E R R A T A – p/ Lucio Carvalho Crônicas Como abrir a sua própria caixa quântica de talentos

Como abrir a sua própria caixa quântica de talentos

Publicado na edição de dezembro de 2024, do Jornal Relevo.

Deixe uma resposta

Related Post

Duas pelesDuas peles

Eu nunca vi um gato. Nem sei como eles são, na verdade. Na minha rua, nunca houve um deles. É como se vivêssemos num deserto ou mar adentro, onde também não há gatos.

Agora que trouxemos para casa um cão, sentimos a presença cada vez mais próxima dos gatos. É estranho. É como se eles passassem a habitar um andar suspenso, por tudo, a evitar o encontro definitivo com o cão. E é justamente por não vê-los que mais os vemos. Só ainda não sabemos porque essa curiosidade repentina quanto a nós e nossa vida. Será algo que comemos? Algo que oferecemos ao cão e eles pensariam se ofereceríamos a eles se fossem eles os animais domésticos? Ainda não vimos os gatos (pelo menos eu não), mas agora estamos sempre sentindo a sua vigilância.

Tenho certeza também que um dia serei acordado por olhos que serão de gato. Mas como saberei? Poderá ser o cão com uma máscara, mas os cães não são dados ao fingimento. Poderá também ser um gato com máscara de gato ocultando a verdadeira e desconhecida face do gato. Seja como for, como não sabemos lidar com eles, devemos apenas aceitar a sua presença.

Outra coisa que eu não duvido é que, um a um, ele nos escravizará com a sua ausência. Será como se ele pudesse chegar a qualquer momento, pois os gatos não reconhecem os limites das janelas ou portas. Não importa a cor da sua pelagem, ele chegará (espero eu) depois das seis da tarde, quando eu estiver cansado o bastante e depositar os óculos sobre a prateleira e, naquela penumbra, descansarei finalmente do dia passado na luminosidade do laboratório.

O cão, eu sei que ele já se acostumou ao perfume químico das minhas mãos e roupas, mas, e o gato? Tolerará? Eu não sei, todavia ontem mesmo providenciei nova tigela – não outra para o cão, mas uma só para ele. Dessa forma, quando ele chegar, terá certeza de ser aguardado e bem recebido. Quanto a nós, teremos um gato sem tê-lo, pois esse é o jeito certo de ser e ter do gato. Deve ser assim. Eu nunca vi um gato exceto o que veio dentro da pele do cão. Quando ele me olha daquele jeito que seleciona as camadas da realidade, eu me esqueço de tudo e fico imaginando o que ele deve ficar enxergando em mim.

Um assaltoUm assalto

Quis me assaltar (eu não deixei) um homem muito velho, ali na André da Rocha. Ali um pouco antes da escadaria.

É que eu fiquei um instante só olhando a luz do sol do outono desabando pelos degraus, naqueles caquinhos de azulejos, e me perdi um pouco da hora da minha consulta e ele então me alcançou.

Eu acho que ele estava antes numa padaria que tem por ali (não lembro o nome) e, ao me ver passar, decidiu-se por me perseguir. Teria abandonado o pingado à meia taça, o cacetinho fornido de queijo e mortadela, a troco de quê, meu Deus? Por minha causa? Teria deixado o jornal de lado, a esvoaçar sozinho sobre a mesa, por quê?

Sabendo que estava atrás de mim, pensei que imediatamente precisava de um ou mais planos de fuga.

Vou subir a escadaria, pensei, assim eu mato o velho do coração antes que ele chegue na Duque, e me safo.

Vou adiante e peço ajuda na lavanderia de onde vem lá, parece, um meninote carregando um pacote de papel pardo muito maior do que ele, como se fosse um cadáver verde, sobre o ombro.

Vou até o fim da rua (não me custa!) e dobro a lomba do viaduto e ganho o centro. Logo chego na Salgado Filho e ali estará o meu bom doutor sorrindo sempre com minhas manias de doença e exames sempre por fazer.

Se eu paro e olho pra trás, aí então é que ele me alcança. Não posso deixar que isso aconteça. Não volto. Sigo em frente. Os passos atrás.

Num momento chego a pensar tê-lo ouvido a me chamar pelo nome, mas é incerto que tenha acontecido. Sinto um arfar no peito que nunca senti das tantas vezes, inumeráveis, que atravessei o Menino Deus inteiro (e a Cidade Baixa) para estar ali. É velho esse indivíduo, eu posso saber, mas ligeiro também: já está no meu calcanhar.

Também chego a ver sua sombra esparramar-se entre meus pés, no chão, e penso que se eu tivesse a mesma decência de quando cheguei aqui, eu pararia imediatamente, olharia em seus olhos, perguntaria seu nome, adivinharia a sua nascença no seu sotaque e me deixaria levar por ele. Que tanto mal assim um pobre velho, afinal, me poderia causar?

Foi como evitei o assalto.

Parados os dois, quase no meio fio, olhamo-nos com uma estranheza total, e uma familiaridade ainda mais estranha. Era óbvio que ele me conhecia porque me ria e não era um riso cínico e nem me ameaçava. Pelo contrário, seus olhos me faziam um convite impossível de responder, como se me oferecesse ao mesmo tempo voltar e prosseguir.

Sim, ele parecia mesmo um parente antigo ou amigo que eu nem lembrava de que tinha tanta vontade de voltar a falar. Falar sem olhar no relógio, que é o jeito certo de falar aos amigos.

A mesa da padaria continuava vazia e só víamos as folhas do jornal executando uma dança muito particular, dança das palavras e das notícias do dia. Não havia dúvida de que eu precisava sentar e perder a hora do médico, esquecer um pouco da mania de doença e falar até do jogo que eu não assisti ontem pra lhe fazer companhia. Inventar gols e lances que ninguém viu sempre foi o meu forte mesmo…

Sentamos. Quase defronte, o sol ainda escorria na escadaria. Sem pressa, porque Deus fez o sol ter a velocidade certa para que ninguém percebesse o tempo que está passando.

Sem falarmos, sabíamos que um dia, numa corrida, subiríamos por ela até o final. Pode ser… Que remédio? É inescapável mesmo. Mas, quando for, há de ser num dia assim, de maio, com ele ao meu lado – não mais atrás de mim. Então eu lhe darei tudo o que ele quer. Esse mesmo nada pelo que tanto a gente teme.

Inenarrável e indescritívelInenarrável e indescritível

valentine

Um amigo bem íntimo ontem perguntava se eu deixaria passar em branco o dia do escritor (25/07), se não diria nada sobre o assunto, se não me uniria aos tantos que se rejubilavam pelo título e comemoravam a data. Disse-lhe exatamente o que penso e pensei: que não é o meu caso. E que sempre tive claro, pelo menos para mim mesmo, que escrever é mais importante do que ser escritor e, portanto, todos os dias são de escrever, mesmo que isso por si só não me faça um escritor, mas apenas alguém que escreve…

O português Herberto Helder, que agora, postumamente, começa a ser mais publicado e conhecido no Brasil, disse numa de suas raras entrevistas que, para ele, o prestígio é uma poltrona, uma armadilha, e que o artista consciente saberá que êxito é prejuízo e que os autores que temem por desagradar a seus leitores embarcam antecipadamente no fracasso, ainda que tomados de louros e prêmios e de que a única confiança que um autor deve ter é com a possibilidade de frustrar a si mesmo e às expectativas de salão (como essas reentrâncias que há nas redes sociais também), ainda que delas viva o mundo editorial.

O custo de escrever e não viver numa dessas poltronas é o de contar com pouca divulgação. Mas sobre a vantagem de estar em pé, e em movimento, essa sim é que me importa. E essa, meus amigos, é inenarrável e indescritível.