualmente dramático na medida em que não abdica de mostrar portas fechadas, desilusões, frustrações ou perdas. O melhor de tudo é que consegue voltar a ser divertido quando mostra a possibilidade vívida de ir-se sempre muito além dos limites sociais e da trivialidade dos preconceitos e dos “nãos” que a vida, em todas as suas formas e estruturas sociais, insistentemente apresenta a quem quer somente o direito de viver a pleno a própria vida.

Trailer do filme

De uma maneira muito própria ao cinema espanhol contemporâneo, no qual as relações afetivas aparecem muito vinculadas ao desejo e à liberdade, seus diretores não procuram um casal com química perfeita, idealizações mesmo que vistos pela lente da “diferença”, mas um choque explosivo de temperamentos no qual o afeto anda de mãos dadas com a angústia, com a incompreensão, mas que é obtido em sua plenitude fora de qualquer clichê costumeiro quando da exposição de pessoas aparentemente “incapacitadas” para a vida afetiva e sexual.

Yo, también exigirá muito da capacidade do público em torcer o nariz diante de relações aparentemente improváveis. Irá incomodar quem pensa que as pessoas têm lugares próprios para existir e o espaço social limitado por abstrações arbitrárias. Surpreenderá aqueles que estão presos a estereótipos e às visões simplistas do ser humano e da deficiência intelectual. De ideias que os reduzem a eternos filhos e crianças, acabando por anulá-los em imagens cristalizadas e condená-los a um mundo ínfimo e sem esperança. Yo, también vai, sem que se possa perceber muito claramente, contar-nos que toda essa representação finalmente está ruindo e que daí não há mais volta. Se há dúvida que isso é possível, assistir o filme poderá ser uma forma simples de perceber o que pessoas como Pablo Pineda e tantas outras estão, pelo mundo afora, fazendo já por suas próprias vidas.

Ator, mas só por um momento

Ao contrário de Lola que, como atriz, já atuou em dois outros filmes, ainda em pós-produção, após Yo, también, Pablo já declarou em entrevista (ver vídeo a seguir) que não pretende voltar a trabalhar como ator. Antes dessa experiência, Pablo já era relativamente conhecido no mundo inteiro por ter sido a primeira pessoa com síndrome de Down, em solo europeu, a lograr um título universitário. Formado em Pedagogia em 1999 e prestes titular-se psicopedagogo, diz que sua participação na produção mudou sua vida, mas queixa-se das perguntas repetitivas dos jornalistas que já o denominaram inclusive de “superdotado”. Dizendo-se uma pessoa realista, Pablo está mais preocupado em lançar novos olhares sobre a síndrome de Down e que, longe de imaginar-se como um ator, prefere ver-se no papel de alguém que luta por oportunidades para as pessoas com deficiência intelectual e que não esquece, por mais holofotes que sejam lançados em sua direção, que esse compromisso diz respeito ao verdadeiro sentido de autonomia individual e responsabilidade coletiva do qual ele dá indícios também na composição de seu papel.

Pablo em entrevista ao programa Cuatro A Raíz

Antes de Pablo, Pascal Duquenne fora premiado em Cannes, por “O Oitavo Dia”

Cena de “O Oitavo Dia”, onde Pascal Duquenne e Daniel Auteuil caminham num campo verde

Treze anos antes da premiação de Yo, también em San Sebastián, em 1996, o belga Pascal Duquenne dividiu com o consagrado ator francês Daniel Auteuil a Palma de Ouro de melhor ator por Le huitième jour (no Brasil, “O Oitavo Dia”), refilmagem de um filme finlandês de 1960. Motivo de grande comoção, O Oitavo Dia estreou a presença de um ator com síndrome de Down representando vigorosamente sua personagem na cena dos festivais internacionais. Foi a primeira vez em que a pessoa com deficiência intelectual era mostrada em grande estilo, em primeiro plano, já não mais como cenário. Ali, entretanto, o tom dramático se fazia bem mais intenso e a personagem vivia como que à deriva, numa situação de abandono que acabaria por levá-la a um desfecho fatal, a despeito de seu “efeito transformador” sobre os outros, principalmente a personagem de Auteuil. Desde então, outros filmes de ficção foram feitos com a presença de atores com síndrome de Down, como o espanhol León y Olvido e o norte-americano My Brother. Igualmente dramáticos e com roteiros muito centrados nos dramas familiares, suas personagens não chegam a transpor as questões de dependência pessoal e focam preferencialmente os aspectos incapacitantes de suas vidas. No mais recente “A Outra Margem”, realização portuguesa de 2007, o tom dramático é amenizado, mas a presença quase-angelical, transformadora dos outros – como em O Oitavo Dia, lança luz a um resgate de dignidade para a vida dos “diferentes”, sejam pessoas com deficiência ou, no caso do filme português, do outro protagonista, um travesti vivido pelo ator Filipe Duarte.

Yo, también não é um filme melhor ou pior que os acima citados, mesmo porque são histórias muito diferentes as aí contadas. O distal entre eles está, entretanto, na proximidade que realiza entre as personagens, como se atravessassem uma ponte que os demais focam à distância ou ignoram por completo. Essa é uma diferença muito importante que não deve ser esquecida. Se os filmes acima podem ser categorizados como filmes sobre a deficiência intelectual, Yo, también deve ficar fora dessa relação e aparecer em uma outra que acaba de inaugurar, como filmes que mostram pessoas e seus desejos, esperanças e dificuldades, entre elas as pessoas com deficiência intelectual. Fora isso, nada de “anormal”. Ainda assim, é um filme diferente. Diferente como ele mesmo. Afinal, não é isso mesmo a diferença?

Da cartografia da exclusão ao mergulho da subjetividadeDa cartografia da exclusão ao mergulho da subjetividade

Uma duas, capa do livro de Eliane Brum

Eliane Brum é uma autora boxeur. Afirmo isso não pela sua habilidade em derrubar o leitor em cruzados infalíveis, mas por saber conduzi-lo como ninguém ao esgotamento de uma forma que não possa perceber que está indo a nocaute quando, na verdade, já beijou a lona. Assim é a experiência da leitura de Uma duas, seu primeiro romance, publicado há pouco pela editora Leya.

Foi por um cruzado (ou seria um gancho?) que prestei atenção na sua escrita. Isso aconteceu há pelo menos doze anos, quando publicou em Zero Hora um texto chamado Enterro de pobre e que pode ser lido no livro A vida que ninguém vê, vencedor do Jabuti de 2007. Trata-se de uma crônica-reportagem para ser lida sem respirar e que tem como tema a pobreza. Não a pobreza como é descrita pelo IBGE, que afirma haver no Brasil de 2011 pelo menos quinze milhões de pessoas vivendo além do que seria o limite da pobreza extrema (o que há além da pobreza extrema?), não como quem trata de forma evocativa ou numérica a realidade da pobreza ou a classifica, e sim como quem lhe dá qualidade, nome, endereço e destino. No texto, conta o que acontece a uma família que se despedaça e, pela pobreza, não tem sequer onde depositar os seus pedaços. E ela o faz como se friccionasse as palavras em direção aos olhos do leitor, para que se misturem a ele e este não possa mais saber com que olhos está fazendo a leitura. Mas é improvável que se possa explicar uma coisa dessas.

Em Uma duas, Eliane mostra que vem aperfeiçoando essa destreza. Semanalmente ela tem praticado em pé, em sua coluna semanal em Época, e tem enfrentado adversários de peso. Nos últimos tempos, tem escrito sobre a questão ambiental, a vida dos sem-teto, a vaidade dos com-tudo, a frieza da vida urbana, pessoas sem nome, periféricos, estratosféricos, maternidade, pessoas trabalhando, ciberespaço, escolas, ruas, shoppings, violência, identidades, que mais? Em Uma duas ela exercita outra técnica, a do mergulho. O mergulho psíquico de suas duas personagens centrais: mãe e filha. Às vezes fundo quase a ponto de não sobrar tempo para voltar-se à superfície.

Como é sabido, todo mergulho tem o seu risco. Às vezes até pode que seja um risco calculado. Mas há vezes em que um mergulho tem por causa um naufrágio. Em Uma duas, mãe e filha são náufragas exauridas uma pela outra. O cenário da narrativa é quase todo feito por imagens incompletas, como destroços, de uma casa, de um hospital, de uma redação de uma revista, escadarias, janelas para a rua e cenas interrompidas. Mas as lembranças, as impressões, o medo, a raiva, os sentimentos e as sensações são pintados com o pincel da inclemência, da dubiedade e da humanidade, erguendo-se mais alto que as paredes, os sons e o estrondo do mundo físico, das coisas palpáveis. O risco de ler um livro como esse é o de ser arrastado ao seu fundo muito mais que por um pedaço de alguma coisa, como um caco de um elemento decorativo, por um chamado inaudível, uma palavra sem resposta, pelo crispar de unhas, pelo silêncio, companhia da imaginação ou pela imaginação, companhia da solidão.

É do encontro e do desencontro dessas duas mulheres solitárias que surge a narrativa de Eliane, esgueirando-se no estremecimento afetivo e percorrendo trajetos psíquicos sem destino certo e sem qualquer promessa ou indício de um final feliz. São personagens centradas em si mesmas, confundindo espaços, olhares, palavras e afetos. Uma duas tem como uma variante subtropical da cor interior bergmaniana, de quem pode buscar e sabe encontrar a expressão subjetiva do ser humano e seus desejos, mesmo que nas situações mais periclitantes e improváveis.

Essa busca, o desenvolvimento dessa capacidade, Eliane tem feito desde os tempos de Enterro de pobre, sua crônica-gancho-no-queixo. E desfere seus golpes por vislumbrar um outro que descortina sua humanidade aos poucos, às vezes em lágrimas represadas ou sangrando aos borbotões. Seu mergulho em Uma duas poderá consagrar ainda mais sua perícia de boxeur sensível e trazer aos seus leitores a experiência inconfundível de mergulhar no alheamento da vida das pessoas mais comuns e sofridas, como se tivéssemos sempre uma última de chance de darmos as mãos e inutilizar em definitivo os discursos prontos e fáceis. Ainda não concluí a leitura de Uma duas, mas preciso dizer que ela já me fez mergulhar na lona.

Ninguém mais sabe de minhas coisasNinguém mais sabe de minhas coisas

cadeado

Blanca Varela (1926 – 2009)
trad. do espanhol

1
você que é capaz de desaparecer
de ser atormentado pelo fogo luminoso
pelo fogo opaco, pelo fogo covarde, pelo divino

a você
santo e fantasma a cada hora
mil vezes um sempre recém-nascido morto

a você que pode girar a chave
e inventar o sol num lugar vazio

a você afogado num mar de semelhanças
um náufrago a cada manhã
escravo e dono de sapatos ocasionais
de alguns livros
talvez o pai ou o filho
guardião de jardins ressecados, pouso para aves migratórias

a você
observador da tarde
leitor incansável dos relógios do sonho
da fadiga, do tédio dos cônjuges
a ninguém senão a você

2
(a qualquer hora do dia)

em uma fogueira em cinzas
essa mulher sacrificada
fechava os olhos e sonegava a felicidade de sua agonia

3

e um cão, uma gota de chuva, um passeio em família
como quando numa pintura entrava para sempre na memória
um pé torcido e outro e outro e um passo que faz ressoar
sempre a mesma altura da escuridão
a sorte pode ser esta neblina escura, o neon das cinco da tarde
a mais esplendorosa verdade
assim quase sem ver encontrando, generosa como ninguém, a miséria
cruzando em muros invisíveis
mãos tão pálidas jamais existiram, nunca em outras mãos
nem tanto calor em tanto frio
nem olhos tão cheios de outros olhos contemplaram a tarde
e frente ao mar escuro as ruínas e imensos círculos de bruma
cercando-nos
e a língua rubra, o cão, a mosca e a tarde rainha dos desnudos
braços doloridos em seu balcão de cinzas

4
(noite e desalento)

uma pitada da cruel canção de quem não vê
a noite que começa a respirar
tudo se afastando
tudo se perdendo
a prisão, o cinema, a amarela lua de farmácia
às oito, às nove, às dez
convertido em um fantasma cruel, agora você beija a mil mulheres
acaricia seus seios para estranhos
me causa asco
e esta náusea (passa a ser) o melhor de minha existência

5
(conversas insidiosas)

alguém disse o seu nome
– é um livro interessante e fala de um herói
decerto anônimo –
há uma estrela azul no fundo do meu copo
como uma estrela inesgotável
deve brilhar em seus olhos a cada vez que os vejo
como você deve sorrir para os outros
você cordeiro disfarçado de cordeiro
você um lobo que anda sozinho
você barbaramente um menino
– os pensamentos solenes são senhores
que não ocultam o perfume da carne –
nós haveremos de transpirar nos museus, como animais
submissos em suas savanas e ravinas de veludo
– Picasso por exemplo…

6
(tell me the truth)

diga-me você
este assombro durará?
esta letra em carne viva
círculo irrefletido de dor que se leva na boca
este desastre diário
este beco dourado e malcheiroso sem começo ou fim
este mercado onde a morte corrompe as esquinas
com prata roubada e estrelas estéreis?

7
o sorriso solar, o envenenado sorriso solar
fia sua impossível claridade mais uma vez
você sente a divina cusparada sobre a fera
o fedor acre da rosa, o meu coração sobre o seu?
mais tarde será tarde quando a solidão criar o melhor
e seus lábios novamente, seus olhos, as ruínas das suas carícias
esse mar em meu peito
a solidão – estrela das minhas noites –
ninguém mais sabe de minhas coisas

8
(pobres matemáticas)

quando nada mais reste de você e de mim
haverá água e sol
e um dia em que você abra as portas mais secretas
as mais escuras e mais tristes
e janelas com vida e olhos imensos
despertos sobre a felicidade
não terá sido à toa que nós
apenas temos pensado no que os outros fariam
porque alguém tem que pensar na vida