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Sem categoria Please, Please, Please, Let Me Get What I Want
Muito raramente dou licença para coisas que não escrevi, mas preciso fazer isso hoje. Porque eu não lembrava mais de como é bom ouvir alguém cantar como Morrissey.
Good times for a change See, the luck I’ve had Can make a good man Turn bad
So please please please Let me, let me, let me Let me get what I want This time
Haven’t had a dream in a long time See, the life I’ve had Can make a good man bad
So for once in my life Let me get what I want Lord knows, it would be the first time Lord knows, it would be the first time
Nos últimos dias, estive revisando (e revisitando) os textos e trabalhos que, no longínquo 2015, resultaram na edição de um e-book e depois de um livro impresso no qual procurei registrar e conservar um trabalho de quase 10 anos que realizei com muitos amigos e parceiros do movimento social pela inclusão da pessoa com deficiência.
É meu livro de militância e tenho um carinho muito especial pelo que vai nele.
Seria muito normal, talvez, que eu me arrependesse de qualquer coisa (ou muita coisa) escrita há mais de uma década ou desejasse editar o conteúdo publicado no portal e revista Inclusive, além de artigos e ensaios publicados em diversas outras mídias.
Para a minha felicidade, não quero. Nem me parece que o livro precise de uma edição ou maquiagem para se mostrar vívido.
A Inclusive foi um projeto que muito me orgulhou editar com a minha amiga Patricia Almeida e a colaboração de dezenas de pessoas, entre profissionais e ativistas do movimento social das pessoas com deficiência. São pessoas de quem hoje não estou mais tão próximo, mas de quem nunca me sinto afastado.
A sensação, se consigo mesmo interpretá-la, é de que o conjunto de ideias políticas e culturais em torno da inclusão vive uma estagnação nos últimos anos e o esforço necessário ao aperfeiçoamento de políticas públicas e educacionais não será pequeno a partir de agora. Certamente será ainda mais complexo e por essa razão é preciso transformar a apoplexia em oportunidade. Esse é o tamanho do desafio em vista e não se refere apenas ao Estado, mas na forma com que a sociedade encontra para se relacionar com sua força sempre avassaladora.
Que os desafios continuem os mesmos ou tenham se aprofundado, isso me fez rever esse trabalho em outro momento e circunstância da minha vida e do meu interesse na temática. Em sua 3ª edição, o livro “Inclusão em pauta” continua sem fins lucrativos agora poderá ser acessado e consultado integralmente por meio do Google Books, sem custo, como forma de constituir um ponto de encontro de muitas reflexões ao que me parece agora ainda mais necessárias.
Aquelas botas velhas no fundo do galpão, tu trazes dali pra mim?, indago ao gurizinho ao meu lado. Irrequieto como todos da sua idade, ele me olha como se indagasse: mas pra que serve isso, tão velho e furado e rasgado e estropiado?
Pega dali, por favor, que não posso mais me agachar a tanto.
E revirou as tralhas do galpão até alcançar aonde eu apontava. Tinha muita coisa sobre a caixa de madeira esbodegada da qual podíamos adivinhar pedaços e tentos de couro torcidos do uso, encardidos de barro, do esterco das vacas, do tempo, de tudo… Ele não descansou até consegui-lo e me alcançou, de dentro de um saco plástico de sal, o par de botas que havia sido do pai e que ele, um dia, consentiu em que as calçasse nos pés.
* * *
Guri da cidade, eu ia para a campanha com a mesma roupa com que vivia. Usava tênis, jeans, camisetas e quando um muito um boné, no verão, pra proteger a cabeça do solaço e, sem o qual, a mãe não permitia que eu saísse porta afora. No entanto, ao chegar lá, não mudava de traje como o meu pai. Eu simplesmente não tinha um traje “típico” com que montar a cavalo e camperear. Os filhos dos peões andavam muito melhor trajados que eu, pelo menos eu assim pensava pelas bombachas que usavam, ainda que usassem nos pés chinelos de borracha ou alpargatas gastas e furadas até quase a miséria. Na cabeça, ao invés dos bonés trazidos da cidade, tinham chapéus de feltro e barbicacho. E nas costas, mal atravessada, a faca.
Por sua vez, os adultos trajavam sempre a indumentária completa. Desde o chapéu na cabeça até a roseta da espora, pareciam pessoas de outro tempo transplantadas num transe imediato. Como se, de repente, estivessem prontos para um serviço de dias, de tropa. Ou de guerra. Mas, é claro, não era como filmado no estúdio e transmitido pela televisão. As bombachas eram sempre machucadas por remendos, mas o cinturão ou guaiaca impunham um respeito que me amedrontava um pouco, sim, quando guri.
Quando já encilhados partiam, os mangos pendiam dos pulsos e os laços, como conchas, se esparramavam no lombo dos matungos. No verão, uma camisa folgada para passar a brisa; no frio do inverno, uma japona ou um poncho tramado em lã colorida, um bichará.
* * *
Já eu, fosse inverno, verão, outono ou primavera, o traje era o mesmo que trazia de casa, da cidade. E embora provasse as botas abandonadas por velhas no galpão, nenhuma me servia adequadamente. Não por isso, fazia o que precisava do modo que estava e nem imaginava sugerir ao pai que “ganhasse” uma bombacha de serviço. Antes disso, de acordo com ele, mesmo eu, seu filho, precisava ter querência.
Pois essa complicação de nome eu mal entendia o que podia ser, mas era certo que todos tinham ali exceto eu. Porque uma coisa é estar num lugar e outra, bem diferente, é ser dali.
Não bastava eu querer, mas precisava viver aqueles morros, elevadas, sangas brabas, lodaçais, entender caminhos, conhecer de olho, à distância, o nome de cada um daqueles animais. E ser imperceptível aos demais, por seu igual.
Nessas condições, muitos anos depois da minha infância, as botas serviram e eu, então, pude usá-las. Já não sentia que isso fizesse diferença – e não fazia. Quando olhava para trás, na hora de voltar ao povo, sentia que tinha um lugar ali por mais duras que fossem as camas de crina, os mochinhos do galpão e principalmente o lombo do tostado.
E é desde esse dia, amigo e amiga, que a gente entende que nunca mais sai de lá por completo.
* * *
De acordo com o Oxford Dictionary, “querência” é termo usado nas zonas rurais de Mato Grosso, Goiás e Minas Gerais, além do Rio Grande do Sul. Significa o “lugar onde o animal foi criado ou onde se acostumou a pastar, e para o qual volta, por instinto, se dali for afastado.”
No Burrinho Pedrês, Guimarães Rosa cita o termo conforme segue:
“As ancas balançam, e as vagas de dorsos, das vacas e touros, batendo com as caudas, mugindo no meio, na massa embolada, com atritos de couros, estralos de guampas, estrondos e baques, e o berro queixoso do gado junqueira, de chifres imensos, com muita tristeza, saudade dos campos, querência dos pastos de lá do sertão …”