Crítica Mulher do pai

Mulher do pai

Revista Sepé

O pampa, lugar sem limite certo que habita e desabita os campos, oceano verde que invade as cidades por suas bordas, que é povoado por gente, animais, veículos e que é riscado por caminhos, arroios e até ferrovias; o pampa, talvez por sua geografia e amplidão, território por excelência externo em masculinidade e doméstico em boa parte de sua representação feminina, ganhou em 2016, com o filme Mulher do pai, uma real invertida.

Escrito e dirigido por Cristiana Oliveira, exibido no Festival do Rio e em Berlim, o filme foi vencedor do Troféu Vertentes do Cinema de Melhor Filme, no qual levou ainda o prêmio de Melhor Atriz para Maria Galant, Melhor Atriz Coadjuvante para Verônica Perrrota e fotografia para Heloisa Passos. Mulher do pai coloca no centro de uma narrativa pampeana contemporânea a figura de uma adolescente de 16 anos que se vê na fronteira da infância e do mundo adulto. Apenas por isso, o filme já poderia constituir uma inovação temática ou de perspectiva, mas, além disso, além desse limiar, ele atravessa também a fronteira geográfica para dialogar com o excelente cinema produzido atualmente no Uruguai.

No filme, é Ruben, o pai de Nalu (Maria Galant), vivido pelo ator Marat Descartes, que está interiorizado ao ambiente doméstico. Cego desde os 22 anos, logo do nascimento dela e da morte da mãe da criança, ele faz trabalhos em casa, como o preparo de chás e temperos e a fiação em lã – prática tradicional na região da campanha riograndense. Filmado no vilarejo de São Sebastião e com impecável fotografia que privilegia a poética rural também no limiar da urbanidade, por outro lado as externas em sua maioria são protagonizadas por Nalu e é ela quem tem de decidir, após a morte da avó que praticamente criara pai e filha como irmãos, por ficar e cuidar do pai ou então partir para outras oportunidades de vida, em Porto Alegre.

No impasse estabelecido pela nova realidade em que passam a conviver pai e filha, que têm entre si um considerável distanciamento, vêm do outro lado da fronteira, do Uruguai, os personagens que vão catalisar o desenlace da trama e para ambos os personagens. A esse ponto, mais do que isso é desnecessário dizer, pois o filme se encontra disponível no Now e, apesar de algumas vezes exibido no Canal Brasil, é oportunidade única de ver-se (ou rever-se) a peculiar paisagem pampeana, seus hábitos e costumes mais interiores, mas numa perspectiva nada convencional. Seja pelo protagonismo feminino quanto pela atualidade temporal, o que se pode ver são pessoas vivas tratando e tendo de dar conta dos impasses humanos mais comuns e universais. É um toque de sensibilidade no trato da cultura rural e pampeana do RS como poucas vezes tem se visto recentemente em outras artes.


Roteiro e Direção: Cristiane Oliveira
Produção: Aletéia Selonk, Cristiane Oliveira, Diego Fernández
Realização: Okna Produções (Brasil) e Transparente Filma (Uruguai)
Música Original: Arthur de Faria
Direção de Fotografia: Heloisa Passos, ABC
Direção de Arte: Adriana Nascimento Borba
Elenco: Maria Galant, Marat Descartes, Verónica Perrotta, Amélia Bittencourt, Áurea Baptista, Fabiana Amorim, Jorge Esmoris, Liane Venturella, Diego Trindad
Realização: Okna Produções (Brasil) e Transparente Filma (Uruguai)
Onde assistir: Now on-line

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A nota amarelaA nota amarela

Meu caro Gustavo

Começo a te escrever sem ter concluído inteiramente teu livro. Quando isso me acontece, é porque nele algo me capturou como a presa que deve, talvez, ser idealmente todo o leitor. Ah, que história fabulosa a dessa violoncelista, meu caro amigo! Eu imagino que longos devem ter sido os dezesseis anos que o tempo desse concerto gotejou em tua mente! Imagino nem porque já passei envolvido com histórias alheias, de pessoas reais, por longo tempo também, e sei que, ao mesmo tempo em que desejamos avançar na narrativa, às vezes precisamos apenas parar e entender o que estamos fazendo e muitas vezes retardar imprevisivelmente qualquer insinuação de desfecho.

Mas não é por compartilhar da angústia de escrever que fui capturado, mas pelo desejo absurdo, sei que absurdo, de escrevê-la contigo. Não intrometer-me no teu fluxo mental, longe disso, mas de ver junto a ti e compartilhar aquele momento em que tu, como escritor, agias já mediunicamente. Bem, isso não é uma teoria minha nem tenho ensaio escrito a respeito disso, mas a sensação de se apoderar da biografia de alguém eu acho que fatalmente leva a que experimentemos até fisicamente sua condição.

No teu caso, que tratou de uma musicista que é possível inclusive assistir em execução em vídeo, penso que deve ser irresistível experimentar a sensação e a descoberta de que por meio da própria execução musical algo esteja ocorrendo sensorialmente, fisicamente. Que ousado isso, Gustavo! Muito corajoso mesmo!

Bem, até onde sei o amigo não é músico. Ou é? Ou, pelo menos, já experimentou utilizar dessa linguagem perecível, a menos duradoura dentre todas? Bom, não tenho essa resposta e nem acho que precise tê-la afirmativamente, mas eu te garanto que tua percepção do ato musical, mesmo externo, internalizou-se muito bem. Se estou errado, todavia, e pelo menos brincas de tocar um instrumento (e esse é o meu caso também), então deves saber a espécie de sensações e insights que a execução musical causa. Mas eu intuo que não, que tudo seja um exercício devocional. Devocional e especulativo. Depois me contas.

Voltando à leitura, bom, a sua primeira parte é de ler num instante só. Na duração do próprio concerto, se possível. Ou de alguns replays. E aqui eu confesso algo que poucos sabem, sou um escritor músico-dependente. Quero dizer que a música faz parte inteiramente da minha forma de concentração. Quando começo a escrever narrativas longas, preciso saber antecipadamente que trilha sonora me acompanhará e até o que estarei escutando no momento de atingir determinado momento. Isso tudo me aconteceu com o livro do pequeno Darwin, claro, mas, depois, com tudo o mais que escrevi. Sejam contos, novelas ou mesmo o romance Trapézio. Duvido que os leitores percebam isso, mas o andamento narrativo de cada um está/foi determinado por trilhas sonoras ouvidas exaustivamente. É uma pesquisa prévia que faço logo ao começar a escrever e não é apenas de motivação minha, mas de modulação, ritmo, harmonia e melodia. Para mim, ao menos, não há forma mais rápida de voltar ao estado de concentração anterior que sendo retomado pela música. Dito isso, volto ao teu livro e a sua segunda parte. Esta, eu ainda estou concluindo e me demorando bastante em refletir a respeito da tua experiência e percepção e comparando com minhas próprias convicções (?) ou impressões.

Ensaísta perfeito, e que consegue unir perspectiva de autor e leitor e ser humano ao mesmo tempo, é um deleite esta segunda metade e me cabe, sim, retardá-la e prolongar o tempo da reflexão. “Tempo”, aliás, tratado habilmente pelo amigo e isso posso ver pelo respeito que dedicas a essa dimensão física e metafísica. No capítulo IX do ensaio, encontrei como poucas vezes a expressão de um tormento que sempre me ocorre ao escrever, que é subordinação do tempo ao tempo. Ou ao tempo do tempo. Eu nunca sei… Porém compartilho inteiramente da sensação de que um narrador (especialmente se interno) dispõe de muitas camadas temporais para situar-se e, se não é possível perder-se no espaço, o tempo é, por sua vez, uma dimensão convidativa e apelativa. O amigo colocou no seu livro, com propriedade, um metrônomo e um cronômetro para instrumentalizar e “disciplinar” o tempo com conveniência e sem perder sua amplitude. Para mim, é um verdadeiro ensinamento.

Como quem padeceu igualmente de crises labirínticas, leio com calma teu ensaio e evito a vertigem da leitura desenfreada. Como aquele Teseu, adentro os domínios de Minos com cautela até porque em seu coração, além da nota amarela, sei que há um homem dominado pela paixão pela arte como poucos se encontram hoje, tenho certeza disso. De forma que agradeço muito pela oportunidade de encontrá-lo e de me permitir aumentar o momento narrado da cellista du Pré para de volta ao não-escrito, o espaço do leitor, que muito habilmente o amigo sabe respeitar.

Muito obrigado, Gustavo, pela leitura imensa que me deu no fim desse ano infindável. Vamos aumentar essas histórias, escrever outras, tomá-las e sermos tomados por elas como a música que preenche tudo e ao mesmo tempo se esvai, porque, se não, a vida é mesmo um escorrer vazio da areia que nos entontece e perturba. Por nos desfazer e a si própria no tempo, mas por nos conduzir, a música é, como insinuou Joseph Campbell, o sangue invisível dos deuses. Há livros que fixam esses momentos por uma intuição à nota amarela. O teu é um mapa muito pessoal desse encontro, mas dadivoso como é em essência a natureza humana do amigo.

Texto adaptado de correspondência enviada ao autor de
A nota amarela seguida de “sobre a escrita: um ensaio à moda de Montaigne”,
de Gustavo Melo Czekster (publicação da Zouk, 2021).

Poesia vestida de jazzPoesia vestida de jazz

Artigo publicado no Caderno DOC do jornal Zero Hora, 09/12/2023.

No finalzinho de novembro, esteve em Porto Alegre o poeta Marco de Menezes para lançar o seu sétimo livro de poesia, Os Ternos de Charlie Parker e Outros Poemas. O livro saiu pela 7Letras, do Rio de Janeiro, e contou com o apoio cultural da Fundação Marcopolo, de Caxias do Sul. De acordo com ele, na conversa que ocorreu antes da sessão de autógrafos, trata-se de um livro que se antecipou a um anterior, inédito, e ganhou vida após um trabalho de releitura e edição que ele confessou fazer contando com a leitura e opinião de amigos.

Vivendo em Caxias do Sul desde a década de 1980, onde trabalha como médico, Marco teve seu primeiro livro de poemas, As Horas Dragas, publicado em 1999. Dez anos mais tarde, com Fim das Coisas Velhas, o primeiro dos livros editados pela lendária Modelo de Nuvem, venceu o Açorianos de poesia. O livro também foi o eleito o o “livro do ano” naquela edição do prêmio. Foi a primeira vez que um livro de poesia levou a dupla distinção.

Para aqueles que ainda não leram sua poesia, é prudente considerar que seus antecedentes vão mais para trás de seus livros iniciais. Começam ainda em Uruguaiana, sua cidade natal, e a influência subliminar de sua paisagem, a um tempo só impoluta e irrecuperável, costuma aparecer bastante em sua poesia, quase sempre em contraste a Caxias do Sul e sua inclinação industrial e capitalista. Também que os poemas longos, digressivos, muitas vezes se parecem a contos que se concluem no inesperado, em momentos líricos e abstratos, contrastando os desfechos narrativos mais definitivos. Pelo contrário, a sua poesia serve-se de planos abertos, prolongando-se para além do poema e que continuam a falar após a leitura. É mais comunicativa do que enunciativa e, por isso, muito envolvente.

Mas há também nesses antecedentes, não menos importante, uma nítida influência da literatura beat e do jazz, tantas são as vezes em que Marco se refere ao estilo musical e seus compositores, especialmente o saxofonista Charlie Parker, cuja ascese musical e espiritual rende ao livro seu ponto alto e também seu título. O mais cosmopolita e livre dos estilos musicais ouve-se muito nos poemas de Marco. Está presente nos ritmos assimétricos, no verso livre desamarrado (mas não frouxo) e ainda mais na liberdade de forma que nunca antecipa nada de sua dicção poética, garantindo a guinada, a surpresa e, às vezes, uma inesperada e familiar volta ao tema.

Se comparada à produção poética mais contemporânea, muito atenta aos efeitos e insights rápidos, no livro de Marco há como um reencontro com uma poesia menos impressionante e mais impressiva. À leitura, se quer entender o que diz e o que ela nos importa. Isso sempre com uma simplicidade de forma que desarma os leitores, sem dúvida terna, revelando aí uma das polissemias do título do livro e que, como numa prosa com pausas, vai lançando luzes sobre a memória, as pessoas e seus afetos, a paisagem e suas dubiedades externas e internas. É um livro que dificilmente um leitor atento se recusa a participar, porque imbuído da serenidade de quem não precisa provar coisa alguma com sua poesia.

A verdade é que não há muita distância entre a linguagem natural da pessoa e a poética do artista, e isso lhe confere, nos dois campos, uma aura de familiaridade impressionante, eliminando um tanto a distância entre persona e pessoa, ou suprimindo-a.

Como nas longas digressões sonoras de Charlie Parker, o instrumentista que extrapolou as sonoridades de sua época com inovações estilísticas que revolucionaram a música do século 20, a poesia do novo livro de Marco de Menezes transgride o minimalismo vigente e busca vestir “os ternos” de Charlie Parker para se apresentar novamente na poesia publicada por estes dias. A diferença será notada sobretudo por quem se encontra aberto à liberdade e a certo acento melancólico de uma poesia que pensa a vida com uma espécie de blue note. Tocante porque se percebe o quanto pouco arquitetada ela é, e imbuída de vida verdadeira. Quando se reencontra com a poesia de Marco de Menezes é difícil pensar em como conseguimos passar por esses anos de tumulto, pandêmicos, e não ter mais disso. Sorte dos leitores de poesia que o próximo, ainda que anterior a este, já está pronto também e não deve demorar a dar as caras por aí, trazendo de volta aos leitores a temática intimista e seu tom coloquial inconfundível.