Porto Alegre, 10

Sentado um instante num banco do parque,
notei algo em que havia pisado mais cedo
e que continua engastado nos pés —
uma pedrinha que encontrou um sulco
onde enfiar-se, como uma felpa
se acomoda na pele, incomodando,
e queremos de uma vez arrancá-la.

De que rua eu a trouxe?, penso,
e já não tenho certeza onde estive.
Ultimamente tenho trocado, sem perceber,
nomes de ruas por nomes de gente.

Foi, talvez, onde antes encontrei
um cachorro magro de dar pena
e que se defendia dos passantes
tão feroz quanto um lobo.

Há muitos animais que rondam aqui,
uns de inacreditável memória
(isso bem ao contrário de mim
que me desencontro de ti
como se estivesse chegando
sempre pela primeira vez).

Mais cedo eu andava com tanta pressa
que outra vez não percebia
que é sempre uma corrida em vão.

Já havia perdido a hora e então me dei ao direito
de sentar um momento num dos bancos vazios
e lembrar de quantas vezes o fizera.
Mas sempre há algo de novo no cenário,
nem que seja uma árvore tombada
que subitamente a memória acusa
e que à vista não se revela.

Ou pode ser uma criança nascida quase em 2026
e que o pai decidiu que aprenderia a andar
nessa areia dos passeios do parque
porque nisso deve haver
uma forma especial de aprendizagem.

Talvez ali uma pedra também encontre
aquele pequeno corpo
e se inscreva numa cicatriz,
dessas que são imunes ao esquecimento.

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LaurelLaurel

Feliz, a primavera
sobrevive sem flores
de empréstimo.

E aqui se daria
o nascituro da tarde —
num indefinido meio-dia.

O pássaro (sem ventura)
trafega o espaço, mas
doutra estrutura.

Os olhos não alcançam
o que se ergue
como fortuita quimera.

Numa única paleta de cores,
o mesmo dia renasce
uma centena de vezes.

O azul não continua azul.
O céu migra de lugar.
A sombra não atenua.

Luz rosácea que restou,
do caule seco da flor
a folha comparece

e empresta os braços ao sol
como uma reserva disforme
da flor imerecida.

Já pensou, se ouvida,
o que ela diria? Nada..
Isso foi toda a vida.

DefeatedsDefeateds

my dear B, when you died
I did not cry so much, but you don’t need
forgive me, I did
and still thank you
the few years that divided
all that misery
and our great and unforgettable friendship

I remember when you were sad
by continuous returns
to never realized hopes
“Life is like that,” I told you
without having any idea of what life was
and what happened to you

and when you fell in love
and that was inaccessible to you tell her or show it
because he never listen to you
and you taught me
to trust more in poetry than in love

today I’ll take a few heavy beers
in your memory

You knows
I have only good memories of us
and I want to thank you for having disappointed me early
about the good men and men of faith
and about yourself as well
this was your greatest proof of friendship

I remember we were looking together in books
which is not met in the streets and bars
and people had helmeted face
and dirty jokes and closed minds
like an crazy army

when things started to not give too sure
in your life
I did not know your address and your phone
or and even if you still remember me fondly
or contempt for it (I think I don’t deserve)

today I will drink white wine that I never could bear
in our memory

I need to forgive you by me
my descent and my destiny
you please to free himself from me
now that you cannot
I know that in one way or another I marked your life

the way the horses marks the abundant pasture
whales marks the forgotten water
the birds in the empty wind
and life marks the universe and history
(vainly)

because it was you that was my best memories
and no one else, when I was pure, but it wasn’t sweet
when not yet grown accustomed to lie and to lie
when I sought to know without any suspicion
when I would rather do nothing
to live the lie of others
and you helped me understand that we were always alone
despite the love and hate that they keep for us

my dear B, when you died
I was glad to hear that you did not suffer
more than myself to know that you died

today I’ll drink the same cheap cognac with which we faced the cold
in my memory

[uma versão em português deste poema está publicado em Falso Alarde]

NovembroNovembro

Novembro me tirou meia dúzia
de palavras soltas na boca.

Palavras que, pensando bem,
não levariam a nada.

A não ser que me levassem a outro Natal,
esqueci o que faziam ali. E desde aí
inventaram a revolta de lançar-se fora
por conta própria — mas então já era dezembro.

Dezembro, que é mês de esperanças, ciladas
e estranhezas delicadas como esquecer.

Há prazos que pesam nos fatos demais,
as uvas açulando as raposas
com as mesmas mentiras de sempre.

No centro deteriorado do verão
todos dormem ou, antes, partiram.

Cada palavra é uma trinca quimera
que não pode nos escolher.
Nós que a dizemos, diria-se.

E o calendário dependurado apenas
um acaso de víspora, uma pedra cega,
mera orelha de lince o ciclone final.

E agora já nada sobrará
dos famintos aos famintos.
A sede? Suspende-se.. A porta? Sumiu…

No ano que vem, meu bem,
viajaremos antes que se conclua a primavera.