Poesia Antílope, 2

Antílope, 2

Por um momento só
o paraíso abre suas portas.

Lá dentro não há um deus,
mas um antílope

e ele tem a clavícula quebrada
e usa uma bengala torta

que guarda
num leito de relva e veludo.

Um deus que soubesse
seu nome o chamaria,

mas nem ele e nem eu
estamos interessados.

A porta aberta continua aberta.
Nós já não queremos sair.

Deixamo-nos confundir
pelo sol. E as árvores

nos derrubam como a folhas
soltas, perdidas, que voam.

Há dor demais com que lidar
e os ossos internos a percutir

um parentesco remoto
entre nós (mas nós esquecemos

de tudo em solidão). E roemos
com as mãos as unhas dele,

do casco que nos engasga
e a pele de que nos cobrimos.

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O bilheteO bilhete

O novo ano trouxe velhas penitências
bem embrulhadas, como presentes
preparados há tempos, de um antigo banquete.

Há tempos ouvindo a mesma coisa,
tomo cuidado com o que posso escutar.
Não são tantas lascas nas pedras, mas há.

É raro quando o comum se revela estranho.
É uma tempestade que permanece em segredo –
e o que existe se reveste de ausências.

Aperto os joelhos entre os braços, gasto
tempo demais com máquinas quebradas
e coisas arruinadas que nem valem nada.

Os olhos eu abro porque vai começar a chover.
Tudo parece tão limpo.. E, o frio, glacial.
O relógio é que bate cada vez mais cedo…

Desse modo qualquer um pode vir a morrer:
não há o sustento do sol e a noite vindoura
ainda dorme, malgrado lhe envie o bilhete.

Os dragões me vencemOs dragões me vencem

Juan Eduardo Cirlot (1916-1973)
trad. do espanhol

Vasculho no silêncio da gruta
as runas sob o branco da lua.
E, enquanto vou procurando,
afio minha espada com o nada.
Há algo no coração que é de dragão.

Eu luto contra um monstro, mas não o mato.

Buscar, continuo buscando:
o castelo do anel,
o estreito nessa voz branca.

Tenho um nome de sombra;
o meu não é um nome de homem.

Eu rasgo de preto para branco,
arranco do branco para o rubro,
eu rasgo do rubro; eu quero o ouro –
o ouro do seu ser e seu morrer,
cálice azul em que a luz descoberta
sela a lucidez do infinito.