Circular Urca

(13.11.2020 – 28.11.2025)

Ela tinha um cabelão
e contei uma história
que não lembrava mais
de um pássaro que se moldou
em meio aos seus miolos moles
uma vez.

Num tempo cheio de horas vagas,
de quando não havia no que gastar
dinheiro que também não existia
(éramos iguais às sombras
encostadas sob a marquise
à espera do ônibus, na volta
circular Urca).

Ela tinha uns olhos verdes
em que nunca mergulhei —
nunca teria mergulhado.
Com minha sombra
eu protegia do solaço
a pele branca, por inteiro,
que mormaço..

E tinha um entusiasmo
que era gigante.
Cantava comigo qualquer coisa,
sem melodia, sem letra.
Nada que é bom
a gente na hora
pensa que presta

(nessas horas
há um silêncio sempre
que vai se acordando
ao mesmo tempo
abafando tudo –
hoje esse estrondo).

Se eu passar ao seu lado
outra vez,
não soe alarmes.
Deixa quieto,
fica na tua,
mas não se afaste..

Enquanto há tempo
a manhã perdura —
enquanto há tarde,
noite que baste.

Com ela o atraso
era um breve torpor.
Depois acordava e, quando se viu,
passou rápido demais.

Foi menos grave ao seu lado
e mais eu sonho por isso
dos sinos que batem
sem muito alarde.
Apenas nos seus olhos
eu fiquei sempre acordado.

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Eu ontem beijei teus lábiosEu ontem beijei teus lábios

Pedro Salinas (1891-1951)
trad. do espanhol

Foi ontem que beijei tua boca.
Os lábios, a tensão
rubra. Foi um beijo tão curto,
durou mais que um raio,
mais que um milagre. Depois disso
não quis mais nada
e também nada havia pretendido antes.
Começou e terminou nele.

Hoje estou beijando um beijo;
e só, só com a minha boca.
Tocar a sua com meus lábios,
não, não mais …
– Como fui perder isso? –
Eu os coloquei
no beijo que te dei,
ontem, com as bocas juntas
do beijo que eles beijaram.
E esse beijo dura mais tempo
que o silêncio, que a luz.
Porque não é mais a carne
nem a boca o que eu beijo,
tudo isso foge de mim.
Não. Mas o beijo de
agora está durando mais.

Plumose AnemonePlumose Anemone

Verdades simples —
não se pode dobrá-las.

São como o óbvio, sem peso,
e, ao mesmo tempo, insuportáveis.

É o que se observa sem dolo
do que é desfeito sem zelo.

Cada qual reporte o seu fardo
e a sua carência de cor.

O tratamento que se dispensa
à memória e ao que passou:

síntese de um sentimento ambíguo
que nunca se esclareceu

no volume de um universo
agora repartido em dois.

2

Pessoas são ramos deitados
que o vento atira à praia,

tapetes de folhas brancas
para o passeio de um deus

que ensina com incômodos
muito mais do que com lições.

3

Seus braços de anêmona
deliram no mar profundo

espumando em bolhas vazias
e esponjas saturadas

(a areia nas profundezas
se reacomoda impalpável

para que volte a arrastar as
notas desse estranho solfejo).

4

Como a música se expande
da mente em direção aos sons,

o silêncio em silêncio percorre
do que se alimenta no chão.

As flores e o mal-estar
dos lugares repletos de gente.

5

Mas aqui só vejo o que escuto.
Há muito troquei os sentidos.

E de tocar o que me desmanchava —
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Os rostos são inexpressivosOs rostos são inexpressivos

Ricardo Guiraldes (1886-1927)
trad. do espanhol

Os rostos são inexpressivos.
O riso, o pranto, são de um a um e não de alguém a niguém.
Quanto tempo ante ao pampa desolado!
Com quem rir? Por quem chorar?
O silêncio nos lábios é tão habitual, que a palavra consoladora de nada serviria.
Somente ante a si mesmo o homem pensa e sua expressão transborda introspecção.
Rugas não virão senão como marcas do tempo.
E idades há apenas três:
A idade em que tudo o que se diz é: eu ainda não posso. A idade em que se pode sem dizer. A idade em que se diz: não posso mais.
Mas é na maturidade que se unificam a alegria de ter chegado já e o pressentimento da decadência.
Não protestamos porque para nós tudo é aceitação.