Crônicas Minha amiga Dalva de Oliveira

Minha amiga Dalva de Oliveira

Ninguém imaginaria que esta senhora confortavelmente instalada sobre o encanamento da calha de chuva do meu edifício seja na verdade uma reencarnação da Dalva de Oliveira.

Mas não só ela é como eu tenho certeza de que mais adiante, no pátio da minha vizinha, vive também a reencarnação pássara de Ângela Maria e num perímetro não muito grande ainda se possam encontrar todas as rainhas do rádio, que por alguma razão resolveram voltar à vida tudo aqui pertinho de casa, numa grande coalizão de talentos que elas exuberam madrugadas afora.

Eu não sei bem a identidade delas — de noite todos os sabiás são pardos —, mas esta aqui eu tenho certeza de que é a Dalva, que, de acordo com a opinião de Heitor Villa-Lobos, foi a maior das cantoras brasileiras da sua época. E porque tenho bom ouvido e certeza de que nunca daquele bico emitiu-se que fosse só uma nota desafinada..

Coisa mais agradável que tem é acordar com o canto de um sabiá. O problema é que nessa época de acasalamento os pretendentes a nubentes acabam montando uma orquestra filarmônica noturna. E o que era mera seresta logo se torna a Primavera de Vivaldi.

Mas… Para que dormir? Vamos aproveitar e ouvir os pássaros!..

Noite dessas, com olhos pesados e ouvidos alertas, cheguei a cogitar em desalojar a Dalva. Cansei de você, vá cantar noutro terreiro, pensei.

Mas tomei do telefone e revendo-a, absorta chocando a ninhada de ovinhos, recobrei o pouco de humanidade que evaporava àquelas horas altas da noite. De ornitopata me conformei em ornitólogo. Fiquei com a foto. Ela, com o seu ninho.

Também pensei que talvez pudesse ser atacado por um sabiá malandro de navalha na mão (um namorado típico dos anos 50, terno branco e chapéu panamá) e achei que não tinha cabimento ninguém passar por essas aventuras e muito menos um despejo tão brutal. Eu era um monstro pensando numa violência de empreiteira imobiliária e ela a reencarnação da Dalva de Oliveira..

Seus trinados, barroquismo que aprendeu involuntariamente na natureza, quando soam eu sei que são três da manhã. Para uns, hora de desbragada boemia. Para outros, o sutil despertar da neurastenia.. Assim é a vida, jamais se pode pretender agradar a todos. Mesmo a voz de uma Dalva de Oliveira pode soar insuportável, a depender do humor do freguês..

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Delírio persecutórioDelírio persecutório

Nem sempre se pode enxergá-la direito, ou compreendê-la, mas há uma espécie de criatura que vem detrás dos nossos passos, quase nos mesmos rastros do tempo, roendo o nosso passado.

Ela pega do que pensamos guardar e aos poucos vai ocultando tudo em sua barriga enorme, que o seu apetite é infinito.

Ela chama o nosso nome e espera pela voz antiga, doce ainda, talvez, mas ouve ao invés disso um murmúrio insolente. Ouve-o como uma ameaça que ela não consegue decifrar, e, por essa razão, ela não para, não se detém. Mais se embrutece e avança.

A criatura também não enxerga direito, também não entende muito bem, mas continua sempre na sua sina incontrolável. Se pudesse, subiria os nossos calcanhares e, por debaixo das roupas, transfiguraria o nosso corpo, tal tatuagem, a fim de apaziguar-se de uma vez por todas. Mas como nós temos medo demais, e ela, parece, fome demais, nos afastamos sem, no entanto, olharmo-nos por muito um nos olhos do outro.

Por simpatia mútua, por um mesmo temor, por um pasmo sublime, por respeito que seja, talvez ambos desejássemos parar com aquilo. Encerrar essa aproximação indefinida. No entanto, não conseguimos.

A criatura vai tomando o nosso lugar no mundo, desocupando-o de nós, sublinhando no vento as memórias mais duras e as mais preciosas, as alegrias, as surpresas, para que, tomados de amor e horror, notemos que nós também cabemos em seu ventre. Nosso espaço já é previsto e, além do mais, às vezes ali há mais de familiar que ao redor. Há as músicas que ouvíamos aos catorze ou quinze anos; há o retrato da primeira namorada no meio de um livro igualmente perdido; há os livros que nos levaram aonde não parecia possível chegar, em frestas do absurdo, e, sobretudo, há provas concretas, cabais, de que se trata de nós mesmos. Aceite que a vida é igual a fugir, ela parece querer dizer. E continua.

Por um instante só fica claro que na realidade o seu olhar é inapetente, e de repente fica claro também que ela é velha como o tempo, mais velha até que o próprio tempo, e que não é matéria e nem é energia, e que não se pode apontá-la precisamente, e que ela não faz nada. A sensação é inteiramente nossa. O mais é um delírio persecutório que imaginamos de alguma forma deter (não podemos, esse é outro delírio). E enquanto devoramos o futuro cuidando do que inevitavelmente logo perderemos, continuamos adiante, a partir de agora por nós mesmos devorados.