Minha filha

Jennifer Franklin
trad. do inglês

Se você a visse, pensaria em como ela é linda.
Estranhos me param na rua para dizê-lo.

Se falasse com ela, veria que essa beleza
Não significa nada. Sua visão se deslocaria para os pombos

Na calçada. Seu contato com os olhos se tornaria
tão precário quanto o dela e escapariam lentamente

Com diferentes graus de graça. Eu nunca sei
O quanto dizer para explicar o desgosto.

Às vezes, lhes digo. Mais frequentemente fico em silêncio.
Com o sorriso dela cauterizando-me, firmo

Sua mão por todo o caminho até em casa, embalando-nos.
As mãos da florista entregam-lhe uma rosa já morta

Que ela guarda suavemente, sem rasgar as pétalas, como faz
Com as tulipas que olham para nós com sua expressão insípida,

Fingindo que podem aguentar o meu sofrimento
Em seus copos alongados, porque eu os conhecia

Antes de conhecer a dor. Eles não entendem que
Estão arruinados para mim agora. Eu plantei quinhentos

Bulbos que, como ela, germinaram dentro de mim, seu cérebro já
Formado por fios de nosso dna danificado

Ou qualquer outra coisa que os médicos não entendem.
Após o banho, ela enrola-se em mim para eu niná-la –

A única vez durante o dia que seu pequeno corpo permanece quieto.
Então eu canto, respiro nos cabelos lavados e penso

Nos esqueletos no Musée de Préhistoire
Em Les Eyzies. Os ossos da mãe e do bebê

Deitados em uma caixa de vidro nessa mesma posição
em que estamos. Eles foram enterrados de maneira incomum:

A criança enrolada na curva do braço da mãe.
Os arqueólogos estão intrigados com a posição.

Isso não me surpreende de todo. Seria fácil
Morrer dessa maneira, cada uma de nós no último suspiro,

Com rimas infantis em nossos lábios abertos
E a promessa de um sono tranquilo.

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Pelos meus cálculosPelos meus cálculos

Três minutos é o tempo que o ar resiste
dentro do corpo, de onde não há escape.
E tudo o que ele atinge, guarda ou conserva
se perde de uma só vez, num disparate.

Leva tempo para se entender algumas coisas,
uma vida às vezes nem é o suficiente
e o que se percebe nem sempre é tão claro,
mas tudo existe em medidas diferentes.

O tempo e suas horas, minutos, segundos.
A sua casa é uma espiral circundante
na qual todos podem inventar de tudo
até que tudo se torne redundante…

Aprendi isso por nada, olhando o céu
e, no chão, o rastro dos pés dos animais.
Meu calculismo é pensar por comparações
até que, por um excesso, fica demais.

Três minutos é muito tempo. Quanto leva
o boi, errando de vereda em vereda?
O bom animal nunca pensa que morreria
tocado pelo homem no cavalo, o que assovia.

Três minutos é muito pouco. Quanto dura
viver a vida em resumo? O que importa
se ganhaste apenas dinheiro? Apenas fama?
Ou vulto? Vale do quê, mesmo, a sabedoria?

Olhando ignorante os degraus da escada,
pensei no que daria por um minuto mais…
Daria tudo, é claro, e corri abaixo
salvando a mim mesmo de forma incidental.

Pelos meus cálculos, não tenho para muito,
e porque a vida não se retém em fotografia,
os pés não param e o olhar nunca repousa.
Nada desdenho, só mal reparo – eis minha escusa.

Eu ontem beijei teus lábiosEu ontem beijei teus lábios

Pedro Salinas (1891-1951)
trad. do espanhol

Foi ontem que beijei tua boca.
Os lábios, a tensão
rubra. Foi um beijo tão curto,
durou mais que um raio,
mais que um milagre. Depois disso
não quis mais nada
e também nada havia pretendido antes.
Começou e terminou nele.

Hoje estou beijando um beijo;
e só, só com a minha boca.
Tocar a sua com meus lábios,
não, não mais …
– Como fui perder isso? –
Eu os coloquei
no beijo que te dei,
ontem, com as bocas juntas
do beijo que eles beijaram.
E esse beijo dura mais tempo
que o silêncio, que a luz.
Porque não é mais a carne
nem a boca o que eu beijo,
tudo isso foge de mim.
Não. Mas o beijo de
agora está durando mais.

Os dragões me vencemOs dragões me vencem

Juan Eduardo Cirlot (1916-1973)
trad. do espanhol

Vasculho no silêncio da gruta
as runas sob o branco da lua.
E, enquanto vou procurando,
afio minha espada com o nada.
Há algo no coração que é de dragão.

Eu luto contra um monstro, mas não o mato.

Buscar, continuo buscando:
o castelo do anel,
o estreito nessa voz branca.

Tenho um nome de sombra;
o meu não é um nome de homem.

Eu rasgo de preto para branco,
arranco do branco para o rubro,
eu rasgo do rubro; eu quero o ouro –
o ouro do seu ser e seu morrer,
cálice azul em que a luz descoberta
sela a lucidez do infinito.