Poesia Gostaria que o meu amor morresse

Gostaria que o meu amor morresse

Jennifer Franklin
trad. do inglês

___________a partir de Beckett

Gostaria que o meu amor morresse
Ou pelo menos que eu não a amasse

Tanto. Se eu pudesse inclinar meu coração
Para o inverno, eu não precisaria da rotação

da terra para isso. Se você não sorrisse
Ao dormir, ou não tocasse meu rosto

Com ternura, eu poderia ter ido embora
Desde quando você partiu através

Das portas do meu coração camuflado
Sem olhar para trás. Eu gostaria de não amá-la

Tanto. Gostaria que o meu amor morresse
E então eu não teria que matar tudo o que há

Em torno de mim. Então eu não teria de ser
A caçadora que me tornei. Mas você

Não vai me liberar do seu abraço poderoso.
Você me faz permanecer a seu lado com o seu

Braço delicado em meu pescoço. Ele não parece
Forte nem para pegar um animalzinho, mas ele é.

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LaurelLaurel

Feliz, a primavera
sobrevive sem flores
de empréstimo.

E aqui se daria
o nascituro da tarde —
num indefinido meio-dia.

O pássaro (sem ventura)
trafega o espaço, mas
doutra estrutura.

Os olhos não alcançam
o que se ergue
como fortuita quimera.

Numa única paleta de cores,
o mesmo dia renasce
uma centena de vezes.

O azul não continua azul.
O céu migra de lugar.
A sombra não atenua.

Luz rosácea que restou,
do caule seco da flor
a folha comparece

e empresta os braços ao sol
como uma reserva disforme
da flor imerecida.

Já pensou, se ouvida,
o que ela diria? Nada..
Isso foi toda a vida.

ParoleeParolee

Ó deixe essas lágrimas para amanhã..

Os dias de antes, a bebida de muitos,
outros amores vividos já além das mãos,
caminhos distantes também não tocam os pés.

Não vá inventar nada agora, chorar mesmo
de vai nada adiantar, ó deixe
as lágrimas para amanhã, enquanto sente
outra vez que o céu sorri para os demais.

Deixe também as moedas
no fundo do bolso, acaso ainda precise
ou a fome ou a sede retornem.

Não deve esquecer a sorte que teve o cão
ao fugir de casa, dos olhos turvos
do animal mais dócil do mundo esteja livre
e da forma que ele enganava a noite
com seu canto engasgado parecendo
que vinha de outra vida a nascer.

Ainda uma vez, olhe as tábuas do cais
e mais uma vez essa ponte que nunca cai
e o que ao levante do dia foi posto a dormir.

Os velhos e suas sobrancelhas espetadas —
a revolta que há nestes fios, ó entenda,
é mais feroz que a revelação da verdade.

Marilia, a quem você julga que amou, foi mais doce
com outros antes e você, seu último amor
e que a amparou nos braços ao desfalecer,
nem assim pensou que não aguentaria,
afinal, é para isso e não outra coisa
que há no seu peito o tal músculo, o valentão.

Nunca houve quem defendesse como você.
Esqueceu como defendeu a ofensa de um amigo
igual fosse a si mesmo?

E toque de novo aquela maldita canção
para que a noite resulte alegre e as estrelas
virem-se um momento só em nossa direção.

Estão bem guardadas as coisas acontecidas
para que nunca mais seja preciso revê-las.

E ao lado das vividas, as destruídas
estão apagadas como numa tevê enguiçada
que nunca mais ligou, um rádio velho
preso na mesma e eterna estação.

A essa hora, o olho arde tanto quanto um estômago.

A essa hora, o estômago vira quanto um oceano.

Mágoas ao fundo do mar borbulham
e um resto de vida quer viver, mas nada se pretende
e a portaria está por fechar e é devido
sair em silêncio e que nada indevido aconteça
ainda mais se for chamado “felicidade”.

Os cães fugitivos cumprem um destino melhor..

As portas estão bem fechadas, janelas, chão e paredes.

Os olhos de Marilia, lembre bem, eram mais fundos
que uma prisão e tampouco foi amor de verdade.

Que seja, é o que você pensou.

A parte dos livros? Despeje no pote dos micos..

Assim haverá alguém mais feliz
eliminadas da face do mundo essas tristezas,
essas infâmias, essas pobres parolas.

Mas antes derrame contra o muro a fel amarga
e volte para casa com a alma mais doce..

E sem, é óbvio, muito mais exigências.

Na vida lhe chamaram de tudo, santo, corvo, chacal,
ameba, quadrúpede, besta, pai, animal..

Também noivo da morte, santo, viuvinha —
do fundo do quintal nada disso de flor,
seu erva daninha..

Entre em acordo com o nome que sua mãe deu
(e quase ninguém além dela mesmo conheceu).

Vá até lá, e em paz, ao menos na noite de Natal —
é permitido a quem viveu toda a vida uma condicional.