Dia: 23 de maio de 2020

Os olhos da cobra verdeOs olhos da cobra verde

Não sei se nesse plano da existência (espero que sim), sonhei que acordava em 2023. No escuro, tocava it’s a long way muito, muito, muito alto. Ensurdecedoramente. E a gravação, de um vinil, trancada naquilo de um ‘a-lo-long’ sem fim. No celular, a data e a hora indicavam que era muito cedo, em torno das quatro da manhã. Alguém trocara meu pin code e eu não conseguia tirar daquilo ali. Pensei em jogar o telefone fora, mas lá tinha coisas que não podia perder assim sem tentar salvar. Tateando, no escuro, encontrei uma cômoda ornada com filetes em relevo e puxadores pingentes. Guardei no fundo de uma gaveta, sob blusões pesados de lã, o telefone – o mesmo no qual no dia anterior tinha lido coisas incompreensíveis e incoerentes. E Caetano continuava cantando, travado no seu ‘a-lo-long’. O lugar não parecia a minha casa, mas a de um amigo remoto na qual passei a noite depois de uma festa em 1986. O lugar era pacato. Havia sido decorado por sua mãe, uma senhora cuidadosa que enchia tudo de peças de crochê. Busquei a janela e abri a persiana sem muito esforço. Do outro lado da rua, um apartamento num prédio de três andares ressoava o disco do prisma, do Pink Floyd, e vultos circulavam sem parar. Voltei-me para dentro e pensei que aquilo não podia ser 2023, como dizia o relógio do telefone. Eu havia entrado é num túnel do tempo, lisérgico e em espiral como o do enlatado da tevê. A tevê era a mesma da casa do meu avô, de bobina e em preto e branco, mas tinha controle remoto e liguei no botãozinho da Netflix. Uma smart tv a transístor e de tubo. Uma raridade que deve valer milhões no Mercado Livre. De automático, ligou na TV Globo e o Cid Moreira e o Sérgio Chapelin deram aquele boa noite inigualável. Começou o último capítulo de uma novela de Janete Clair protagonizada por Regina Duarte em que ela encenava uma paranormal e tinha um olhar dúbio, indecifrável, de namoradinha do Brasil e, ao mesmo tempo, alguém com ares de psicopata. Fui até a tevê para ver se conseguia trocar de canal no seletor manual. Girei três vezes e meia e caiu no Netflix. O menu de navegação só tinha reprises de novelas e de filmes coreanos e séries espanholas. A pandemia interrompera todas as gravações e a tevê aparentemente só exibia reprises. Voltei à janela e, ao longe, um rumor de desmoronamento e explosões. Os vultos que estavam no apartamento do edificiozinho em frente continuavam a passar para lá e para cá ao som do Pink Floyd balançando os braços para o alto, dançando. Eu, sem saber que lugar era aquele e quem havia sido eleito um dia antes, só ouvia o Pink Floyd misturado ao Caetano Veloso cantando um eterno ‘a-lo-long’ ao som de um berimbau repetitivo. Sair para a rua apenas precipitaria o fim que sem dúvida chegava. Fui à cômoda onde guardara o telefone e olhei de novo a data. 2023. Fui ao espelho e tinha a cara de quem tinha 16 anos. Cabelos pelo ombro e barba mal feita e sem saber o que fazer da vida. Não tinha casado, não tinha diploma, não tinha filhos e nem emprego e o mundo havia pulado anos para frente, mas me trazendo de volta ao tempo de antes. Voltei à cômoda e peguei do telefone que, súbito, destravara. Então ouvi meu nome do lado de fora da rua e uma antiga namorada, a primeira de verdade, de olhos verdes e louca o suficiente para me levar consigo, me fez segui-la. Pulei da janela e a segui sem nunca mais ver seus olhos. “É a resistência”, ela dizia. Por ela, eu iria a qualquer lugar. E já não tinha mais nada para fazer onde estava a não ser as reprises e calendários esquisitos. Os olhos da cobra verde.