E R R A T A – p/ Lucio Carvalho Artigos Lugar da poesia no pensamento brasileiro

Lugar da poesia no pensamento brasileiro

O ensaio foi também publicado na revista Sísifo (13), jan./jun. 2021

Mesmo que soe sempre como um “a quem interessar possa” ou uma encoberta inclinação filosófica, é constante a presença mais ou menos declarada do que se definiu chamar metapoesia em boa parte da obra publicada pelos poetas brasileiros do séc. XX. Considerando que é uma expressão que se volta para si mesma, é de pensar que o interesse do público quanto aos processos intelectuais e estéticos dos poetas fosse bem menor que os motivos líricos mais corriqueiros e de interesse universal. Ainda assim, continuando uma tradição auto especulativa que rendeu poemas até hoje lembrados e interrompendo um tanto a fluência e dicção de extração mais coloquial, o espaço da poesia de caráter mais reflexivo – embora limitado – está garantido na história literária nacional por meio de seus maiores expoentes, tais como o pernambucano João Cabral de Melo Neto (1920-1999) e os fluminenses Dante Milano (1899-1991) e o contemporâneo Paulo Henriques Britto.

Ao menos na poesia em língua portuguesa – em especial a realizada no Brasil – os exemplos não se encerram nestes nomes e abordam desde poemas tomados isoladamente como livros inteiros dedicados a pensar a metalinguagem empregada na poesia. São cada vez mais presentes, aliás, estudos que examinam as obras dos poetas em particular sob esse aspecto, como em Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Manoel de Barros, Ferreira Gullar, entre muitos outros nomes. Fora isso, o interesse de muitos poetas brasileiros recentes (no limite, estou pensando do fim da Primeira Guerra Mundial em diante) voltou-se frequentemente a questões menos atinentes à metapoesia e ao ordinário cotidiano, dirigindo-se a outros aspectos de interesse da filosofia, tais como as relações do indivíduo com o mundo social em suas diferentes perspectivas, impactando diversamente a vida intelectual do país.

Para além de deslocar-se do etapismo por meio do qual muitas vezes se aborda a história literária, pode consistir num campo de estudos interessante a análise da contribuição da poesia na história do pensamento brasileiro e a verificação da inclinação dos poetas a refletirem tanto quanto a si mesmos como suas escolhas e intenções temáticas. Dado que o contato dos poetas com as ideias filosóficas do seu próprio tempo costuma ser muito presente, é possível que naquela poesia mais reflexiva tais ideias compareçam de uma forma mais explícita, contaminando sua produção de acordo com o seu contato com essas ideias e a sua permeabilidade subjetiva.

Desde que se esclareça que essa interferência ocorra de modo multilateral, ou seja, sem uma ordem de precedência ou influência, poderemos ver também que, a seu tempo, muitos poetas brasileiros introduziram questões filosóficas entre o público leitor brasileiro (e mesmo entre outros poetas e intelectuais). Isso pode ter ocorrido sobretudo em momentos nos quais pouco havia de realização e publicação nacional original em filosofia. Trata-se, portanto, de garantir que cada qual seja percebido conforme a sua perspectiva particular, numa amostra da elasticidade intencional nas relações possíveis entre poesia e filosofia realizada pelos diferentes poetas.

No decurso histórico, a necessidade de uma expressão poética mais reflexiva não parece ser distribuída igualmente, então sua visibilidade é proporcional tanto aos movimentos culturais globais quanto às problemáticas com as quais a sociedade precisa lidar e, principalmente, quanto à medida a qual poetas sentem-se tocados por essas questões. Tanto a distinção histórica quanto a diversidade cultural impactam as motivações criativas de modo muito particular. Enquanto para João Cabral de Melo Neto, por exemplo, a extrusão de uma poética intelectualmente rigorosa decorre de uma percepção mais preocupada com a expressividade do que com a subjetividade, a poesia de Dante Milano, por seu turno, é mais atenta aos processos mentais e metafísicos. Já Paulo Henriques Britto, poeta contemporâneo que traz em sua produção um forte componente autorreflexivo, debate-se com o esgotamento da lírica em substituição a outras formas, como a canção, e investe mais na investigação dos impactos da representação e dos limites da autoexpressão. Dessa forma, Britto retorna com mais vigor ao debate a respeito da criação poética do que parece importar aos seus contemporâneos, isso pelo menos quanto é possível verificar na produção contemporânea publicada em livros, em periódicos especializados e antologias, de acordo com debates realizados por estudiosos e interessados na mídia cultural. Todavia seria uma limitação sem sentido atribuir a ele esse interesse exclusivo, pois a sua poesia, principalmente a registrada em seu mais recente livro, Nenhum mistério, avança muito mais em direção ao que pode a poesia em relação ao pensamento subjetivo do que aos seus aspectos formais.

É importante que se diga que o interesse aqui não é proporcionar uma leitura comparada dos poetas, mas a verificação da autopercepção e seus impactos na subjetividade expressa na poesia brasileira recente, examinando a disposição de alguns poetas em investir mais na poesia de cunho reflexivo e seu impacto na história cultural e do pensamento. Tomando-se em conta as implicações históricas particulares que afetaram diversamente aos poetas ao longo de quase um século, é preciso não ser restritivo quanto ao distinto aporte cultural de cada um nem as suas preferências e influências filosóficas. De outro modo, considerar estas questões como naturais apenas pode garantir que não se esteja procurando qualquer espécie de nivelamento prévio.

Por tratar-se essencialmente de uma metalinguagem voltada ao próprio psiquismo, a metapoesia tem uma expressão diversa e dispersa em muitos poetas. Alguns terão escrito um verso dentre muitos manifestando o contexto do qual emerge sua expressão; outros registrarão poemas dedicados a discutir a sua criação quanto às questões históricas e estéticas; alguns ainda tratarão do tema em livros inteiros ou em comentários redigidos na forma de artigos e ensaios. Talvez fosse inocente demais considerar que os poetas não elaboram uma avaliação do que criam, mas o séc. XX e a emergência modernista no Brasil tornou muito evidente este debate entre poetas no que diz respeito a sua criação, também comparativamente. É possível imaginar que, muitas vezes, não se trata apenas da defesa de uma concepção estética individual, mas de um debate mais complexo no qual se podem antever as influências filosóficas que mais os atingem e a maneira como eles resolvem a intrincada relação que se estabelece na apreensão do mundo, das ideias que nele circulam e a forma final que tudo isso impacta a criação e os interesses subjetivos.

Encontrar-se evidências ou vestígios de metapoesia, portanto, às vezes significa a expressão de uma preocupação menos aleatória do que parece à primeira vista, pois constituinte do psiquismo e do processo criativo criação de cada poeta. Além disso, como os poetas costumam conhecer-se mutuamente e trocar impressões, muitas vezes acontece desse debate evidenciar-se entre contemporâneos ou em análises históricas, de poetas do passado. Quando um poeta como Manuel Bandeira escreve a sua “Poética” e afirma do que lhe interessa, está manifestando a sua impressão a respeito do que vinha sendo feito e suas preferências. “Estou farto do lirismo comedido”, disse ele para anos mais tarde rever a si próprio e “lançar a teoria do poeta sórdido”. E quando João Cabral de Melo Neto diz a Carlos Drummond de Andrade que “não há guarda-chuva/contra o poema” e este declara a Manuel Bandeira que “(…) a minha / musa de pescoço fraco / a ver-te, mete a violinha / no saco” e Bandeira, por sua vez, escreve um livro inteiro de Louvações a outros poetas, vê-se nitidamente que os poetas dialogavam por meio da poesia para além da eventual ou corriqueira correspondência, a depender da intensidade do laço de amizade. O hábito de Drummond em dedicar versos inclusive foi reunido pelo também poeta Eucanaã Ferraz no volume intitulado Versos de circunstância, publicado em 2011 pelo Instituto Moreira Salles. Quanto à obra de João Cabral Melo Neto, Antônio Secchin registrou nela a ocorrência de dedicatórias e menções em 13 dos seus 20 livros.

Também os seguintes versos são muito demonstrativos de que os grandes poetas brasileiros modernistas e os subsequentes ocuparam-se da autorreflexão e da metapoesia muitas vezes: “Lutar com palavras/ é a luta mais vã.” – Carlos Drummond de Andrade; “O poema final ninguém escreverá.” – João Cabral de Melo Neto; “O poema deve ser como a nódoa no brim” – Manuel Bandeira; “Fere de leve a frase… E esquece…” – Mario Quintana; “Entendi que as palavras / daquele modo agrupadas / dispensavam as coisas sobre as quais versavam / meu próprio pai voltava indestrutível.” – Adélia Prado; “Densa / a palavra fere / o branco / expulsa a presença e – humana – é esplendor memória / e sangue.” – Orides Fontela.

Assim como seria inocente cogitar-se a ausência de reflexão dos poetas quanto a sua poesia, seria igualmente ingênua a suposição de que tenham se restringido a pensar apenas em si próprios. Caso fosse assim, aliás, como angariariam a simpatia dos leitores? Aí estão as coletâneas póstumas, de correspondência, artigos para a imprensa e ensaios que podem demonstrá-lo. Em relação à filosofia da composição, o desenvolvimento dos estudos acadêmicos propiciou inclusive que muitos poetas com formação em filosofia elaborassem ao mesmo tempo obra crítica e poética. No presente, os mais conhecidos no Brasil parecem ser Antonio Cícero, que tem dois livros abordando a intersecção/afastamento entre os campos filosófico e literário, e Alberto Pucheu, que, por sua vez, organizou um dos poucos livros recentes que abordam a congruência dos temas. Adélia Prado, embora tenha formação pela Faculdade de Filosofia de Divinópolis, ao que me consta não tem publicação teórica a respeito da poesia, a despeito de ser uma poeta que reivindica muito em seus poemas o lugar da reflexão metafísica e tenha algumas poucas vezes concedido entrevistas e realizado conferências a respeito de sua obra. Adélia é muito mais conhecida por poeta, no entanto, que por filósofa. Orides Fontela, que em 1983 foi premiada com o Jabuti de poesia por Alba, formou-se em filosofia pela Universidade de São Paulo e registrou num único ensaio a sua percepção quanto aos dois temas, afirmando que, em seu ideal, “poesia não é loucura nem ficção, mas um instrumento altamente válido para apreender o real” (FONTELA, 2018, p. 11). E provavelmente haja outros nomes não tão conhecidos ou menos evidentes que presentemente estudam filosofia e escrevem poesia de forma concomitante, uma vez que nem toda a poesia escrita é bem divulgada e difundida.

No exterior, são bastante conhecidos muitos filósofos que também foram aos versos para expressarem-se; ocorre-me rapidamente a alemã Hannah Arendt (cuja obra poética traduzida para o português parece estar finalmente avançando) e, um pouco mais remotamente, Miguel de Unamuno. Também seria possível buscar aqueles poetas cujas obras foram tomadas em algum momento como ponto de partida de estudos teórico-filosóficos, tais como Wallace Stevens, T. S. Eliot, Paul Celan, Robert Frost e outros – são os assim chamados philosophical poets. Especificamente Hannah Arendt interessa a esta argumentação porque, mais adiante, será possível verificar que ela discute em seu livro final, A vida do espírito, não apenas a origem e relevância da metáfora na constituição e organização do pensamento, mas também o tempo, elemento constantemente evocado na poesia de muitos poetas do modernismo brasileiro, como Cecília Meireles, Jorge de Lima e Mário Quintana.

Para além das preocupações autoexpressivas e metalinguísticas observáveis na poesia, as ideias filosóficas, por outro lado, muitas vezes nela diluem-se em temáticas e abordagens tão diferenciadas quanto são as vozes poéticas. As inflexões filosóficas e reflexivas ocorrem, por essa razão, de forma assistemática e essencialmente desigual, com algumas poéticas mais atentas ao mundo externo e outras ao mundo interno, mas num movimento desuniforme. Além da reflexão sobre a poesia e o ato de escrevê-la, poetas de todas as épocas têm induzido por meio de suas obras as pessoas à reflexão. De uma forma religiosa ou profana, sob o rigor formal ou por meio do verso livre, não importa, o poema “altera” o mundo sem alterá-lo efetivamente. Faz simbolicamente e é por meio de suas atribuições figurativas e argumentativas que no leitor cresce ou decresce sua empatia para com ele, numa negociação de linguagens, crenças e expectativas. O poeta, por meio de seus recursos e artifícios, causa sem causar no mundo físico, mas atinge o psiquismo das pessoas na sua emoção, sentimentos e capacidade reflexiva.

Se é mesmo vedado ao poeta descrever ou narrar completa e efetivamente seus sentimentos (para o filósofo coreano Byung-Chul Han “nem o afeto nem a emoção são narráveis”) (HAN, 2018, p. 60), seu elo comunicativo com o leitor então é sempre limitado e incompleto, pois duas pessoas nunca são plenamente equiparáveis em personalidade, experiência e compreensão. Contudo, mesmo considerando países com letramento precário como o Brasil, é na poesia que as pessoas muitas vezes primeiro tomam contato com ideias intelectuais mais elaboradas ou filosóficas e criam laços importantes de identificação com poetas e suas ideias e metáforas. Se a incomunicabilidade entre as pessoas é por vezes facilmente identificável e constatada, também é notável a capacidade que muitos poetas têm de induzir as pessoas às emoções e pensamentos menos usuais na vida cotidiana, gerando empatia e identificação. Por muito tempo, os jornais brasileiros contaram com poetas que contribuíram regularmente e que, desse modo, fizeram-se conhecidos e deram a conhecer sua visão de mundo e de humanidade.

Evidentemente que, ao longo de um século (e ainda por cima um século como o vigésimo), os padrões comunicativos e estéticos se alteraram muitas vezes; e radicalmente em muitas delas. A poesia, que se desenvolveu e transformou a reboque de movimentos históricos, políticos e culturais marcantes, foi inevitavelmente impactada por todos esses elementos sociais e históricos, além dos provocados por movimentos de reivindicação estética ou ideológica. Foi durante o período crucial da Segunda Guerra Mundial que um poeta com uma dicção um tanto incomum se fez notar entre os leitores e autores modernistas, diferenciando-se ao mesmo tempo do modernismo brasileirista, do grupo espiritualista reunido em torno da revista Festa e também dos elegíacos Augusto Frederico Schmidt e Vinícius de Moraes: em 1948, contra a sua vontade, pois preferia a posteridade à publicação, Dante Milano impactaria leitores e crítica com sua lírica cerebral, por meio do livro Poesias, publicado pela José Olympio no Rio de Janeiro.

Dante Milano

No período anterior à publicação de Poesias, livro que reúne os poemas que foram praticamente todos os que ele escreveu (ou pelo menos manteve) em vida, Dante Milano publicou esparsamente em jornais, principalmente no suplemento Autores e Livros, do jornal A Manhã, poemas, traduções e artigos a respeito de literatura e outros assuntos. Ainda assim, para a crítica da época, composta por alguns estudiosos e muitos escritores, o seu lançamento em livro foi determinante para balançar ainda mais a torre modernista, pois a sua poesia intelectualizada exigia uma percepção mais acurada que, pelas mãos de amigos e admiradores de anos anteriores, não tardou a chegar. Dante Milano guardou o quanto pode seus poemas e sua publicação tardia, por esforço de amigos, em 1948, constituiu, de acordo com Sérgio Buarque de Holanda, no evento literário mais importante da vida literária daquele momento. Além dele, Franklin de Oliveira, Paulo Mendes Campos e Manuel Bandeira também, no calor do momento, saudaram a chegada de seu livro e dedicaram-lhe críticas muito positivas.

Essa poética intelectualizada, em grande medida filosófica, nascia para o Brasil como outros poetas haviam aparecido no mundo, tais como Fernando Pessoa em Portugal, Eugenio Montale na Itália e T. S. Eliot e W. H. Auden no mundo anglófono. De acordo com Ivan Junqueira, Dante Milano esfriava um pouco o ânimo naturalmente exaltado do brasileiro e de forma inaudita:

É que, contrariando as tendências efusivas e algo emocionais da poesia brasileira – mas não, necessariamente, as da poesia de língua portuguesa -, Dante Milano cultiva uma poética do pensamento emocionado, como o fizeram os chamados “poetas metafísicos1” ingleses do séc. XVII, o que não significa que sua expressão haja renunciado à emoção. Quem nele sente, porém, é o pensamento (JUNQUEIRA, 2005, P. 300).

Embora não fosse filósofo e nem comungasse das propostas estéticas das vanguardas do entre guerras e preferisse a austeridade das formas fixas às experimentações em verso livre, a sua publicação viria a influenciar mesmo poetas que surgiram e foram publicados antes dele, como Murilo Mendes. Murilo, mais espiritualizado do que ele, também escrevia uma poesia bastante diferenciada em relação aos seus contemporâneos, mais por conta de uma autoimersão na proposta surrealista, tendo uma visão muito particular a respeito do que a poesia deveria realizar: “a poesia deve propor não só um conhecimento, mas ainda uma transfiguração da condição humana, elevando-nos a um plano espiritual mais alto.” Dante Milano, por outro lado, não se devotava de todo às ideias metafísicas e, mesmo identificado por seus críticos como o poeta do “pensamento emocionado”, costumava conservar uma lucidez constante quanto às possibilidades poéticas e as suas como indivíduo. Essa atitude filosófica que transborda para a sua poesia de certo modo compeliu muitos leitores sensíveis e outros poetas também na realização, a seguir, de uma poesia mais introspectiva.

Além dele, outros poetas, modernistas e posteriores, cada qual com sua peculiaridade, aproximaram-se dos temas mais reflexivos por desejo autônomo. Embora Vinicius de Moraes abandonasse o misticismo religioso com Forma e exegese e passasse a tematizar preocupações mais mundanas, com o lançamento de Mar absoluto, de Cecília Meireles e O aprendiz de feiticeiro, de Mario Quintana, a poesia mais introspectiva aprofundou suas raízes e expandiu sua presença na literatura brasileira na década seguinte, quando Carlos Drummond de Andrade publica os seus dois livros mais intelectualizados (ou filosóficos): Claro enigma e Fazendeiro do ar e João Cabral de Melo Neto, com o Cão sem plumas e Psicologia da composição, aprofunda sua reviravolta formal e consolida sua poesia lúcida e visual de forma ímpar na poesia brasileira.

Porque recluso da vida social literária – embora guardasse amizades duradouras com os principais artistas e intelectuais da sua época – Dante Milano descolou-se muito das influências predominantes no período, em sua maioria provenientes do exterior, e recuperou da leitura dos clássicos e da filosofia muito de sua perspectiva peculiar. Mal situado no modernismo e na poesia de vanguarda que logo apareceria com mais força no Brasil, na década de 50, mesmo um crítico estudado como José Guilherme Merquior preferiu colocá-lo como um dos poetas “avulsos” em meio às principais tendências poéticas do modernismo brasileiro, sem deixar de registrar a particularidade de sua “marca de permanência” dada pelo rigor que aplicava na expressão de sua poesia intimista.

Voltando sua atenção a temas filosóficos universais e ao drama humano marcado sobretudo pela consciência do desamparo da finitude, Dante Milano desembaraçou-se de debater em sua poesia muitas questões candentes de seu tempo, o tempo da Segunda Grande Guerra. Todavia, em seus artigos e pequenos ensaios, ele também se dedicou a assuntos de interesse político e voltou-se algumas vezes à poesia contemporânea, mas ainda mais a do passado, com a de Dante e de Baudelaire, que traduziu. É o suficiente para desmentir a hipótese de poeta isolado do mundo e afastado dos problemas de seu tempo, ainda que o “tempo” considerado filosoficamente parece ter-lhe ocupado mais e rendido um dos estudos mais conhecidos, publicado em 1942 no suplemento Autores e Livros. Em Na biblioteca do tempo, Dante Milano demonstra sua preocupação acerca da transitoriedade de tudo, inclusive da modernidade e confirma assim a sua preocupação em manter a sua própria percepção do mundo por meio da escrita: “O Tempo é um velho leitor, atento e incansável. Nem um instante larga o livro. Parece que da vida só existe para ele aquilo que ficou escrito. O resto desaparece, o Tempo não o lê.”

Na poesia de Dante Milano, o desencanto com a própria condição humana o conduz a uma espécie de rendição à aniquilação inevitável da existência. De um tempo fugaz, preenchido pelo cotidiano e pela materialidade das coisas, Dante Milano se desprende em direção ao pensamento em sua forma mais pura, decisiva para ele mesmo e menos intencional que poderia ser uma poesia mais cerebral. Que ele tenha tratado isso de forma encantadora e poética se deve, talvez, ao seu intenso amor pela arte poética e pelo que ela consegue devolver ao poeta do que o tempo e a condição humana, débil e finita, a própria vida paulatinamente foi quitando. Sem nunca perder essa autoconsciência, talvez como a obra de Fernando Pessoa se concentra sobremaneira na dualidade do ser e do pensar o ser, Dante Milano conseguiu consagrar na poesia brasileira uma mentalidade mais autocrítica do que crítica do mundo e diferenciou-se dos demais poetas brasileiros de sua época pelo que Paulo Mendes Campos denominou de “antilirismo lúcido”, confluindo o pensamento simbólico da poesia em direção a uma subjetividade esvaziada pela ruína moral experimentada pela humanidade no período em torno ao horror da Segunda Guerra Mundial. Possivelmente pelo arruinamento do mundo, Dante Milano tenha se voltado à introspecção. Dessa sua tendência ou determinação, não importa, conseguiu criar sonetos, cantigas e poemas em verso livre sobre a própria condição da existência, como nos versos a seguir:

Cantiga

A vida é tempo perdido.
O que se ganha é bem pouco.
Que vale ao morto o vivido?
Que vale ao vivo, tampouco?

E nunca me sai do ouvido
Esse rumor incessante:
“A vida é tempo perdido”…
Oh, que marulho distante,

Voz de sepultos oceanos
Num caracol aturdido.
Longos dias, breves anos.
A vida é tempo perdido.
(MILANO, 1979, p. 49)


Lugar da poesia no pensamento brasileiro

Não há dúvida que Dante Milano não foi o único poeta brasileiro que se voltou a uma tendência intimista no decurso do séc. XX. Muitos outros poetas já mencionados o fizeram e precederam, porém, a radicalização empreendida por ele até a sua aparição era inaudita. Talvez por conta de seu afastamento dos círculos literários ou por suas predileções temáticas particulares, nunca se poderá saber ao certo, sua dicção se diferenciou bastante dos seus contemporâneos, apesar de muitos compartilharem mais ou menos de preocupações subjetivas e desenvolvessem também uma poesia de caráter mais especulativo, aproximando-se do pensamento mais filosófico ou, como às vezes suponho, tenha especulado filosoficamente por meio da poesia, embora não seja por isso, entretanto, que um poeta possa ser mais ou menos notável em razão de sua poesia. Como adverte o poeta e filósofo Antonio Cicero: “o que torna um poema admirável enquanto poesia não é o que torna um texto filosófico admirável enquanto filosofia” (CICERO, 2012, p. 30).

De todo modo, o trato com categorias simbólicas e a expressão do sentimento pessoal e interpessoal é motivo constante na poesia brasileira do séc. XX, e a própria conformação de um público leitor de poesia decorre de sua identificação para com poetas próximos e daqueles que se fizeram conhecer popularmente sobretudo por meio da publicação na mídia impressa. De acordo com Carlos Felipe Moisés:

“A valorização da intimidade, na lírica moderna, de certo modo define o caminho a ser inevitavelmente explorado tanto pelo leitor quanto pelo poeta, qual seja o do convívio mais estreito com a vida interior. Para o poeta não há alternativa. Dispensado das atividades diárias da Urbe utilitarista e inóspita, este se recolhe na subjetividade, de onde espera extrair a matéria de sonho e realidade a ser carreada para seus poemas. Já o leitor será convidado a reproduzir a experiência do recolhimento, primeiro na condição de confidente privilegiado, diante de quem (ou diretamente a quem) o poeta expõe suas inquietações profundas, seus receios e anelos, sua mais secreta intimidade, na expectativa de encontrar algum acolhimento, recepção afetiva e compreensão. O convívio com a interioridade alheia conduzirá o leitor, num segundo momento, a desenvolver a experiência paralela do convívio com sua própria vida interior, seja sob o signo do contraste e da repulsa provocada pelas “estranhas inquietações do poeta, seja sob o signo da empatia e da identificação eventualmente experimentadas diante dessas mesmas inquietações.” (MOISÉS, 2007, p.92).

Considerando um período histórico no qual os estudos filosóficos acadêmicos recém começavam a ser publicado na forma de livro e o mundo das ideias era tratado por pessoas de formação diversa, como juristas, escritores e jornalistas, muitas reflexões de natureza existencial chegaram ao público leitor pela forma poética. Dado que o mundo da canção popular se ocupava cada vez mais dos motivos líricos, o campo filosófico abriu-se também aos poetas. Em que medida cada poeta apropriou-se desta ou daquela ideia seria uma tarefa imensa por descortinar, porém certa tendência intelectualizada se confirmou na poesia brasileira a partir dos poetas que abertamente abordaram os grandes temas filosóficos, Dante Milano entre eles.

Os precedentes dessa tendência estão no mundo por toda a parte e evidentemente os poetas e estudiosos brasileiros vinham travando, como desde o séc. XIX, contato com a poesia e a crítica realizada no estrangeiro. Paul Valéry, T. S. Eliot, André Breton, Francis Ponge e críticos como Edmund Wilson eram bem conhecidos entre os modernistas, assim como os poetas portugueses reunidos em torno da revista Orfeu e Presença.

Fernando Pessoa, o autor de Autopsicografia, o poema metapoético por excelência, influenciou os poetas brasileiros e inclusive Cecília Meireles teria procurado encontrá-lo pessoalmente, em Lisboa, alguns anos antes de sua morte, em 1935. Ele, que pensava em si mesmo tanto na forma de poesia como analítica, tinha uma autocrítica incomparável tanto em relação às possibilidades da poesia como a cotejava permanentemente com a filosofia, ocultismo e tantas outras coisas que estudou. Numa das autodefinições encontradas em suas anotações filosóficas, ele se diz como “um poeta impulsionado pela filosofia, não um filósofo dotado de faculdades poéticas (PESSOA, 1966, p. 14)”, mas, logo a seguir, diz por meio de seu heterônimo mais antifilosófico, Alberto Caeiro, que “Os poetas místicos são filósofos doentes, / E os filósofos são poetas doidos.” (PESSOA, 1946, p. 53). Conforme comenta Leyla Perrone-Moisés, quanto a ele “os citadores contumazes parecem não se perturbar com o fato de, para cada citação de Pessoa, haver outra que diz exatamente o contrário” e mais, que “cada vez que Pessoa é citado, é em nome de uma verdade; ora suas verdades são tantas e tão contraditórias que, no conjunto, negam a existência de qualquer verdade.” (PERRONE-MOISÉS, 2000, p. 146).

Como Heidegger ao procurar na poesia de Holderlin a expressão mais autêntica do sentimento moderno, filósofos muitas vezes se valeram do trabalho de poetas para situar e analisar a história das ideias. No Brasil, o estudo da poesia com base em sua apreciação filosófica tem menos um marco acadêmico que autocrítico, sendo normalmente realizada tanto por outros poetas e escritores quanto pelos próprios. A Segunda Guerra Mundial, se trouxe para cá o desencanto de um projeto de modernidade arruinado, trouxe também muitos estudiosos que rapidamente se integraram à vida intelectual brasileira, como Otto Maria Carpeaux, Paulo Rónai e outros. Apesar da tradição nacional de estudos literários do séc. XIX, esses críticos tinham mais facilidade com idiomas e tradições literárias pouco difundidas até mesmo no Brasil dos modernistas. Já na década de 1950, a compreensão da poesia brasileira e seus movimentos externos se encontrava bem mais consolidada, mas, até então, poetas escreviam muito a respeito de si próprios e a metapoesia serviu bem a esse propósito reflexivo ainda carente de uma abordagem essencialmente crítica, como a inaugurada nos trabalhos de Aurélio Buarque de Holanda, Antonio Candido e seus tantos discípulos.

À parte essa aproximação, é interessante notar que quando o mundo letrado parecia ser mais permeável ao cidadão comum e não tanto território de especialistas e teóricos, menos se distinguia essa irmandade entre poesia e filosofia e, contraditoriamente, mais elas se mesclavam. Qualquer pessoa que trave contato com os grandes poetas em língua portuguesa do séc. XX encontrará pessoas que se preocuparam e exprimiram, por meio da literatura, inquietações filosóficas, religiosas, políticas, mas, sobretudo, subjetivas. A especialização dos estudos literários, por um lado, permitiu uma compreensão mais detalhada e esmiuçada do fenômeno poético, por outro, tornou menos terrenas as inquietações poéticas que, para alcançar esse status, precisaram cada vez mais nutrir-se de elementos estéticos de diferenciação à teorização crescente. Embora aqui não se deseje avaliar a qualidade disso ou daquilo, este impasse acabou se tornando central na consolidação de um repertório literário. Este é um problema, portanto, da alçada da contemporaneidade. A questão de examinar a metapoética e a aproximação da poesia contemporânea com outros campos de saber, tais como a filosofia ou a história, por exemplo, parece ser um larguíssimo território por explorar.

Ao longo da segunda metade do séc. XX, o Brasil protagonizou, assistiu e absorveu muitas outras influências. Desde o cinema norte-americano até a literatura do pós-guerra e, de forma atrasada, autores centrais anteriores à guerra, como Kafka, que teve em Carpeaux um dos seus primeiros difusores no Brasil. A questão interessante de pensar o séc. XX é que seus principais autores e poetas produziram ao longo de todo esse tempo, transformando uns aos outros. Nessa segunda parcela do século, encontram-se ativos e produtivos boa parte dos poetas modernistas, como Drummond e Bandeira, além de testemunharem a chegada de outros e o nascimento de vertentes muito características do período como, por exemplo, o movimento concretista. Talvez porque seja da natureza da poesia justificar-se ou explicar a si mesma e aos demais, também aí se observa uma considerável produção de metapoesia e crítica elaborada pelos próprios poetas, avançando-se até o final do século com diversos percalços de ordem política nesse intervalo.

Ferreira Gullar, poeta que surge em 1955 com A luta corporal, além de romper com a discursividade lírica do modernismo, pensa a respeito de sua poesia e apaga nela um tanto da expressividade de tom confessional predominante na geração de 1945. Para Gullar, “o poeta, portanto, não cria, não inventa, mas apenas diz, mostra o existente existindo” (GULLAR, 1978, p. 47). Sua poesia, para Ivan Junqueira “descarnada” e “seca”, simboliza a partir do real e é reflexiva também quanto ao próprio estar no mundo do poeta e sua passagem pela vida:

Lição de um gato siamês

Só agora sei
que existe a eternidade:
é a duração
           finita
           da minha precariedade.

O tempo fora
de mim
            é relativo
mas não o tempo vivo
esse é eterno
porque afetivo
– dura eternamente
enquanto vivo.

E como não vivo
além do que vivo
não é
tempo relativo:
dura em si mesmo
eterno (e transitivo).
(GULLAR, 2015, p. 496)

Cada qual a seu modo e sob influências as mais diversas, poetas buscam sempre formas de fixar as inquietações subjetivas e mundanas conforme alcançam a percepção do mundo e de si próprios. Algumas vezes, de acordo com a compreensão de Susan Sontag a respeito da arte moderna e do “hábito crônico” em desagradar, essa comunicação foi inteiramente negativa, ou mesmo “inaceitável”; isso pode tanto significar a intenção de silenciar a repercussão pública ou impactá-la. Pelo menos nos momentos políticos mais opressivos também ocorreu um chamado à poesia engajada. Nos anos 80, Paulo Leminski, poeta modelar da geração pós-marginal, tentou definir dessa maneira o que seria a função do poeta, ao mesmo tempo sujeito existencial e social: “Os poetas dizem uma coisa que as pessoas precisam que seja dita. O poeta não é um ser de luxo, ele não é uma excrescência ornamental, ele é uma necessidade orgânica de uma sociedade.” (LEMINSKI, 1985). Isso sem falar que um poeta canônico como Drummond reiterou até o último momento (como em entrevista de 1987, pouco antes de sua morte) ser “inteiramente partidário da ideia de inspiração” (EMEDIATO, 1987), demonstrando a concomitância de vozes e perspectivas poéticas.

No que interessa mais ao estudo do pensamento e às relações com a poesia, e desbastando os abundantes estudos sobre os aspectos filosóficos na poesia de Fernando Pessoa, Carlos Drummond de Andrade e qualquer um dos grandes nomes da poesia do séc. XX, surgem nomes recentes e contemporâneos que poderiam ser bem observados nessa relação. Além de Orides Fontela, que foi uma poeta que também teve formação acadêmica em filosofia, penso que a poesia de Leonardo Fróes, a do próprio Antonio Cícero e, mais ainda, de Paulo Henriques Britto, poderiam ser apreendidas no viés de uma poesia que pensa a respeito de si mesmo e do mundo de forma mais especulativa e menos lírica. Esta suposição decorre da leitura dos mais recentes livros de Britto, Formas do nada e Nenhum mistério. Nos dois livros, além da metapoesia formal, vê-se também, e muito, a presença da metapoesia subjetiva, que investiga a motivação do pensamento em contraposição ao efeito criativo de consolidá-lo.

Paulo Henriques Britto

No intervalo geracional que vai desde o momento posterior ao fim do período militar até o presente, parece precipitado e injusto apontar uma dicção homogênea na poesia brasileira. Seria muito possível apontar nomes de outras tendências e estilos, mas interessa notar que, por também ser um teórico da literatura, Paulo Henriques Britto é bastante exemplar de uma trajetória poética que reflete muito a respeito de si mesma, como é bastante verificável em outros poetas que também se dedicam aos estudos acadêmicos. Britto pertence a uma geração que apareceu publicada em torno aos anos 1980 e 1990. De uma tendência formalista e afeita às formas fixas, apenas recentemente Britto tem permitido um maior acento emocional em sua poesia sempre contida e cerebral, aliás, como toda uma geração que foi bastante influenciada pelo anti-lirismo, principalmente o difundido por meio da poesia de João Cabral de Melo Neto.

Seu primeiro livro de poemas remonta a 1982, com Liturgia da Matéria, e chega a 2018, com Nenhum Mistério. Nesse meio tempo, recebeu prêmios importantes como o Alphonsus de Guimaraens, por seu Trovar Claro, de 1997, e o Portugal Telecom (atual Oceanos) por Macau, de 2004. Além disso, Britto vem traduzindo para o português inúmeros autores, dentre os quais a poeta Elizabeth Bishop, o poeta Wallace Stevens e outras várias dezenas de poetas e romancistas.

Em seus livros mais recentes, nota-se uma exacerbação de certo caráter filosófico que, se também encontrado em poetas da mesma geração, como Antonio Cícero, Claudia Roquete-Pinto, Leonardo Fróes ou Alberto Pucheu, extrapolou certo limite e contenção a que ele vinha submetendo a própria poesia, ancorada na metalinguagem e em reflexões estético-filosóficas. Embora a temática da busca de sentido e um ceticismo de pensamento estivessem presentes desde os seus primeiros livros, é notável o quanto, em seu mais recente livro, os temas da perda e da negatividade sobrepujaram os questionamentos formalistas iniciados anteriormente. Onde um poeta que antes indagava os significados objetivos da realidade, sobreveio outro que responde desde a constatação acentuada da perda, traço para ele comum a toda experiência humana e ponto de contato com a obra de Elizabeth Bishop, principalmente no poema A Arte de Perder, do qual provém o título de Nenhum Mistério, que também serve de negativa à metafísica e sujeição à casualidade de viver, temática também presente no poema transcrito a seguir.

Da metafísica


Ser parte de alguém ou algo
tão grande que não se entenda:
toda crença, ao fim e ao cabo,
se resume a essa lenda –
o mais rematado dislate,
coisa jamais entendida,
que eleva ao sumo quilate
o caco mais reles de vida.
(BRITTO, 2018, p. 65)

Seja porque Britto continua sem abrir mão do tratamento rigoroso do verso e, ainda que tenha permeabilizado a sua poesia à linguagem coloquial, popular, pela primeira vez em sua carreira ele parece ter se permitido uma maior abertura emocional. Em entrevista para a Folha de São Paulo, em setembro de 20182, Britto chegou a afirmar que “as maiores realizações artísticas são aquelas que veiculam uma carga emocional forte através da forma” (BRITTO, 2018). Trata-se do mesmo poeta que, alguns anos antes, afirmara que o lirismo já não cabia mais na poesia e que “muito do que geraria poesia hoje resulta numa canção popular. Então o território que sobrou para a poesia foi o da reflexão sobre a linguagem” (BRITTO, 2018). No que diz respeito a sua trajetória, vê-se bem que sua poesia ganhou muito com as perdas naturais da vida, o que se parece contraditório e terrível à primeira vista, revela agora uma poesia amadurecida pela forte autoconsciência que sempre o distinguiu dos demais poetas contemporâneos e mais atenta ao drama humano e suas nuances psíquicas.


Nenhuma arte

Os deuses do acaso dão, a quem nada
lhes pediu, o que um dia levam embora;
e se não foi pedida a coisa dada
não cabe se queixar da perda agora.
Mas não ter tido nunca nada, não
seria bem melhor — ou menos mau?
Mesmo sabendo que uma solidão
completa era o capítulo final,
a anestesia valeria o preço?
(Rememorar o que não foi não dá
em nada. É como enxergar um começo
no que não pode ser senão o fim.
Ontem foi ontem. Amanhã não há.
Hoje é só hoje. Os deuses são assim.)
(BRITTO, 2018, p. 9)

Como o Drummond que procura o consolo na praia, Britto radicaliza a busca despersonalizada e do esvaziamento subjetivo, um tanto mais semelhante ao cenário “desértico” (de acordo com Manuel Bandeira) da poesia de Dante Milano. Além de recusar o conforto metafísico, Britto está empenhado em combater a memória, como se procurasse desembaraçar-se do passado para enfrentar a vida presente. Quando o poeta assevera logo no começo de Nenhum mistério que “Rememorar o que não foi não dá em nada”, Britto elimina até mesmo a ausência de sua atenção mental. Essa é uma ideia que de certo modo colide com uma das ideias mais impactantes defendidas por Hannah Arendt em sua palestra O pensar, presente em A vida do espírito. Para ela, “o pensamento sempre lida com ausências e abandona o que está presente e ao alcance da mão” (ARENDT, 2016, p. 221). No entanto, Britto agora desafia a lógica filosófica em prol da sustentabilidade da própria existência. A memória evocativa e episódica é objetificada no discurso poético para uma memória semântica na qual paisagens e sentimentos são examinados com o rigor de um poeta observando a própria materialidade do poema. Outro poeta brasileiro que lida muito com metáforas contrastantes à ausência é Manoel de Barros, que muitas vezes molda sua poesia no descarte de sua aparência, como no poema a seguir:

Os deslimites da palavra

2.5
Ando muito completo de vazios.
Meu órgão de morrer me predomina.
Estou sem eternidades.
Não posso mais saber quando amanheço ontem.
Está rengo de mim o amanhecer.
Ouço o tamanho oblíquo de uma folha.
Atrás do ocaso fervem os insetos.
Enfiei o que pude dentro de um grilo o meu
destino.
Essas coisas me mudam para cisco.
A minha independência tem algemas.
(BARROS, 2010, p. 310)

Mesmo que para Hannah Arendt a poesia pareça dependente da memória, pois até para saber-se que “rememorar o que não foi não dá em nada” é necessária uma avaliação prévia do que “foi”, a poética de Paulo Henriques Britto quer se desfazer dos elementos poéticos decorativos e de todos os que não sejam decorrentes do próprio curso de pensamento. Ocorre que o apagamento total da memória não é possível, pois ela revive sempre como meio de avaliação e recurso comparativo do ser no presente, ou então é possível apenas pela morte, daí a intensidade reflexiva dos mais recentes poemas de Britto parecer decorrente de um processo mental muito severo e distante do que mesmo a poesia contemporânea mais hermética tem obtido3.

A aparência fria e a mensagem severa dos poemas de Britto não são idênticas ou equiparáveis em motivos a de Dante Milano (se é que alguma poesia é equiparável sob algum aspecto), mas é atenta a si como a daquele. Nem a memória nem o poema como “emoção-do-ser”, como definiu o primeiro José Guilherme Merquior, podem dar conta perfeitamente de todas as indagações e aproximações que os poetas fazem em relação a si mesmos e ao mundo e não há precedência em quem poderá tomá-las. Às vezes serão os poetas que motivarão os filósofos; às vezes se dará o contrário. Poesia e pensamento são ponderações distintas sujeitas às interferências tanto do mundo externo quanto das condições inerentes ao psiquismo individual de seus postulantes naquele momento. Pelo menos até que outro poeta siga o rastro daqueles mais auto exigentes em todos os sentidos, por enquanto Paulo Henriques Britto parece ser o poeta brasileiro mais afinado com certa tendência especulativa da própria subjetividade. E, despido de qualquer traço confessional, parece ser ainda assim o poeta que aparece mais nu e desembaraçado entre todos.

Conclusões

Não é que a poesia possa ou pretenda em sua volição alcançar ou substituir a reflexão filosófica, mas, talvez, muitas vezes tenha ocupado um espaço em branco o qual os movimentos estrangeiros não puderam dar conta completamente ao integrar-se à complexidade histórica inerente à sociedade brasileira. Considerando-se que a filosofia no Brasil “nasceu” quase toda nos anos 1940, na Universidade de São Paulo, e os primeiros estudos consistentes realizados por brasileiros, como os de Gerd Borhein a respeito de Martin Heidegger, Sérgio Paulo Rouanet e seu trabalho com o iluminismo e a obra kantiana, José Arthur Giannotti e seus estudos marxistas e Benedito Nunes e a literatura vieram a público em torno já da década de 1960, é de perguntar se não teriam partido, antes deles, dos poetas boa parte das mais elaboradas formulações de natureza filosófica realizadas no Brasil do séc. XX. Esta, porém, é uma questão a que não me proponho responder, apenas sugerir aos estudiosos para que a cogitem.

Em vista disso, não me espantaria que, ao menos na poesia realizada desde o aporte simbolista no Brasil, ou seja, por quase um século, as inquietações filosóficas e analíticas mais prementes se mostrassem por meio de seus poetas, que inseparáveis do ser humano. Não é que todos os poetas comuniquem ou desejem comunicar à história das ideias, mas por certo alguns entre eles acabariam por se revelar mais intimamente relacionados às questões filosóficas, e não seriam um ou dois mais destacados, mas uma tendência consolidada na poesia brasileira e com exemplos poderosos como os mencionados. Para sabê-lo, no entanto, é necessário que se examine a poesia de forma mais filosófica que contemplativa e uma leitura cuidadosa que notasse que não se propõe a confusão de suas imagens como a um espelho, mas também não apostasse num desenlace definitivo e um mútuo abandono no labirinto da compreensão e expressão.

Notas

1 Os poetas metafísicos a que Ivan Junqueira se refere são os ingleses John Donne, George Herbert, Richard Crashaw, e Andrew Marvell, assim referidos por Samuel Johnson, em Vidas dos mais eminentes poetas ingleses, a respeito de poetas que viveram no séc. XVII.

2 Ver MEIRELES, Maurício. Paulo Henriques Britto volta à poesia com versos sobre a perda e a ausência de sentido. São Paulo, Folha de São Paulo, 8 set. 2018

3 Em abril de 2019, a professora Mariella Augusta Masagão publicou artigo na Folha de São Paulo discutindo as tendências poética contemporâneas brasileiras, enfatizando uma crítica a uma poesia, segundo ela, notadamente “sisuda e hermética”. Ver MASAGÃO, Mariella Augusta. Poesia brasileira ficou sisuda e hermética, diz pesquisadora. São Paulo, Folha de São Paulo, 14 abr. 2019

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Do que me lembra Victor JaraDo que me lembra Victor Jara

Em fins da década de 70 e princípio dos anos 80, ainda fazia muito sucesso principalmente entre os estudantes universitários a canção de protesto latinoamericana. Num tempo sem direito a factchek nem fakenews (pelo menos oficialmente), as notícias corriam de boca em boca, de mimeógrafo em mimeógrafo e livros e discos andavam de mão em mão e toca-discos hoje em sua maioria obsoletos.

Foi nesse tempo (hoje parece muito mais tempo do que de fato é) que conheci os discos de Victor Jara e dos demais artistas latinoamericanos da época. Era impressionante o que se produzia fonograficamente naquela época e a riqueza sonora e gráfica dos antigos discos de vinil comparados ao streaming de hoje é algo incomparável. Isso falando em qualidade de áudio mesmo. E os discos e encartes eram um deleite à parte.

Eu, uma criança em torno dos dez anos de idade, ouvia embasbacado aquela musicalidade muito poderosa toda escrita e cantada em espanhol. Assim que, aliado a ter nascido próximo à fronteira do Uruguai, fui precocemente introduzido ao idioma espanhol através da nueva canción chilena e da mixagem de folclore e canção de protesto produzida principalmente na Argentina e Uruguai. A experiência foi tão marcante que quando anos mais tarde fui ler meu primeiro livro em espanhol, parecia que dentro de minha mente se havia despertado um hispanohablante por conta própria, de tanto que riscara aqueles discos que perambulavam em minha casa trazidos pelas mãos de meus irmãos mais velhos, universitários à época.

Ao lado daquele conteúdo dramático e, mesmo naquele tempo ainda subversivo, paralelamente ouvia também a construção de toda uma mitologia em torno ao martírio revolucionário, levada a efeito em seus ícones políticos, mas sobretudo nos artistas engajados. Assim que, por muito tempo, muitos daqueles personagens misturaram-se em minha mente através do que era comentado à boca pequena, entre uma faixa e outra daquela abundante discografia.

Victor Jara, a quem quase meio século depois de sua morte finalmente é feito justiça, além de brutalmente executado com 45 tiros, teria tido antes de morrer, segundo se comentava, as mãos atoradas por torturdores. Não que isso diminua a barbárie, mas parece que na realidade não foram. Sobre o folclorista Atahualpa Yupanqui dizia-se algo semelhante: que teria tido as mãos esmagadas por uma máquina de escrever (mas antes dos militares, durante o último governo de Juan Perón) pela polícia e por isso tocava com a mão esquerda. Porém, na verdade, ele sempre fora canhoto. Violeta Parra, também chilena, teria cometido suicídio mar adentro, mas quem o fez realmente foi a poeta Alfonsina Storni, ainda na década de 30, conforme canção imortalizada por Mercedes Sosa, esta sim intérprete inigualável de todo o cancioneiro latinoamericano de protesto. Violeta, na verdade, disparou um tiro de espingarda contra si mesma em uma situação envolvendo conflitos afetivos, bem como mostra o filme Violeta subio a los cielos, antes mesmo que Salvador Allende chegasse ao poder no Chile.

Toda essa mitologia tinha o claro propósito de sensibilizar as pessoas quanto à injustiça e abusos das ditaduras e por tabela também alargar as fileiras e emoções do movimento estudantil de esquerda e simpatizantes dos opositores aos regimes totalitários.

Muitos anos mais tarde, em 2014, ninguém menos que o próprio Eduardo Galeano, o autor do clássico-anticolonial As veias abertas da América Latina, foi um dos primeiros artistas da época a admitir que seu livro era menos um documento do que um panfleto e que admitia não ter na época qualificação para escrevê-lo e que não seria capaz nem de reescrevê-lo e nem de reler esse livro: “cairia dormindo”, segundo suas próprias palavras.

Apesar da ficção e da mitologia, entretanto são inegáveis as injustiças, abusos e violências perpetradas nestes países por cerca de duas décadas, atingindo mais de uma geração de pessoas. A justiça tardia quanto ao caso de Victor Jara (e ainda por ser feita em inúmeros casos no Brasil), me traz à lembrança aquela cantata que Jara conduziu junto ao grupo musical Quilapayun sobre o massacre de mineiros grevistas na cidade de Santa Maria de Iquique em 1907, e o quanto me impactou aquele relato que de certo modo veio a se repetir na ditadura de Pinochet, na qual sucumbiu entre tantos o próprio cantor e compositor.

A condenação final, obtida inicialmente em processo movido em 2013 pela viúva do cantor em Orlando, nos Estados Unidos, chegou há poucos anos à Corte de Apelação chilena, que tem decidido por condenar violações aos direitos humanos no regime ditatorial. Seja como for, penso que faz muito bem o Chile em procurar entender-se com o seu passado. Nem estou pensando nas retratações e punições cabíveis, mas num acordo sentimental para com o seu próprio povo e história. Por outro lado, me parece que faz muito mal ao Brasil continuar a escamotear a violência entre seus compatriotas durante o período militar. Parece-me que muito do compreensível ressentimento político ainda presente teria sido dessa forma amenizado. Talvez por isso e também porque aqui se continue a trocar investigações e devido processo legal por indenizações pecuniárias, os fantasmas da violência do regime ditatorial custem tanto ainda a se recolher para sempre na sua indignidade e estupidez.

Um novo olhar qualquerUm novo olhar qualquer

Várias vezes por ano, por mês, semana ou até mesmo dia sou convocado por bueníssimas razões (pelo menos quero acreditar nisso) a experimentar um “novo olhar”, um “outro olhar” sobre o mundo e suas situações. As aplicações são as mais diversificadas possíveis: vão desde situações abstratas como um “novo olhar” para a “existência” ou a “diversidade”, até um “outro olhar” para o mundo concreto, social, seus fenômenos e contingências. Acontece que a convocação, como são todas as convocações, costuma ser bastante imperativa, isto é, deve-se acatar de imediato as perspectivas da postulação, sem o qual o “novo” olhar não ganha sentido, não opera, simplesmente ele não funciona.

Trata-se de um paradigma quase, mas também de uma metáfora, quase uma sugestão. Há que se escolher bem os termos com que se colocar este “novo” e este “outro”, portanto, para que não se empreenda, ao invés de convencimento e diálogo, imposição violenta e arbitrariedade.

Parece exagero dizer que há uma postulação violenta na proposição de uma novidade e que, pelo menos em tese, todas as novidades são benéficas, o que é essencialmente falacioso. Porém, desde que seja necessária uma inutilização prévia de meu instrumental para ir à aventura do “novo”, do “outro”, ou do que assim seja apresentado, cai por terra de imediato a conotação construtiva da novidade, pois ela ocorre a partir de uma demolição e não de uma consertação. Por outro lado, se mera metáfora fosse, seria uma metáfora um tanto enganosa, ou pelo menos uma promessa que substituiria em poucas palavras uma construção histórica, uma série de condições e acontecimentos duradouros, e não uma proposição equivalente.

Se neste caso usássemos uma metáfora, seria como dizer que a mudança partir de  um “outro olhar” ou de um “novo olhar”, seria mais como mudar o ângulo de visão do que substituir uma lente por outra.

Não há quem ignore que a metáfora é figura de linguagem das mais corriqueiras, isso tanto na literatura quanto na linguagem coloquial. Em campos e domínios nos quais é preciso delimitar o real e clarear suas circunstâncias, todavia, seu uso às vezes pode mais atrapalhar do que ajudar. Poucos parecem perceber isso, afinal a metáfora, antes de qualquer coisa, é um suavizante da compreensão, isso dito já um tanto quanto metaforicamente.

É sobretudo nos textos jornalísticos nos quais mais tem prosperado o uso de figuras de linguagem em lugar de uma análise precisa das situações. Mas isso bem pode ser mais literatura do que jornalismo propriamente dito. O que acontece é que, ao valer-se de metáforas como formas de explicar o mundo concreto, aquele que a redige passa a agir plenipotenciariamente sobre os elementos de seu discurso. O mundo já não acontece como é de fato, linearmente, mas da forma pela qual o postulante escolhe narrá-lo e assim torna-se episódico, datado. O artífice dessa escrita é, portanto, dotado de poderes sem limite acerca dos fatos e os minora ou amplifica de acordo com a sua exclusiva vontade. É um poder invejável. Em tempos nos quais a eloquência pode garantir mais leitores do que clareza ou até mesmo conteúdo, há que se verificar em quantas camadas de tintas literárias se têm encoberto o mundo real em suas cruezas.

Interpretar-se uma realidade política, por exemplo, com o uso da metáfora, pode ser um artifício poderoso na linguagem falada e consiste num traço retórico admirável, se empregado no ambiente adequado. Por outro lado, seu uso desenfreado costuma servir bem mais a um esforço evasivo e simplificador. O impacto se torna cansativo, a metáfora então exaure a si própria e, mais ainda, a quem é dirigida. O texto impregna-se de imprecisão, o discurso torna-se algo delirante, cada vez mais permeado por ambiguidades e,  consequentemente, vai dissociando-se do real e do objeto a que pretendia referir-se.

Há também que o uso deliberado da metáfora em situações realistas acaba competindo na própria desvalorização da figura de linguagem e, por tabela, da própria poesia. Quer dizer, poetizar a realidade faz muito sentido na literatura, quando a ênfase está localizada em potencializar a cognição do leitor; não faz tanto sentido se acaba por servir a desviá-lo da realidade para um seu duplo, artificial, planejado e ilusório (isso mais ou menos nos termos de Clément Rosset, em O real e seu duplo).

Aí é que está: não há que conferir-se o status poético a uma situação real. Do real pode-se depreender a poesia, porém a ele jamais atribuí-la arbitrariamente. Na poesia, especialmente, a metáfora cumpre funções que normalmente enriquecem o texto escrito, como o de expansão de significantes e uma maior mediação simbólica entre texto e leitor. Mesmo que nem sempre seja usada com acerto ou economia, literariamente a metáfora costuma abrir um leque de possibilidades interpretativas. Na interpretação da realidade, entretanto, a metáfora às vezes se converte em mera evasiva e substituição de sentidos. Dá-se então o oposto, e a metáfora passa a ser empobrecedora do discurso por um caráter de imprecisão que desvia a cognição dos fatos para uma poetização do real, mas quando já não se trata mais de poesia.

Com isso quero dizer que a metáfora de um “novo” ou “outro” olhar estabelece um contato tênue demais para representar ou fomentar a mudança social ou cultural efetiva. A quem interessa vivenciar as condições da “novidade”, é necessário perceber claramente uma alteração substanciosa nas condições concretas nas quais o “novo” e o “outro” possam prevalecer. De outro modo, não há “novo” ou “outro” algum, caso a experiência se mantenha estável, constante.

Um exemplo simples a que se pode referir é o da “Nova República”, como ficou conhecido o período político posterior à abertura democrática brasileira. O que, de fato, aconteceu de “novo” ali nas condições materiais e econômicas brasileiras, para além da retomada do direito ao voto? Mais reforma agrária? Mais e melhor educação? Quais as condições de manifestação e verificação deste “novo”, afinal? Pois com tudo o que se denomina “outro” ou “novo” costuma acontecer o mesmo, com exceção, talvez, na ciência, onde a terminologia “paradigma” faz realmente algum sentido.

De mais a mais, é conveniente muitas vezes passar-se a ideia, dar a entender de que se está diante de um “novo”, mas o que há de real e metafórico nisso tudo? Ou seja, é possível convencer a alguém de que é fundamental para a constituição do “novo” a adequação de um “novo” olhar, mas não qualquer “novo olhar”: apenas aquele que se deseja fazer vigorar. Além disso, não vivemos num tempo etapista, no qual as condições são sumariamente eliminadas em prol de outras. Pelo contrário, a dinâmica social é da diversidade e a diversidade é nesse aspecto mais caótica do que harmônica. Mudanças uniformes já aconteceram na sociedade, nas mudanças de regime político, nas mudanças legais e formais, mas nunca atingiram as pessoas da mesma maneira e isso porque elas não ocupam a mesma posição social.

Eu não duvido nem um pouco que os “convites” e “convocações” sobre os quais estou tentando comentar continuarão chegando. Mensalmente, semanalmente, diariamente… Eu apenas quero dizer que, usando da mesma metáfora já utilizada, é muito difícil que eu mudasse meu ângulo de visão, mas apenas testasse a lente dessa nova promessa. Mudar o lugar das coisas costuma ser bem mais trabalhoso (e bem menos poético), que a instituição de uma palavra ou um “novo” qualquer.

OutboxOutbox

Há uns dia recebi um e-mail (há quem ainda o use) de uma pessoa que nunca me viu e eu nunca vi e que, mesmo assim, dizia sentir falta de mim. Não, não se trata de uma paixão platônica, nada disso.. Trata-se de alguém que se acostumara a ler textos que até há pouco eu costumava escrever sobre um assunto que me é ainda muito caro: a inclusão social e educacional das pessoas com deficiência.

Assim como eu, ela tem um filho com síndrome de Down e disse que eu sempre a ajudara (sem saber) com as coisas que eu escrevia. Hoje, me parece um pouco incrível que alguém pudesse sentir-se apoiado pelas coisas que tenho escrito: implicâncias, epifanias e até mesmo ironias. Mas isso não está em quem escreve decidir, e sim em quem lê. Então se ela disse, não tenho razão para lhe contradizer. Falou, tá falado.

Só que a menor vaidade que eu possa sentir quanto a esse e-mail está soterrada por uma resposta que ainda não consegui redigir. Por que mesmo não escrevo mais sobre inclusão, se foi o tema que justamente me fez voltar a escrever após longos, longuíssimos anos de silêncio branco? Por quê? Por quê? Desculpem a repetição, é apenas eco. Reverberação. A pergunta martelando respostas como prego fraco em madeira de lei. Por quê?

Eu realmente não sei. Não tenho uma resposta exata. Tenho apenas suposições que, todavia, não me demovem desse distanciamento. Mas por que isso? Também não sei. Só mesmo suposições que não ajudam nem a mim mesmo, então não sinto que deva externalizá-las como se fossem conclusões. Só tenho a dizer sobre isso uns achismos. Achismos são pensamentos toscos, inacabados e muito particulares. Às vezes até incompreensíveis. Então pode ter muita bobagem misturada no que lhe diria. Com certeza teria..

O que eu acho, talvez em primeiro lugar, é que não tenho uma boa palavra nesse momento, para oferecer.. Acho que vivemos em tempo sectários e se há um antônimo para “inclusão” não é a mera oposição do termo “exclusão”, e sim o sectarismo. O mérito dessa definição não é meu, mas do filósofo chinês Confúcio. Isso está em algum trecho dos seus Analectos.

Superar o espírito sectário me parece muito mais difícil do que superar a exclusão, que é uma condição social. Não porque eu prefira, mas, na contemporaneidade, o tanto que se diz por aí a respeito de “inclusão” transformou-se em instruções formais amparadas em algumas leis e mediadas por relações comerciais. E mesmo quando as pessoas valem-se dos serviços públicos estão mediando suas relações pela contraparte do que o estado tem a oferecer em troca dos seus impostos. Então há uma relação comercial também nesse caso. A não ser numa vida autóctone, portanto, não me parece haver meios possíveis de superar essa condição. A onda homeschooling, claro, não tem nada a ver com isso, afinal não é uma modalidade gratuita. O assunto até tem alguma relação, mas acho que não nesse ponto.

Já integrei movimentos sectários na minha vida e não me fizeram bem. Também tenho certo caráter dissociativo, dissidente, que me dificulta acatar consensos quando me parecem equivocados ou mal intencionados. Acho que a transformação de uma situação real, vivida, numa disputa conceitual também implodiu com a noção de um discurso preciso, do qual abri mão porque também lá pelas tantas já não me fazia bem empunhar um discurso político, formalista, a despeito da situação real das pessoas, cada uma delas discordante em trajetória, condições materiais, cognitivas, de saúde, etc, etc, etc. Seria uma violência continuar participando dessa barganha (não política, mas moral) e embora não me arrependa das brigas que comprei e de nenhuma vírgula que redigi nessa década, comigo precisou ser assim.

Há também a questão de sombreamento de uma política pública de governo com um movimento em essência conflitivo. Nessa relação de forças, pelo menos no Brasil, sempre a política acaba submetendo a esfera pública e o conceito inclusivo aposto, explicativo, perde muito do seu elã (essa palavra eu tirei do arcabouço materno), fica meio fantoche. Na prática, não há muito protagonismo nem autonomia, mas pessoas sendo conduzidas por processos nem sempre transparentes e que movem uma máquina de recursos públicos (e também afetivos) que pouco ou nada destina-se a melhorar as condições de vida das pessoas. Muito mais à tecnocracia, mas isso também é outro assunto. Só que a politização da questão danificou terrivelmente seu caráter intrínseco, como status social por desejar. Então continuar essa busca é, para mim, como a busca por uma miragem, algo que tem a aparência da coisa mas nunca consegue ser a coisa que aparenta. E assim por diante. Isso reduziu um anseio social a um “faça como puder, você estará sozinho nessa de qualquer jeito”. O conceito revolucionário, o sonho, rendido e constrangido pela realidade. E mercantilizado também. Muito mercantilizado.

Fora isso, ainda há o balcão de negócios que políticos costumam fazer sem nem disfarçar, mesmo quando são práticas nocivas ao convívio democrático. Nada constrange esse pessoal. Não adianta gritar nas redes sociais. Há um muro aqui, um backwall, uma quarta margem intransponível ao cidadão comum. Você, amigo, que luta ou pensa lutar contra essa estrutura, acostume-se a ser uma aberração na matrix. Lá pelas tantas, foi assim que passei a me sentir, como alguém portador de dissonância. Portador aqui, aliás, no sentido exato do termo.

Eu não sei. Não ganhei um centavo só com ativismo. Pelo contrário, muito mais gastei e me gastei. Ganhei foram alguns e-mails que embrulham a garganta por dentro, mas isso não conta para nada nem ninguém a não ser eu mesmo. Não se trata de recompensa nem de reconhecimento, mas de não se sentir enganador, de me sentir um pouquinho verdadeiro, mais real do que posso ver ao espelho. Essa, sim, me parece uma boa sensação.

Tive a sorte de ter me envolvido com esse assunto com a radicalidade que o tempo exigia, de fazer valer pelo conteúdo mais até que pelo mérito. Mas todo o esforço coletivo hoje foi pulverizado em projetos pessoais, em “compartilhamento” em redes sociais. Chega uma hora que a gente entende que gastou sola do sapato demais, só isso. Tem ainda a questão do preconceito social e a impressão que o mundo caminha mal não só por culpa da extrema-direita ascendente, mas que essa ascensão seja a irradiação de energia perigosa que passamos a compartilhar também, individualmente, mesmo que sem percebê-lo e mesmo que pareça sempre muito positiva. Viver no Brasil me parece ser, de certo modo, cada vez mais viver num estado de negação positivada, solarizada. É um não (ou nãos) valendo por sim, mas sem um sim correspondente. Ficou tudo muito estranho e difícil, mais fácil e simples dizer. Sinto também que é preciso agir, mas sob outros significados, outros contextos. Fazer nascer algo novo. Se for para dar parte nisso, nesse milagre, e não em reviver e continuar o que nos trouxe aqui, contem comigo.

Mas o certo, o adequado, seria dizer algo bem menos complicado. É uma pessoa muito simples a minha interlocutora, não uma pensadora sofisticada. Ou uma acadêmica. É uma mãe, nem sei sua profissão, só que seu filho tem mais ou menos a idade do meu e que ela continua esperando de mim uma palavra que não sei se posso ainda dar. Nem um testemunho perfeito, um exemplo, tenho a lhe mostrar. Só uma tentativa que às vezes dá certo, às vezes não. O assunto, claro, será sempre caro para mim. E importante, sem dúvida. É bem por ser tão caro assim que não tenho mais escrito a respeito. Seria o certo a dizer nessa resposta. E enviá-la. Mas ainda está faltando a coragem de apertar o botão “Enviar” e assumir que cheguei mesmo a esse ponto final.

02.07.2019