Os olhos da cobra verde

Não sei se nesse plano da existência (espero que sim), sonhei que acordava em 2023. No escuro, tocava it’s a long way muito, muito, muito alto. Ensurdecedoramente. E a gravação, de um vinil, trancada naquilo de um ‘a-lo-long’ sem fim. No celular, a data e a hora indicavam que era muito cedo, em torno das quatro da manhã. Alguém trocara meu pin code e eu não conseguia tirar daquilo ali. Pensei em jogar o telefone fora, mas lá tinha coisas que não podia perder assim sem tentar salvar. Tateando, no escuro, encontrei uma cômoda ornada com filetes em relevo e puxadores pingentes. Guardei no fundo de uma gaveta, sob blusões pesados de lã, o telefone – o mesmo no qual no dia anterior tinha lido coisas incompreensíveis e incoerentes. E Caetano continuava cantando, travado no seu ‘a-lo-long’. O lugar não parecia a minha casa, mas a de um amigo remoto na qual passei a noite depois de uma festa em 1986. O lugar era pacato. Havia sido decorado por sua mãe, uma senhora cuidadosa que enchia tudo de peças de crochê. Busquei a janela e abri a persiana sem muito esforço. Do outro lado da rua, um apartamento num prédio de três andares ressoava o disco do prisma, do Pink Floyd, e vultos circulavam sem parar. Voltei-me para dentro e pensei que aquilo não podia ser 2023, como dizia o relógio do telefone. Eu havia entrado é num túnel do tempo, lisérgico e em espiral como o do enlatado da tevê. A tevê era a mesma da casa do meu avô, de bobina e em preto e branco, mas tinha controle remoto e liguei no botãozinho da Netflix. Uma smart tv a transístor e de tubo. Uma raridade que deve valer milhões no Mercado Livre. De automático, ligou na TV Globo e o Cid Moreira e o Sérgio Chapelin deram aquele boa noite inigualável. Começou o último capítulo de uma novela de Janete Clair protagonizada por Regina Duarte em que ela encenava uma paranormal e tinha um olhar dúbio, indecifrável, de namoradinha do Brasil e, ao mesmo tempo, alguém com ares de psicopata. Fui até a tevê para ver se conseguia trocar de canal no seletor manual. Girei três vezes e meia e caiu no Netflix. O menu de navegação só tinha reprises de novelas e de filmes coreanos e séries espanholas. A pandemia interrompera todas as gravações e a tevê aparentemente só exibia reprises. Voltei à janela e, ao longe, um rumor de desmoronamento e explosões. Os vultos que estavam no apartamento do edificiozinho em frente continuavam a passar para lá e para cá ao som do Pink Floyd balançando os braços para o alto, dançando. Eu, sem saber que lugar era aquele e quem havia sido eleito um dia antes, só ouvia o Pink Floyd misturado ao Caetano Veloso cantando um eterno ‘a-lo-long’ ao som de um berimbau repetitivo. Sair para a rua apenas precipitaria o fim que sem dúvida chegava. Fui à cômoda onde guardara o telefone e olhei de novo a data. 2023. Fui ao espelho e tinha a cara de quem tinha 16 anos. Cabelos pelo ombro e barba mal feita e sem saber o que fazer da vida. Não tinha casado, não tinha diploma, não tinha filhos e nem emprego e o mundo havia pulado anos para frente, mas me trazendo de volta ao tempo de antes. Voltei à cômoda e peguei do telefone que, súbito, destravara. Então ouvi meu nome do lado de fora da rua e uma antiga namorada, a primeira de verdade, de olhos verdes e louca o suficiente para me levar consigo, me fez segui-la. Pulei da janela e a segui sem nunca mais ver seus olhos. “É a resistência”, ela dizia. Por ela, eu iria a qualquer lugar. E já não tinha mais nada para fazer onde estava a não ser as reprises e calendários esquisitos. Os olhos da cobra verde.

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Baleia, baleiaBaleia, baleia

Só mesmo quem viu com os próprios olhos sabe o quão pouco imaginativa foi a geografia ao desenhar a costa gaúcha. É como se um imenso talho feito no sentido longitudinal tenha desenhado uma costa perfeitamente lisa, sem uma enseadinha, uma bacia sequer, assim, um mínimo desnível ondulatório. Mas também é por isso que seus usuários costumam ser muito imaginativos e inventam histórias que de tão mentirosas chegam a parecer verdade. A gente nunca sabe.

A mais recente dessas quase lendas eu ouvi da boca de um vizinho de guarda-sol. Sujeito simpático, natural de Quaraí e bom de prosa que só vendo. Eu, que aprendo mais escutando que dizendo, fiquei procurando minha maxila na areia após escutar o que ele me contou, de certos argentinos que viram baleia e somem do mapa.

Estranho lhe parece? Mas é verdade, segundo ele diz. E essa é a sua explicação para tantos argentinos esquecidos por aqui no verão. Na verdade não são esquecidos, mas buscam reaver sua terra original (isso mesmo) e retornar ao oriente ancestral. Como pareceria loucura uma explicação assim, seus parentes dizem que sumiram ou foram esquecidos em postos de gasolina. Tem bastado para mentes pouco curiosas.

Bem, de acordo com o meu interlocutor é tudo mentira que os primeiros habitantes do continente atravessaram o estreito de Bering e foram se espalhando América adentro. Diz ele que os primeiros humanos a habitar a América vieram é pelo sul, nas correntes gélidas do Pacífico, lá da costa japonesa, em embarcações ainu (umas jangadas) ou, o que segundo ele seria a mais pura verdade, na forma de baleias franca que ao chegarem ao Atlântico teriam retomado a forma humana.

A conversa já ía para muito além do inimaginável quando ele me apontou um sujeito que perto de nós observava um jogo semelhante a um boliche jogado por outros sujeitos hispanohablantes.

“Aquele ali! Olha só…”, e apontou com um movimento de olhos para um homem alto, dos seus trinta e poucos anos, esguio, moreno e com olhos amendoados como um fueguino. “Olha aquela tatuagem..”, sugeriu. Eu olhei na direção que apontava e vi uma tatuagem estranha mesmo, em baixo relevo branco. “Aquele está aqui para voltar…”, disse-me enigmático e eu até pensei em lhe perguntar “Como assim? Voltar pra onde?”, mas não tive chance. O homem de testa abaulada e cabelos lisos pelo ombro pareceu ter ouvido que confabulávamos a seu respeito e abandonou o que fazia aproximando-se lentamente de onde estávamos.

Ao invés de dirigir-se ao meu novo amigo, que inclusive parecia saber tudo a seu respeito, ele preferiu dirigir-se a mim, uma pessoa não apenas ignorante nos assuntos dos homens-baleia, mas alguém à beira de uma justificada crise de pânico.

“Usted, amigo.. ¿Podrías salvar mi ropa?”, e deixou uma mochila preta bem ao lado de onde meu filho abandonara um castelo de areia para banhar-se um pouco. Além da tatuagem estranha, o homem tinha uma boca estranha como uma moldura viva. Sem que eu dissesse sim ou não, ele deixou a mochila quase aos meus pés e virou-se em direção à praia, seguindo por ali lentamente.

Enquanto eu o vi andando, ele sempre foi em frente, até que de repente não pude mais vê-lo. Além do quebra-mar, até notei certo movimento e julguei que fosse ele dando braçadas de volta ao litoral sem graça dos gaúchos, mas um esguicho em forma de “v” prenunciou a imagem que nunca vira por ali no verão. A baleia-franca deu uma rabanada sob a película do mar e apontou apenas a cauda também em forma de “v”, sumindo dessa vez para sempre.

Bem que eu tentei comentar o que havia visto com aquele quaraiense que hoje se aproximou para contar essa história sem pé nem cabeça, mas ele também sumira entre os guarda-sóis que aos poucos deixavam a praia sem ao menos despedir-se ou explicar o que mais eu não tivesse entendido, porque ele e não eu é quem era sabido dessas histórias. Onde ele estava, havia agora apenas um cachorro. Agora os gaúchos estão levando cachorros à praia, além dos celulares. Assim, é certo que qualquer um pode virar baleia e ninguém vai perceber.

[25.01.2020]

Déjà vuDéjà vu

Ao contrário do déjà vu, às vezes me acontece uma estranha sensação do inédito. Estou vendo isso aqui, mas de repente isso aqui não me parece ser o que me parecia até ontem ou mesmo há um instante.

Havia antes essa realidade que eu ignorava ou só agora posso percebê-la?

Decerto é um truque perceptivo que o cérebro nos causa para que suportemos a repetição dos dias, itinerários, paisagens e tudo o mais que se repete ou que precisamos refazer.

Sonoramente, é como se os ouvidos fossem subitamente destamponados. Visualmente, é como se o tisnado opaco que borra a tudo do nada acordasse limpo. Literariamente, é como se o o texto nos mostrasse o seu subconsciente, e do que ele tenta nos dissuadir com seus mil artifícios estéticos e retóricos, mas que está ali, a psicologia do autor, ao alcance dos olhos de qualquer um, como uma espécie de nudez invertida.

Estranho também que a sensação, assim como ela vem, logo ela se vai. E o novo amarelo passa a ser o velho amarelo. A voz magnífica de um cantora parece que entra de volta numa caixa. Os livros resumem-se aos títulos de um catálogo.

Só o sol, sempre o mesmo sol, repete-se infatigável.

Para ele, às vezes também parecemos renovados. Mas ele não se manifesta quanto a ninguém em especial. Se ele pudesse dizer, certo que diria “hoje você está mais colorido que o habitual também” ou “que voz linda a sua” ou “o seu poema diz muito para mim”.

Mas ele nunca diz nada, este velho. Na sua justiça específica, talvez queira nos poupar de alguma coisa. Que sejamos repetitivos, enfadonhos. Que nossa arte seja insignificante. Que nossa vida não seja tanto assim quanto nos parece e queremos que pareça, e nem mais que a de ninguém. Suspenso, nos gasta dia após dia, imparável. Ao mesmo tempo lento e rápido, para que não possamos percebê-lo muito — e nem nos percebermos.