Antílope, 2

Por um momento só
o paraíso abre suas portas.

Lá dentro não há um deus,
mas um antílope

e ele tem a clavícula quebrada
e usa uma bengala torta

que guarda
num leito de relva e veludo.

Um deus que soubesse
seu nome o chamaria,

mas nem ele e nem eu
estamos interessados.

A porta aberta continua aberta.
Nós já não queremos sair.

Deixamo-nos confundir
pelo sol. E as árvores

nos derrubam como a folhas
soltas, perdidas, que voam.

Há dor demais com que lidar
e os ossos internos a percutir

um parentesco remoto
entre nós (mas nós esquecemos

de tudo em solidão). E roemos
com as mãos as unhas dele,

do casco que nos engasga
e a pele de que nos cobrimos.

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Margarida de AntióquiaMargarida de Antióquia

20/07 é o dia de Santa Margarida de Antióquia. Não é uma santa de grande devoção por aqui, mais no hemisfério norte. A história de Santa Margarida é milenar, data de cerca de 300 DC e transcorre no Levante, na Siria antiga, nos 15 breves anos do que teria sido a sua vida inteira. O seu primeiro registro é da época medieval, na Legenda Aurea, o célebre manuscrito de Jacoppo de Varage. O mesmo na qual a história de São Jorge, Santa Marta de Betânia, Santa Bárbara, São Silvestre, São Patricio e outros apareceram em contos escritos pela primeira vez, embora suas histórias fossem bem conhecidas na tradição oral e popular medieval. Naquele conjunto de incunábulos muitas histórias dos santos mártires se popularizaram na Europa cruzada e a santidade e a fé dos mártires serviu perfeitamente para encorajar os militares cristãos em sua batalha centenária contra os mouros. A história de Margarida, apócrifa, nem com iluminura contava.

A simbologia de Santa Margarida repete a de outros mártires que começavam a consolidar o cristianismo nascente durante o último século do império romano ocidental, entre a legalização de Constantino e o édito de Teodósio. Ela mesma teria vivido na época de Diocleciano. Nos séculos seguintes, contra a figura diabólica dos dragões e outras bestas, os mártires confirmavam o credo cristão para depois dissociarem-se na afirmação das primeiras monarquias absolutistas e não era incomum encontrá-los (os dragões) nos escudos e bandeiras da alta idade média, ali como uma lembrança da luta ancestral da qual emergiu (ou na qual foi erguida) a legitimidade das dinastias que governaram as monarquias europeias, cuja autonomia da influência da Igreja só foi se consolidar após a penosa revolução da qual resultaram a reforma, o liberalismo e a moderna noção de estado laico.

Mas há mais do que história factual na suposta (nunca comprovada) vida de Santa Margarida – há a história simbólica e o sacrifício do feminino que o cristianismo começou a empreender desde sua origem (só bem mais tarde com as ordens religiosas de mulheres). Em todas as histórias das santas mártires elas repetem o ciclo de Maria, mantém-se na pureza e depois são elas mesmas sacrificadas. Tornam-se exemplares e fonte de inspiração contra a malignidade e todas as suas tentações na forma dos dragões, normalmente tomados como metáfora diabólica mesmo. Ou meramente adversária..

E é incrível a forma como as mulheres vencem as bestas, se comparadas a São Jorge, por exemplo, que o faz de cima de um cavalo. As mulheres não raro entram em contato direto com os dragões, chegando mesmo a insinuar que seus poderes de persuasão poderiam domesticar o aspecto mais selvagem da besta-fera. Daí que, em muitos credos, a simbologia da luta entre razão x natureza, civilização x barbárie encontre um decodificação perfeita, exemplar, nos mitos cavalheirescos e, mais ou menos ao mesmo tempo, nas baladas populares. E, dessa aproximação, deve-se em muito o caráter diabólico e da contenção do corpo feminino, marcado pela simbologia fecundante, por isso maldito.

Alguns medievalistas, no entanto, e teólogos também, comentam como a Igreja abrigou em seu interior essa simbologia e a incorporou, tornando-se exclusiva portadora tanto de uma mensagem quanto da outra (o mal nomeado pelo bem é mal também), o que também explicaria a sua autoridade para executar obras em nome de Deus com violência, tais como o apoio a expansão de impérios coloniais e as tarefas inquisitoriais. Mas esse é um território muito complexo e, para mim, pouco claro. Dos meandros teológicos eu sei muito pouco, apenas que certamente não devem ser reduzidos a um maniqueísmo barato. Meu interesse é pelas alegorias e o que elas comunicam das crenças e crendices. Não os mitos, mas a mitologia cristã e pagã, e do quanto se confundem.

Na história dos dragões, nunca escrita, Santa Margarida é mais uma a esfolá-lo vivo com a fé imaculada. O dragão, que é o mal em forma de mal (logo não inteiramente mal), é o ser intermediário até o homem cristão e por meio dele será conquistada a purificação. Mito que atravessou as fronteiras no mundo da antiguidade, tanto no ocidente quanto no oriente, ele está na lenda de Siegfried, na de Uther, nos bestiários gregos e nas lendas hebraicas e sumérias. Está no símbolo da sabedoria das virtudes cardinais (até mesmo na Praça da Matriz, em Porto Alegre, sintetizada no brasão dos Bragança a quem Júlio de Castilhos sobrepujou), na alegoria política de Thomas Hobbes e também como domínio do imperfeito e do aspecto brutal do ser humano. Por tabela, das populações bárbaras por dominar e submeter, portanto, como o mal absoluto.

Margarida de Antióquia é a santa que, recusando-se a casar contra a vontade, converte-se ao cristianismo também contra a vontade do pai, um sacerdote de aldeia, por quem, por essa razão, é repudiada. Aprisionada, torturada ao extremo, martirizada, Margarida é a santa dos nascimentos e do bom parto, padroeira das gestantes e por meio de quem Jona D’Arc iluminou-se. No claustro, em solidão, encontrou-se (sem nenhuma razão aparente) com o mal na forma de um dragão e o subjugou (há versões apócrifas que dizem que fugiu da prisão dentro do seu corpo, num sacrifício carnal como querem alguns estudiosos do medievalismo), depois matando-o para renascer purificada e, por fim, morrer decapitada.

Na história cristã, virgem consagrada e inimiga ardorosa do paganismo. Na história dos dragões, que eu saiba, uma lenda só. Quase nada.. (carece de fontes)

* * *

Margarida de Antioquia
2017

Tenho lutado sem forças
contra o que nem posso saber.

Posso entender, no entanto,
o que de mim quer Margarida.

Com nome de flor do campo
e um olhar sereno que furta

o cansaço que dorme em meu corpo
quer me tirar a pele hirsuta,

despir-me até de minha alma,
levar-me embora da vida.

2

Para tanto, ela esculpiu-me
na pele de um monstro hediondo,

disse-me um sujeito tremendo,
implorou meu poder já desfeito

como se o quisesse portar,
parece, em seu corpo.

3

Eu, que buscava dormir
no profundo interior desta gruta,

despertei, como se dado a viver
na benção a mim conferida

pelos mais belos olhos
da alma mais quente dos prados

e fui encontrar-me com ela
para desde então ser banido

e do mundo dos justos aos ímpios
descer em poucos segundos.

4

Eu sabia meu nome dos livros,
mas, sem nunca haver pronunciado

uma queixa de dor ou lamúria,
ela o aprendeu de minha boca

como se eu que a tivesse chamado –
o seu tinha a beleza da vida…

5

Ela sabe e eu sei
que nenhum de nós deve morrer,

mas, de outra maneira,
a paz abandonará estes tempos

até um de nós perecer.
Lutaremos, assim deve ser.

6

Vestido das roupas mais velhas
para o seu corpo envolver,

pensei em levá-la comigo
a um ninho nos céus, um abrigo,

e em farrapos compareci
ao juízo e à ira do povo

parecendo um velho por fora.
Por dentro, o mesmo menino.

7

Minha pele é para ela envolver-se
e pensar que sou como ninguém.

Acima das nuvens, perto de Deus
ou ainda mais longe, além

de tudo e de todos, mas, do meu destino,
Margarida não quis saber.

E entregou meu corpo ao meio partido
no qual a levava comigo

aos mercados da Antioquia
onde nunca valeu um vintém.

Minha filhaMinha filha

Jennifer Franklin
trad. do inglês

Se você a visse, pensaria em como ela é linda.
Estranhos me param na rua para dizê-lo.

Se falasse com ela, veria que essa beleza
Não significa nada. Sua visão se deslocaria para os pombos

Na calçada. Seu contato com os olhos se tornaria
tão precário quanto o dela e escapariam lentamente

Com diferentes graus de graça. Eu nunca sei
O quanto dizer para explicar o desgosto.

Às vezes, lhes digo. Mais frequentemente fico em silêncio.
Com o sorriso dela cauterizando-me, firmo

Sua mão por todo o caminho até em casa, embalando-nos.
As mãos da florista entregam-lhe uma rosa já morta

Que ela guarda suavemente, sem rasgar as pétalas, como faz
Com as tulipas que olham para nós com sua expressão insípida,

Fingindo que podem aguentar o meu sofrimento
Em seus copos alongados, porque eu os conhecia

Antes de conhecer a dor. Eles não entendem que
Estão arruinados para mim agora. Eu plantei quinhentos

Bulbos que, como ela, germinaram dentro de mim, seu cérebro já
Formado por fios de nosso dna danificado

Ou qualquer outra coisa que os médicos não entendem.
Após o banho, ela enrola-se em mim para eu niná-la –

A única vez durante o dia que seu pequeno corpo permanece quieto.
Então eu canto, respiro nos cabelos lavados e penso

Nos esqueletos no Musée de Préhistoire
Em Les Eyzies. Os ossos da mãe e do bebê

Deitados em uma caixa de vidro nessa mesma posição
em que estamos. Eles foram enterrados de maneira incomum:

A criança enrolada na curva do braço da mãe.
Os arqueólogos estão intrigados com a posição.

Isso não me surpreende de todo. Seria fácil
Morrer dessa maneira, cada uma de nós no último suspiro,

Com rimas infantis em nossos lábios abertos
E a promessa de um sono tranquilo.

Circular UrcaCircular Urca

(13.11.2020 – 28.11.2025)

Ela tinha um cabelão
e contei uma história
que não lembrava mais
de um pássaro que se moldou
em meio aos seus miolos moles
uma vez.

Num tempo cheio de horas vagas,
de quando não havia no que gastar
dinheiro que também não existia
(éramos iguais às sombras
encostadas sob a marquise
à espera do ônibus, na volta
circular Urca).

Ela tinha uns olhos verdes
em que nunca mergulhei —
nunca teria mergulhado.
Com minha sombra
eu protegia do solaço
a pele branca, por inteiro,
que mormaço..

E tinha um entusiasmo
que era gigante.
Cantava comigo qualquer coisa,
sem melodia, sem letra.
Nada que é bom
a gente na hora
pensa que presta

(nessas horas
há um silêncio sempre
que vai se acordando
ao mesmo tempo
abafando tudo –
hoje esse estrondo).

Se eu passar ao seu lado
outra vez,
não soe alarmes.
Deixa quieto,
fica na tua,
mas não se afaste..

Enquanto há tempo
a manhã perdura —
enquanto há tarde,
noite que baste.

Com ela o atraso
era um breve torpor.
Depois acordava e, quando se viu,
passou rápido demais.

Foi menos grave ao seu lado
e mais eu sonho por isso
dos sinos que batem
sem muito alarde.
Apenas nos seus olhos
eu fiquei sempre acordado.