E R R A T A – p/ Lucio Carvalho Artigos,Crítica A psicopata improvável de Leïla Slimani

A psicopata improvável de Leïla Slimani

Costumam ser pouquíssimos os autores agraciados em premiações literárias de cunho nacional que conseguem romper a barreira invisível do interesse internacional. Ano a ano, uma sucessão de nomes pouco ou nada conhecidos ganha a fagulha da notoriedade nacional para logo a seguir engrossar a lista interminável dos autores geograficamente confinados. Na pirâmide do reconhecimento, a tradução ocupa desde há muito um lugar de destaque no sistema literário e, na ordem de relevância, perde apenas para as premiações internacionais e a finalíssima inserção no cânone universal. O resultado quantitativo de tal situação é que anualmente deixa-se de conhecer inumeráveis autores enquanto que o resultado qualitativo é de que se acaba por conhecer e valorizar demasiadamente uns poucos afortunados.

Este último parece ser o caso da escritora franco-marroquina Leïla Slimani. Agraciado com o prêmio Goncourt em 2016, o seu Canção de ninar teve sorte muito diferente da imensa maioria dos mais recentes autores premiados com a distinção francesa. Isto também seria verdadeiro caso se cogitasse distinções recentes de quaisquer outros países, como o prêmio Goethe, o Miguel de Cervantes, o James Tait, o National Book Award e até mesmo prêmios lusófonos, como o Camões, o Cesário Verde, o Antero de Quental, etc. Dupla felicidade teve o segundo romance de Leïla, portanto, porque além de traduzido para diversos idiomas, provocou um efeito cascata na crítica literária nacional, ainda mais que sua vinda ao Brasil já está anunciada para o próximo ciclo de palestras do Fronteiras do Pensamento e também para a próxima FLIP.

Escrito em um ritmo sôfrego, asmático, quase todo no mesmo tempo verbal e parecendo-se em boa parte à reconstituição informativa de um crime, o ponto forte do livro de Slimani parece mesmo concentrar-se na temática absurda e trágica que a autora teria recolhido de uma reportagem e que dava a contar a história de uma babá que assassina a prole de um casal cuja incumbência seria cuidar. O desenredo de Canção de ninar trata de explicar como isso tudo veio a acontecer justamente diante do que aparentava ser a escolha perfeita, ou seja, a pessoa ideal para ajudar a organizar a vida de uma família francesa de classe média cuja figura materna deseja voltar a trabalhar após a dupla maternidade.

Narrando o que muitas vezes parecem-se a imagens decalcadas de um pesadelo, Leïla empreende uma intensa e artificiosa deterioração da personalidade de Louise, a babá branca empregada por Myriam, uma advogada de ascendência marroquina e por Paul Massé, um produtor musical mal sucedido, para cuidar de seus dois filhos, Mila e Adam.

Valendo-se do anti-clichê identitário para escapar à obviedade que seria retratar a condição inversa, embora fosse possivelmente mais corriqueira e realista em se tratando de imigrantes pobres, Slimani investe todas as fichas em enlouquecer sua maléfica protagonista. Para tanto, vale-se menos de elementos psicológicos factíveis do que de uma perspectiva em que os traumas sociais se tornam as fontes exclusivas para explicar o comportamento das pessoas, mesmo que o comportamento de um psicopata costume derivar de condições bem menos evidentes. É esse desvio de um drama psicológico a primeira vista complexo para uma trama francamente determinista que torna o livro uma leitura fácil e o que talvez explique a trajetória comercial do livro da franco-marroquina e sua expansão ultraterritorial, fenômeno como se sabe cada vez mais restrito às obras boas de venda.

Esta com certeza não será a primeira nem a última vez que um crime bárbaro despertará a atenção dos leitores mundo afora, afinal o gênero thriller vem cada vez mais assumindo o posto outrora ocupado pelo romance policial investigativo. Além disso, o desejo humano por aprofundar-se nos aspectos sombrios da personalidade parece ser dos mais antigos e inextirpáveis. Porém o que ocorre com o livro de Slimani é que não há thriller algum. Sua novela começa justamente pelo seu clímax e é da desconstrução da surpresa que a escritora passa a construir uma narrativa que acaba reduzindo-se a uma paulatina descrição psicopatológica da babá assassina, convertendo suas características humanas em uma sintomatologia autoexplicativa.

Lousie é a psicopata formada pela devastação da pobreza e resultante de uma vida incomunicável em que nunca é dito a ela do que dela se espera e nem ela incide em um mínimo diálogo para dizer de suas frustrações e desejos. É uma personagem que age como uma peça de relógio e que em algum momento passa a agir desgovernadamente. Uma personagem caricatural e totalmente conformada psiquicamente pela condição de classe, pobreza e inveja não declarada e que muito em breve estará apavorando as famílias empregadoras de babás mundo afora e estampando por tudo posters de cinema, reproduzindo ainda mais o sucesso pan-geográfico da trama da escritora marroquina. O combustível perfeito para isto Slimani já tem: o temor universal pela segurança da prole.

Quanto ao ponto de vista formal, metade do caminho para o sucesso cinematográfico já está trilhado. O livro de Slimani é tão descritivo e livre de ambiguidades quanto um roteiro cinematográfico. É uma opção autoral a que não cabe julgar, evidentemente, mas a autora preferiu escrevê-lo de modo a descrever inclusive noções sentimentais de suas personagens. Ao invés de conduzir a narrativa de modo que o leitor pudesse ele mesmo ir construindo uma imagem tanto externa quanto psíquica das personagens, logo nas primeiras páginas é preciso deparar-se com descrições taxativas até mesmo de noções invisíveis, como traços de personalidade e o caráter moral tanto da babá Lousie quanto de todos os demais. Dada a abordagem absolutamente plana que Leïla emprega, o certo é que se trata de um livro que dará pouco ou nem um trabalho para um roteirista adaptar.

Também muito diferentemente da legião de autores constrangidos aos diversos limites geopolíticos e linguísticos, Slimani conta com um entusiasta de peso como raro se reproduz no mundo. Trata-se do presidente francês Emmanuel Macron, que convidou-a inclusive para ocupar a titularidade da pasta cultural de seu governo e que, diante de sua recusa, tornou-a nada menos que sua representante pessoal para assuntos relacionados à francofonia. Mesmo que se tratasse apenas de mais um reconhecimento devido à popularidade crescente de Leïla e não de mais um meio de levar a cabo seu projeto de expandir a presença e o uso da língua francesa no mundo especialmente através do continente africano, a escolha é simbólica.

Mesmo abordando indiretamente (muito indiretamente, já que sua protagonista é uma francesa que faz o trabalho dos imigrantes e não convive muito bem com eles) a temática sensível do subemprego dos imigantes do norte africano, Slimani é uma autora que investe em descolar-se definitivamente de qualquer viés identitário e, assumindo uma proeminente posição política, torna-se agora, como deseja Macron, a voz multicultural de uma nação que nem tanto reconhece as dificuldades reais de dialogar com a diferença mas que prefere passar longe do que possa haver de sombrio nessa temática. Convenhamos que para ganhar distância disso tudo, pouco poderia ser comparado a galardoar a autora e um livro sobre uma psicopata improvável mesmo. Também caberia notar que caso a psicopatia decorresse, de fato, de motivações como as fornecidas por Slimani, um percentual altíssimo deveria ser considerado em um país como o Brasil, por exemplo. Não que não exista, mas felizmente não se trata ainda de efeito direto da decomposição social. Já não bastasse a paranoia da violência generalizada, que uma infinidade de leitores se satisfaça com explicações e narrativas dessa espécie talvez seja ainda mais preocupante e sintomático de algo ainda a ser melhor esclarecido.

Deixe uma resposta

Related Post

A alma perdidaA alma perdida

Acho que somente a um prêmio Nobel o negócio literário permite a luxúria de um livro como “A alma perdida”. Olga Tökarczuk é uma dessas pessoas. Ganhou o Nobel em 2018 e, como tem acontecido no Brasil recente, permanece ainda pouco conhecida do grande público. Talvez porque o Nobel tenha perdido sua relevância e aura, eu não sei, mas também a poeta Louise Gluck, galardoada no ano passado, padece do mesmo sintoma – ser imediatamente alvo de curiosidade geral para, a seguir, voltar a um certo anonimato. Talvez seja uma tendência do mercado editorial essa volatilidade maior de nomes. Há um tempo nem tão distante, uma casa editorial que publicasse um Nobel tinha garantida expressão de vendas por eras a fio. Mas o mundo mudou, os tempos vem mudando, como também disse outro Nobel, Bob Dylan, que sequer o mercado livreiro abastece.

Eu havia lido e assistido a adaptação para o cinema do livro mais conhecido de Olga, “Sobre os ossos dos mortos” e fiquei mesmo muito impressionado. Uma história envolvente e fluida como as dos bons contadores de histórias.

Agora, com “A alma perdida” em mãos, eu entendo a razão: Olga é uma fabulista e aparentemente gosta de nutrir os leitores dessa carência atávica de receber uma mensagem e de deixar-se envoler pela atenção. Fábula para adultos, “A alma perdida” é um produto da luxúria editorial na qual a autora divide as páginas do livreto em igualdade com a ilustradora Joanna Concejo. É até um pouco estranha a experiência de folhear várias páginas sem texto algum, só as ilustrações, e perceber que a história é contada também a partir do trabalho visual, que ele não apenas ilustra o texto, mas substitui o que não é dito por ele – e o completa.

A fábula em si não repete a fórmula moralista que consagrou o estilo através dos tempos, desde Esopo, a quem se atribui a autoria de muitas fábulas que ainda hoje repercutem por si só e em outras narrativas. A fábula contada por Olga não conta uma busca, mas uma rendição do homem ao seu próprio tempo e da recuperação do contato dele com a sua própria alma, como o título diz. De uma vida corriqueira e com um contato cada vez mais precário com a própria intimidade até ao final no qual João, seu personagem, finalmente entende que não precisa empenhar-se numa corrida contra o tempo para evitar sentir o paradoxo do tempo esvaindo-se. Pelo contrário, ele não quer mais sair em viagem o tempo inteiro e buscar-se no mundo.

“E das malas de viagem brotaram grandes abóboras com as quais João se alimentou durante todos os invernos tranquilos que se seguiram.

A alma perdida
de Olga Tökarczuk, (Todavia, 2020).

O contemporaneismoO contemporaneismo

Tive de um determinado professor a pior leitura possível da famosa aula de Agamben sobre o “contemporâneo”. No dia da exposição, foi quase intolerável. Minha vontade era de sair porta afora, fugir mesmo, mas, usando de muita meditação, consegui aquietar o espírito e tratei de me ocupar mentalmente com outras coisas. Só por isso mesmo consegui. Não é sempre que consigo, mas, em vista da necessidade, foi preciso tentar. Naquele momento, tentar desesperadamente.

Hoje, porém, creio que entendo a razão de todo aquele embananamento expositivo: o “contemporâneo” parece mesmo ser marco mais da temporalidade objetiva que subjetiva, ainda que subjetivamente ninguém esteja condenado a pensar e a viver de um modo regular, basta que assim o deseje. Subjetivamente, como queria o italiano, cada um submerge no tempo que melhor entender.

Talvez para adictos ontem aos jornais e, hoje, às redes sociais, o tempo tenha o mesmo efeito de uma algema, de uma bola de ferro, mas, justamente, a literatura pode mesmo ser o passaporte ideal para escapar a esse aprisionamento. Para os reacionários e retrotopistas, sempre há uma fuga/abrigo no passado idealizado. Para os visionários e utopistas, uma margem ainda. E para os céticos, como eu, uma busca inextinguível, um labirinto no qual é possível mover-se com liberdade, mas na condição (ou ônus) de desconhecer a possibilidade de uma saída.

No célebre ensaio Dentro da baleia, George Orwell diz que um escritor está na moda quando é muito lido por quem tem menos de trinta anos de idade. Escrito em 1940, acredito que seja tranquilo dar atualmente pelo menos uns dez anos a mais nessa conta. Quarenta anos atualmente significam os trinta de dez atrás (ou vinte), considerando especialmente a expansão da adolescência e seu voraz abocanhamento em direção à adultez. Orwell ainda assevera que, invariavelmente, essa é uma espécie de sucesso que data a si mesma e sua contraparte seria uma pequena chance de sobrevivência estética. Mesmo assim, de acordo com ele, tais obras costumam ser o testemunho mais fiel de uma época, pelo menos do estado de espírito “juvenil” da época.

Do ponto de vista comparativo, pelo menos na minha opinião, a estética contemporânea tem por principal predicado ser isso mesmo: contemporânea. E seu atrativo é mais por inerência à aparência de novidade e dicção do que propriamente uma questão de qualidade descritível. Valham-me os gregos que ainda hoje despertam a atenção e seus padrões que ninguém ousa taxar de “antiquados”. E tudo nesse intervalo até aqui, que, de tanto, nem vale elencar tanto. Nem vale e nem caberia.

Quanto ao conteúdo “intempestivo”, também é preciso dizer que isso já foi tentado e realizado à exaustão. Tanto que, talvez por contraste, uma simplicidade de motivos ainda às vezes me parece mais assombroso. Simplicidade que não é o mesmo que simplismo, não custa dizer, mas um senso de propriedade menos atento à aparência dos objetos do que a sua essência, independente do caráter mais ou menos volitivo da proposta autoral. O que também não quer dizer o mesmo que o saudosismo, mas uma entrega da atenção a exigências outras que o imediato. O imediato é o sangue do contemporâneo e nós muitas vezes agimos como espécies peculiares de vampiros, como numa debandada pela sobrevivência por meio de um presumível (mas nem sempre verificável) rejuvenescimento.

Qualquer escritor que tenha já desejado ou escrito a respeito de uma época fora da sua deve ter notado a necessidade de anular as referências contemporâneas e situar-se no máximo a uma meia distância do tempo presente, no qual se vive, e a meia distância do qual se está procurando submergir. Todavia é impraticável, mesmo considerando as melhores capacidades mediúnicas de um autor, que ele consiga imitar ou emular o espírito de uma época que já passou, especialmente se ele não a viveu, mas conheceu apenas literariamente ou por testemunhos.

De outra parte, a literatura tem limites expressivos e o mundo da leitura, no que toca ao leitor, outros limites introspectivos. No séc. XX, por exemplo, foi possível contar-se com o cinema que, em inúmeros casos, consegue ser muito fiel e feliz em sua representação. Mesmo o cinema, entretanto, tem limitações porque ocorre a posteriori e mesmo documentários participativos têm a condução autoral que atende especialmente às intenções do autor. Assista-se a um documentário a respeito da Segunda Guerra Mundial, por exemplo, e mesmo assim não se conseguirá assimilar toda a tensão psíquica do momento pela observação cinematográfica, mesmo quando recolorido.

Um pouco mais atrás, encontramos a Virginia Woolf de Três Guinéus pedindo atenção à fotografia de guerra, na Primeira Guerra Mundial, estampada nos jornais do mundo inteiro, ainda que com um delay de dias, semanas ou meses, dado que a transmissão fotográfica ainda era, em meados dos anos 20 do século 20, realizada exclusivamente por meio postal. “Nós estamos vendo, com o senhor, os mesmos cadáveres, as mesmas casas destruídas”, ela apela e ainda assim o seu clamor à obviedade do horror limita-se em garantir a veracidade de um testemunho, pois, a não ser objetivamente, nenhuma paisagem se repete para dentro da retina do ser humano, onde ele sopesa experiência e sentimentos essencialmente desiguais de forma necessariamente particular e irrepetível.

Daí para trás, apenas a arte e, entre todas, a poesia, talvez por seu caráter mais intimista parece que mais tem servido para dar conta da apreensão do espírito predominante nas diferentes épocas. E isso vale para o séc. XIX, quando o romance de costumes passa a competir e ganhar atenção popular, e o tempo em direção ao imemorial, chegando-se sem muita dificuldade em Homero e na poesia grega ou nos demais vestígios da antiguidade.

No entanto, no contemporâneo, a poesia é o reduto preferencial do anacronismo se comparada, por exemplo, ao romance estrutural. Nela, coexistem formalmente sonetos alexandrinos, o verso moderno e livre e os experimentalismos grafo-visuais. No que diz respeito ao debate público, todavia, trata-se de uma presença auto limitada. Salvo se o poeta escreve regularmente uma coluna de crônica ou crítica, a sua existência não é computada no meio intelectual como seria, por exemplo, até os anos 50 do séc. XX, quando a poesia contava com um espaço de publicação popular na maioria dos jornais importantes e os grande nomes modernistas gozavam de certa popularidade.

No multiverso do séc XXI, o espaço literário é esquálido e cada vez mais absorvido pelo sumidouro das mídias digitais. O contemporâneo é cada vez menos duradouro e notável e reside mais numa expectativa do que numa consolidação. É uma paisagem que não flui e nem se toca, mas espelha-se por força da reação direta dos demais, para daí se dissolver. Como afirma o professor e crítico Alfonso Beradinelli, em seu Direita e esquerda na literatura (Âyiné, 2016), o presente, se contraposto apenas a si mesmo, sem perspectiva histórica, torna-se auto-referencial.

Em tempos que o moderno é disputado a unha por críticos e escritores que a cena literária distingue cada vez menos, a sorte às vezes é como a solução de uma roleta. O melancólico dos sistemas competitivos (como o literário) é que a exclusão cria uma espécie de vácuo de distinção dos mais aptos a encarar as exigências estéticas e morais da contemporaneidade (ultraneoliberal, conforme aprecia repetir o filósofo cult destes tempos, o germano-coreano Byung Chul-Han). Nesse aspecto, conceitos como bibliodiversidade e universalismo literário perdem-se no vazio gerado pelos sistemas de legitimação e no espólio verificável dos mais vendidos. Tornam-se palavras ocas, pois o contemporâneo encara desinteressadamente, como o angelus novus do “conceito de história” benjaminiano, para o que ele mesmo simultaneamente produz e espedaça.

Paul Klee – Angelus Novus

Brasil, construtor de ruínasBrasil, construtor de ruínas

Foi numa entrevista para a Parêntese, concedida ao professor Luís Augusto Fischer, que fiquei sabendo que o mais recente livro da Eliane Brum, Brasil Construtor de Ruínas: um olhar sobre o país, de Lula a Bolsonaro (Arquipélago, 2019), não havia recebido sequer uma crítica dos grandes jornais brasileiros, apesar de ter sido resenhado pela New Yorker, pelo New York Times e estar sendo traduzido para diversos idiomas, entre os quais o polonês e o italiano.

A informação em nada me espanta. Apesar dos vários títulos que vêm sendo publicados na intenção de dissecar a história política recente, em sua maioria os livros teóricos têm compromissos nítidos com a sua própria performance investigativa e estão disputando, para além da narrativa, o cenário e destino eleitorais. O livro da Eliane também tem seus compromissos, mas não é por isso que eu acredito nessa refração que o público brasileiro vem tendo em relação à publicação da Arquipélago, editora de Porto Alegre que é a sua “casa”, conforme ela diz.

Eu temo, aliás, que qualquer iniciativa intelectual que vise colocar ao espelho a história recente brasileira venha a passar pelo mesmo. Não é que não estejamos preparados ainda para enfrentar a dissolução da Nova República no bolsonarismo: é que nunca estaremos. É muito terrível ser obrigado a olhar a ruína logo atrás e ainda por cima precisar entender que o futuro breve continua sendo determinado por escolhas comprometidas e/ou já fracassadas.

Como a bíblica família de Lot, pesa-nos a advertência de que, para seguir sobrevivendo em paz relativa, é necessário não olhar para trás, nem examinar os meandros do que competiu a maldição da história toda. Há o risco de congelamento em sal numa recaída simples. E ninguém em sã consciência do seu instinto de sobrevivência gostaria de terminar assim. Ou seja, fugindo ao viés de confirmação de uns ou de outros, qualquer literatura será mal vinda. Bem vinda aquela que permite continuar, ainda que ao custo da denegação da realidade objetiva.

É por afrontar o legado petista e lulista, por enfrentar a sanha justiceira lavajatista e por confrontar a expressão da malignidade bolsonarista que o livro de Eliane vai se convertendo num clássico pouco lido. A sua diferença maior em relação aos livros de ciência política não é dada pela linguagem ou pelo método jornalístico de imersão total pelo qual ela opta, mas pelo distanciamento que lhe confere a isenção ideológica e o exame vis-à-vis dos acontecimentos.

Se é possível que ela incorra em equívocos de interpretação, isso é o que há de menos grave. A história do Brasil recente está mesmo sendo forjada a quente e, no tocante às decisões políticas, vem competindo em desastres humanitários, ambientais e econômicos sem precedentes. Além disso, os cronistas dos jornais e das redes sociais estão também implicados muitas vezes numa rede de enganos e auto enganos que mantêm suas bolhas agregadas e sua narrativa montada, em pé.

Desse consensos não coincidentes não resulta uma ciência política taxativa nem diagnósticos claros do que ainda pode vir a acontecer, mas o ponto de vista de Eliane Brum, como residente no mesmo alto Xingu no qual se estabeleceu o gigantismo destruidor da usina de Belo Monte e como pensadora autônoma, não está colocado como a chave interpretativa por excelência adotada nem por direita e nem por esquerda. É de um lugar oblíquo, do qual permite ver os estilhaços da imagem de uma nação esfacelada em muitos cacos, que o espelho do seu livro alcança ao público. De primeira, não será uma imagem muito clara ou precisa, mas, ao fim, vai se ver que a imagem resulta de uma semelhança incômoda com o Brasil real e isso, afinal, talvez seja o que mais nos aterrorize.

Brasil, construtor de ruínas: um olhar sobre o país, de Lula a Bolsonaro
de Eliane Brum, (Arquipélago, 2019).