Eufrates

Nesses dias chuvosos de julho, para mim é impossível não lembrar da campanha.

Lá fora, os campos da família ficavam entre o arroio do Tigre e o Camaquã, vulgo Eufrates por ali.

Quando chovia muito, não dava vau. Até determinado volume, abafando-se o motor e passando muito vagarosamente pela ponte, fazíamos a travessia às vezes com a caminhonete quase sendo suspensa na água.

Não é uma experiência lá muito confortável..

Para decidir se era viável a travessia, era preciso ter bom olho para aquelas águas que haviam levado consigo muito gaúcho a tobiano… Nos seus melhores tempos de vaqueano, o pai tinha esse olho e nunca se colocou em risco. Sobreviveu às cheias, quero dizer. Diz ele que algumas vezes por um pouquito só..

A alternativa ao caminho das águas consistia no caminho de dentro, o “das porteiras”… O caminho das porteiras competia em atravessar o passo do Tigre por dentro dos campos dos vizinhos e as porteiras eram várias mesmo. Alongava a viagem em algumas horas e alguns repechos, mas se chegava à cidade.

Em situação extrema, de necessidade de estar na cidade, era a única forma. As porteiras eram livres à passagem, mas, sendo inviável por um atoleiro mais pesado, ninguém se importava que se removesse um ou dois moirões e deitasse o arame para cruzá-lo. Lembro-me bem de segurar com as mãos a guajuvira mais pesada que a força disponível nos meus braços de guri. Lembro-me também que, a despeito da trabalheira, molhaceira e embarramento, tinha tudo aquilo um gosto de aventura verdadeira. Divertido não era, mas a cumplicidade pagava o custo daquelas jornadas. Uma latinha de figada era a refeição de um dia muito maior que o normal dos dias…

A estrada que liga Olhos d’Água a Bagé ainda hoje é a mesma. Caminhozinho de terra batida que na ida levava a família como força de trabalho, às vezes um adolescente contrariado, mas que na volta às vezes tinha disso. Se é que completamente de lá se volta um dia.

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CantognakeCantognake

Há uns dias assisti a um filme que mostrava os últimos dias de vida do chefe indígena sioux Touro Sentado. Um belo filme baseado na história real de uma pintora e retratista norte-americana, Caroline Weldon, que arriscou a vida para retratar o legendário sioux. O filme se chama “Woman walks ahead” e não sei se já se encontra nos meios habituais, Netflix, etc.. Eu o consegui num torrent.

Além do idioma cheio de sonoridades e estalos bucais dos indígenas, fabuloso por si só, e do morticínio final da tribo liderada por Touro Sentado, terrível por si só, o filme tem alguns momentos muito bonitos sem resvalar inteiramente à pieguice, o que é meio raro tratando-se de filmes que retratam povos indígenas.

Uma cena em especial, de um diálogo entre Sitting Bull e Caroline, dá conta de uma imagem invisivelmente poética daquele momento histórico (1890). Na tomada, ambos cavalgam lentamente através da pradaria. O cacique sabe que não pode mais fugir ao seu destino e de qualquer modo irá morrer lutando contra o exército norte-americano que deseja confinar a nação dakota em regiões inóspitas e impróprias ao cultivo. A essa altura, a maioria das tribos já abandonara o modo de viver dos ancestrais e começava a conformar-se à agricultura e aos “negócios” com o homem branco. Inclusive o próprio Touro, que já havia deixado para trás sua liderança, modo de vida e a sua impressionante indumentária original. Há dessa mesma época inclusive retratos de Touro usando traje ocidental e chapéu coco. Mas, mesmo adaptando-se já às novas condições, Touro e outros guerreiros e xamãs continuavam a buscar em eventos místicos a ideia de liberação transcendental da situação em que viviam.

Por outro lado, ele sabia muito bem que lutar seria morrer, mas também que não poderia mais recusar o confronto. A retratista, tendo chegado ali naquele momento crucial onde se “celebrava” nova demarcação e indígenas reviviam momentos de violência para com seus velhos e crianças famintas, assiste aquele momento sem volta na história daquele sujeito impressionante que tantas baixas havia causado ao exército norte-americano, entre eles o também legendário General Custer.

Mas, naquele caminho silencioso em que ela buscava dissuadi-lo do confronto pelo qual seria eternizado (quer dizer, outro massacre), ele lhe explica o significado de uma palavra lakota: “cantognake”. No filme, com estas palavras:

“Para achar nosso caminho
na pradaria,
às vezes paramos…

E olhamos… Recordamos.

Com as pessoas também.

Às vezes paramos
e olhamos e recordamos.

Isso se chama ‘cantognake’.

Colocar e manter
no nosso coração.

Este momento.”

Na tomada anterior, numa assembleia promovida pelo exército a fim de explicar o que seria feito na nova demarcação, Touro havia surgido na sua veste magnífica e com seu cocar de grande chefe e uma fala muito impactante, uma declaração de guerra, sobre os sacrifícios do seu povo, os nomes dos guerreiros e chefes abatidos em confrontos e daquela forma mostra-se finalmente pronto para o que tiver de ser, justamente o que pretendiam os militares federais que também desejavam vingar-se de perdidas batalhas anteriores.

É claro que Touro Sentado entrou para a história e é lembrado até hoje pelos seus feitos militares, mas achei aquela outra cena bem mais tocante, até porque expressa verbalmente e com um significado tão poderoso. A pessoa perceber o momento presente e sua relevância é cada vez mais incomum, diante da efusão de eventos e fatos sem fim. Não estar na vida em modo piloto automático requer o sacrifício de muitas coisas. Essa é, para mim, a verdadeira percepção do épico. O resto é a mais pura neurose: viver, guerrear, morrer.

Um pesadeloUm pesadelo

Nessa noite acordei de um pesadelo estranho. Acordei meio injuriado. No sonho, estava sentado junto a outros dois interlocutores e, conversando comodamente sentados, eles divergiam em tudo, sem nunca limitarem-se a simplesmente deixar a conversa morrer. Pelo contrário, eles tranquilamente argumentavam, mencionavam exemplos, ponderavam como se aquela conversa tivesse alguma finalidade. E não me deixavam apartá-los, mudar de assunto, desviar o foco. O único que tornava aquilo tolerável (e ainda mais estranho) é que não havia neles qualquer indício de alteração. Não iriam matar-se, sequer um enfrentamento. Havia uma civilidade torturante na conversa a que me submetiam que me parecia ser algo previamente combinado. Como se nada no mundo fosse mais importante nem dependesse daquilo. O seu ar desinteressado e falaciosamente circunspecto dava a entender que viveram ambos suas vidas para aquilo. Em vão eu tentava levantar-me simplesmente e partir, mas o ambiente fechado, com cortinas pesadas e estantes lotadas de livros não parecia ter portas. Eu pelo menos não as via. Acho que havíamos sido colocados ali, naquele cenário, para que eu fosse submetido àquela conversa invariável e cordata de pessoas que discordavam em tudo. E como não se dirigiam a mim a não ser em busca de um olhar de aprovação, lá pelas tantas eu comecei a fingir interesse em ambos, talvez assim o ânimo debatedor arrefecesse e aquilo acabasse. Procurei meu relógio e estranhei que o encontrei no bolso do colete. Que roupas eram aquelas? Que lugar era aquele? Em que ano estávamos? Quem eram, afinal, aqueles dois homens? Notando meu incômodo, um deles, o que estava sentado na poltrona à minha direita, encostou a mão no meu joelho como se entendesse o meu desconforto e as perguntas que mentalmente eu me fazia. O outro homem, também olhando-me com familiaridade e um tanto de condescendência, ele que me explicou a situação. “Não se preocupe em ver as horas. Estamos aqui em nossa oitava encarnação. Muitas haverão depois dessa. Nós continuaremos aqui, sem acordo e sem brigarmos, até que o mundo acabe.”

Minha amiga Dalva de OliveiraMinha amiga Dalva de Oliveira

Ninguém imaginaria que esta senhora confortavelmente instalada sobre o encanamento da calha de chuva do meu edifício seja na verdade uma reencarnação da Dalva de Oliveira.

Mas não só ela é como eu tenho certeza de que mais adiante, no pátio da minha vizinha, vive também a reencarnação pássara de Ângela Maria e num perímetro não muito grande ainda se possam encontrar todas as rainhas do rádio, que por alguma razão resolveram voltar à vida tudo aqui pertinho de casa, numa grande coalizão de talentos que elas exuberam madrugadas afora.

Eu não sei bem a identidade delas — de noite todos os sabiás são pardos —, mas esta aqui eu tenho certeza de que é a Dalva, que, de acordo com a opinião de Heitor Villa-Lobos, foi a maior das cantoras brasileiras da sua época. E porque tenho bom ouvido e certeza de que nunca daquele bico emitiu-se que fosse só uma nota desafinada..

Coisa mais agradável que tem é acordar com o canto de um sabiá. O problema é que nessa época de acasalamento os pretendentes a nubentes acabam montando uma orquestra filarmônica noturna. E o que era mera seresta logo se torna a Primavera de Vivaldi.

Mas… Para que dormir? Vamos aproveitar e ouvir os pássaros!..

Noite dessas, com olhos pesados e ouvidos alertas, cheguei a cogitar em desalojar a Dalva. Cansei de você, vá cantar noutro terreiro, pensei.

Mas tomei do telefone e revendo-a, absorta chocando a ninhada de ovinhos, recobrei o pouco de humanidade que evaporava àquelas horas altas da noite. De ornitopata me conformei em ornitólogo. Fiquei com a foto. Ela, com o seu ninho.

Também pensei que talvez pudesse ser atacado por um sabiá malandro de navalha na mão (um namorado típico dos anos 50, terno branco e chapéu panamá) e achei que não tinha cabimento ninguém passar por essas aventuras e muito menos um despejo tão brutal. Eu era um monstro pensando numa violência de empreiteira imobiliária e ela a reencarnação da Dalva de Oliveira..

Seus trinados, barroquismo que aprendeu involuntariamente na natureza, quando soam eu sei que são três da manhã. Para uns, hora de desbragada boemia. Para outros, o sutil despertar da neurastenia.. Assim é a vida, jamais se pode pretender agradar a todos. Mesmo a voz de uma Dalva de Oliveira pode soar insuportável, a depender do humor do freguês..