E R R A T A – p/ Lucio Carvalho Poesia Quando o mais puro morre

Quando o mais puro morre

Michel Houllebecq (1956 -)
trad. do francês

Quando o mais puro morre
é invalidada toda a alegria.
Resta um buraco no peito
e sombras onde quer que se olhe.

Demora tão pouco
para desfazer o mundo…

Também vai-se a crença
E o que ela ajuda a construir.
Para ser e idolatrar,
vivemos na ausência.

Então a visão some em meio
às pessoas mais próximas.

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Eu ontem beijei teus lábiosEu ontem beijei teus lábios

Pedro Salinas (1891-1951)
trad. do espanhol

Foi ontem que beijei tua boca.
Os lábios, a tensão
rubra. Foi um beijo tão curto,
durou mais que um raio,
mais que um milagre. Depois disso
não quis mais nada
e também nada havia pretendido antes.
Começou e terminou nele.

Hoje estou beijando um beijo;
e só, só com a minha boca.
Tocar a sua com meus lábios,
não, não mais …
– Como fui perder isso? –
Eu os coloquei
no beijo que te dei,
ontem, com as bocas juntas
do beijo que eles beijaram.
E esse beijo dura mais tempo
que o silêncio, que a luz.
Porque não é mais a carne
nem a boca o que eu beijo,
tudo isso foge de mim.
Não. Mas o beijo de
agora está durando mais.

Pelos meus cálculosPelos meus cálculos

Três minutos é o tempo que o ar resiste
dentro do corpo, de onde não há escape.
E tudo o que ele atinge, guarda ou conserva
se perde de uma só vez, num disparate.

Leva tempo para se entender algumas coisas,
uma vida às vezes nem é o suficiente
e o que se percebe nem sempre é tão claro,
mas tudo existe em medidas diferentes.

O tempo e suas horas, minutos, segundos.
A sua casa é uma espiral circundante
na qual todos podem inventar de tudo
até que tudo se torne redundante…

Aprendi isso por nada, olhando o céu
e, no chão, o rastro dos pés dos animais.
Meu calculismo é pensar por comparações
até que, por um excesso, fica demais.

Três minutos é muito tempo. Quanto leva
o boi, errando de vereda em vereda?
O bom animal nunca pensa que morreria
tocado pelo homem no cavalo, o que assovia.

Três minutos é muito pouco. Quanto dura
viver a vida em resumo? O que importa
se ganhaste apenas dinheiro? Apenas fama?
Ou vulto? Vale do quê, mesmo, a sabedoria?

Olhando ignorante os degraus da escada,
pensei no que daria por um minuto mais…
Daria tudo, é claro, e corri abaixo
salvando a mim mesmo de forma incidental.

Pelos meus cálculos, não tenho para muito,
e porque a vida não se retém em fotografia,
os pés não param e o olhar nunca repousa.
Nada desdenho, só mal reparo – eis minha escusa.

Canto fúnebre sem músicaCanto fúnebre sem música

Edna St. Vincent Millay (1892-1950)
trad. do inglês

Não aceito que vão abaixo, à terra dura, os corações afáveis.
Eu sei que é assim, tem sido assim, desde sempre:
Vão-se de uma vez só sábios e amáveis. Coroados
Com louros e lírios, partem; mas não me peçam que aceite.

Amantes e pensadores, todos ao fundo da terra!
Unam-se ao indistinto, à poeira, ao pó.
Um trecho ou dois é o que resta
Do que sentiam, mas está perdido o melhor.

Os chistes, o olhar honesto, o riso, o amor,
Eles se foram. Para o alimento das rosas curvilíneas. Elegantes
São as flores. E perfumadas, eu sei. Mas não aprovo.
Mais preciosa era a luz em seus olhos do que todas as rosas do mundo.

E descem, descem, descem à escuridão da campa
E delicadamente vão. O belo, o bravo, os bons quase perfeitos.
Tranquilamente os engraçados e valorosos a morte encampa.
Eu sei. Mas eu não aprovo. Eu não aceito.