Crítica A mente cativa

A mente cativa

Não escolhi ainda qual a capa prefiro para este livro do poeta polonês e prêmio Nobel de Literatura em 1980, Czesław Miłosz. Gosto dessa atual, que a Aiyne usou na edição recém lançada, traduzida diretamente do polonês. Gosto também da edição de 2010 da Novo Século. Também a da edição portuguesa da Cavalo de Ferro. E também da edição norte-americana. Da inglesa e até a do audiolivro. Não importa qual seja, todas têm alto poder sugestivo. São cabeças prensadas a força contra livros, outras torcidas por uma força invisível ou a mais sinistra delas, a da primeira edição: uma figura mascarada apenas sugerindo uns olhos borrados.

Não sendo um livro surrealista, mas um ensaio político, são imagens até certo ponto violentas. São mesmo, mas nem perto da violência psíquica narrada por Miłosz, um poeta metafísico, um filósofo em versos, um poeta da condição humana.

O texto é um ensaio político que vai narrando o que vê acontecer com amigos e intelectuais dissidentes de países como Polônia, Hungria, Checoeslováquia e da Romênia de Ceaușescu sem se importar do que pensarão a seu respeito. Contra ele levantaram-se intelectuais de esquerda como Jean Paul Sartre e outros para quem se tratava apenas de um traidor, já que servira ao comunismo polonês antes. A seu favor, Karl Jaspers e a amiga Wislawa Szymborska.

Embora ele denuncie os campos de Stalin e a violência física e impositiva do regime nos anos 50 e antes, Miłosz está ainda mais interessado em entender a força de atração psíquica dos regimes totalitários. A predisposição em aceitar o horror de Estado como um regime possível. De certo modo, seu ensaio de 1953 cai como uma luva para aqueles que, com boa dose de má-fé, recentemente passaram a desacreditar no aparato totalitário stalinista. Um “delírio” ou, mais simploriamente, ideia encomendada detrás dos balcões da CIA.

Aqui eu tinha uma pequena edição produzida pela UNB dos poemas dele, de uns anos já. Miłosz é daqueles casos estranhos de Nobel quase inédito no Brasil e de nobelizados taxados por anticomunistas, quando a toda hora se diz por aí que a láurea nunca vai para pessoas assim. Seja como for, pelo que eu li é um imenso poeta e não faz nenhum sentido isso. Ou até faça, mas noutra perspectiva. Essas coisas. Vá saber.

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Não sei em quantos, nunca contei, mas em boa parte dos poemas que escrevi costumo falar “em negativo”. Não o negativo da negatividade “psíquica”, me refiro à negatividade “narrativa”.

Escrever “em negativo” não tem nada de mais. É dar a ver o presente pela ausência, o aparente pelo oculto, enfim, o positivo pelo negativo.

A mim me agrada eu acho que pela sugestividade, quer dizer, pelo que se consegue entregar de incompleto ao leitor e que ele terá de por si mesmo preencher com a sua imaginação “positiva”. É como se fosse escrito apenas um baixo relevo, para depois ser preenchido por quem estiver lendo, com a sua matéria-prima, repertório, etc.

No mundo da poesia, a perspectiva nem sempre é bem reputada. Especialmente por aqueles devotos à concretude poética e à racionalidade — os detratores da subjetividade. Alguns diriam que se trata de uma impossibilidade, porque o que assim se procuraria narrar é o não acontecido, o não-fato, a inexistência. Seria um esforço, portanto, inútil.

Eu nem discordo quanto à “utilidade”, embora o conceito seja exógeno à arte, mas o que eu acho é que é apenas pouco imaginativo nos limitarmos pelo mundo visível, das imagens verbalizadas, e marcá-los na linha do tempo para que existam.

A vida mental, do espírito, é muito mais larga que essa pequena ruela da realidade visível. É claro que alguma pessoa pode desejar muito isso e fixar-se nestes limites e neles encontrar tudo do que precisa de simbólico, mas daí a uma generalização instrutiva vai uma grande distância, já que do lado do leitor felizmente não temos qualquer possibilidade de controle.

Nada me aborrece mais, como leitor de poesia, quando sinto que o/a poeta quer me tanger página afora, conduzir ou delimitar meu campo mental e imaginação. Esta perspectiva de apreciação “plástica” do poema não funciona bem comigo. Não por acaso, funciona bem com as artes plásticas. A perspectiva que me motiva é muito mais musical – mas não no sentido matemático da música, senão por sua capacidade de induzir o aparelho sensorial e perceptivo.

É claro que isso não significa que não posso ou não consigo apreciar um poema “positivo”, “solar”, “assertivo” ou “concreto”. Não apenas posso como costumo apreciá-los. No entanto, eu aqui estou dizendo do que prefiro, e prefiro os “negativos”, “sugestivos” e “lunares”.

Isto também não significa que prefiro o mundo desconhecido e místico ao palpável e tridimensional. Até porque quanto ao “desconhecido” não se pode fazer muito mais do que um grande silêncio, porque para ele não temos nem palavras. Ao menos me parece que não deveríamos ter.

Não, não é quanto a esse “assombro” que me refiro, mas à sutileza de notar no mundo a sua incompletude, as coisas que o tempo fez acabar, o residual das coisas materiais e a permanência da ação humana sobre o mundo, que é impalpável, certo, mas que pode ser percebida se não estivermos limitados pela condução inclemente do aqui e agora arbitrário e informativo.

O que me faz pensar nisso é que a nossa atenção e pensamento são constantemente desviados para camadas não aparentes da realidade. Há um mundo invisível ocupando o visível. Isto é uma obviedade fisicamente comprovada, basta pensarmos na atmosfera e no que a compõe. Embora não a vejamos, está ela sempre interferindo diretamente em nossa condição existencial. Também os microorganimos e as ondas de radiofrequência que transportam mensagens para lá de complexas. E o que mais pudermos imaginar mesmo sem o ver.

O que acontece é que muitas vezes apenas conseguimos demonstrar algumas coisas por exclusão. Se isto vale na lógica, que demonstra a forma pela qual pensamos, por que não funcionaria em outras formas de pensamento? Mas com isto eu não quero dizer que podemos forjar qualquer imagem e significação a uma realidade passada ou narrada. Na verdade, podemos, mas, ao fazermos, positivamos esta historicidade e então precisamos confrontá-la com a experiência dos outros.

Com essa minha “defesa” da negatividade, eu somente quero mesmo é demonstrar que não é apenas por um juízo moral ou amoroso que se pode ou deve ler um poema. Uma leitura assim, na verdade inutiliza o poema. Um poema que “diz muito”, “assevera” ou “instrui” torna-se, no meu juízo, ainda que belo e correto, intragável. E como diz Hannah Arendt em “A vida do espírito”, o pensamento sempre lida muito mais com ausências do que com o que lhe é reconhecível e óbvio.

Não “é o que temos”, como diz o bordão conformado das redes sociais. Por outro lado, é “o que não temos”. É o que precisamos imaginar, até mesmo para poder ambicionar mudar o que somos e assim nos sentirmos, talvez, um pouco menos vegetativos e dependentes da identidade.

Sair de si mesmo exige uma mudança profunda de perspectiva. E se a poesia me deixa no mesmo lugar onde estou sempre, não sei do que me serviria. Um auto-encanto, um narcisismo de motivos, coisas que não me importam. Eu preciso mesmo é de que me leve, como a música, para o mais longe possível do mundo das aparências, das reais e das inventadas. Mesmo que às vezes ela se dissolva no instante mesmo de sua apreensão.


Poema presente no livro “Inventário”, de 2021.

Heterogêneses de BjörkHeterogêneses de Björk

Dos músicos em geral é costume dizer que estão preparando novos discos, mesmo que em boa parte dos casos trate-se, a bem da verdade, em coleções de singles que nem sempre guardam entre si uma sonoridade comum ou identidade. Já quando se fala que é Björk quem está preparando algo novo, não se pode pensar apenas num disco, deve-se alargar de imediato a expectativa sobre esse “algo”, além de procurar-se não classificá-lo prematuramente. Pois Björk está lançando seu novo algo em forma de álbum: é o décimo primeiro de sua discografia. Mesmo sem contar ainda com nome ou capa, a islandesa o anunciou recentemente, no começo de agosto, em suas redes sociais.

Desde o último equinócio de setembro (21/09/2016), ao mesmo tempo em que se preparava para iniciar na Somerset House, em Londres, uma exposição imersiva em realidade virtual de parte do seu repertório, entre 1 e 23 de outubro, Björk subiu ao palco do Royal Albert Hall, também em Londres, para o que talvez fosse melhor chamado por “aparição”, ao invés de um show. Foi quando começaram a desenhar-se algumas das sonoridades que estão prestes a se materializar neste seu novo álbum, ainda inominado.

Ali, como uma sacerdotisa que há tempos logrou por meio dos seus experimentos conceituais unir a um tempo só a mais avançada tecnologia e a mais recôndita biologia, usando uma máscara luminosa e vestindo o que pareceu a Neil McCormick, do Telegraph, uma flor ou uma anêmona marinha, ela cantou músicas do seu mais recente disco, Vulnicura (2015) e também apresentou inéditas acompanhada apenas pela orquestra de cordas “Aurora”, sem mais artefatos tecnológicos. Em Vulnicura, disco no qual registrou os momentos derradeiros de seu relacionamento com o cineasta e artista plástico Matthew Barney, há quase uma liturgia sentimental dando conta de uma experiência demasiadamente humana que colocou em evidência, bem mais que nos trabalhos anteriores, a pessoalidade intrínseca da islandesa. É como se a experiência tivesse minado um pouco do apelo quase extraterreno da estética da cantora e de sua obra.

Neste novo disco, por declarações em entrevistas e em suas redes sociais, Björk parece que investirá em sonoridades mais amenas e introspectivas, reflexo direto do seu novo momento de vida. Ainda assim, ela tem dito que seu processo criativo continua basicamente o mesmo, nascendo de longas caminhadas que empreende nas montanhas da Islândia, sua terra natal. Certo que, por isso mesmo, é possível contar-se desde já com melodias decompostas e tão estranhamente eficazes quanto as de seus discos anteriores. Também não se deve imaginar que ela repetirá no registro de estúdio a fórmula acústica de suas aparições ao vivo. É dessa síntese ambiciosa, aliás, entre a natureza mais intratável e a tecnologia mais virtual, que ela consolidou ao longo das últimas décadas a sua peculiar sonoridade: insuportável para muitos e objeto de veneração para outros tantos.

Não é nenhuma novidade para seus admiradores diletos encontrar na paisagem sonora proposta por Björk argumentos comunicativos ao mesmo tempo áridos e biológicos. Eles estão presentes desde seus tempos mais ligados ao acid e ao trip-hop da banda Sugarcubes e que vão se encontrar, mais tarde, com o que se pode chamar de reestreia da cantora. É com Vespertine (2001) que ela finalmente consolida o casamento entre a sonoridade esdrúxula dos cânticos viscerais do folclore nórdico e as vertentes tecnológicas da música eletrônica no nascente século XXI, emplacando singles (e escândalos) com os clipes de Cocoon e Pagan Poetry (em função de cenas de nudez e de uma possível conotação sexual). Neste mesmo ano, ela e Matthew tiveram a filha Isadora, cuja guarda vem sendo disputada pelo ex-casal desde a separação, em 2013.

Por outro lado, entre seus muitos detratores, há quem acuse a cantora de estar sempre buscando os holofotes da mídia. Isso principalmente desde que, na premiação do Oscar em 2001, surgiu no tapete vermelho trajando um vestido que mimetizava um cisne cujo longo pescoço enlaçava o seu. Também o uso de uma panaceia eletrônica de seus áudios e vídeos é motivo de recorrente simplificação, debitando-se a isso o que poderia ser uma clausura de estilo. Talvez por isso mesmo, para contrariar seus críticos, ela eventualmente lance-se em aparições inteiramente acústicas, como esta recente no Royal Albert Hall. Se há, de fato, uma fetichização do tecnológico em Björk, também é inegável que seu uso não é casual, mas cumpre diversos objetivos estéticos como a fuga ao simples e a constituição de uma performance contínua na qual às vezes ela consegue situar-se no futuro insondável, ao invés de simplesmente adotar a repetição de motivos desgastados e bem conhecidos pelo pop.

Nessa cruzada, muitas tecnologias passaram pelo seu olhar e pela sua manipulação. Desde filmagens obtidas no interior do seu corpo, como em Mouth Mantra, até a extensa materialização espacial de Oceania sempre com o apoio de referências experimentais, como a poesia do norte-americano E. E. Cummings ou músicos da vanguarda hi-tech, ela agora parece querer ir desaguar seu arsenal criativo no terreno da realidade virtual. Na sua exposição, atualmente em Londres e que deve percorrer cidades da Europa e de outras partes do mundo, óculos de VR são distribuídos aos visitantes que são convidados a imergir hipersensorialmente no seu universo criativo. E, para além disso tudo, há sempre a sua musicalidade inconfundível.

Ao contrário de um tempo em que o avanço tecnológico é um tanto temido por ainda inconcebíveis que pareçam suas possibilidades, o gesto de atirar-se a ele sem freios vem mesmo conferindo cada vez mais a Björk o status de sacerdotisa da tekhnè. Como ela não o recusa, pelo contrário, consegue sempre renascer e ressurgir dentro dessa perspectiva, é como se ela concretizasse o que Pierre Levy chamou no seu Cibercultura de “heterogênese virtual”.

Como poucos outros artistas parecem conseguir, ela vem mantendo em paralelo as duas vidas, como se pertencendo a dois mundos, e conseguindo trazer ao insípido mundo dos bits tantos as dores humanas de uma separação quanto a certeza de que continuaremos sendo sempre seres biológicos. Este talvez seja o grande casamento que ela tem celebrado ao longo de sua prolífica e premiada carreira (além de inúmeros prêmios musicais, ela levou a Palma de Ouro de melhor atriz no ano de 2000, por sua atuação no filme Dançando no Escuro, de Lars Von Trier): o de uma natureza incorrigível e o de uma tecnologia sempre insatisfatória, daí sua permanente renovação.

Ainda que Björk não possa ser ela mesma a síntese dessa união, e é provável que nunca ninguém venha a conseguir isso de forma completa, ela deverá ser ainda por muito tempo o seu maior ícone. É de conferir o que seu próximo disco tem a dizer sobre isso. Como emissária de um tempo ainda mal compreendido e sem contornos precisos, não é necessário a ninguém ser um seu acólito para entender a relevância do seu trabalho para a cultura da virada do milênio, afinal poucos (enquanto muitos entraram em loop) como ela paginaram tão decisivamente a inflexão que a tecnologia vem determinando ao mundo contemporâneo e, mesmo que pareça paradoxal, de forma cada vez mais indelével.