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Querência

Aquelas botas velhas no fundo do galpão, tu trazes dali pra mim?, indago ao gurizinho ao meu lado. Irrequieto como todos da sua idade, ele me olha como se indagasse: mas pra que serve isso, tão velho e furado e rasgado e estropiado?

Pega dali, por favor, que não posso mais me agachar a tanto.

E revirou as tralhas do galpão até alcançar aonde eu apontava. Tinha muita coisa sobre a caixa de madeira esbodegada da qual podíamos adivinhar pedaços e tentos de couro torcidos do uso, encardidos de barro, do esterco das vacas, do tempo, de tudo… Ele não descansou até consegui-lo e me alcançou, de dentro de um saco plástico de sal, o par de botas que havia sido do pai e que ele, um dia, consentiu em que as calçasse nos pés.

* * *

Guri da cidade, eu ia para a campanha com a mesma roupa com que vivia. Usava tênis, jeans, camisetas e quando um muito um boné, no verão, pra proteger a cabeça do solaço e, sem o qual, a mãe não permitia que eu saísse porta afora. No entanto, ao chegar lá, não mudava de traje como o meu pai. Eu simplesmente não tinha um traje “típico” com que montar a cavalo e camperear. Os filhos dos peões andavam muito melhor trajados que eu, pelo menos eu assim pensava pelas bombachas que usavam, ainda que usassem nos pés chinelos de borracha ou alpargatas gastas e furadas até quase a miséria. Na cabeça, ao invés dos bonés trazidos da cidade, tinham chapéus de feltro e barbicacho. E nas costas, mal atravessada, a faca.

Por sua vez, os adultos trajavam sempre a indumentária completa. Desde o chapéu na cabeça até a roseta da espora, pareciam pessoas de outro tempo transplantadas num transe imediato. Como se, de repente, estivessem prontos para um serviço de dias, de tropa. Ou de guerra. Mas, é claro, não era como filmado no estúdio e transmitido pela televisão. As bombachas eram sempre machucadas por remendos, mas o cinturão ou guaiaca impunham um respeito que me amedrontava um pouco, sim, quando guri.

Quando já encilhados partiam, os mangos pendiam dos pulsos e os laços, como conchas, se esparramavam no lombo dos matungos. No verão, uma camisa folgada para passar a brisa; no frio do inverno, uma japona ou um poncho tramado em lã colorida, um bichará.

* * *

Já eu, fosse inverno, verão, outono ou primavera, o traje era o mesmo que trazia de casa, da cidade. E embora provasse as botas abandonadas por velhas no galpão, nenhuma me servia adequadamente. Não por isso, fazia o que precisava do modo que estava e nem imaginava sugerir ao pai que “ganhasse” uma bombacha de serviço. Antes disso, de acordo com ele, mesmo eu, seu filho, precisava ter querência.

Pois essa complicação de nome eu mal entendia o que podia ser, mas era certo que todos tinham ali exceto eu. Porque uma coisa é estar num lugar e outra, bem diferente, é ser dali.

Não bastava eu querer, mas precisava viver aqueles morros, elevadas, sangas brabas, lodaçais, entender caminhos, conhecer de olho, à distância, o nome de cada um daqueles animais. E ser imperceptível aos demais, por seu igual.

Nessas condições, muitos anos depois da minha infância, as botas serviram e eu, então, pude usá-las. Já não sentia que isso fizesse diferença – e não fazia. Quando olhava para trás, na hora de voltar ao povo, sentia que tinha um lugar ali por mais duras que fossem as camas de crina, os mochinhos do galpão e principalmente o lombo do tostado.

E é desde esse dia, amigo e amiga, que a gente entende que nunca mais sai de lá por completo.

* * *

De acordo com o Oxford Dictionary, “querência” é termo usado nas zonas rurais de Mato Grosso, Goiás e Minas Gerais, além do Rio Grande do Sul. Significa o “lugar onde o animal foi criado ou onde se acostumou a pastar, e para o qual volta, por instinto, se dali for afastado.”

No Burrinho Pedrês, Guimarães Rosa cita o termo conforme segue:

“As ancas balançam, e as vagas de dorsos, das vacas e touros, batendo com as caudas, mugindo no meio, na massa embolada, com atritos de couros, estralos de guampas, estrondos e baques, e o berro queixoso do gado junqueira, de chifres imensos, com muita tristeza, saudade dos campos, querência dos pastos de lá do sertão …”

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Não sei se com todo o mundo é assim, mas eu vivo com a cidade onde vivo uma espécie de relação parental. Não é como habitasse um logradouro, mas um cômodo da sua casa. Ou como se ela fosse um corpo gigante e eu vivesse em um de seus órgãos, porque, afinal, respiro dentro dela, as suas umidades, e quando abro as portas e janelas da minha casa dou de cara invariavelmente com as sujidades que a noite deposita no que seriam, talvez alucinadamente, as suas veias e artérias.

Como relação parental, temos bons e maus momentos, eu e a cidade. Nunca compusemos a imagem idealizada da família margarina e, felizmente, tampouco chegamos à disfuncionalidade tolstoiana. Tentamos manter um respeito insubmisso, talvez herança que eu traga da minha educação fronteiriça.

Se me revolto, a ela eu reservo o mesmíssimo direito. E ela me fustiga, me fustigou duramente nesse maio último, e a todos que estamos aqui. Sim, porque não foi a natureza mortífera em revolta que nos sacrificou, eu acho, mas a própria cidade que imaginamos algo maior do que ela efetivamente era, como a imagem distorcida que um filho tem de um pai ou de uma mãe.

Essa desproporção, essa distorção que em mim cria o mesmo sentimento de um adolescente que não se conforma em “parecer”, em “fingir” para o que “os outros poderão pensar”, mas que, sem saber ou poder dar um desfecho para a revolta que se estabelece, acaba incorrendo num sofrimento administrado a duras penas. Não sempre amargo, isso não, mas com muitos silenciamentos, para que não se rompam as suturas de soluções tão precárias como as que lhe sabemos ter provido. Com alguma desatenção também..

Como um corpo humano, a cidade também sangra. E, nesse transbordo violento, desconhece qualquer limite. Avança com a mesma força contra os museus, shoppings centers, livrarias, edifícios e os mais humildes endereços. É a sua inclemência cega que nos apavora, como se ela acordasse numa manhã como uma espécie de touro louco solto na praça.

Mesmo nesses dias, vejo com os olhos marejados o esforço daqueles que independentemente de qualquer coisa, digo, qualquer coisa mesmo, prestam socorro a quem quer que seja, digo a quem quer que seja mesmo. São pessoas agregadoras, cujo esforço é digno reconhecer e agradecer, sem olhar a nada além do que apenas isso. Talvez sejam os braços mais fortes da cidade, ou talvez nem tenham esse poder se comparados a outros, mas nessa calamidade revelaram-se assim. Ou se forem os filhos melhor nutridos da cidade, pode ser que sim (não tenho nem farei esse levantamento), nesse caso é justo que sejam os primeiros a arregaçar as mangas, não haveria de ser os combalidos, os alagados. Seja como for, é bom para a cidade que possam fazer e façam.

No ano passado, não, não foi no ano passado, foi neste ano, ali em vésperas da entrega do Prêmio Açorianos (parece que já fazem milênios), e estive ao ponto de ter de pensar em um fala de agradecimento caso ganhasse aquele prêmio tão porto-alegrense, me ocorreu uma imagem ao mesmo tempo familiar (e complicada), de que a premiação me servisse de uma certidão de nascimento tardia. Uma adoção, nesse caso. Não foi o caso, não aconteceu e então não precisei declarar em público o meu estado de filiação para com a cidade. Mas nem por isso vivo a sensação do “enjeitado”, não mesmo. Estou aqui por opção e gosto de manter comigo os ditados interioranos, no seu pragmatismo, com os quais eu fui criado. Nada disso de “virar o cocho” ou “cuspir no prato” me agrada. Todavia a falta do documento comprobatório me devolve, às vezes, em secreto, a ambição juvenil de abandoná-la para sempre. E eis que de um momento de caos completo, a velha cidade, não exatamente a que eu conheci na adolescência real ou a de agora, parece que ouço-a suplicar silenciosamente, como costumam fazer os velhos e orgulhosos gaúchos…

Quem não está aqui, por certo não pode ouvi-la bem nem imagino que poderiam entendê-la, mas eu, não sei por que razão, julgo que posso. E que preciso prestar-lhe pelo menos atenção. O seu canto ainda é fraco, morrente, está já nos que não estão mais aqui (não estão?), nos lugares que sobrevivem às construções que a tentam falsificar, como as de um antigo calçamento ou nas vielas do Centro abandonado por áreas mais nobres.

Quando ando ali, ela me esclarece (não eu) que é inacreditável que sobreviva mais do que foi feito em 1935 do que o realizado ontem. Ou ainda antes. Essa memória que nos sonambuliza, como se apenas em sonhos nos fosse permitido transitá-la na forma que merecia, sem penduricalhos horríveis que foram pendurando em sua face, “rótula das cuias”, um shopping ao lado do outro, uma estatuária medonhenta, nem falo dos ex-cinemas.. Uma desfiguração que a cidade aceita porque incapaz de reagir, nos seus 252 anos. Uma idosa com mais parentesco em Montevideo ou Buenos Aires do que em Abu Dhabi, embora os arquitetos que agora se dão ao trabalho de imaginá-la não percebam a sua incompleição com o faraônico. Ela, uma senhora modesta por necessidade, nem sempre se dá muito bem com as novas gerações de gente que nasce ou vem dar aqui.

Se às vezes me revolto contra a cidade, eu espero que ela entenda como uma prova de um amor, mesmo que um amor às avessas. É um desgaste de 30 anos de relação. Acho que até um pouco mais que isso dura já essa “união”. Às vezes, sinto vontade de sumir desse mapa que a água tomou sem mais cerimônias. E sinto também a culpa por esse desejo. Brigamos sem nos ferir demasiadamente. Não suportaríamos. E nesses bancos geminados, jogados ao esquecimento, (por que o que parece esquecido e jogado por aí sempre nos comunica mais que o anunciado com pompa, alguém pode me explicar?), sei que voltarei a me entender com a cidade, ainda que os termos com que faremos não estejam plenamente claros.

Em breve, a inundação se tornará lenda. E o inverno, espero, não há de ser tão rigoroso. Saio com um casaco que agora me estorva as mãos, afinal, é outono.. As meias dos pés estão suadas de caminhar. Convém que eu não demore muito mais e volte para casa antes que anoiteça.


𝗜𝗺𝗮𝗴𝗲𝗺: bancos originais do Auditório Araújo Vianna (1927), atualmente no Parque da Redenção. A foto é minha, de 2024 ou 2023..