Os cativos

Revista Parêntese, ed. 123

Na Argentina e no Chile, principalmente, o tema da “cativa” é recorrente desde o romantismo de Echeverria e parece ter chegado com força ao séc. XXI. É uma figura histórica que, ao que eu saiba, nunca figurou na literatura rio-grandense, mas, nos países hispânicos, é tema regular desde o romantismo a imagem da cautiva capturada pelos malones dos índígenas pampeanos.

Começa em Echevarria, passa por Juan de San Martin, entra nas canções de Ariel Ramirez e Félix Luna e, recentemente, figurou num romance que chegou ao Man Booker Prize em 2020, “As aventuras da China Iron”, que narra nada menos que a fuga para os territórios indígenas da esposa infeliz de Martin Fierro. No antimodelo feminista neo-romântico desse último, nada daquilo de louvar as mujeres robadas. Há, por outro lado, uma busca idealizada por uma vida de liberdade entre indígenas libertários.

Por aqui, na literatura do Rio Grande, os indígenas comparecem muito menos e isso competiu por séculos numa dúvida histórico-antropológica: ou eles foram dizimados na colonização paulista ou foram reciclados na genética mestiça do gaúcho, um dos únicos matizes da miscigenação com uma caracterização vencedora na história cultural brasileira.

É bem verdade que os escritores gaúchos do séc. XX, a começar por Simões Lopes Neto, que foi recuperar a lenda de Sepé da tradição popular, buscaram recompor um lapso considerável que se explica em muito pela “idade” do Rio Grande comparado, por exemplo, a Buenos Aires, fundada em 1580. Politicamente, o Rio Grande do Sul nasceu apenas poucas décadas antes da Revolução Farroupilha, então parece inevitável que o gaúcho brasileiro aconteça histórica e literariamente quase ao mesmo tempo do indígena, quando um deveria preceder o outro. Na Argentina, a situação é outra. Lá, o antecedente seminal é o próprio indígena. Ele que é o elemento anterior (tanto que o folclorista e cantor Atahualpa Yupanqui diz em uma de suas composições: “detrás, hay un indio“).

Por aqui, a própria disputa em torno a Sepé querelada na década de 50 pelos integrantes do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul reforça a frouxidão deste nó histórico. Nossas referências habituais, apesar disso, são as missioneiras e não as dos indígenas “selvagens”. Malones e cautivos não aparecem na literatura rio-grandense porque os registros históricos encontraram o Rio Grande do Sul já no desenlace das etnias originárias e os nossos indígenas pampeanos não registraram sua passagem no mundo, eles que foram registrados. Todo o legado vem indireto, como quase inteiramente precisamos importar do Prata um folclore e motivos. No Guia do Folclore Gaúcho (1951), de Augusto Meyer, ele já alertava quanto à “pobreza do acervo indígena incorporado ao folclore gaúcho”.

Por essa razão, parece meio postiço e ilusório falar em “herança” charrua. Se os brasileiros tiveram algum interesse nos charruas que não fossem os mesmos dos espanhóis (colocá-los em guerra a serviço dos colonos), teríamos uma postura mais decente com o uso do nome da etnia. Os uruguaios pelo menos vêm tentando fazê-lo com literatura de muito boa qualidade, como o Bernabé, Bernabé (1988) de Tomás de Mattos que Sergio Faraco traduziu para a Mercado Aberto e é pouquíssimo debatido aqui, como se a história dos charruas não nos pertencesse, apenas o seu nome. Por outro lado, os rio-grandenses ainda parecem estar buscando representar legado mais significativos dos povos originários, num afã de recomposição cultural. Na literatura, no entanto, ainda não arredamos muito o pé do pobre Sepé, morto e bem morto. E justamente por quem…

Eu não sei bem o que houve aqui, creio que ninguém se arrisca peremptoriamente, mas acredito que de tudo um pouco. Em relação aos indígenas, mantemos uma relação extremamente dúbia. Ora recusamos sua contribuição ao legado cultural e reivindicamos o europeísmo colonial ora homenageamos etnias que, junto aos hermanos uruguaios, contribuímos em extinguir da face da Terra: principalmente as tribos charruas, minuanas e etc. É o que dizem as evidências históricas.

A nossa tendência contemporânea de ideologizar a vida das minorias massacradas por vezes parece ter os mesmos compromissos com a factividade dos românticos do séc. XIX. O indígena gaúcho parece mesmo ter sido sempre um ser evasivo, duro e indócil, como muitas tribos das Américas que renunciaram à paz submissa com os colonizadores. E é bem provável mesmo que tenha se extinto detrás do clamor das guerras e malones. Mas nem por isso eram anjos. A idealização dos brancos, todavia, é tinta que não lhes sai fácil do rosto. Passa o tempo, e o máximo que acontece é uma dar lugar a outra.

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O contemporaneismoO contemporaneismo

Tive de um determinado professor a pior leitura possível da famosa aula de Agamben sobre o “contemporâneo”. No dia da exposição, foi quase intolerável. Minha vontade era de sair porta afora, fugir mesmo, mas, usando de muita meditação, consegui aquietar o espírito e tratei de me ocupar mentalmente com outras coisas. Só por isso mesmo consegui. Não é sempre que consigo, mas, em vista da necessidade, foi preciso tentar. Naquele momento, tentar desesperadamente.

Hoje, porém, creio que entendo a razão de todo aquele embananamento expositivo: o “contemporâneo” parece mesmo ser marco mais da temporalidade objetiva que subjetiva, ainda que subjetivamente ninguém esteja condenado a pensar e a viver de um modo regular, basta que assim o deseje. Subjetivamente, como queria o italiano, cada um submerge no tempo que melhor entender.

Talvez para adictos ontem aos jornais e, hoje, às redes sociais, o tempo tenha o mesmo efeito de uma algema, de uma bola de ferro, mas, justamente, a literatura pode mesmo ser o passaporte ideal para escapar a esse aprisionamento. Para os reacionários e retrotopistas, sempre há uma fuga/abrigo no passado idealizado. Para os visionários e utopistas, uma margem ainda. E para os céticos, como eu, uma busca inextinguível, um labirinto no qual é possível mover-se com liberdade, mas na condição (ou ônus) de desconhecer a possibilidade de uma saída.

No célebre ensaio Dentro da baleia, George Orwell diz que um escritor está na moda quando é muito lido por quem tem menos de trinta anos de idade. Escrito em 1940, acredito que seja tranquilo dar atualmente pelo menos uns dez anos a mais nessa conta. Quarenta anos atualmente significam os trinta de dez atrás (ou vinte), considerando especialmente a expansão da adolescência e seu voraz abocanhamento em direção à adultez. Orwell ainda assevera que, invariavelmente, essa é uma espécie de sucesso que data a si mesma e sua contraparte seria uma pequena chance de sobrevivência estética. Mesmo assim, de acordo com ele, tais obras costumam ser o testemunho mais fiel de uma época, pelo menos do estado de espírito “juvenil” da época.

Do ponto de vista comparativo, pelo menos na minha opinião, a estética contemporânea tem por principal predicado ser isso mesmo: contemporânea. E seu atrativo é mais por inerência à aparência de novidade e dicção do que propriamente uma questão de qualidade descritível. Valham-me os gregos que ainda hoje despertam a atenção e seus padrões que ninguém ousa taxar de “antiquados”. E tudo nesse intervalo até aqui, que, de tanto, nem vale elencar tanto. Nem vale e nem caberia.

Quanto ao conteúdo “intempestivo”, também é preciso dizer que isso já foi tentado e realizado à exaustão. Tanto que, talvez por contraste, uma simplicidade de motivos ainda às vezes me parece mais assombroso. Simplicidade que não é o mesmo que simplismo, não custa dizer, mas um senso de propriedade menos atento à aparência dos objetos do que a sua essência, independente do caráter mais ou menos volitivo da proposta autoral. O que também não quer dizer o mesmo que o saudosismo, mas uma entrega da atenção a exigências outras que o imediato. O imediato é o sangue do contemporâneo e nós muitas vezes agimos como espécies peculiares de vampiros, como numa debandada pela sobrevivência por meio de um presumível (mas nem sempre verificável) rejuvenescimento.

Qualquer escritor que tenha já desejado ou escrito a respeito de uma época fora da sua deve ter notado a necessidade de anular as referências contemporâneas e situar-se no máximo a uma meia distância do tempo presente, no qual se vive, e a meia distância do qual se está procurando submergir. Todavia é impraticável, mesmo considerando as melhores capacidades mediúnicas de um autor, que ele consiga imitar ou emular o espírito de uma época que já passou, especialmente se ele não a viveu, mas conheceu apenas literariamente ou por testemunhos.

De outra parte, a literatura tem limites expressivos e o mundo da leitura, no que toca ao leitor, outros limites introspectivos. No séc. XX, por exemplo, foi possível contar-se com o cinema que, em inúmeros casos, consegue ser muito fiel e feliz em sua representação. Mesmo o cinema, entretanto, tem limitações porque ocorre a posteriori e mesmo documentários participativos têm a condução autoral que atende especialmente às intenções do autor. Assista-se a um documentário a respeito da Segunda Guerra Mundial, por exemplo, e mesmo assim não se conseguirá assimilar toda a tensão psíquica do momento pela observação cinematográfica, mesmo quando recolorido.

Um pouco mais atrás, encontramos a Virginia Woolf de Três Guinéus pedindo atenção à fotografia de guerra, na Primeira Guerra Mundial, estampada nos jornais do mundo inteiro, ainda que com um delay de dias, semanas ou meses, dado que a transmissão fotográfica ainda era, em meados dos anos 20 do século 20, realizada exclusivamente por meio postal. “Nós estamos vendo, com o senhor, os mesmos cadáveres, as mesmas casas destruídas”, ela apela e ainda assim o seu clamor à obviedade do horror limita-se em garantir a veracidade de um testemunho, pois, a não ser objetivamente, nenhuma paisagem se repete para dentro da retina do ser humano, onde ele sopesa experiência e sentimentos essencialmente desiguais de forma necessariamente particular e irrepetível.

Daí para trás, apenas a arte e, entre todas, a poesia, talvez por seu caráter mais intimista parece que mais tem servido para dar conta da apreensão do espírito predominante nas diferentes épocas. E isso vale para o séc. XIX, quando o romance de costumes passa a competir e ganhar atenção popular, e o tempo em direção ao imemorial, chegando-se sem muita dificuldade em Homero e na poesia grega ou nos demais vestígios da antiguidade.

No entanto, no contemporâneo, a poesia é o reduto preferencial do anacronismo se comparada, por exemplo, ao romance estrutural. Nela, coexistem formalmente sonetos alexandrinos, o verso moderno e livre e os experimentalismos grafo-visuais. No que diz respeito ao debate público, todavia, trata-se de uma presença auto limitada. Salvo se o poeta escreve regularmente uma coluna de crônica ou crítica, a sua existência não é computada no meio intelectual como seria, por exemplo, até os anos 50 do séc. XX, quando a poesia contava com um espaço de publicação popular na maioria dos jornais importantes e os grande nomes modernistas gozavam de certa popularidade.

No multiverso do séc XXI, o espaço literário é esquálido e cada vez mais absorvido pelo sumidouro das mídias digitais. O contemporâneo é cada vez menos duradouro e notável e reside mais numa expectativa do que numa consolidação. É uma paisagem que não flui e nem se toca, mas espelha-se por força da reação direta dos demais, para daí se dissolver. Como afirma o professor e crítico Alfonso Beradinelli, em seu Direita e esquerda na literatura (Âyiné, 2016), o presente, se contraposto apenas a si mesmo, sem perspectiva histórica, torna-se auto-referencial.

Em tempos que o moderno é disputado a unha por críticos e escritores que a cena literária distingue cada vez menos, a sorte às vezes é como a solução de uma roleta. O melancólico dos sistemas competitivos (como o literário) é que a exclusão cria uma espécie de vácuo de distinção dos mais aptos a encarar as exigências estéticas e morais da contemporaneidade (ultraneoliberal, conforme aprecia repetir o filósofo cult destes tempos, o germano-coreano Byung Chul-Han). Nesse aspecto, conceitos como bibliodiversidade e universalismo literário perdem-se no vazio gerado pelos sistemas de legitimação e no espólio verificável dos mais vendidos. Tornam-se palavras ocas, pois o contemporâneo encara desinteressadamente, como o angelus novus do “conceito de história” benjaminiano, para o que ele mesmo simultaneamente produz e espedaça.

Paul Klee – Angelus Novus

Casa 11, telefone 09Casa 11, telefone 09

Escrevo para não enlouquecer. Com essa frase, Nydia Bonetti se apresenta em muitos sites e revistas onde tem poemas publicados. Não é uma frase à toa, pelo contrário. Além de qualquer coisa, mostra que a poeta crê, de fato, na possibilidade de ser remediada por intermédio do ato criativo poético. Fica mais fácil entender que é alguém que leva a sério a sua criação e isso não quer dizer que se autovaloriza por isso, mas que empenha a sua saúde emocional nos versos que cria. Realmente, se nota a emoção rapidamente na sua poesia, ainda mais com um livro autobiográfico como 𝗖𝗮𝘀𝗮 𝟭𝟭, 𝘁𝗲𝗹𝗲𝗳𝗼𝗻𝗲 𝟬𝟵 (Urutau, 2021).

Eu sempre tive um pouco de dificuldade com poesia mais biográfica, que conta a vida. Acho que menos pela poesia do que pela vida. Tenho um tanto de receio do que a poesia pode realizar existencialmente. Mais receio pelo traço biográfico e do indevassável da experiência de cada um. Por outro lado, adoro livros de memórias e romances de formação, especialmente se tratam da infância, esse momento tão deslocado da vida adulta e também tão breve. Receio de conhecer demais da pessoa pela sua poesia e de me sentir por isso mesmo algo invasivo.

Com o livro de Nydia, no entanto, eu passei longe dessa dificuldade. Mesmo quando seus poemas breves funcionam como pinturas ou retratos, esse é um passeio conduzido pela sua mão. Sente-se a poeta contando o que é paisagem trivial, o que são personagens e o que são memórias. A poeta no caso não intercede no seu passado, mas flagra-o em seu potencial de efemeridade. E vê além de si, vê dos outros, da casa de infância e dos lugares sensitivos que ela vai colocando como se em haleto de prata para então comunicar uma nova realidade só agora revelada, pela combinação da ação do tempo e da palavra.

Quem escreve a casa da infância e a infância corre o risco de pensar num interlocutor que também a conheça. Mas a casa não fica como um ente, ela é absorvida pelos seus residentes, ela é “a casa onde moro”, lacrada pelo afeto e destelhada pelo “vendaval do tempo”. Quem escreve a casa da infância aceita desabrigar-se do lado de fora, do inevitável distanciamento. Ali, as árvores estão ou não estão por artes do esquecimento. Os objetos estão descorporificados, já não têm substância, só essência.

É um livro para o qual bastaria determinar um elogio para ser descrito, o de Nydia. Os pequenos poemas todos são uma história só. História da sua vida que ela tinha mesmo de escrever, porque para quem cuida da memória afetiva (sua e a dos outros), um livro é um espaço de dignidade, de auto respeito.

Olho para o meu aqui, com o seu autógrafo, e vejo que é um livro que me fez mudar até minha forma de ler; ou que me permitiu ler sem grandes artifícios, pela sua simplicidade encantadora. Um pouco eu sabia que ele seria assim porque já o havia divulgado na Sepé, por gentileza da Nydia, e também porque já gostava muito da sua poesia. Mas não sabia a magnitude desse presente que me dei ao comprá-lo. Agora eu sei.