Para todos os efeitos, e sem
razão aparente, o mar arrastou
a pedra que estava aqui.
Era onde pousava meus olhos,
pensando se havia sentido
em tanta espera, mas os sonhos
bem se acomodavam no futuro.
Agora, onde piso, o chão se desfaz.
Onde aponto, a porta é fechada.
Volto para dentro de mim
e o silêncio das vagas é rumor
deposto em vão. Em palavras
que avançam sem direção
e levam consigo essa voz.
A liberdade? Encarcerou-se
num lugar distante. Mas, através dela,
refugo ao horror e o desassossego
que fracassa a força dos braços,
dobra joelhos e drena os olhos
dessa alma velha, fluida,
e por quem pouco me apego.
No passado, fui outra pessoa,
e a quase tudo eu previa —
até mesmo de olhos fechados.
Mas viver não pode ser pensado,
apenas vivido,
e o que é falso se revela
sob qualquer ponto de vista.
O mar, imenso por analogia,
termina onde a vista alcança;
a pedra, um edifício precário
que submerge e borbulha;
o tempo, que tudo movimenta
sem interesse em nada ou ninguém,
nunca reparte sua energia.