Plumose Anemone

Verdades simples —
não se pode dobrá-las.

São como o óbvio, sem peso,
e, ao mesmo tempo, insuportáveis.

É o que se observa sem dolo
do que é desfeito sem zelo.

Cada qual reporte o seu peso,
e a sua carência de cor.

O tratamento que se dispensa
à memória e ao que passou:

síntese de um sentimento ambíguo
que nunca se esclareceu

no volume de um universo
agora repartido em dois.

2

As pessoas são ramos deitados
que o vento atira à praia,

tapetes de folhas brancas
para o passeio de um deus

que ensina com incômodos
muito mais do que com lições.

3

Seus braços de anêmona
deliram no mar profundo

espumando em bolhas vazias
e esponjas saturadas

(a areia nas profundezas
se reacomoda impalpável

para que volte a arrastar as
notas desse estranho solfejo).

4

Como a música se expande
da mente em direção aos sons,

o silêncio em silêncio percorre
do que se alimenta no chão.

As flores e o mal-estar
dos lugares repletos de gente.

5

Mas aqui só vejo o que escuto.
Há muito troquei os sentidos.

E de tocar o que me desmanchava —
a pele perdeu seus pudores.

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