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A angústia da transparência

Revista Parêntese, ed. 200

Posso não concordar com o que você escreve, mas defenderei até a morte o seu direito de publicá-lo.

Da mesma forma que Voltaire parece nunca ter dito ou escrito o bordão acima, aí está uma deturpação que eu certamente morrerei sem nunca ver um escritor proferir. Não é que alguém ainda se iluda de que um dia as coisas no mundo literário possam ter sido mais amenas, mas de qualquer forma seria improvável que o espírito de intolerância e dissidência que governa o mundo contemporâneo não fosse contaminar o mundo literário, universo no qual cada vez mais a competição e a distinção prevalecem sobre a cooperação.

O fato é que ainda está por ser estudada a força subjetiva que parece agir sobre os escritores no sentido de que afirmem que suas crenças quanto à literatura sejam sempre inquestionáveis e universais. Por que seriam? Isso apenas seria possível caso a literatura partisse de pressupostos científicos e fosse outra coisa que não o produto das tensões sociais, culturais e afetivas manifestando-se na subjetividade e daí aos objetos literários.

Mas se a sociedade busca refletir cada vez mais o campo multifacetado da diversidade, no da literatura o que prospera é o da autoafirmação. Não demora nada para que os escritores sintam-se compelidos a dizer o que para eles é a poesia, qual a ficção mais louvável, quais suas influências, no que eles acreditam, com que corrente política se identificam e assim por diante. No mundo da transparência total, todas essas posições vêm antes da qualidade do texto literário e determinará se o autor (ou autora) estará apto a integrar este ou aquele ambiente cultural, nutrir este ou aquele nicho de leitores, vencer este ou aquele prêmio cobiçado, etc. E assim a angústia da influência, que rendeu um livro clássico a Harold Bloom, hoje precisaria ser desdobrada na angústia da transparência – uma espécie de evolução de mero nervosismo ao transtorno de ansiedade generalizado.

Também me parece certo que essa volúpia dirigida ao próprio ego não é exatamente um fenômeno contemporâneo. É suficiente examinar o tanto de metalinguagem e metapoesia publicada ao longo do séc. XX, no qual se fez presente desde o primeiro modernismo com Manuel Bandeira e Drummond até os estertores da poesia marginal, com Paulo Leminski. Às vezes, parece mesmo haver nos poetas certa compulsão em categorizar a respeito de como deveria ser a poesia, sendo que esse “dever” quase sempre é um valor autoinstituído, uma garantia precípua, uma espécie de salvo-conduto indispensável ao pertencimento literário e do qual o próprio poeta é via de regra o exemplo mais bem acabado.

Do afetuoso Manuel Bandeira e sua prescrição de que “o poema deve ser como a nódoa no brim” ao intransigente João Cabral de Melo Neto afirmando “o poema final ninguém escreverá”, um desfile de escritores e escritoras e seus vaticínios literários consolidou essa tradição que hoje apenas transbordou, aliás, como tudo.

Na literatura contemporânea, tem sido bastante simples a tarefa de identificar que o grande movimento cultural catalisador das mentalidades está outra vez relacionado às contestações políticas e dramas de identidade e que o modelo de recepção vem se determinando mais pelo caráter ideológico do texto do que pela sua elaboração e qualidade estética. Nessa perspectiva, a ascensão de uma literatura engajada e de empoderamento civil tornou-se aparentemente um movimento inevitável. Mas assim já foi muitas vezes antes de agora e tudo indica que no devir cultural os ciclos voltem a alterar-se, assim como tendências e estilos preferidos. Não há razão para maiores ansiedades.

Em artigo publicado há não muito na revista Criação & Crítica, da FFLCH da USP, a professora e pesquisadora Leyla Perrone-Moisés nos lembra de que no séc. XIX houve escritores, como Victor Hugo, Émile Zola e Charles Dickens, que se dedicaram a uma literatura de denúncia social e, portanto, não se poderia alegar surpresa diante da proliferação presente, mesmo quando ela vise atender os anseios e problemas de identidade deste ou daquele grupo social, ou busque servir ao seu empoderamento. No mesmo trabalho, ela também alerta do risco de que “um livro que atenda somente às demandas sociopolíticas de seu tempo não terá mais o que dizer aos leitores do futuro”. Evidentemente, os editores e livreiros não parecem tão preocupados com isso se a circulação é mantida, além de que, por mais comprometida ou engajada que seja, ainda assim são textos literários, ao contrário dos outros 90% dos livros em circulação no Brasil atual (a CBL informa em sua pesquisa de mercado que a participação da literatura adulta no mercado foi de 6,18% em 2022).

Bom ou ruim, grave ou não tão grave assim, fato é que ao longo do tempo a literatura tem sobrevivido ao anúncio de sua decadência e fim. Também me parece pouco provável que uma literatura em defesa das boas causas, como defendeu recentemente em entrevista para O Globo o escritor Bernardo Carvalho, venha a obliterar a literatura de qualidade. Se James Joyce, Virginia Woolf, Vladimir Nabokov, Jorge Luis Borges e tantos outros escritores incontestáveis deixaram de receber o Nobel em detrimento de Herman Hesse, sempre tipificado como um autor “fácil”, certo é que nem por isso perderam o seu público e ainda o estão conquistando muito tempo após a sua morte. É natural que o escritor se angustie ao ver que sua obra é preterida por outras que ele julga de menor qualidade, mas essa decisão infelizmente não lhe compete. Que fazer? É preciso maturidade e aceitar a realidade ou então insurgir-se com um movimento, um manifesto, coisas que o tempo acelerado de agora parece simplesmente não dar muita atenção. Toda a reclamação que se possa fazer, mesmo a mais justa, soará apenas como um lamento solitário.

No seu Tratado da tolerância, Voltaire dizia que cada pessoa só deve acreditar no que lhe dita a própria razão, desde que o equilíbrio social não seja por isso rompido. O que temos por agora é mais deturpação do iluminista, são todos acreditando demais em si mesmos. Na era da transparência e do júri permanente das redes sociais, talvez seja preciso aceitar que a impermanência da atenção dos leitores é a nova regra, ainda que ao custo da própria transparência.


Ei-la: a literatura artificial

Revista Parêntese, ed. 163

Os primeiros meses de 2023 parecem ter abreviado muito a distância entre as fronteiras da normalidade literária e do apocalipse autoral antevisto ainda na década de 60 nos textos clássicos de Michel Foucault (O que é um autor, 1968) e Roland Barthes (A morte do autor, 1967). Mas não provém de um estudioso ou intelectual público impactante o estreitamento em questão; de outro modo, veio “ao natural”, como consequência do incremento galopante do uso dos recursos de inteligência artificial no processo de criação literária.

Muito embora na literatura os estudos das interações homem-máquina venham sendo estudados há algum tempo (o estudo de John Searle sobre “o quarto chinês” é de 1980), são as notícias do mundo geek, por outro lado, que têm revelado a dimensão da colisão (ou confluência) em curso. 

Apenas nos últimos meses, com a disseminação viral dos aplicativos portáteis do chatbot desenvolvido pela OpenAI, o popularíssimo ChatGPT, parece mesmo que se conseguiu finalmente sentir o tamanho do estrago. Sim, verdade que a força de expressão traz embutido certo juízo de valor, mas é disso mesmo que se trata, ou como se poderia reagir à disseminação de manchetes que alardeiam a ferramenta como o “ajudante dos escritores”, responsável pela “criação de mais de 200 títulos”, “aceleração criativa” e co-autora em pelo menos meia dúzia de artigos destinados à literatura científica? Mas em que consiste, afinal, o “estrago” e o que se pode saber a seu respeito? É o que desejamos saber e passaremos imediatamente a palavra ao próprio ChatGPT.

* * *

[Pergunta] O ChatGPT pode ser considerado autor de um texto? [Pergunta]

[Resposta] Como modelo de linguagem, o ChatGPT é uma ferramenta criada para gerar textos baseados em padrões de linguagem identificados em grandes conjuntos de dados. Portanto, embora possa produzir textos que parecem ser escritos por um autor humano, o ChatGPT não é um autor no sentido tradicional da palavra.

O ChatGPT não tem uma identidade pessoal ou criativa, nem é capaz de ter suas próprias ideias, opiniões ou perspectivas. Em vez disso, ele é programado para gerar texto com base em padrões de linguagem encontrados em um grande conjunto de dados de treinamento, usando algoritmos matemáticos para gerar continuamente novas sequências de palavras que se encaixam nesses padrões.

Portanto, embora o ChatGPT possa ser uma ferramenta útil para gerar texto, é importante lembrar que o texto que ele produz é gerado a partir de um conjunto preexistente de dados e não reflete as ideias ou opiniões de um autor humano. [Resposta]

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Em que pese qualquer precaução ou preconceito, deve-se admitir a competência do “réu” em defender-se. É apenas uma suspeita, mas é muito difícil imaginar que os próprios Roland Barthes e Michel Foucault discordariam dessa formulação. É praticamente o mesmo, mas mais perfeito se ele dissesse como Barthes em A morte do autor: “a escrita é esse neutro, esse compósito, esse oblíquo para onde foge o nosso sujeito, o preto-e-branco aonde vem se perder toda identidade, a começar precisamente pela do corpo que escreve”.

Explica-se isso de uma forma muito simples: é certo que no repertório prévio do chatbot incluem-se as obras de Barthes, Foucault, Bakhtin e mais uma infinidade de outras teorias e proposições argumentativas. 

Se algo é certo sobre a inteligência artificial, é que sua capacidade de aprendizagem não tem o mesmo fastio e enfaro da concorrência humana. Desse modo, ela não apenas devora conhecimento como aprende a fazer correlações lógicas com eficiência e velocidade assombrosas. Talvez se possa apontar apenas que, ao contrário das pessoas, sua limitação maior seja mais moral do que cognitiva. Se o ChatGPT atua tomando em conta o idealismo ou o consequencialismo é difícil saber, mais provável que ele recombine as instruções visando preservar sua superveniência. Curiosamente, parece proceder de um autor de ficção científica e não de um filósofo grego o cerne de sua moralidade. Pois as “leis” de Asimov se aplicam perfeitamente: este réu não produz provas contra si mesmo.

Mas essas questões éticas que se esboroam numa complexidade técnica quase inabordável pelo público leigo, se estão sendo consumidas como “brinquedos virtuais”, por outro lado estão na raiz (raiz digital) de uma nova conformação tecnológica que vem há muito se desenvolvendo para sustentar novos meios de produção e subsistência da humanidade. Não são poucos os dilemas econômicos, culturais, sociais, bioéticos e geopolíticos aí envolvidos, e alguns pensadores contemporâneos vêm procurando colaborar no esclarecimento dessas questões, mas mesmo o historiador israelense Yuval Harari, que se dedicou com seu livro Homo Deus, de 2015, a alertar dos riscos da criação de “uma geração de pessoas inúteis”, parece agora encantado com as possibilidades estéticas dos aparatos. Recentemente, ele divulgou em suas redes sociais um filme produzido inteiramente por estes recursos para explicar nada menos que a “vida”. Faz parte dos encantos da inteligência artificial, como se vê, fascinar até mesmo seus maiores críticos. É um filme que vem se reprisando na história esse.

Pode ser mesmo por um desejo e curiosidade impossíveis de se atender; mas que seria interessante saber de quem afirmou que “não importa quem fala” ver suas ideias recombinadas num aplicativo de celular, isso seria. Apesar de que a proposição tenha ganho relevância por ter partido justamente de Foucault e não de um manifesto apócrifo, a dissolução autoral presente encontrou na tecnologia quem a execute, consuma e venere. Se logo, ao invés de se consultar os livros de Foucault, Barthes ou quem seja, passar-se a apenas a indagar-se ao oráculo tecnológico a explicação de tudo, bem, então os educadores precisam estar prontos para perder o emprego. Os educadores e uma série de outros profissionais cuja atividade será doravante realizada com muito mais eficácia por um remoto algoritmo funcionando num ainda mais remoto mainframe.

Em objeções estéticas, embora possíveis e cabíveis, consistem o maior imbróglio dessa combinação. Com a dificuldade de distinção do texto humano e do texto técnico (perfeitamente articulado e virgulado), é preciso desde já abrir mão da verificação de originalidade. Uma recombinação mínima é suficiente para embaralhar qualquer ferramenta da busca. E os textos literários produzidos são ricos em figuras de linguagem, às vezes mais do que um bom número de pretendentes à autoria. Não comparando, a inteligência artificial pode receber instruções muito precisas, como as de uma prescrição, e desdobrar parágrafos e mais parágrafos a ponto de obter um livro de 200 páginas em menos de 48 horas. Em vista dessa “concorrência”, muitos autores preferem assumir a condição de coautoria.

Sem ter em mente as malhas da atribuição nem os liames biográficos que amarram ainda hoje bem firmes autoria e obra, é um pouco impossível saber o que mais acontecerá no mundo das ideias e no mundo literário a partir de agora. Pensando-se na possibilidade do espólio inominado e direitos autorais conexos e contratos editoriais indevassáveis, é mesmo de tomar as cautelas tomesianas: ver para crer. Apostar que o leitor formado justamente por essa nova técnica saberá safar-se e manter intacta a autonomia de sua vontade intelectual é de um risco imponderável. O mesmo vale para juízos estéticos que estão sendo lapidados com a ajuda da gameficação educacional. No entanto, justamente não saber e manter a reserva dialética da dúvida parece um meio caminho possível entre ser absorvido ou se afastar completamente, o que também já não é mais possível a ninguém.