Crítica 9 de julho

9 de julho

Se viva estivesse, Mercedes Sosa amanhã completaria 87 anos. Teria a mesma idade que completou há poucos dias a minha mãe. É estranho pensar que uma diferença de 10 dias apenas separe o nascimento de uma e outra.

Esses dias eu lia na rede social de uma pessoa que sigo, e que aprecio, que já não faz mais sentido na geopolítica global contemporânea aquele ideário de unidade latino-americana o qual Mercedes foi a principal apóstola. Dizia ele que os atuais “cambios” políticos na América do Sul dependiam agora de novos realinhamentos e que, portanto, aquela utopia guevariana/bolivariana mais ortodoxa e revolucionária deixara de fazer sentido.

É difícil discordar, até porque as relações comerciais do Brasil com os demais países hispanohablantes nunca foram uma Brastemp. Bolivianos que o digam. Também o Brasil parece nunca ter contornado completamente suas diferenças com os demais países do Prata, sempre preferiu ser um arremedo e entreposto do “ocidente” que encampar, por exemplo, a latinidade. Mesmo com seus novos pressupostos perspectivistas. Por mais que tudo isso tenha muito a dizer ao próprio Brasil e dele ao mundo, simplesmente isso não faz muito sucesso aqui . O tratamento dispensado aos direitos indígenas nas últimas décadas são nesse sentido exemplares.

Do ponto de vista musical, acho que, tirando Heitor Villa-Lobos, o índio-de-casaca, a cultura nacional é ainda muito colonial. Colonial ou neo-colonial. Quero dizer que é pouco dada ao elemento indígena. Pelo menos eu não conheço muitos cantores, por exemplo, identificados plenamente com essa cultura, mesmo agora quando a questão amazônica se impõe de maneira mais evidente. Talvez Marlui Miranda. Mas quem conhece Marlui Miranda? Mesmo que pareça nome de dupla como Silmara e Simaria, trata-se de uma pessoa só.. Outra pessoa.

Já Mercedes o mundo todo conhece. E foi cantando um mosaico de canções folclóricas, milongas, tango também, rock argentino (sim, ela gravou Charly Garcia, Fito Paez, Spinetta, etc.) e também canções indígenas comos os kaluyos e takiraris bolivianos e cuecas chilenas. A questão é que o cancioneiro argentino se comunicou muito pelas fronteiras e os ritmos folclóricos em sua maioria recombinam elementos indígenas e espanhóis. Definitivamente “La Negra” era uma argentina das que não veio de barco.

É uma coisa que até acontece no Brasil profundo (em muito menor escala), mas não é pelo qual se caracteriza o ponto alto da identidade nacional (o samba e nem esse movimento neo-sertanejo, todo ele forjado numa estética nashvilleana). Às vezes, caracteriza alguma raiz regional, como a mato-grossense. Aqui no RS, em que pese a aparência, a matriz folclórica é essencialmente europeia. O pouco que veio do Prata aportou aqui por obra e graça dos tradicionalistas, depois da década de 50. Lucio Yanel, o violonista argentino virtuose que adotou o RS, já disse que ensinou os gaúchos a tocar “guitarra”, porque até então o instrumento musical predominante era o acordeão e os ritmos em sua maioria alemães e poloneses. Essas milongas todas não eram praticadas aqui até meados dos anos 70.

Então o que eu penso a respeito dessa peculiaridade de cantar as músicas de vários países é de que se trata de uma característica própria do cancioneiro popular argentino. Não me parece que tenha sido um projeto dela, mas uma decorrência natural da sua carreira de cantora. Seu último trabalho, o álbum duplo Cantora e suas 35 faixas, quando grande parte dos artistas mal conseguem gravar as 12 faixas mínimas necessárias para a confecção de um CD, demonstram o colosso de sua expressão artística, sua capacidade de reunir em torno de si compositores de diferentes estilos musicais e, principalmente, sua generosidade cultural. É a mesma Mercedes que ainda nos anos 80 reconhecia que precisou vencer muitos preconceitos próprios para se permitir fugir ao purismo folclorista e cantar a nova geração de roqueiros portenhos. Numa entrevista, disse que era uma cantora de folclore, não popular, e que passou a cantar a canção de protesto porque concluiu que naquele momento era o que deveria fazer.

Também em sua trajetória praticamente não há altos e baixos, nem necessidade alguma de comprovar-se “nova”, “inédita”. Sua fidelidade ao seu país (coincidentemente nasceu no mesmo dia da independência argentina) era tão plena que isso a levou a consolidar uma carreira universal baseada nas músicas cantaroladas nos bairros e províncias e as levou a grande teatros do mundo sem vergonha alguma disso, e por isso mesmo reconhecida. Essa música desse vídeo recuperado há pouco pela TV Espanhola, para mim é a síntese da sua poética. Para mim, que escuto isso desde a tenra idade, foi muito difícil não ser influenciado por esse combinado de força e delicadeza.

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O maior risco que há ao escrever-se sobre um autor muito conhecido provavelmente seja o de recair em obviedades, isto é, o risco de não trazer nada de novo, de dizer nada além do que já tenha sido dito e de qualquer tentativa parecer de antemão algo como mero envernizamento da obra. Por outro lado, este mesmo risco consiste também em um desafio interessante: o de que se torna indispensável fugir de qualquer leitura prévia. A tarefa volta a complicar-se quando se trata de um livro de não ficção e de um autor amplamente conhecido, como é o caso do escritor, pesquisador, comunicador e médico Drauzio Varella.

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A respeito da temática nem se poderia dizer que Drauzio estaria tirando-a da invisibilidade. Trata-se de uma situação conhecida e estudada no âmbito da criminologia brasileira desde a década de 70 pelo menos. Desde O cemitério dos vivos, pioneiro trabalho de Julita Lemgruber e os posteriores Mulheres encarceradas, de Maud Fragoso de Albuquerque Perruci e O mundo do crime, de José Ricardo Ramalho, estudos sobre a cultura prisional e recortes mais específicos proliferaram no âmbito das ciências sociais. É a partir daí, pelo menos, que se consolida no Brasil a antropologia criminal enquanto campo de investigação. O mérito e diferencial do trabalho de Drauzio decorrem, talvez, mais da popularização da temática e de um caráter menos tecnicalista na abordagem das condições de vida dentro dos presídios e unidades carcerárias. Seus dois livros anteriores, por exemplo, respectivamente foram transformados em filme e série televisiva e é provável que algo assim venha também a acontecer com Prisioneiras.

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Mariana Machado diante do mundoMariana Machado diante do mundo

Artigo publicado no Caderno DOC do jornal Zero Hora, 24/03/2023.

Junto aos demais nas prateleiras de uma livraria, numa tela da internet ou na coleção particular de alguém, um livro é sempre muito semelhante aos outros livros. Como se pode distinguir um de outro? Não é pela gramatura ou qualidade da celulose, certamente não, mas logo se intui que o peso de um livro reside mais na obra e no que dela é inerente do que no objeto e sua exterioridade. É por isso que todos conseguem atestar uma descompensação tanto no valor de venda quanto no valor intrínseco de objetos de aspecto tão semelhante. Semelhança apenas aparente, diga-se de passagem. Nem todo o livro é obra e quem o disse não fui eu, mas Jacques Derrida na sua Gramatologia. De fato, a diferença se dá à leitura e logo que se a inicie desencadeia-se um complexo processo analítico-comparativo.

É essa a balança que cada qual regula com sua experiência, preferências e disposição para a surpresa. Quando acontece, é como o tilintar das moedas de uma slot machine: já não se pode mais largar aquele livro único e inimitável.

Não foi por sorte que caiu em minhas mãos o novo livro da poeta gaúcha Mariana Machado. Eu a leio desde as suas primeiras publicações e sei que, portanto, este é um livro de uma carreira que em 2022 obteve com Cães e Astromélias (Mondrongo, 2021) o terceiro lugar no Prêmio Alphonsus de Guimaraens, da Biblioteca Nacional. Agora, Mariana traz pela mesma editora um volume generoso de 250 páginas de sua poesia, com a publicação de Entre Mandalas, Espadas e uma Escada Caracol. Com o livro, o universo poético de Mariana ao mesmo tempo se arroja e densifica. Certamente, não pesaria mal em nenhuma boa livraria ou na prateleira de boa poesia de uma biblioteca.

Abertas as portas do universo expandindo do livro de Mariana, logo se parte ao encontro de uma recriação em versos do épico Sidarta, de Herman Hesse. Os 47 cantos do poema dão conta da busca por esclarecimento que o buda empreendeu a sós em sua bem conhecida jornada. Aqui, logo se pode ver que também Mariana empreende uma jornada em que se confronta consigo mesma e com o mundo numa tensão poética rara de se ver. E o esclarecimento de Sidarta, o que “quisera dar-se apaixonadamente a tudo”, e que cumpriu o destino por ele mesmo forjado e “deixou tudo para trás e foi-se embora”, não é senão a aprendizagem dos que se desapegam, nesse processo de decantação pelo qual também se transformam os poetas em poetas.

Ao recuperar os ecos antepassados das mulheres do Rio Grande do Sul ou ao combater e desvendar a densidade do mundo presente, Mariana combina sua voz mais coloquial com os recursos de uma excelente leitora de poesia. Isso se confirma ao conhecerem-se as traduções que ela também registra no livro e vão de Goethe a Jacques Prévert, alargando as margens do seu próprio universo ao universo de outros tantos poetas.

No poema A Lavadeira, a poeta rende a sua escuta poética às mulheres:

Quebrando a geada, pé por pé, no mato,
alta a trouxa de roupas – feito Atlas –,
pulando arames, chega à beira d’água
pra mergulhar os dedos, vê-los mortos
e desfazer na fibra seus caroços.

Sim, há mais escuta e um olhar acurado para a vida que um discurso em seus poemas. É uma escuta de memória e da trama dos motivos sutis da vida feminina, suas restrições históricas, desejos e ambições. Mas a poesia se dá apesar disso e quando se encontra com o que há de sublime no mínimo, vê-se também que a poeta nunca prescinde de sua integridade e dedica aos versos, além de técnica vigorosa e têmpera mental, a amorosidade áspera e táctil como é própria da dicção do sul. Livre do embaraço dialetal, a poesia de Mariana rebrilha de sua própria luz.

Mas é poesia que também se deixa notar no mais íntimo processo de maternidade e no encontro de uma plenitude inesperada entre o trivial e o religioso. Com um senso crítico por vezes cáustico, encara a própria rotina e a literatura desse tempo com o mesmo desembaraço com que se depara com as questões metafísicas da fé e de Deus. Seja com a leveza sintética do hai kai ou valendo-se da tradição das formas fixas, ela expande seu domínio do ofício sem que se encontre sequer uma repetição de motivos. Além de uma raridade, uma amostra de que este é um universo irrefreável. Vivendo em Santa Maria, no interior do Rio Grande do Sul, para nossa sorte o seu universo agora se torna acessível na forma de um livro que também é obra. Talvez por essa combinação pese bastante também na sua estante de livros.