Crítica As visionárias: quatro mulheres e a salvação da filosofia em tempos sombrios

As visionárias: quatro mulheres e a salvação da filosofia em tempos sombrios

Com cara e nome de best-seller, o lançamento As Visionárias: quatro mulheres e a salvação da filosofia em tempos sombrios 1933-1943 (Todavia, 2022), de Wolfram Eilenberger, transforma a história filosófica do período mais crítico do séc. XX em literatura de fácil digestão. Não é um pecado, sem dúvida, mas o livro de Eilenberger comete várias tentativas de aproximação um tanto exageradas ao afrontar visões políticas antagônicas narrando simultaneamente o percurso de vida e pensamento de Simone Weil, Ayn Rand, Simone de Beauvoir e Hannah Arendt. O que pode parecer à primeira vista algo forçado, afinal, pode não ser mais que uma busca mal declarada por impacto editorial e um contraponto feminino ao seu livro anterior, Tempo de Mágicos (Todavia, 2019), no qual esmiuçou obra e biografia de Walter Benjamin, Martin Heidegger, Ernst Cassirer e Ludwig Wittgenstein.

Precisamente, ele narra o período de uma década sem, entretanto, chegar ao fim da Segunda Guerra Mundial, mas até onde Simone Weil esteve viva e sustentou como pode vida e pensamento quando o mundo desabou de vez sobre a Europa e sob os regimes totalitários. Trata-se de um recorte arbitrário porque, a exceção de Weil, as demais pensadoras continuaram produzindo além da sua data de corte: o ano de 1943.

Das pensadoras que escolheu para seu livro, é Weil quem notadamente aparece mais. Seja enfrentando a derrocada política e histórica das grandes nações europeias, o impacto pós-revolucionário bolchevista, percorrendo pessoalmente as condições de vida dos trabalhadores ou um peculiar caminho filosófico e espiritual, Weil é como a coluna dorsal do livro de Eillenberger. Não é que as demais filósofas tenham menor relevância em seu livro, longe disso, mas a mobilidade de Weil nesse período foi realmente além de uma carreira acadêmica ou literária e o desfecho de sua vida breve, mas lancinante, aos 34 anos de idade, coincide justamente com o ápice do horror da guerra. Se isso pode servir de consolo, é mesmo difícil imaginar que um espírito como o dela sobrevivesse ao horror desse tempo, afinal.

Quanto às demais pensadoras, o livro limita-se muito em sua busca de fugir às perseguições totalitárias e por afirmação intelectual.

No caso de Ayn Rand, vê-se o tanto de trauma que guardou durante toda a vida do processo revolucionário de 1917 e do efeito psicológico e existencial do expurgo sofrido na Universidade Estatal de São Petersburgo. Após esse momento inicial de estudos, quando se revelou superdotada, ela parte para os Estados Unidos e lá inicia seu trabalho como roteirista e escritora, levando muito anos até afirmar-se. Depois disso, o livro preenche suas aparições com citações de A revolta de Atlas e de suas posições ultraliberais, mas, no fundo, Eilenberger parece pouco inclinado a contar mais a seu respeito – ou porque sua vida tenha sido menos movimentada que as demais “visionárias” escolhidas por ele ou, enfim, porque ele entendeu que seria o suficiente.

Quanto a Simone de Beauvoir, a escritora e filósofa francesa aparece desde o princípio  lutando para publicar seus textos inéditos e às voltas com o seu envolvimento afetivo-intelectual com Jean Paul Sartre. Antes, narra também seus encontros com Simone Weil e o impacto desta em sua visão de mundo. Na Paris ocupada, pouco a pouco o ar se torna irrespirável e com Sartre no front, envolvido já em debater com Heidegger em O ser e o nada, ela então mergulha na leitura e escrita de sua obra da maturidade, O segundo sexo. Isso não sem desencontrar-se e reencontrar-se com ele diversas vezes. De alguma maneira, pelo pinçado por Eilenberger, Beavouir parece desenvolver-se intelectualmente melhor quando está distante de Sartre, num relacionamento que vai tomar sua vida e culminar no exasperante relato de A cerimônia do adeus.

Igualmente em processo de fuga dos nazistas, entre todas Arendt é a que comparece menos na narrativa de Eilenberger. O mesmo pode-se dizer dos seus estudos a respeito da ideologia política e do totalitarismo. Mesmo o envolvimento com Heidegger e os encontros derradeiros com o amigo Walter Benjamin aparecem pouco. Já os embates com o movimento sionista por um lado, e o comunista, por outro, reafirmam-na no livro em seu livro como uma pensadora interessada sobretudo nas condições políticas da liberdade.

Arendt, que recentemente teve a biografia de Ann Heberlein publicada no Brasil pela Companhia das Letras (Arendt entre o amor e o mal: uma biografia), é intelectual bem mais exigente do que pode ser obtido numa crônica como a proposta por Eilenberger. Mesmo sem poder ser classificado como simplista, seu livro muitas vezes passa raspando por questões relevantes à filosofia política para deter-se muito mais numa espécie de crônica histórica e jornalística. O mesmo pode-se dizer a respeito das demais “visionárias”, pois mais se saberá a respeito de Simone Weil por meio do trabalho biográfico de Maria Clara Bingemer, Simone Weil: a força e a fraqueza do amor (Rocco, 2007) de Beavouir pela recente biografia de Kate Kirkpatrick, Simone de Beauvoir: Uma vida (Crítica, 2020) e de Ayn Rand pelo há pouco lançado Ayn Rand e os devaneios do coletivismo: breves lições (LVM, 2019). De qualquer modo, como forma de introduzir vida e obra de pensadoras de importância universal, o livro não se perde e é bem movimentado em sua narrativa multifocal. Não se deve imaginar que seja superior aos trabalhos biográficos disponíveis individualmente nem que aprofunde as questões com as quais lidaram em profundidade as “visionárias”, porém, como atração leiga e como forma de mostrar que as mulheres estiveram ao tempo dos grandes dilemas do séc. XX, quando a urgência da guerra mais as provocou, é bastante interessante. Em última análise, é um testemunho da força intelectual de filósofas que, muitas vezes discrepantes entre si, viveram radicalmente os momentos da Segunda Guerra Mundial e deram parte de questões que continuam influenciado o mundo, prova de seu vigor e de que, prefira-se mais a uma ou outra, integram por seus méritos próprios a história do pensamento ocidental.

Deixe uma resposta

Posts semelhantes

O atado de ervas de Ana MarianoO atado de ervas de Ana Mariano

Conheci tardiamente a autora gaúcha Ana Mariano. Se tivesse conhecido antes, já a teria lido. Ao fechar a última página do seu Atado de ervas (e ao abrir a primeira de Pra amanhecer ontem) foi muito difícil evitar a sensação de tempo perdido em outras leituras e autores. Se isso parece um elogio, então é porque consegui me expressar com clareza: é disso mesmo que se trata.

Sempre detestei, para falar de um livro ou autor, compará-los a outros. Penso que cada qual tem seu valor e demérito próprios e que a graça dos livros, pelo menos no que diz respeito aos leitores, reside justamente na diversidade de estilos, tendências, dicções, etc. Algumas vezes, porém, é muito difícil evitar comparar-se um autor com uma tradição, seus contemporâneos ou, principalmente, às tendências de determinada época. A despeito de tudo isso, minha impressão final ao concluir a leitura de Atado de ervas é de quem esteve por muitos momentos diante do inusitado. E de que as vantagens comparativas do romance acabaram quase sempre por superar suas desvantagens.

Leitores pouco afeitos à ficção escrita com narrador externo, onisciente, talvez se sintam um tanto deslocados ao dar com o livro. Como é sabido, em tempos recentes têm prosperado bem mais as narrativas em primeira pessoa, assim como a controversa autoficção. Há muitos destes livros que gosto bastante, mas confesso certa (na verdade uma bem significativa) saturação para com o estilo. Isto não se refere a nem um autor em específico, mas, no que me toca como leitor, preciso dizer que um livro como Atado de ervas funcionou, de fato, como um inesperado respiradouro.

Há fatores que poderia apontar para a sensação. O primeiro deles é o arejamento geográfico da trama: a paisagem ampla e inesgotável do pampa rio-grandense. A sensação, porém, não é só devida à paisagem pela paisagem, como numa finalidade em si mesma: deve-se bem mais à possibilidade de acompanhar-se a narrativa não sob o encurralamento da percepção de alguém em específico, mas de um universo mais amplo e multifacetado. Das personagens de Atado de ervas podem-se distinguir biografias, nexos afetivos e motivações psicológicas. Não se trata de uma coleção impessoal de nomes e isto por si só propicia ao leitor o escape da sensação de asfixia que muitas vezes acompanha as narrativas monocráticas. Este é bem o segundo fator de arejamento ao que me referia.

Na perspectiva de uma literatura predominantemente escrita por homens, Ana Mariano inculca na aspereza de trato da linguagem e da cultura do meio rural gaúcho uma intensidade poética não muito sensível nos autores locais, mesmo nos pontos máximos do romance histórico rio-grandense, como em Érico Veríssimo ou Luis Antonio de Assis Brasil. Isto, porém, não torna o romance nem mais fácil ou, por outro lado, mais suave. Muito pelo contrário: é uma dicção que humaniza o elemento histórico, destacando-lhe de qualquer aparência historicista ou didática. Também não custam sequer vinte páginas para perceber-se que Atado de ervas está completamente fora da detestável caixa conceitual “literatura feminina”. Se as personagens femininas são centrais ao romance, isto se deve a outra perspectiva: a de que os indivíduos diferenciam-se do cenário independentemente de qualquer característica e muito mais pela relevância de suas personalidades e em função da coerência narrativa.

Porque iniciei falando em vantagens e desvantagens (e para que não pareça elogio deslavado), evidentemente há momentos mais e menos intensos no romance, assim como personagens melhor desenhados que outros. À exceção óbvia, dos excepcionais, acho quase impossível encontrar-se um livro de ficção indefectível, constante, perfeitamente solfejado. Sempre há momentos de fraqueza, fadiga e também de alguma falha na autocrítica do autor. Tudo muito normal e humano, penso eu.

Pensando ainda melhor, admiro muito a capacidade dos escritores em contornar os maus momentos narrativos e transformá-los em peças integrantes de suas tramas. Não sei a razão, mas a mim isso (ou a atitude em salvar um personagem mediano da mediocridade, por exemplo) confere um maior realismo à ficção ou, pelo menos, maior proximidade com a vida real que, como se sabe, jamais é um enlevo permanente. É uma tarefa das mais complicadas e trabalhosas. Notar isso, portanto, não me remete a qualquer problema estrutural ou desvantagem, mas ao trabalho intenso que um romance requer.

Autoral sem deixar ser agradável e lírico sem deixar de ser reflexivo, Atado de ervas é um romance que atende unicamente por literatura. Permitindo antever uma poesia nem um pouco superficial, mas inerente às minúcias da vida das personagens, o romance evita a rudeza com que se costuma pintar a vida no meio rural e, ao mesmo tempo, providencia um sentido histórico, causal, às muitas amarrações que o romance dá entre pessoas e famílias que acompanham as mudanças históricas e políticas no Rio Grande do Sul entre as décadas de 30 e 60 do séc. XX.

Finalista do Prêmio São Paulo de Literatura em 2012, talvez devesse ter iniciado a ler e escrito sobre Pra amanhecer ontem, lançado no fim de 2017 pela L&PM, mas calhou de conhecer por primeiro seu romance de estreia. Ainda dissolvendo o efeito da leitura de um, deixo que aos poucos o enredo do outro vá imiscuindo-se em minha memória. Como se estivesse também de alguma forma amarrado, acho que vou também precisar de um “atado” de Miguelina para dar jeito nisso.

Mulher do paiMulher do pai

Revista Sepé

O pampa, lugar sem limite certo que habita e desabita os campos, oceano verde que invade as cidades por suas bordas, que é povoado por gente, animais, veículos e que é riscado por caminhos, arroios e até ferrovias; o pampa, talvez por sua geografia e amplidão, território por excelência externo em masculinidade e doméstico em boa parte de sua representação feminina, ganhou em 2016, com o filme Mulher do pai, uma real invertida.

Escrito e dirigido por Cristiana Oliveira, exibido no Festival do Rio e em Berlim, o filme foi vencedor do Troféu Vertentes do Cinema de Melhor Filme, no qual levou ainda o prêmio de Melhor Atriz para Maria Galant, Melhor Atriz Coadjuvante para Verônica Perrrota e fotografia para Heloisa Passos. Mulher do pai coloca no centro de uma narrativa pampeana contemporânea a figura de uma adolescente de 16 anos que se vê na fronteira da infância e do mundo adulto. Apenas por isso, o filme já poderia constituir uma inovação temática ou de perspectiva, mas, além disso, além desse limiar, ele atravessa também a fronteira geográfica para dialogar com o excelente cinema produzido atualmente no Uruguai.

No filme, é Ruben, o pai de Nalu (Maria Galant), vivido pelo ator Marat Descartes, que está interiorizado ao ambiente doméstico. Cego desde os 22 anos, logo do nascimento dela e da morte da mãe da criança, ele faz trabalhos em casa, como o preparo de chás e temperos e a fiação em lã – prática tradicional na região da campanha riograndense. Filmado no vilarejo de São Sebastião e com impecável fotografia que privilegia a poética rural também no limiar da urbanidade, por outro lado as externas em sua maioria são protagonizadas por Nalu e é ela quem tem de decidir, após a morte da avó que praticamente criara pai e filha como irmãos, por ficar e cuidar do pai ou então partir para outras oportunidades de vida, em Porto Alegre.

No impasse estabelecido pela nova realidade em que passam a conviver pai e filha, que têm entre si um considerável distanciamento, vêm do outro lado da fronteira, do Uruguai, os personagens que vão catalisar o desenlace da trama e para ambos os personagens. A esse ponto, mais do que isso é desnecessário dizer, pois o filme se encontra disponível no Now e, apesar de algumas vezes exibido no Canal Brasil, é oportunidade única de ver-se (ou rever-se) a peculiar paisagem pampeana, seus hábitos e costumes mais interiores, mas numa perspectiva nada convencional. Seja pelo protagonismo feminino quanto pela atualidade temporal, o que se pode ver são pessoas vivas tratando e tendo de dar conta dos impasses humanos mais comuns e universais. É um toque de sensibilidade no trato da cultura rural e pampeana do RS como poucas vezes tem se visto recentemente em outras artes.


Roteiro e Direção: Cristiane Oliveira
Produção: Aletéia Selonk, Cristiane Oliveira, Diego Fernández
Realização: Okna Produções (Brasil) e Transparente Filma (Uruguai)
Música Original: Arthur de Faria
Direção de Fotografia: Heloisa Passos, ABC
Direção de Arte: Adriana Nascimento Borba
Elenco: Maria Galant, Marat Descartes, Verónica Perrotta, Amélia Bittencourt, Áurea Baptista, Fabiana Amorim, Jorge Esmoris, Liane Venturella, Diego Trindad
Realização: Okna Produções (Brasil) e Transparente Filma (Uruguai)
Onde assistir: Now on-line