Poesia Eu sou…

Eu sou…

Alejandra Pizarnik (1936-1972)
trad. do espanhol

minhas asas?
duas pétalas apodrecidas

minha mente?
tacinhas de vinho azedo

minha vida?
vazio bem pensado

meu corpo?
um talho na cadeira

meus altos e baixos?
um gongo infantil

meu rosto?
um zero dissimulado

meus olhos?
ah! pedaços de infinito

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Dyal ThakDyal Thak

Uma vaca pastando em uma colina seca com uma mulher vestindo um robe ao fundo, sob um céu azul e uma lua cheia visível.

Há dias, não, meses, que tenho esta imagem guardada comigo.

Tomei-a de uma revista de fotografia pensando que um dia escreveria um poema a partir dela.

Há poucos dias (não, meses), compreendi também que não escreveria mais poesia.

Algo em mim havia se tornado impermeável. Fracassava qualquer desejo de mostrar o que não está posto, tentar essa revelação a frio, a seco, que há em oferecer sentidos a mais, outra perspectiva ao óbvio de uma imagem bidimensional.

Nada posso acrescentar a essa imagem. Não posso colocar a lua no céu, ela já está lá. O animal pastando é uma constância, estará sempre assim. E o olhar da mulher, indefinido, eu o reconheço: é o mesmo meu.

Sinto em mim, em relação à poesia, uma fadiga como a dos metais. O aço que estourou mesmo sem nada suportar, como se fosse ao mesmo tempo o vórtice do mundo real.

Deste vórtice eu me afastei sem sentir tristeza por isso, apenas um pouco de saudade de quando sentia que conseguia ainda vivificar as imagens do pensamento. Era uma sensação muito poderosa, indescritivelmente poderosa, mas da qual, agora, guardo uma distância imprecisa e respeitosa.

A poesia requer, eu acho, uma ingenuidade incompatível com o ponto de vista de quem observa e analisa. O poeta observa para ver melhor e entrega o que vê de uma forma que cause espanto aos demais a cegueira em que ele mesmo se encontra. Ele entrega o que tateia e, por isso, temos sempre uma relação de admiração piedosa com estas pessoas. Eles não sabem e sabem que não sabem, pois estão sempre em busca desta confirmação.

Seja como for, e eu não sei mais do que isto, estou tranquilo com a lua no céu e sua desproporção. Estou tranquilo com o bovino matando a sua fome. Estou tranquilo como a paisagem que a mulher olha e não podemos saber o que é.

O que eu desejaria escrever em poesia é como essa paisagem: é o que eu não sei, o que não foi me dado ver. E, sabendo que é isso, apenas, e tudo que me importa, então tudo está dito.

A fotografia é de autoria de Kin Coedel, de uma séria intitulada Dyal Thak (termo em tibetano que significa “laços mútuos” ou “conexão”) 

Porto Alegre, 10Porto Alegre, 10

Sentado um instante num banco do parque,
notei algo em que havia pisado mais cedo
e que continua engastado nos pés —
uma pedrinha que encontrou um sulco
onde enfiar-se, como uma felpa
se acomoda na pele, incomodando,
e queremos de uma vez arrancá-la.

De que rua eu a trouxe?, penso,
e já não tenho certeza onde estive.
Ultimamente tenho trocado, sem perceber,
nomes de ruas por nomes de gente.

Foi, talvez, onde antes encontrei
um cachorro magro de dar pena
e que se defendia dos passantes
tão feroz quanto um lobo.

Há muitos animais que rondam aqui,
uns de inacreditável memória
(isso bem ao contrário de mim
que me desencontro de ti
como se estivesse chegando
sempre pela primeira vez).

Mais cedo eu andava com tanta pressa
que outra vez não percebia
que é sempre uma corrida em vão.

Já havia perdido a hora e então me dei ao direito
de sentar um momento num dos bancos vazios
e lembrar de quantas vezes o fizera.
Mas sempre há algo de novo no cenário,
nem que seja uma árvore tombada
que subitamente a memória acusa
e que à vista não se revela.

Ou pode ser uma criança nascida quase em 2026
e que o pai decidiu que aprenderia a andar
nessa areia dos passeios do parque
porque nisso deve haver
uma forma especial de aprendizagem.

Talvez ali uma pedra também encontre
aquele pequeno corpo
e se inscreva numa cicatriz,
dessas que são imunes ao esquecimento.