Poesia Canto fúnebre sem música

Canto fúnebre sem música

Edna St. Vincent Millay (1892-1950)
trad. do inglês

Não aceito que vão abaixo, à terra dura, os corações afáveis.
Eu sei que é assim, tem sido assim, desde sempre:
Vão-se de uma vez só sábios e amáveis. Coroados
Com louros e lírios, partem; mas não me peçam que aceite.

Amantes e pensadores, todos ao fundo da terra!
Unam-se ao indistinto, à poeira, ao pó.
Um trecho ou dois é o que resta
Do que sentiam, mas está perdido o melhor.

Os chistes, o olhar honesto, o riso, o amor,
Eles se foram. Para o alimento das rosas curvilíneas. Elegantes
São as flores. E perfumadas, eu sei. Mas não aprovo.
Mais preciosa era a luz em seus olhos do que todas as rosas do mundo.

E descem, descem, descem à escuridão da campa
E delicadamente vão. O belo, o bravo, os bons quase perfeitos.
Tranquilamente os engraçados e valorosos a morte encampa.
Eu sei. Mas eu não aprovo. Eu não aceito.

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Um pedidoUm pedido

Passos acima
o reino perfeito do amor
dorme um sono de séculos
de que não pode acordar.

Ao subir, desistira
de um regresso, e o retorno
impossível à cúpula
revela ainda mais dor.

Aqui, a indiferente natureza
prossegue frutificando
pasmos sempre novos
a novos olhos ferrugentos.

A relva na relva, o mar
no mar, tudo se recolhe
noite após noite
ante a noite replicada.

Cores copiosas do crepúsculo
vazam sua cor de clara de ovo.
A desafortunada visão
sequer percebe a si mesma.

*

Há uma mão pendurada
em silêncio que não alcança
nada a ninguém
em mais um gesto irrefletido.

Melhor que não visses
ao espelho quem foste,
quem viste, o que amaste
e o que dizes..

Mas uma centelha me pedes
desta rigorosa ambiguidade.
Eu digo: não sei.. Se digo,
é a intimação de um pedido..

Quando vais, me ausentas
do teu ser e estar
miraculoso. Como, sem tua
voz, me sustento?

Colocaste o pé sobre o meu.
Me acordaste. Do mais profundo
dos sonos, vieste. Se não sabes
quem és, não importa.. Vieste,
apenas. E então me causaste.

Circular UrcaCircular Urca

(13.11.2020 – 28.11.2025)

Ela tinha um cabelão
e contei uma história
que não lembrava mais
de um pássaro que se moldou
em meio aos seus miolos moles
uma vez.

Num tempo cheio de horas vagas,
de quando não havia no que gastar
dinheiro que também não existia
(éramos iguais às sombras
encostadas sob a marquise
à espera do ônibus, na volta
circular Urca).

Ela tinha uns olhos verdes
em que nunca mergulhei —
nunca teria mergulhado.
Com minha sombra
eu protegia do solaço
a pele branca, por inteiro,
que mormaço..

E tinha um entusiasmo
que era gigante.
Cantava comigo qualquer coisa,
sem melodia, sem letra.
Nada que é bom
a gente na hora
pensa que presta

(nessas horas
há um silêncio sempre
que vai se acordando
ao mesmo tempo
abafando tudo –
hoje esse estrondo).

Se eu passar ao seu lado
outra vez,
não soe alarmes.
Deixa quieto,
fica na tua,
mas não se afaste..

Enquanto há tempo
a manhã perdura —
enquanto há tarde,
noite que baste.

Com ela o atraso
era um breve torpor.
Depois acordava e, quando se viu,
passou rápido demais.

Foi menos grave ao seu lado
e mais eu sonho por isso
dos sinos que batem
sem muito alarde.
Apenas nos seus olhos
eu fiquei sempre acordado.