Poesia Minha filha

Minha filha

Jennifer Franklin
trad. do inglês

Se você a visse, pensaria em como ela é linda.
Estranhos me param na rua para dizê-lo.

Se falasse com ela, veria que essa beleza
Não significa nada. Sua visão se deslocaria para os pombos

Na calçada. Seu contato com os olhos se tornaria
tão precário quanto o dela e escapariam lentamente

Com diferentes graus de graça. Eu nunca sei
O quanto dizer para explicar o desgosto.

Às vezes, lhes digo. Mais frequentemente fico em silêncio.
Com o sorriso dela cauterizando-me, firmo

Sua mão por todo o caminho até em casa, embalando-nos.
As mãos da florista entregam-lhe uma rosa já morta

Que ela guarda suavemente, sem rasgar as pétalas, como faz
Com as tulipas que olham para nós com sua expressão insípida,

Fingindo que podem aguentar o meu sofrimento
Em seus copos alongados, porque eu os conhecia

Antes de conhecer a dor. Eles não entendem que
Estão arruinados para mim agora. Eu plantei quinhentos

Bulbos que, como ela, germinaram dentro de mim, seu cérebro já
Formado por fios de nosso dna danificado

Ou qualquer outra coisa que os médicos não entendem.
Após o banho, ela enrola-se em mim para eu niná-la –

A única vez durante o dia que seu pequeno corpo permanece quieto.
Então eu canto, respiro nos cabelos lavados e penso

Nos esqueletos no Musée de Préhistoire
Em Les Eyzies. Os ossos da mãe e do bebê

Deitados em uma caixa de vidro nessa mesma posição
em que estamos. Eles foram enterrados de maneira incomum:

A criança enrolada na curva do braço da mãe.
Os arqueólogos estão intrigados com a posição.

Isso não me surpreende de todo. Seria fácil
Morrer dessa maneira, cada uma de nós no último suspiro,

Com rimas infantis em nossos lábios abertos
E a promessa de um sono tranquilo.

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Dyal ThakDyal Thak

Uma vaca pastando em uma colina seca com uma mulher vestindo um robe ao fundo, sob um céu azul e uma lua cheia visível.

Há dias, não, meses, que tenho esta imagem guardada comigo.

Tomei-a de uma revista de fotografia pensando que um dia escreveria um poema a partir dela.

Há poucos dias (não, meses), compreendi também que não escreveria mais poesia.

Algo em mim havia se tornado impermeável. Fracassava qualquer desejo de mostrar o que não está posto, tentar essa revelação a frio, a seco, que há em oferecer sentidos a mais, outra perspectiva ao óbvio de uma imagem bidimensional.

Nada posso acrescentar a essa imagem. Não posso colocar a lua no céu, ela já está lá. O animal pastando é uma constância, estará sempre assim. E o olhar da mulher, indefinido, eu o reconheço: é o mesmo meu.

Sinto em mim, em relação à poesia, uma fadiga como a dos metais. O aço que estourou mesmo sem nada suportar, como se fosse ao mesmo tempo o vórtice do mundo real.

Deste vórtice eu me afastei sem sentir tristeza por isso, apenas um pouco de saudade de quando sentia que conseguia ainda vivificar as imagens do pensamento. Era uma sensação muito poderosa, indescritivelmente poderosa, mas da qual, agora, guardo uma distância imprecisa e respeitosa.

A poesia requer, eu acho, uma ingenuidade incompatível com o ponto de vista de quem observa e analisa. O poeta observa para ver melhor e entrega o que vê de uma forma que cause espanto aos demais a cegueira em que ele mesmo se encontra. Ele entrega o que tateia e, por isso, temos sempre uma relação de admiração piedosa com estas pessoas. Eles não sabem e sabem que não sabem, pois estão sempre em busca desta confirmação.

Seja como for, e eu não sei mais do que isto, estou tranquilo com a lua no céu e sua desproporção. Estou tranquilo com o bovino matando a sua fome. Estou tranquilo como a paisagem que a mulher olha e não podemos saber o que é.

O que eu desejaria escrever em poesia é como essa paisagem: é o que eu não sei, o que não foi me dado ver. E, sabendo que é isso, apenas, e tudo que me importa, então tudo está dito.

A fotografia é de autoria de Kin Coedel, de uma séria intitulada Dyal Thak (termo em tibetano que significa “laços mútuos” ou “conexão”)