Artigos Cancelando Wallace

Cancelando Wallace

Revista Parêntese, ed. 232

No mundo da história da ciência, nunca se apaziguaram completamente os ânimos em torno da prevalência de Alfred Russel Wallace ou Charles Darwin na elaboração da teoria da seleção natural. Até onde se sabe, felizmente não houve uma disputa por este legado, já que os seus trabalhos foram apresentados em um único paper em junho de 1858. Todavia existe, sim, e muito, a reivindicação posterior de que luzes em excesso tenham sido lançadas sobre Darwin (ou por ele próprio) em detrimento de Wallace, uma pessoa muito modesta e cujos interesses intelectuais paulatinamente o afastaram da “boa ciência”.

Mas isso teria começado ainda no séc. XIX e enquanto eles viveram. É o que se pode saber por meio das biografias de Darwin publicadas no Brasil, já que, de Wallace, não há em curso, parece, nem um projeto de tradução ou edição de qualquer biografia nem da sua prolífica obra para além de livros fora de catálogo. Não que elas faltem em idioma estrangeiro, inglês principalmente, mas aparentemente Wallace caiu fora do interesse editorial brasileiro, repetindo a escrita do seu obscurecimento em todo o mundo.

O problema deste obscurecimento parece começar por aí mesmo, talvez, na popularidade de um e de outro.

Do que se sabe, Darwin começou a trabalhar no que depois veio ser A Origem das espécies ainda quando viajava pelo mundo a bordo do Beagle, mas sua condição de saúde precária fazia com que evoluísse lentamente nas anotações e sua ambição inicial era de que o trabalho não resultasse apenas em um volume, mas um grande livro em muitos volumes. Eis que em 1858, conhecendo sua pesquisa e interesses, Wallace envia-lhe um resumo das suas observações altamente coincidentes com o que ele vinha desenvolvendo. Motivado por amigos cientistas que sabiam do seu envolvimento anterior, um trabalho conjunto de ambos é então apresentado na Sociedade Linneana, no mesmo dia em que Darwin sepultava numa capela perto de casa o seu décimo filho, o bebê Charles Waring. Um ano mais tarde, A Origem das espécies é publicada resumidamente, num volume só, e é um estrepitoso sucesso editorial, com a primeira tiragem esgotando-se em poucos dias.

É a publicação e o sucesso comercial do livro, muito mais do que o empenho de um quase heremita, portanto, o que determina a popularidade das ideias de Darwin. Neste meio tempo, Wallace envolveu-se em novas viagens e em outros interesses. Mais tarde, estes interesses divergentes à ciência contribuíram para a sua obscuridade. Também havia que Wallace, de origem social bem mais modesta que Darwin, passou a viver com muitas dificuldades e envolveu-se nos movimentos políticos socialistas. No entanto tudo indica que foram mesmo os seus interesses anti-científicos e propostas que ele fez neste sentido que o “cancelaram” naquele momento, pois tornou-se um elemento constrangedor nos círculos científicos, ainda mais que ele não se furtava a propor os debates espiritualistas com quer que fosse. Thomas Huxley (avô do escritor Aldous Huxley, conhecido como o “buldogue” de Darwin) parece ter sido quem mais empenhou-se nisto, inclusive colocando Darwin na última fileira das homenagens ao naturalista em seu cortejo fúnebre, em 1882. Mais ao final da vida, Wallace recebeu, no entanto, as maiores glórias científicas inglesas e foi lhe reestabelecida a reputação científica. Além das premiações científicas da Sociedade Linneana e da Royal Society, em 1908 recebeu a Ordem do Mérito, distinção máxima da Coroa Britânica.

A bibliografia de Wallace no Brasil é ridícula frente à sua imensa produção intelectual, porém entre os livros aqui publicados se encontram basicamente os destinados ao espiritualismo. Em 1870, mais de uma década após a publicação de A Origem das espécies, foi apenas quando ele publicou um apanhado do seu estudo evolucionista, com o livro Contributions to the Theory of Natural Selection. A esta altura, Darwin já era debatido, combatido e ridicularizado na imprensa londrina. Wallace tomou as dores de Charles e publicou outro dos seus livros traduzidos ao português, Darwinismo. Uma exposição da teoria da seleção natural com algumas de suas aplicações (EDUSP, 2010). O livro não é apenas uma defesa de Darwin, mas o seu reconhecimento de que o trabalho daquele precisava ser defendido como um patrimônio científico que também era devido a ele. E assim ele fez.

É bastante melancólica essa disputa tardia realizada por terceiros, vez que poderia ser muito mais explorada a relação de proximidade e mesmo as diferenças entre eles, não no sentido competitivo, mas visando enriquecer ainda mais o panorama da ciência evolutiva e também do conhecimento biográfico. Muitas vezes Darwin e Wallace apoiaram-se em questões muito importantes, inclusive de ordem financeira, pois foi Charles quem defendeu que a Royal Society destinasse a Wallace uma pensão em seu maior momento de dificuldade. Wallace quase prestou serviços a Darwin, de revisão e ilustração, mas as relações comerciais nunca se estabeleceram e Darwin parecia preferir o trabalho de desconhecidos a ter de reduzir a relação dos dois a termos empregatícios.

Em paralelo, mas não sempre coincidentemente, tanto Darwin quanto Wallace escreveram e publicaram muitos livros. Como um polímata, Wallace dedicou-se a muitos assuntos enquanto Darwin manteve seu foco nos estudos naturalistas. Porém num ponto específico eles voltaram a se encontrar: na adaptação da teoria evolucionista ao mundo dos seres humanos. Com Darwin, isso resultou em A descendência do homem, um livro até certo ponto constrangedor, pois apoiado numa visão spenceriana e imperialista e sem o brilhantismo original de A origem das espécies. Wallace não obteve melhor sucesso com Man’s place in the Universe, de 1904, no qual aliou a perspectiva evolucionista a uma espécie de teologia espírita metafísica reputada na época como imprestável.

Para além das diferenças e dissidências, Darwin e Wallace mantiveram intensa correspondência e muitas vezes Charles mudou de opinião em razão dos argumentos que Wallace lhe apresentou por escrito ou nas poucas visitas que ele fez a Down House. Na América do Sul e especificamente no Brasil ambos estiveram em momentos distintos. Darwin esteve mais ao sul, nos países platinos e no Chile, enquanto Wallace visitou o Rio Negro e a Amazônia. Em 2013, Wallace ainda não havia reunido admiradores suficientes para que uma campanha visando uma estátua em bronze obtivesse sucesso. O crowdfunding finalizou com 50% da meta e o monumento foi erigido com doações especiais. Está no Museu de História Natural, em Londres. No bicentenário de seu nascimento, em 2023, em todo o mundo promoveram-se iniciativas de recuperação do seu legado pela comunidade científica de todo o mundo. A infidelidade para com a ciência foi finalmente perdoada e Wallace reconhecido como uma das figuras mais relevantes (e por que não libertárias?) da ciência moderna.

Deixe uma resposta

Posts semelhantes

A psicopata improvável de Leïla SlimaniA psicopata improvável de Leïla Slimani

Costumam ser pouquíssimos os autores agraciados em premiações literárias de cunho nacional que conseguem romper a barreira invisível do interesse internacional. Ano a ano, uma sucessão de nomes pouco ou nada conhecidos ganha a fagulha da notoriedade nacional para logo a seguir engrossar a lista interminável dos autores geograficamente confinados. Na pirâmide do reconhecimento, a tradução ocupa desde há muito um lugar de destaque no sistema literário e, na ordem de relevância, perde apenas para as premiações internacionais e a finalíssima inserção no cânone universal. O resultado quantitativo de tal situação é que anualmente deixa-se de conhecer inumeráveis autores enquanto que o resultado qualitativo é de que se acaba por conhecer e valorizar demasiadamente uns poucos afortunados.

Este último parece ser o caso da escritora franco-marroquina Leïla Slimani. Agraciado com o prêmio Goncourt em 2016, o seu Canção de ninar teve sorte muito diferente da imensa maioria dos mais recentes autores premiados com a distinção francesa. Isto também seria verdadeiro caso se cogitasse distinções recentes de quaisquer outros países, como o prêmio Goethe, o Miguel de Cervantes, o James Tait, o National Book Award e até mesmo prêmios lusófonos, como o Camões, o Cesário Verde, o Antero de Quental, etc. Dupla felicidade teve o segundo romance de Leïla, portanto, porque além de traduzido para diversos idiomas, provocou um efeito cascata na crítica literária nacional, ainda mais que sua vinda ao Brasil já está anunciada para o próximo ciclo de palestras do Fronteiras do Pensamento e também para a próxima FLIP.

Escrito em um ritmo sôfrego, asmático, quase todo no mesmo tempo verbal e parecendo-se em boa parte à reconstituição informativa de um crime, o ponto forte do livro de Slimani parece mesmo concentrar-se na temática absurda e trágica que a autora teria recolhido de uma reportagem e que dava a contar a história de uma babá que assassina a prole de um casal cuja incumbência seria cuidar. O desenredo de Canção de ninar trata de explicar como isso tudo veio a acontecer justamente diante do que aparentava ser a escolha perfeita, ou seja, a pessoa ideal para ajudar a organizar a vida de uma família francesa de classe média cuja figura materna deseja voltar a trabalhar após a dupla maternidade.

Narrando o que muitas vezes parecem-se a imagens decalcadas de um pesadelo, Leïla empreende uma intensa e artificiosa deterioração da personalidade de Louise, a babá branca empregada por Myriam, uma advogada de ascendência marroquina e por Paul Massé, um produtor musical mal sucedido, para cuidar de seus dois filhos, Mila e Adam.

Valendo-se do anti-clichê identitário para escapar à obviedade que seria retratar a condição inversa, embora fosse possivelmente mais corriqueira e realista em se tratando de imigrantes pobres, Slimani investe todas as fichas em enlouquecer sua maléfica protagonista. Para tanto, vale-se menos de elementos psicológicos factíveis do que de uma perspectiva em que os traumas sociais se tornam as fontes exclusivas para explicar o comportamento das pessoas, mesmo que o comportamento de um psicopata costume derivar de condições bem menos evidentes. É esse desvio de um drama psicológico a primeira vista complexo para uma trama francamente determinista que torna o livro uma leitura fácil e o que talvez explique a trajetória comercial do livro da franco-marroquina e sua expansão ultraterritorial, fenômeno como se sabe cada vez mais restrito às obras boas de venda.

Esta com certeza não será a primeira nem a última vez que um crime bárbaro despertará a atenção dos leitores mundo afora, afinal o gênero thriller vem cada vez mais assumindo o posto outrora ocupado pelo romance policial investigativo. Além disso, o desejo humano por aprofundar-se nos aspectos sombrios da personalidade parece ser dos mais antigos e inextirpáveis. Porém o que ocorre com o livro de Slimani é que não há thriller algum. Sua novela começa justamente pelo seu clímax e é da desconstrução da surpresa que a escritora passa a construir uma narrativa que acaba reduzindo-se a uma paulatina descrição psicopatológica da babá assassina, convertendo suas características humanas em uma sintomatologia autoexplicativa.

Lousie é a psicopata formada pela devastação da pobreza e resultante de uma vida incomunicável em que nunca é dito a ela do que dela se espera e nem ela incide em um mínimo diálogo para dizer de suas frustrações e desejos. É uma personagem que age como uma peça de relógio e que em algum momento passa a agir desgovernadamente. Uma personagem caricatural e totalmente conformada psiquicamente pela condição de classe, pobreza e inveja não declarada e que muito em breve estará apavorando as famílias empregadoras de babás mundo afora e estampando por tudo posters de cinema, reproduzindo ainda mais o sucesso pan-geográfico da trama da escritora marroquina. O combustível perfeito para isto Slimani já tem: o temor universal pela segurança da prole.

Quanto ao ponto de vista formal, metade do caminho para o sucesso cinematográfico já está trilhado. O livro de Slimani é tão descritivo e livre de ambiguidades quanto um roteiro cinematográfico. É uma opção autoral a que não cabe julgar, evidentemente, mas a autora preferiu escrevê-lo de modo a descrever inclusive noções sentimentais de suas personagens. Ao invés de conduzir a narrativa de modo que o leitor pudesse ele mesmo ir construindo uma imagem tanto externa quanto psíquica das personagens, logo nas primeiras páginas é preciso deparar-se com descrições taxativas até mesmo de noções invisíveis, como traços de personalidade e o caráter moral tanto da babá Lousie quanto de todos os demais. Dada a abordagem absolutamente plana que Leïla emprega, o certo é que se trata de um livro que dará pouco ou nem um trabalho para um roteirista adaptar.

Também muito diferentemente da legião de autores constrangidos aos diversos limites geopolíticos e linguísticos, Slimani conta com um entusiasta de peso como raro se reproduz no mundo. Trata-se do presidente francês Emmanuel Macron, que convidou-a inclusive para ocupar a titularidade da pasta cultural de seu governo e que, diante de sua recusa, tornou-a nada menos que sua representante pessoal para assuntos relacionados à francofonia. Mesmo que se tratasse apenas de mais um reconhecimento devido à popularidade crescente de Leïla e não de mais um meio de levar a cabo seu projeto de expandir a presença e o uso da língua francesa no mundo especialmente através do continente africano, a escolha é simbólica.

Mesmo abordando indiretamente (muito indiretamente, já que sua protagonista é uma francesa que faz o trabalho dos imigrantes e não convive muito bem com eles) a temática sensível do subemprego dos imigantes do norte africano, Slimani é uma autora que investe em descolar-se definitivamente de qualquer viés identitário e, assumindo uma proeminente posição política, torna-se agora, como deseja Macron, a voz multicultural de uma nação que nem tanto reconhece as dificuldades reais de dialogar com a diferença mas que prefere passar longe do que possa haver de sombrio nessa temática. Convenhamos que para ganhar distância disso tudo, pouco poderia ser comparado a galardoar a autora e um livro sobre uma psicopata improvável mesmo. Também caberia notar que caso a psicopatia decorresse, de fato, de motivações como as fornecidas por Slimani, um percentual altíssimo deveria ser considerado em um país como o Brasil, por exemplo. Não que não exista, mas felizmente não se trata ainda de efeito direto da decomposição social. Já não bastasse a paranoia da violência generalizada, que uma infinidade de leitores se satisfaça com explicações e narrativas dessa espécie talvez seja ainda mais preocupante e sintomático de algo ainda a ser melhor esclarecido.

A música que não vibraA música que não vibra

Revista Amálgama

Há algum tempo atrás li, em algum lugar, que o naturalista inglês Charles Darwin não gostava de música. Não é que não gostasse, é que sua mente aparentemente não apreciava o gozo estético da música. Parece que ele sentia o mesmo em relação à pintura. Não podia ou não sabia como julgar o valor estético de uma obra de arte, embora pudesse observar, compreender e descrever os fenômenos biológicos de uma maneira absoluta, razão pela qual figura sabidamente entre os grandes gênios científicos da humanidade. Um gênio irrefutável e, mesmo assim, aparentemente intocado pelo prazer da percepção musical. Consta que, a despeito disso, sua esposa Emma tenha sido excelente pianista, aluna de Frédéric Chopin e por este inclusive elogiada em razão de sua técnica. Imagino que Darwin tenha sido um amante paciencioso, pois através de algumas biografias também pode saber-se que ele não se furtava ao serões de Mrs Emma. Bem, as especulações param por aqui.

Outro pilar da modernidade, o austríaco Sigmund Freud, parecia sentir o mesmo sobre a primeira das artes. Em O Moisés de Michelangelo, ele diz: “com a música sou quase incapaz de obter qualquer prazer” para, em seguida, talvez explicar as razões disso acontecer (quem sabe explicando também o que acontece a Darwin): “Uma inclinação mental em mim, racionalista ou talvez analítica, revolta-se contra o fato de comover-me com uma coisa sem saber porque sou assim afetado e o que é que me afeta.”

Na minha vida, conheci pessoas com graus diferentes de sensibilidade musical. Desde prodígios infantis a pessoas praticamente indiferentes às composições sonoras, sem falar nas completamente ineptas aos instrumentos musicais. Não sei se terá a uns faltado o estímulo que chegou a outros, mas o fato é que talvez a sensibilidade musical tenha um fundo neurológico que se desenvolve de forma diferenciada nas pessoas. Ou então se desenvolva em algumas pessoas a assim chamada “amusia” que corresponderia, no campo da neurociência, à perda total das funções musicais pelo indivíduo. Através da neurociência sabe-se também que, ao contrário de outras funções cerebrais, a musicalidade não está ligada a nenhum campo específico do cérebro, mas a muitos campos simultaneamente, o que dificulta ainda mais a compreensão sobre o assunto.

Há outros fenômenos sobre a musicalidade e o indivíduo que me chamam bastante a atenção também. Aquelas pessoas que, por exemplo, têm uma relação utilitarista com a música e usam-na como um tipo de terapia particular. Pessoas que gostam de gêneros musicais seletivamente ou que são radicalmente refratárias a determinados estilos. Não são poucas as pessoas que se recusam a ouvir qualquer melodia mais lenta que classificam-na imediatamente como “música depressiva”. Conheci pessoas que apenas toleravam o estilo de “música ambiente”, que parece ser de um tipo que não lhes afeta o humor. E outros que apenas escutavam “músicas positivas”, com efeito motivacional ou grandiloquente. E ainda pessoas que vinculam a música exclusivamente ao gesto e prática da dança.

No livro Alucinações Musicais, o neurologista e escritor Oliver Sacks conta situações incríveis envolvendo a música e os seres humanos. A que mais me chamou a atenção foi a de que pacientes com Alzheimer, de um forma ainda desconhecida, mantêm preservada a memória musical e que inclusive o aprendizado de um instrumento, mesmo tardiamente, ajudaria a retardar o próprio desenvolvimento da moléstia. O uso terapêutico da música com animais e vegetais também parece ter algum tipo de efeito comprovado através de observações científicas. Vacas que ouvem Mozart produziriam mais leite na ordenha e alfaces tirariam mais proveito da fotossíntese se submetidas a “audições”. Coisas da natureza.

Lembro ainda hoje do quanto me espantei ao descobrir que mesmo um instrumento percussivo, como a bateria, possui uma escrita musical que pode ser transcrita em uma partitura. Mesmo que os instrumentos percussivos pareçam ter a única função de sustentação rítmica, produzem sonoridades diversas que operam em uma frequência vibratória escalonável, razão pela qual podem ser “escritos” conforme a linguagem musical. Provavelmente os instrumentos percussivos foram os primeiros criados pelo homem, embora os vestígios de rudimentares instrumentos de sopro tenham sido também encontrados em diversos sítios arqueológicos. Boa parte dos instrumentos modernos, com exceção dos elétricos, derivam de certa maneira da atividade percussiva, mesmo que de forma indireta, como no caso do piano, cujas cordas são acionadas mecanicamente.

De toda maneira, a música é sempre o resultado da vibração das ondas sonoras e de sua harmonização (ou não, como querem os cacofônicos). Diferentes culturas têm características bem específicas em relação à composição musical e até mesmo sobre peculiaridades sonoras. Instrumentos exóticos como a cítara indiana e outros quase inconcebíveis são capazes de gerar sonoridades tonais fracionadas, os chamados semitons, que não podem sequer serem transcritos para escrita musical ocidental. Parece ser o mesmo tipo de frequência sonora que se encontra na música vocal tradicional de países do oriente médio, não por acaso hipnotizante.

Seja como fonte de enlevo, transe, euforia ou mero deleite, a música acompanha o homem desde eras remotas e é provável que acompanhe até o final de nossa experiência terrena. Diante de um predomínio tecnológico sem precedentes na história, é natural que ela cada vez mais receba daí um aporte relevante. Desde a década de 1960 isso vem acontecendo, na verdade. Que uns prefiram as guitarras e instrumentos eletrificados aos samplers digitais ou estes aos instrumentos acústicos mais tradicionais, tudo isso é bem compreensível.

O difícil de compreender continua sendo a misteriosa conexão que a música faz com o pensamento e com a sensorialidade humana, chegando a anular-se em alguns casos e, em outros, gerando elaborações de extrema complexidade, como a capacidade de improvisação jazzística, por exemplo, sem entrar no mérito de Beethoven e outros compositores e instrumentistas acometidos pela surdez. De qualquer forma, mesmo que se trate de capacidade desenvolvida através da aprendizagem, sempre soará como um tipo de magia ou, como bem afirmou Schopennhauer, um tipo especial de exercício inconsciente da metafísica, “no qual o espírito não sabe que está a fazer filosofia”.