Circular Urca

(13.11.2020 – 28.11.2025)

Ela tinha um cabelão
e contei uma história
que não lembrava mais
de um pássaro que se moldou
em meio aos seus miolos moles
uma vez.

Num tempo cheio de horas vagas,
de quando não havia no que gastar
dinheiro que também não existia
(éramos iguais às sombras
encostadas sob a marquise
à espera do ônibus, na volta
circular Urca).

Ela tinha uns olhos verdes
em que nunca mergulhei —
nunca teria mergulhado.
Com minha sombra
eu protegia do solaço
a pele branca, por inteiro,
que mormaço..

E tinha um entusiasmo
que era gigante.
Cantava comigo qualquer coisa,
sem melodia, sem letra.
Nada que é bom
a gente na hora
pensa que presta

(nessas horas
há um silêncio sempre
que vai se acordando
ao mesmo tempo
abafando tudo –
hoje esse estrondo).

Se eu passar ao seu lado
outra vez,
não soe alarmes.
Deixa quieto,
fica na tua,
mas não se afaste..

Enquanto há tempo
a manhã perdura —
enquanto há tarde,
noite que baste.

Com ela o atraso
era um breve torpor.
Depois acordava e, quando se viu,
passou rápido demais.

Foi menos grave ao seu lado
e mais eu sonho por isso
dos sinos que batem
sem muito alarde.
Apenas nos seus olhos
eu fiquei sempre acordado.

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NovembroNovembro

Novembro me tirou meia dúzia
de palavras soltas na boca.

Palavras que, pensando bem,
não levariam a nada.

A não ser que me levassem a outro Natal,
esqueci o que faziam ali. E desde aí
inventaram a revolta de lançar-se fora
por conta própria — mas então já era dezembro.

Dezembro, que é mês de esperanças, ciladas
e estranhezas delicadas como esquecer.

Há prazos que pesam nos fatos demais,
as uvas açulando as raposas
com as mesmas mentiras de sempre.

No centro deteriorado do verão
todos dormem ou, antes, partiram.

Cada palavra é uma trinca quimera
que não pode nos escolher.
Nós que a dizemos, diria-se.

E o calendário dependurado apenas
um acaso de víspora, uma pedra cega,
mera orelha de lince o ciclone final.

E agora já nada sobrará
dos famintos aos famintos.
A sede? Suspende-se.. A porta? Sumiu…

No ano que vem, meu bem,
viajaremos antes que se conclua a primavera.

Acostumei-me a estar sóAcostumei-me a estar só

Ricardo Guiraldes (1886-1927)
trad. do espanhol

Acostumei-me a estar só, como o ombú foi acostumado à pampa.
Minha alma é uma esfera observando o próprio centro de sua força.
Para caminhar pela vida, mantenho-me nas pernas da vontade e da coragem.
A noção de minha própria existência me impede de desabar.
Viver é a obrigação a ser mantida.
Ignoro a covardia quando digo-me “eu devo”.