Crítica Mariana Machado diante do mundo

Mariana Machado diante do mundo

Artigo publicado no Caderno DOC do jornal Zero Hora, 24/03/2023.

Junto aos demais nas prateleiras de uma livraria, numa tela da internet ou na coleção particular de alguém, um livro é sempre muito semelhante aos outros livros. Como se pode distinguir um de outro? Não é pela gramatura ou qualidade da celulose, certamente não, mas logo se intui que o peso de um livro reside mais na obra e no que dela é inerente do que no objeto e sua exterioridade. É por isso que todos conseguem atestar uma descompensação tanto no valor de venda quanto no valor intrínseco de objetos de aspecto tão semelhante. Semelhança apenas aparente, diga-se de passagem. Nem todo o livro é obra e quem o disse não fui eu, mas Jacques Derrida na sua Gramatologia. De fato, a diferença se dá à leitura e logo que se a inicie desencadeia-se um complexo processo analítico-comparativo.

É essa a balança que cada qual regula com sua experiência, preferências e disposição para a surpresa. Quando acontece, é como o tilintar das moedas de uma slot machine: já não se pode mais largar aquele livro único e inimitável.

Não foi por sorte que caiu em minhas mãos o novo livro da poeta gaúcha Mariana Machado. Eu a leio desde as suas primeiras publicações e sei que, portanto, este é um livro de uma carreira que em 2022 obteve com Cães e Astromélias (Mondrongo, 2021) o terceiro lugar no Prêmio Alphonsus de Guimaraens, da Biblioteca Nacional. Agora, Mariana traz pela mesma editora um volume generoso de 250 páginas de sua poesia, com a publicação de Entre Mandalas, Espadas e uma Escada Caracol. Com o livro, o universo poético de Mariana ao mesmo tempo se arroja e densifica. Certamente, não pesaria mal em nenhuma boa livraria ou na prateleira de boa poesia de uma biblioteca.

Abertas as portas do universo expandindo do livro de Mariana, logo se parte ao encontro de uma recriação em versos do épico Sidarta, de Herman Hesse. Os 47 cantos do poema dão conta da busca por esclarecimento que o buda empreendeu a sós em sua bem conhecida jornada. Aqui, logo se pode ver que também Mariana empreende uma jornada em que se confronta consigo mesma e com o mundo numa tensão poética rara de se ver. E o esclarecimento de Sidarta, o que “quisera dar-se apaixonadamente a tudo”, e que cumpriu o destino por ele mesmo forjado e “deixou tudo para trás e foi-se embora”, não é senão a aprendizagem dos que se desapegam, nesse processo de decantação pelo qual também se transformam os poetas em poetas.

Ao recuperar os ecos antepassados das mulheres do Rio Grande do Sul ou ao combater e desvendar a densidade do mundo presente, Mariana combina sua voz mais coloquial com os recursos de uma excelente leitora de poesia. Isso se confirma ao conhecerem-se as traduções que ela também registra no livro e vão de Goethe a Jacques Prévert, alargando as margens do seu próprio universo ao universo de outros tantos poetas.

No poema A Lavadeira, a poeta rende a sua escuta poética às mulheres:

Quebrando a geada, pé por pé, no mato,
alta a trouxa de roupas – feito Atlas –,
pulando arames, chega à beira d’água
pra mergulhar os dedos, vê-los mortos
e desfazer na fibra seus caroços.

Sim, há mais escuta e um olhar acurado para a vida que um discurso em seus poemas. É uma escuta de memória e da trama dos motivos sutis da vida feminina, suas restrições históricas, desejos e ambições. Mas a poesia se dá apesar disso e quando se encontra com o que há de sublime no mínimo, vê-se também que a poeta nunca prescinde de sua integridade e dedica aos versos, além de técnica vigorosa e têmpera mental, a amorosidade áspera e táctil como é própria da dicção do sul. Livre do embaraço dialetal, a poesia de Mariana rebrilha de sua própria luz.

Mas é poesia que também se deixa notar no mais íntimo processo de maternidade e no encontro de uma plenitude inesperada entre o trivial e o religioso. Com um senso crítico por vezes cáustico, encara a própria rotina e a literatura desse tempo com o mesmo desembaraço com que se depara com as questões metafísicas da fé e de Deus. Seja com a leveza sintética do hai kai ou valendo-se da tradição das formas fixas, ela expande seu domínio do ofício sem que se encontre sequer uma repetição de motivos. Além de uma raridade, uma amostra de que este é um universo irrefreável. Vivendo em Santa Maria, no interior do Rio Grande do Sul, para nossa sorte o seu universo agora se torna acessível na forma de um livro que também é obra. Talvez por essa combinação pese bastante também na sua estante de livros.

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Foi por um cruzado (ou seria um gancho?) que prestei atenção na sua escrita. Isso aconteceu há pelo menos doze anos, quando publicou em Zero Hora um texto chamado Enterro de pobre e que pode ser lido no livro A vida que ninguém vê, vencedor do Jabuti de 2007. Trata-se de uma crônica-reportagem para ser lida sem respirar e que tem como tema a pobreza. Não a pobreza como é descrita pelo IBGE, que afirma haver no Brasil de 2011 pelo menos quinze milhões de pessoas vivendo além do que seria o limite da pobreza extrema (o que há além da pobreza extrema?), não como quem trata de forma evocativa ou numérica a realidade da pobreza ou a classifica, e sim como quem lhe dá qualidade, nome, endereço e destino. No texto, conta o que acontece a uma família que se despedaça e, pela pobreza, não tem sequer onde depositar os seus pedaços. E ela o faz como se friccionasse as palavras em direção aos olhos do leitor, para que se misturem a ele e este não possa mais saber com que olhos está fazendo a leitura. Mas é improvável que se possa explicar uma coisa dessas.

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Foi a leitura de um breve trecho do recente Uma história da literatura brasileira contemporânea (Todavia, 2026), de Regina Dalcastagnè, que há pouco me fez retomar a antiga impressão de que a história literária do Rio Grande do Sul pode não refletir tantos traços, como queremos crer, da experiência das Missões Jesuíticas Guaranis e da presença indígena. Ao examinar a ficção histórica produzida no estado, cuja diversidade e amplitude atribui ao “espaço de maior fricção entre colonizadores portugueses e espanhóis”, em seu livro a professora organiza esse conjunto de obras em três grandes eixos: a presença dos colonos europeus e a nostalgia da ocupação territorial, os conflitos urbanos e migratórios e, por fim, os embates armados, guerras e revoluções. Embora mencione a extensão da obra de Érico Veríssimo, sua síntese da ficção histórica gaúcha praticamente não contempla os quase dois séculos da experiência missioneira nem a presença indígena, que passam despercebidos no breve panorama dedicado aos livros e autores destacados.

Da leitura do parágrafo resulta uma sensação (não inédita) de estranhamento. Na historiografia literária rio-grandense, as Missões e o elemento indígena raramente comparecem em sua formação, cuja origem costuma ser situada nos limites da Revolução Farroupilha. A sensação agora se amplifica porque ocorre justamente no ano em que se comemoram os 400 anos das reduções jesuíticas, quando o tema tem sido objeto de intenso investimento publicitário no Rio Grande do Sul, servindo de atrativo para a realização de eventos de toda ordem, em uma iniciativa de fomento promovida pelo governo do Estado. Cumpre dizer que, apesar dessa visibilidade simbólica, pouco dessa mobilização foi incialmente projetada para repercutir nas condições de vida das comunidades indígenas, fato que motivou inclusive a intervenção do Ministério Público Federal no sentido de restabelecer a participação das comunidades e alterar a destinação dos recursos. A sensação de descompasso, portanto, não se limita à literatura e tampouco é uma novidade: a assimilação da experiência missioneira e da presença indígena no Rio Grande do Sul de um modo geral é permeada por um histórico de conflitos, disputas e impasses.

Do ponto de vista da memória cultural, a sensação é de um estranhamento ainda maior: ao menos por um momento, parece ainda prevalecer a ideia de que a história das Missões não nos pertence integralmente e diz mais respeito aos domínios espanhóis que luso-brasileiros. Reitero o “ainda” porque, em torno desse antecedente, erigiu-se e predominou por longo tempo a estranha ideia de uma província nascida politicamente apenas nos limiares do séc. XIX, precisamente em 1801, data em que a região foi definitivamente incorporada aos domínios luso-brasileiros após um processo de violência e expropriação dos povos originários.

A ideia fundamentou grande parte da historiografia rio-grandense produzida ao longo do séc. XX, estimulando um intenso debate público que, em muitos momentos, colocou em oposição intelectuais divergentes e governantes. No que diz respeito à literatura, isso me ocorreu especialmente pela ausência, no trecho mencionado, de qualquer referência às obras literárias dedicadas às Missões e à presença indígena — e ainda mais porque essa ausência não corresponde inteiramente à realidade. Há, pelo menos, dois romances que, além de expressivo sucesso editorial, desempenharam papel relevante nas discussões culturais rio-grandenses: trata-se de Tiaraju (Livraria do Globo, 1948), de Manoelito de Ornellas e Sepé Tiaraju: romance dos sete povos das Missões (Sulina, 1978), escrito por Alcy Cheuiche.

Ainda que não figure como um dos troncos da ficção histórica propostos pela professora Delcastagné, a história missioneira tem sido pródiga na proliferação literária. É uma produção, aliás, notavelmente diversa e compreende desde romances e novelas históricos até a poesia e o cancioneiro popular. No centro dessa intensa representação, localiza-se o guarani Sepé Tiaraju, santo popular desde o registro de João Simões Lopes Neto e figura ao mesmo tempo humana e mítica que encarnou a indianização da cultura popular como um ícone atrativo e identitário. Para muitos pesquisadores, como Eliana Inge Pristch e Ceres Karam Brum, foi justamente a literatura que conformou o mito, transformou a violência da morte de Sepé em martírio e o consolidou na memória e ancestralidade cultural dos gaúchos.

Se, contemporaneamente, o debate em torno das vertentes lusitanista e hispanista da história política e cultural do Rio Grande do Sul pode ser dado como superado, o mesmo não se pode dizer do legado missioneiro, que permanece como um campo simbólico aberto para os debates culturais, exploração turística e disputas políticas. Na literatura, vale dizer que isso se deve menos às referências ao passado do que à produção contemporânea de autoria indígena. Obras de autores como Luciana Vãngri Kaingang e Gerônimo Morinico Franco, por exemplo, vêm expressando, com crescente autonomia, os valores culturais e as questões próprias das comunidades, estabelecendo novas formas de continuidade com o passado colonial. Além da literatura, a reflexão sobre essas relações também está presente em diversas produções acadêmicas e realizações culturais, acompanhando o processo contemporâneo de afirmação da autoria indígena e sua atuação intelectual.

No que se refere ao passado, é preciso lembrar que as relações dos escritores com a representação dos indígenas estiveram, por muito tempo, influenciadas por um processo de racialização e subalternização que acabou por situar a identidade e os antecedentes indígenas, simultaneamente, no centro e à margem dos processos culturais. Há uma espécie de estigmatização que convive com o culto heroico. Em um processo identitário marcado pela indefinição da nacionalidade, pelo desejo de distinção em relação ao mundo hispânico, pela natureza da miscigenação e pela caracterização e permanência da memória cultural, impasses recentes acabam por mimetizar os antigos: velhos preconceitos são reciclados e traduzidos em formas de apagamento tanto no campo cultural quanto no político.

No terreno do imaginário, do qual a literatura ainda pode exercer um poder gerador de sentidos, a situação é tênue como são as atuais condições de vida dos descendentes dos povos indígenas. Mobilizar a atenção das pessoas cada vez mais conectadas ao mundo global para as particularidades locais exige aumentar um pouco o distanciamento para com o presente, e melhor ver o passado. Certo é que a literatura pode servir a esse propósito e a constatação da anulação da ausência dos indígenas no campo literário pode servir de termômetro cultural. Apesar disso, como escreveu certa vez o recém-falecido historiador italiano Carlo Ginzburg, não devemos exigir verossimilhança da literatura, mas aceitar a sutileza do seu suporte. O mais simples será sempre banalizarmos o conhecimento do passado e suspendermos o diálogo que podemos estabelecer com ele, mas à literatura é suficiente o reconhecimento do seu potencial de estranhamento. Quando nos diz respeito, estranhar a ausência desse reconhecimento torna-se também uma questão de sobrevivência.