Duas peles

Eu nunca vi um gato. Nem sei como eles são, na verdade. Na minha rua, nunca houve um deles. É como se vivêssemos num deserto ou mar adentro, onde também não há gatos.

Agora que trouxemos para casa um cão, sentimos a presença cada vez mais próxima dos gatos. É estranho. É como se eles passassem a habitar um andar suspenso, por tudo, a evitar o encontro definitivo com o cão. E é justamente por não vê-los que mais os vemos. Só ainda não sabemos porque essa curiosidade repentina quanto a nós e nossa vida. Será algo que comemos? Algo que oferecemos ao cão e eles pensariam se ofereceríamos a eles se fossem eles os animais domésticos? Ainda não vimos os gatos (pelo menos eu não), mas agora estamos sempre sentindo a sua vigilância.

Tenho certeza também que um dia serei acordado por olhos que serão de gato. Mas como saberei? Poderá ser o cão com uma máscara, mas os cães não são dados ao fingimento. Poderá também ser um gato com máscara de gato ocultando a verdadeira e desconhecida face do gato. Seja como for, como não sabemos lidar com eles, devemos apenas aceitar a sua presença.

Outra coisa que eu não duvido é que, um a um, ele nos escravizará com a sua ausência. Será como se ele pudesse chegar a qualquer momento, pois os gatos não reconhecem os limites das janelas ou portas. Não importa a cor da sua pelagem, ele chegará (espero eu) depois das seis da tarde, quando eu estiver cansado o bastante e depositar os óculos sobre a prateleira e, naquela penumbra, descansarei finalmente do dia passado na luminosidade do laboratório.

O cão, eu sei que ele já se acostumou ao perfume químico das minhas mãos e roupas, mas, e o gato? Tolerará? Eu não sei, todavia ontem mesmo providenciei nova tigela – não outra para o cão, mas uma só para ele. Dessa forma, quando ele chegar, terá certeza de ser aguardado e bem recebido. Quanto a nós, teremos um gato sem tê-lo, pois esse é o jeito certo de ser e ter do gato. Deve ser assim. Eu nunca vi um gato exceto o que veio dentro da pele do cão. Quando ele me olha daquele jeito que seleciona as camadas da realidade, eu me esqueço de tudo e fico imaginando o que ele deve ficar enxergando em mim.

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Coisas outrasCoisas outras

Num limiar, numa pequena fresta entre os gêneros literários mais “nobres”, é onde foi se alojar a crônica. O seu aspecto simples, comum, prosaico, às vezes simplório mesmo, ao longo do tempo tornou o gênero o mais praticado pelos leitores. Sim, pelos leitores, pois a crônica é o gênero no qual o leitor mais toma parte ativa e do qual se pede cumplicidade e concessão desde a primeira letra.

Quero dizer com isso que faz muito sentido um poeta escrever uma obra para a posteridade, por exemplo, mas nem um sentido isso faz para o cronista. A poesia é gênero que mira a eternidade enquanto a crônica vislumbra quando muito o horizonte do momento. A brevidade do momento e, às vezes, a anotação de um pensamento qualquer. Sua durabilidade depende de um sentido de universalidade distinto de outros gêneros. Um que se estabelece, por contraditório que pareça, na fixação do efêmero.

Mas aqui, para encerrar de uma vez essas considerações iniciais, interessa mesmo dizer que as definições de crônica sabidamente nunca chegaram a um consenso e cada cronista tem lá suas especificações e instruções particulares, como se tratasse de fórmula alquímica. Ou um modo de agir.

Enquanto alguns se dedicam mais ao cotidiano, outros vão à berlinda com a ficção, outros ainda se dedicam ao humour ou sentimentalismo, enfim, as margens são muitas, mas o que talvez mais importe seja que a crônica é a escrita desarmada por excelência, e que não deseja comprovar coisa alguma, muito mais oferecer o olhar do escritor conforme ele é menos articulado e consequentemente mais espontâneo. Eis aqui uma definição universal? Quem dera, mas penso que são apenas as instruções de que falava antes a respeito do que o leitor poderá encontrar neste apanhado.

Possivelmente, as crônicas e textos reunidos neste volume tenham em comum a diferenciação dos demais gêneros do que uma fórmula própria. A ausência de fórmula e premeditação, aliás, é o que sempre me levou a escrever com a displicência necessária a quem deseja escrever para nada comprovar, pelo ímpeto de traduzir em palavras pensamentos e situações que poderiam muito bem passar sem qualquer registro. Ninguém notaria sua falta. Todavia, depois de escritas, tornam-se indispensáveis. Parte mesma das coisas quaisquer que sejam elas: as “coisas”.

O que eu noto mesmo é que nesse conjunto que segue há uma pobreza impressionante de metáforas. Também não há símiles. Dito isso, sabe-se então que a poesia não pode estar erguida sem esse sustentáculo retórico que a ergue no ar, com sua solenidade tamanha. Não. Nestes textos, não há solenidade a não ser aquela encontrada ao acaso nas ruas, onde se tropeçou nela e se a encontrou e abraçou como um pensamento comum, ordinário, reconhecível à distância, do caráter mais humano –  e por isso falível – do vivido e pensado ao  escrito.

Por essas razões (e outras que não me ocorrem agora), o que vem a seguir não tem uma linha temática, um estilo, uma abordagem ou uma proposta definida. De tudo o que tenho escrito, são as coisas menos projetadas. Não eram exatamente para dar em livro, deram ares nas redes sociais, às vezes algum veículo as publicou e muitas vezes foram pensamentos que sem muito esforço nasceram e vivificaram. Não são poemas, mas podem eventualmente trazer o poético. São quase contos, sensações do momento, impressões de alguma coisa. São as coisas outras que nunca almejaram o literário e só mesmo a crônica em sua liberdade e despojamento poderia abraçá-las nessa intenção desfeita em pouco, agora registrada em livro.

O anu-brancoO anu-branco

Em madrugadas de primavera chega a parecer que acordo dentro de um conto de João Guimarães. Antes da primeira sirene de ambulância berrar no ar de Porto Alegre, uma sinfonia de aves cantarola, trina, arrulha, assobia, apita, gorgeia e cacareja numa liberdade até desrespeitosa. No breu ainda confiro: são quatro da manhã. Quase sonho que posso ouvir uma queixa de bezerro, ou uma vaca comunicando. Não tem vaca nenhuma, eu sei, mas, se tivesse, não pareceria tão estranho. As aves metropolitanas são músicos desajustados. Integram mesmo a secreta orquestra que executa a mesma sinfonia indiscreta há centenas de anos, indiferente ao que fizemos da natureza, mas com o juízo das horas atordoado, as coitadas. A pandemia aumentou o número de músicos da orquestra e, apesar de me acordarem cedo até para o campo, eu gosto de apontar os cantos que posso distinguir (andavam todos minguando em anos passados). São muitos e sei porque tenho bom ouvido. Na mesma medida sou ruim de nomes, de associar nome e figura. Então não sei quem são direito. Quase sempre me atrapalho, reconheço poucos de nome. Mas mais alto que o melodioso sabiá, num grito selvagem mesmo, o gavionídeo e predador anu branco parece sempre avisar de alguma coisa, na sua trilha de suspense que irrompe como um alarme de dentro do mato. Mas não tem mato (mato queimou). Mas tem, numa agonia de resistir.. Nem que seja dentro de pedaços do seu grito/canto afogueado.

Autenticidade poéticaAutenticidade poética

Se alguém procurasse recuperar o que de relevante se passou na poesia rio-grandense no ano de 2022, dificilmente poderia deixar de registrar a descoberta de um poema inédito de Mario Quintana no interior de um dos 5.000 exemplares obtidos de uma coleção particular por um livreiro de Porto Alegre.

Jornais e leitores de todo o país correram para anunciar a descoberta, assim comprovando a vitalidade e o interesse que o poeta ainda desperta Brasil afora, quase 30 anos após a sua morte.

Apesar de trazer sua assinatura ao final do poema, logo se procurou verificar sua autenticidade. Fizeram-no o professor e diretor do Theatro São Pedro, Antônio Hohlfeldt, e Gilberto Schwartzmann, escritor e presidente da Associação de Amigos da Biblioteca Pública Estadual do RS. Uma vez “certificado” o original, o poema foi adquirido pela associação para daí ser doado ao acervo da Biblioteca e exposto na Casa de Cultura Mario Quintana entre outros manuscritos e objetos do poeta.

Fico eu pensando: mas não bastaria bater os olhos nos versos do poeta para saber-se que não é uma falsificação?

E penso mais: como é que se poderá daqui a 30, 50 ou 70 anos investigar a autenticidade de um inédito de quem quer que seja? Como é que se poderá saber que um poema corresponde a uma autoria quando somos inundados por deep-fakes inacreditáveis de tão perfeitas? E o que dizer da imensidão de adulterações, repetições e falsificações que trafegam internet afora sem qualquer certificação?

Por uma “dicção” particular não será. Sabemos pelo exemplo de Quintana, que é um poeta dos que se costuma denominar por “inconfundível”.

Neste ponto, vivemos num tremendo impasse. Por um lado, não se imagina que se possa refrear a pulsão informativa das redes, muito menos filtrá-la. Uma iniciativa desse porte exigiria o emprego de inteligência artificial e, até onde eu sei, não há como se programar o gosto estético do que é puramente técnica, ou garantir sua incorruptibilidade. Por outro, a noção de materialidade da obra escrita esboroou-se, tornando impossível sua organização; isto significa que as bibliotecas não têm mais condições de comportar tudo o que é escrito e os meios dissolvem-se na tentativa vã de abarcar o aluvião digital.

Mesmo com isso, o impasse da autenticidade permanece.

Tudo o que poetas de todos os tempos sempre aspiraram foi a ambição de não serem confundidos com ninguém, mas aí, de repente, se faz necessária uma investigação.

A bem da verdade, ninguém aceita muito bem a despersonalização de um estilo, nem sua generalização. Todavia a vida digital assim exige. É uma imposição do meio que todo o publicado seja automaticamente liquidificado. E a todos se exige uma espécie de self adaptável, como o os oferecidos pelos apps de “desenho” inteligente.

Como vai ser isso no futuro, é no que eu fico pensando. Alguém comprará um poema inédito de alguém para expor aonde? Numa biblioteca? Biblioteca de que espécie? De postagens do Instagram?

¿Que sé yo?