Desde o último 19 de abril, quando remarcam o Día del Aborigen Americano, os argentinos têm estado a ver-se com um capítulo terrível de sua história: o massacre de Napalpí.
Promovido pela Unidade de Direitos Humanos da Promotoria Pública Federal da cidade de Resistencia e conduzido pela juíza federal Zunilda Niremperger, o caso é caracterizado como crime contra a humanidade e, por sua imprescritibilidade, consiste mais numa busca pela restituição da verdade do que pela condenação dos envolvidos. Explica-se: o massacre dos indígenas Qom, Tobas e Mocovis reduzidos na província do Chaco ocorreu há quase um século, em 1924; portanto, quase a totalidade dos diretamente envolvidos já não vive mais. Mesmo com tanto tempo passado, o processo tomará em conta relatos de dois sobreviventes centenários do massacre e de diversos descendentes dos indígenas vitimados.
Pela crueldade, massacres não constituem sequer etapa do processo de colonização, mas uma abominação das relações humanas e políticas. No entanto não há outra forma de denominar as condições das mortes dos indígenas argentinos e da produção do “conflito”.
Desenraizados por completo das condições de vida habituais, as cerca de 400 pessoas assassinadas viviam em reduções, isto é, em aldeamentos organizados pelo governo da província do Chaco para o trabalho nas cosechas (plantações de algodão comuns na região). O “conflito” teria se iniciado a partir de um protesto dos indígenas a respeito da maneira com que se lhes remunerava o trabalho executado. A resposta governamental veio na forma do metralhamento indistinto da população, causando inclusive a morte de velhos e crianças.
Desde então e até há pouco, quando descendentes passaram a recuperar a história, o crime tornou-se um tabu nacional. Debitado a uma suposta violência reativa dos indígenas que resistiam a trabalhar de forma quase escrava (em troca de vales alimentares) no território em que seus antepassados viveram livremente, até mesmo a invocação dos temíveis malones na imprensa local e buenairense motivou a criação de uma força-tarefa comum entre agentes públicos e voluntários. O objetivo era um só: a eliminação total dos reduzidos.
Em 2008, quando o governo provincial do Chaco formalizou um pedido de desculpas públicas pelo massacre, entidades como a EAAF (Equipo Argentino de Antropologia Forense), a Fundación Napalpi e o Ministério Público Federal argentino iniciaram os trabalhos de reconhecimento das vítimas depositadas em valas comuns e organização documental. A publicação de La Voz de La Sangre, livro de um dos fundadores da Fundación Napalpí, motivou a retomada das investigações históricas adormecidas por quase um século. Agora, com o início do processo, serão ouvidas dezenas de descendentes diretos dos poucos sobreviventes que se refugiaram nas florestas nativas. Do massacre executado com requintes de crueldade e no qual até mesmo um avião foi utilizado, a anciã Melitona Enrique, com 107 anos em 2008, dizia preferir esquecer a semana em que “los cuervos estuvieron una semana sin volar“.
Mesmo incapaz de recuperar a vida dos massacrados, o ato e a busca pela reparação empreendida pela justiça argentina são demonstrações públicas do desejo de rever uma relação colonial marcada por séculos de violência simbólica e real. Se, na época do massacre, a tríade de violência, ódio e animosidade bastava para alijar a população indígena dos mais elementares direitos humanos, o inexplicável ambiente de guerra total finalmente parece dar vez à racionalidade histórica.
Com sua tradição oral tomada em conta em juízo, indígenas e seus descendentes terão a oportunidade de colaborar ativamente na recuperação da verdade acerca do rompimento de sua própria continuidade histórica. A vulnerabilidade das vítimas confrontadas ao esforço oficial por apagamento e negação. Bem como na condenação dos “voos da morte” e crimes da ditadura recente, em 2017, é justo reconhecer o esforço argentino em encarar seus fantasmas de frente. No esforço decolonizante, também estão passos à frente dos brasileiros. Crimes da mesma espécie provavelmente não nos faltariam para comparar e enfrentar, mas é pena que não parecemos preocupados em rivalizar com os hermanos nesse aspecto.
Quem observa a ferramenta de busca a seguir, quase idêntica ao formulário oracular do Google, não imagina que a consultando desde alguma cidade norueguesa poderá ter acesso integral a quase todos os livros publicados no país (até 2025, eles pretendem que sejam todos mesmo). Sem pagar nada por isso, sem correr o risco de ser processado por pirataria e nem de prejudicar o negócio de ninguém. Sim, isso mesmo.
Captura da tela principal do website da Biblioteca Nacional da Noruega
Não obstante a estranheza do parágrafo acima, aqueles que pensarem que as medidas de digitalização tomadas pela Biblioteca Nacional da Noruega têm impactado negativamente a cadeia do livro norueguês irão surpreender-se ainda mais: por lá os números editoriais mantêm-se estáveis, e os livros podem ser inclusive adquiridos em livrarias que as próprias bibliotecas abrigam. Além disso, lá se publicou no último ano um livro para cada 530 pessoas, contra um para cada 4.500 brasileiros. Proporcionalmente, o pequeno país escandinavo publica cinco vezes mais que o Brasil.
Não convém criar caso, manda a prudência, com um sistema que funciona. Muito mais produtivo seria entender como isso pode acontecer e, se possível, tomar de alguns bons exemplos e práticas. Além do mais, comparar o Brasil aos países nórdicos é receita certa de dor de cabeça neste e em muitos outros assuntos. Também entender o que se passa aqui quanto ao assunto é fundamental, mas cada coisa em seu tempo. Escandalizando os sistemas educacionais do planeta com um modelo inteiramente subsidiado e gratuito, a Finlândia tornou-se, por exemplo, uma espécie peculiar de vilã internacional. Mas toda a vilania finlandesa consiste, afinal, em ter elevado a régua da qualidade educacional ao máximo possível, num sistema no qual o filho do chanceler divide tranquilamente a classe com o do recolhedor de lixo. Além da política educacional, todo o sistema de proteção social do país é escandalosamente funcional e democrático.
Mas uma vez que repetir o modelo educacional finlandês costuma causar depressão nos brasileiros, o modelo bibliográfico norueguês poderia inspirar medidas que cumpririam ambições mais modestas, mas exequíveis, tanto no que diz respeito à conservação da memória quanto ao desenvolvimento cultural.
Para chegar a um sistema online como o de que dispõe hoje, a Biblioteca Nacional da Noruega ampara-se no instituto do Depósito Legal, em negociações com as casas editoriais, com os proprietários de direitos autorais, em parcerias estratégicas com o uso de tecnologia digital e formação de um repositório livre, em acordo com a missão legal e prerrogativas da biblioteca e os pressupostos do Depósito Legal. Ao menos em tese, são instrumentos acessíveis a qualquer nação do planeta.
O Depósito Legal, no caso, é instrumento adotado em praticamente todos os países, por ato legal próprio, e vem modernizando-se no rastro da inovação tecnológica. Em torno da virada do milênio, primeiro a UNESCO e na sequência a IFLA (International Federation Library Association) publicaram diretrizes de modernização do instituto prevendo a inclusão óbvia de documentos digitais e orientando os sistemas de controle bibliográfico a incluírem em seu escopo muito mais que livros impressos, além de estes serem digitalizados. Isso tudo em função da razoabilidade técnica e do cumprimento dos dois objetivos fundamentais do Depósito Legal: preservação e acesso aos registros do conhecimento.
O que a Noruega guarda de diferença do Brasil, no caso, foi o fato de lutar para que estes objetivos não se configurem uma bela e inatingível meta, mas uma realidade factível. As demais estratégias são empreendimentos políticos e de gestão que encontraram um ramo editorial interessado em investir para além do comércio puro e simples. Não por acaso, muitos países vêm buscando seguir seu exemplo e negociar com os detentores de direitos autorais a cessão de uso ao menos para fins educacionais. Pode-se falar na Nova Zelândia, na Austrália e também em projetos nos Estados Unidos que, na história recente, receberam investidas jurídicas importantes no sentido de contrapor interesses comerciais e públicos.
No exemplo norueguês, no entanto, os inimigos do livro não são a tecnologia nem as bibliotecas, e lá o livro vale mais do que pelo que é vendido. É uma diferença sobretudo cultural que evidencia o abismo imenso, e, no caso brasileiro, parece nos encalacrar e condenar à estagnação de um mercado perenemente problemático, isso num um país que se notabiliza ano a ano por um decréscimo em seu número de leitores.
Permanência vs invisibilidade
Para aqueles que ainda imaginam que basta publicar para eternizar um trabalho de ideias, é dura a informação, mas a verdade é que publicar não é o suficiente. No Brasil, o ciclo de vida comercial de um livro dificilmente passa dos dois anos. Três anos só mesmo para os longevos ou com forte apelo popular. Após esse período, é preciso considerar não ser nunca mais encontrado em lugar nenhum, a não ser em visitas às poucas bibliotecas em condições orçamentárias, isto é, em condições de atualizarem-se, pois o ciclo de vida do livro é curto, ao contrário dos longuíssimos direitos autorais.
Para comprovar essa afirmação, é suficiente buscar livros publicados antes dos anos 2.000 para constatar a dificuldade. Não se encontra. Há não muito tempo, um clássico nacional como Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, só era possível obtê-lo trocando pelo valor de um automóvel usado. Depois de 30 anos de ausência nas prateleiras das livrarias, apenas recentemente uma reedição alcançou a obra do sociólogo. Assim como ele, uma imensa bibliografia compreendida por livros esgotados de interesse histórico, que no mercado de usados extrapolam muitos milhares de reais para adquiri-los (como exemplo, é suficiente consultar neste link os livros mais caros à venda na Estante Virtual. São livros protegidos pelo direito autoral e pelo pecado da ganância.
Capa da 6ª edição da Ed. José Olympio de Raízes do Brasil (reprodução)
Todavia este não é um problema apenas histórico. Com novas tiragens cada vez mais reduzidas, é preciso entender a gravidade do problema e do custo dessa política em longo prazo. É que, fora dos grandes negócios editoriais, as pequenas tiragens impõem-se cada vez mais como as únicas viáveis. Se isso pesa no que toca ao universo de leitores, imagine-se então o impacto no controle bibliográfico, isto é, no conhecimento que o sistema editorial tem a seu próprio respeito.
Embora regulado no Brasil desde 1907 e existente desde o período colonial, por meio da Imprensa Régia, o Depósito Legal é um projeto frustrado muitas vezes pelo desconhecimento dos autores e editores nacionais, mas também por uma cultura descompromissada com a preservação das fontes e permanência dos bens culturais.
Para a felicidade dos especuladores do livro, leiloeiros e sebos que vendem a preço de diamante livros que por nenhuma outra razão não se encontram ainda disponíveis em meio digital, o Depósito Legal brasileiro claudica. O enfrentamento a essa situação não é simples, no entanto parece ser a única forma para que o ambicionado desenvolvimento cultural saia do papel para tornar-se um pouco mais real.
A frustração da biblioteca universal
Com a expansão da internet, a chegada da computação quântica e a facilidade de armazenamento, o sonho da biblioteca total não poderia ter maior viabilidade do que no mundo contemporâneo. Mesmo assim, nunca foi tão postergado quanto agora. No ciberespaço, dado o infinitesimal que cada brochura representa diante da imensidão da internet, e enquanto ele não se concretiza pela vontade oficial, em seu lugar prospera um mundo paralelo onde circula com muita facilidade o extremo oposto ao interesse editorial: a pirataria.
Mas a biblioteca universal é sonho antigo e recorrente na humanidade. Em Alexandria, a biblioteca não foi criada no Museion com outro objetivo que não fosse o de reunir o maior número possível de obras e facilitar a vida dos pesquisadores. Jorge Luis Borges, em suas obras completas, menciona o termo “biblioteca” quase duas centenas de vezes; em onze delas, o exemplo de Alexandria e da sobrevivência do conhecimento diante da intempérie da guerra e das invasões.
Muito recentemente, precisamente em 2004, o Google anunciou ao mundo o seu projeto Google Books, que na época consistia na digitalização de 10 milhões de títulos com direitos autorais decaídos das bibliotecas de Stanford, Harvard, Oxford, da Universidade de Michigan e também da Biblioteca Pública de Nova York. Não muito tempo depois, as big five, ou seja o pool composto por Simon & Schuster, Penguin Random House, HarperCollins, Hachette Book Group and Macmillan, embargaram as intenções da empresa em montar um imenso negócio envolvendo livros livres, trechos de livros e comércio. Frise-se que a parte comercial do projeto do Google mantém-se intacta, enquanto que os processos de digitalização em bibliotecas transformaram-se em projetos autônomos dado que o projeto original foi embargado judicialmente.
Livros livres, de fato, existem na internet, mas não tantos. Se fosse pelo desejo do criador do maior repositório livre da internet, Brewster Kahle, da Internet Archive, todas as bibliotecas poderiam exercer livremente a função para a qual foram pensadas ainda na antiga Alexandria: a consulta, cópia e o empréstimo de obras. Num trabalho sem fins lucrativos, Kahle é mais uma das tantas pessoas que considerou razoável que a internet fosse mais que um espaço de vendas e pudesse incorporar o significado edificante da biblioteca universal. Em 2020, Kahle foi processado por um conjunto de editoras que exigiram que parasse de emprestar livros digitalizados em geral e que destruísse permanentemente os milhões de livros digitais obtidos em acordo com mais de uma centena de bibliotecas. Em artigo publicado na Time, em 2021, ele diz que os grandes negócios editoriais impedem que as bibliotecas adquiram livros digitais e os emprestem, apontando para o fim de sua autonomia.
Brewster Kahle, da Internet Archive.
Outra expectativa foi publicada há mais tempo no NY Times, pelo editor da Wired, Kevin Kelly, num extenso artigo no qual expressou a crença de que é impossível evitar que a tecnologia acabe fazendo por sua conta o que as grandes editoras têm procurado conter. Mas Kelly é um entusiasta da tecnologia e mais uma das pessoas maravilhadas pela possibilidade da consecução da biblioteca universal acessível a um clique e diz considerar incompreensível a orfandade de cerca de 75% de todos os livros guardados pelas bibliotecas públicas em todo o mundo. De acordo com ele, trata-se de livros que não se encontram mais à venda e nem estão disponíveis digitalmente. Em sua maioria, são obras protegidas pela vigência legal dos direitos autorais exercendo uma pressão estática justamente contra quem os preserva: as bibliotecas.
Disputas envolvendo bibliotecas e editoras ou escritórios de direitos autorais estão longe de consistir uma novidade. Desde a Convenção de Berna, de 1886, sobre as bibliotecas recaiu essa missão dúbia: ao mesmo tempo preservar e providenciar acesso ao conteúdo dos livros. Em 2014, um caso envolvendo a biblioteca da Universidade Técnica de Darmstadt e a editora alemã Elgen Ulmer foi parar no Tribunal de Justiça da União Europeia. A causa em questão? O fornecimento de uma cópia da digitalização de um livro. A decisão do tribunal reconheceu o direito à biblioteca em fornecer acesso ao conteúdo do livro, desde que sem os direitos conexos de cópia e impressão. A editora recorreu da decisão ao Tribunal Federal de Justiça da Alemanha.
Nos Estados Unidos, em 2013, a Author’s Guild (maior e mais antiga agência de direitos literários norte-americana) moveu contra o Google um processo por violação ao fair use de 20 milhões de livros disponíveis no Google Books. Trata-se de trechos dos livros digitalizados para o Google que não chegam a consistir uma agressão aos direitos autorais. Mas a ameaça (e a evidência de que os livros estão inteiramente digitalizados em algum lugar) foi suficiente para a ação. A decisão proferida pelo juiz Denny Chin beneficiou o Google. Ao revés das decisões europeias e norte-americanas e com o aumento exponencial de denúncias de uso irregular e abusivo de obras protegidas em redes sociais como o YouTube e o Facebook, por sua vez, em 2018 o Parlamento Europeu aprovou uma nova Diretiva de Direito Autoral mais restritiva, mobilizando mundo afora mais ações caracterizando como pirataria o fornecimento de acesso a conteúdo autoral protegido.
Assim como a utopia da biblioteca universal não se materializa, o cabo de força do direito autoral aparentemente não tem fim. Igualmente não tem fim a fantasia em torno do “fim do livro”, assunto que rendeu a diversos historiadores e intelectuais volumosas páginas de brochuras. O espaço aparentemente infinito e inexplorado da internet em algum momento parece realmente ter sacudido o modelo editorial vigente desde Gutenberg. De algum modo, a ascensão das gigantes tecnológicos como o Google e a Amazon sacudiu o mundo empoeirado das bibliotecas até então. Hoje, não é mais possível imaginar-se uma biblioteca nos mesmos moldes do inicio do séc. XX, e países em condições de investir acabam criando soluções criativas e democráticas – como o exemplo norueguês.
Em 2001, Jacques Derrida reviu em Papel-Máquina a sua Gramatologia, de 1967, no qual havia previsto o apocalipse editorial e a apoplexia do conhecimento escrito. Neste último, reconheceu que a crise do livro não se confunde mais com a crise do suporte, mas da própria capacidade de leitura e interpretação. A essa altura do séc. XXI, já não há mais quem em sã consciência duvide de que se disponha da técnica disponível para ampliar-se o acesso ao conhecimento sem causar um prejuízo incontornável aos autores literários. Há também instrumentos legais garantindo que as recomendações da UNESCO atendam, de fato, ao objetivo do desenvolvimento cultural. No entanto, mesmo com tudo isso, a realidade cultural especialmente de países que mais precisariam desse incremento emperra inexplicavelmente no desinvestimento e no desinteresse social. Enquanto isso, leitores potenciais cada vez mais se afastam da leitura e, por consequência, da própria identidade e memória literária e histórica.
Pós escrito
O trecho a seguir é uma tentativa de responder à pergunta formulada num artigo anterior, publicado na edição #138 da revista Parêntese, intitulado “O que é que a Noruega tem?”
Kulturarven skal ut til folket (a herança cultural deve ir para o povo). Com essa simples frase, por meio da sua Biblioteca Nacional, o governo norueguês justifica os grandes investimentos realizados pela instituição no sentido de implementar a digitalização de todo o patrimônio cultural norueguês. Trata-se de mais que uma frase, mas de um princípio que os noruegueses, talvez como nenhuma outra nação do planeta, decidiriam concretizar.
O prédio da imagem a seguir é justamente o Centro de Digitalização do Patrimônio Cultural da NasjonalBiblioteket. Ali dentro, conforme a imagem ao lado, não há livros e nem revistas, mas petabytes guardados num processo de backup que é renovado de cinco em cinco anos, a fim de que se previnam perdas e de que as fontes mantenham-se armazenadas em veículos legíveis e de código aberto. Em razão desse cuidado, 50 milhões de arquivos de imagens tratados inicialmente em formatos proprietários já foram convertidos para formatos mais duradouros. Os sistemas de backup são baseados no Oracle SAM-FS e a digitalização executada por meio de dois scanners HDR – Scanity, equipamentos com a capacidade de restauração e reparo no tratamento de imagens.
Obviamente que um projeto dessa magnitude depende de um investimento a altura. Em que pesem os esforços da Biblioteca Nacional em implementar esse trabalho venha desde o início do século, recentemente a constituição de um “banco da memória nacional” ensejou um incremento orçamentário da ordem de 90 milhões de euros. Imagens internas e externas dos equipamentos mostram que o investimento é aplicado com racionalidade extrema e todos os excessos e supérfluos são evitados.
Como se trata de um projeto de longo prazo e que procura tratar e armazenar, além de toda a produção bibliográfica nativa, recursos informacionais de instituições públicas e privadas que aderem a um modelo contratual que prevê etapas de tratamento e compromissos de disponibilização inteiramente públicos, os números não são econômicos.
Firmados os contratos, a equipe da Biblioteca Nacional assume o processamento técnico condicionando as espécies de material e suporte, com base num sistema de prioridades que prioriza documentos em estado crítico, como manuscritos em risco de perda definitiva. A estimativa é de que o trabalho seja estabilizado em torno de três décadas.
Até 2018, os números obtidos estavam em torno de:
2,000,000 jornais impressos, cerca de 40,000,000 de páginas; 540,000 livros, cerca de 80,000,000 de páginas; 700,000 páginas de manuscritos e partituras; 1,300,000 fotografias; 1,400,000 horas de transmissão de rádio; 950,000 horas de transmissão de TV; 55,000 registros musicais; 16,000 unidades de filmes e vídeo; 24,800,000,000 páginas da web.
O escopo do projeto é de acesso on-line gratuito e ilimitado a IPs noruegueses.
Outro projeto sediado na Noruega, na cidade mais ao norte do mundo, Svalbard, sob o permafrost do Ártico, inclui um cofre digital com os registros de código aberto desenvolvidos por, entre outros, Linux, bitcoin e Android. Além dos softwares, o repositório guarda documentos cedidos pelos principais arquivos digitais das bibliotecas do mundo, tais como a Vaticana, o British Museum entre outros. A proposta do Artic Vault é durar pelo menos um milênio e preservar registros da humanidade no caso de que as condições de vida, enfim, não sejam promissoras.
Uma crítica absolutamente inválida aos noruegueses é que estejam sendo demasiadamente pessimistas. Talvez, e nisso eu creio também, eles apenas levem a sério a sentença do filósofo francês Paul Virilio que divide as pessoas do mundo em duas categorias apenas: os pessimistas e os mentirosos.
No Brasil, recebeu o título de Além das palavras o filme de Terence Davies, A quiet passion, sobre a vida da poeta norte-americana Emily Dickinson. Penso eu que uma tradução literal, como jamais se devesse recomendar para a poesia de Dickinson, talvez tivesse um resultado melhor. Resultaria em algo como Uma paixão silenciosa, o que não me agrada tanto, ou então como o que me parece bem melhor: Uma paixão tranquila.
Além das palavras (afinal é preciso que se utilize seu nome comercial) é mesmo um filme silencioso, mas também está bastante longe de ser um filme tranquilo. Como se a tela estivesse sutilmente escurecida por uma luminosidade crepuscular, quase âmbar, e os ruídos amortecidos como que por uma coberta de veludo, tudo o que não se percebe ao acompanhar os passos de Emily e sua transmutação da juventude até sua morte é tranquilidade. É bem um contraste que se tem para com as poucas imagens reais disponíveis da poeta, cuja expressão ao mesmo tempo solene e ascética parece muitas vezes pairar sobre tudo.
Outra explicação que me ocorre para não preferir o título Uma paixão silenciosa é o fato de que ele poderia ser creditado ao suposto apego que Emily poderia ter desenvolvido para com o Pastor Charles Wadsworth, no filme vivido por Eric Loren. O diretor Terence Davies, talvez premido pela necessidade de inserir qualquer efeito mobilizador em um roteiro tão linear, dá a entender claramente que os sentimentos de Emily por Wadsworth ultrapassaram em muito a amizade. A tomada em que ela aparece abalada quando ele parte em viagem sem se despedir pessoalmente dispensa qualquer explicação. Não obstante acreditar-se que alguns de seus poemas de cunho mais amoroso possam referir-se mesmo a ele, essa é apenas mais especulação biográfica que Davies preferiu considerar no lugar de outras. Bem, quando se trata de Dickinson, especulações nunca são o bastante, mas para que se chegue a um roteiro e daí a um filme é preciso que se façam opções. As de Terence Davies menosprezam outros enlevos amorosos que, de acordo com alguns biógrafos, a poeta teve além de Wadsworth.
No filme, a despeito dos silêncios prolongados, a intranquilidade a que me refiro se torna muito evidente pela expressão um tanto atormentada que a atriz Cynthia Nixon, que interpreta Emily na idade adulta, escolheu para estampar na fisionomia da grande poeta norte-americana. É compreensível, afinal a atriz está encarando um imenso desafio, isto é, dar gesto e aparência a uma poeta realmente reservada e da qual muito pouco se sabe ou se testemunhou. Mesmo assim, o efeito obtido pela atriz é poderoso, ao mesmo tempo enérgico e contido. Para uma personagem que passa pelo menos a metade do filme dentro de casa, chega a ser exasperante, em alguns momentos, exasperante como uma mente inquieta como a de Emily tenha sobrevivido a uma reclusão tão absoluta, mas justamente são as cenas em que ela aparece envolvida com a escrita que acabam colaborando para afastá-la do mito da poeta exasperada. Pelo menos no filme de Davies, Emily é felizmente mostrada em franca concentração ao escrever e, mais que isso, aparentemente muito satisfeita por fazê-lo.
De resto, na vida diária, envolvida nos cuidados que dedica junto à irmã Lavínia a uma mãe que convalesce por longos anos, Emily aparece perfeitamente resignada à condição que a austera família protestante lhe reserva, principalmente por meio da autoridade paterna. Nos longos e arrastados dias em que já pouco sai de casa, ela entrega-se à escrita de forma cada vez mais integral e é bem dessa tranquila devoção que acaba consolidando-se o legado de seus volumes de poesia, apenas conhecidos após a sua morte, em 1886. É por isso que minha impressão é de que a paixão a que pretendia referir-se o diretor Terence Davies na escolha do título em inglês seja unicamente a que ela dedicava à poesia e a ninguém mais.
Dickinson, que entre a década de 50 e 60 do séc. XIX foi publicada anonimamente no The Republican, jornal sediado em Springfield e de propriedade de Samuel Bowles, um amigo da família, parece que, na realidade, deixou-se atormentar pela poesia poucas vezes. Isso é mostrado no filme quando ela percebe que seus poemas foram editados por Bowles à sua revelia e então ela tem oportunidade de reclamar-lhe a intrusão. Apesar de que a Emily recriada e interpretada por Cyntia Nixon na adultez (na adolescência ela é interpretada pela atriz Emma Bell) se mostrasse sagaz e incisiva nos diálogos com seus irmãos ou com sua grande amiga e depois cunhada, Susan Gilbert, sua disposição para a vida social declina e o filme que começa solar e luminoso vai, aos poucos, tomando ares bem mais taciturnos.
Esse é bem um intervalo da biografia de Emily que o filme aborda muito convencionalmente, sem incorrer em interpretações muito ousadas. Sua relação com a cunhada Susan, com quem Emily trocou centenas de cartas, segundo algumas especulações biográficas poderia ter tido também uma conotação passional, mas Davies passa ao largo de qualquer insinuação a esse respeito. Nesse caso, mesmo para essa possibilidade, o título Uma paixão silenciosa soaria inadequado, já que nada quanto a isso é aventado. Por isso, assumir que a paixão de Emily pela poesia pudesse ser maior que as paixões mundanas é um caminho bem menos pedregoso para quem pretende entrever a vida de uma poeta que, afinal, viveu a maior parte de sua vida longe da vista de todos.
Dessa mesma época, embora já tivesse sido publicada nos jornais locais anonimamente, é que Emily vai buscar contato com Thomas Higginson, conhecido abolicionista e crítico considerado na Nova Inglaterra, a quem envia alguns de seus poemas. Mas Higginson, que após sua morte viria a ser o seu primeiro editor, aconselhou-a a retardar qualquer iniciativa de publicação ao mesmo tempo em que se tornou um de seus principais leitores. Higginson foi quem trouxe, por sua vez, mais da intranquilidade externa justamente no período em que ela mais se dedicava à poesia. Talvez, graças ao seu contato com ele e seu escasso encorajamento à publicação, Dickinson tenha se debatido tanto com o dilema do reconhecimento e acabado por entregar-se à poesia pela própria satisfação. Da poeta “pouco apurada”, de acordo com ele, hoje se conhece muito bem os versos que comparam a busca por publicação a um julgamento da mente, algo a que ela decidiu-se bem por essa época a não mais submeter-se (publication is the auction/of the mind of man – J709 – Fr788), reservando seu legado para a posteridade.
Não muito depois disso, coincidindo com o afastamento dos poucos amigos e o agravamento do estado de saúde da mãe, ela passa a viver cada vez mais enclausurada. E se até então se exibia em passeios externos aos jardins e eventualmente até mesmo teatros de ópera, no filme, a essa altura, ela já está radicalmente interiorizada. Mantendo quase apenas as relações com os irmãos Lavinia, Austin e a agora cunhada Susan, seu círculo social restringe-se cada vez mais à família e de sua opção pelo cuidado materno parece proceder ao hábito (questionável, segundo alguns biógrafos) de utilizar a partir daí um vestuário exclusivamente branco e a falar com os raros visitantes à distância ou por trás de uma porta.
Ainda assim, como ficção biográfica que é, o filme de Davies incorre em muitas licenças. A de entrar onde consta que ninguém tenha entrado é, sem dúvida, a maior delas. Mesmo que ele conduza a narrativa com serenidade e intercalando leituras que a atriz Cynthia Nixon faz de alguns dos poemas de Emily, o terço final do filme — ou um pouco mais que isso — mostra momentos dolorosos de sua vida, quando a doença renal que acabará por levá-la a morte começa a causar-lhe dores e desconfortos imensos.
Sua opção em mostrar que mesmo uma poeta marcada por uma dicção quase etérea padecia das dores humanas não parece casualidade, mas uma tentativa de humanização do mito, de dissolução do enigma que ao longo do tempo foi associando-se ao nome de Dickinson. De fato, parece que quanto maior o desejo de reclusão e obscurecimento de um escritor, mais isso acaba colaborando no desejo de saber-se mais e mais e de mostrá-lo, isso no caso específico do cinema. Mesmo que se incorra no risco de sobrevalorizar alguns aspectos em detrimento de outros, trata-se de um irresistível desejo especulativo que, no caso de Emily, apenas aumenta em razão de que se refere a um gênio literário que está por trás da renovação da moderna poesia lírica em todo o mundo e pensar que tudo isso tenha sido feito quase em completo segredo só pode mesmo aumentar o fascínio em torno ao seu nome.
Ao final do filme, certo é que mais e melhor pode-se imaginar sobre a reclusa vida de Emily, embora pouco a respeito do seu repertório poético tão inovador, suas influências e motivos muitas vezes tão herméticos. Realmente, essa é uma tarefa que se faz melhor à leitura do que à exibição cinematográfica, sem desabono do excelente filme de Terence Davies que, por outro lado, é muito competente em mostrar que uma vida reservada e pequena para os outros não implica necessariamente em uma vida pequena nem reservada para a poesia.
É possível fazer um bom filme sobre o suicídio de um adolescente? Como pegar desse enredo inóspito e doloroso e daí realizar um filme que muito provavelmente irá atingir o público que ele mesmo retrata, isto é, o público adolescente? É preciso ser educativo, esclarecedor ou simplesmente basta que conte a história como aconteceu? Como fazer isso se o filme, ainda por cima de tudo, não é ficcional, mas baseado na vida de um adolescente que tomou essa decisão há pouco mais de uma década, aos dezesseis anos, num episódio que talvez tenha mais para amedrontar a sociedade do que, por exemplo, a badalada série 13 Reasons Why, produzida nos EUA e veiculada em 2017 no canal de streaming Netflix?
Para questões como essas, não há e nem deveria mesmo haver respostas fáceis. Mostrar isso tudo, entretanto, será dos maiores desafios que terão pela frente o diretor Hique Montanari e também o ator Thalles Cabral, que reviverá nas telas o compositor e cantor Yoñlu. Yoñlu é o pseudônimo pelo qual se autodenominava e ficou conhecido este garoto (seu nome era Vinicius) nascido em 1989, em Porto Alegre, onde também veio a falecer, no ano de 2006. Também será o nome do filme que em outubro terá sua primeira exibição, no Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro.
Enquanto o filme ainda não tem data para estrear nos cinemas, na internet dia a dia aumentam as visualizações da fanpage e de seu primeiro trailer já divulgado. Dificilmente poderia ser diferente: Yoñlu e a internet sempre estiveram muito próximos, quase interconectados. Foi nela que ele primeiro divulgou suas músicas, alcançando o mundo inteiro desde o seu quarto de dormir, exatamente como fazem há bastante tempo já, e no mundo inteiro, milhões de adolescentes.
Há uma década, na era pré smartphone e primórdios das redes sociais, não era tarefa das mais simples encontrar-se grupos de interesse mútuo, porém, em fóruns, blogues e grupos de discussão se podia acessar com relativa facilidade e anonimato quem quisesse compartilhar músicas, opiniões e conversas sobre quaisquer assuntos, inclusive formas de tirar a própria vida. Este território sem limites precisos ou censura, a internet, foi o único palco que o compositor e cantor Yoñlu conheceu. Pelo destino que deu a sua breve vida, foi ali também que ao longo de uma década se tornou uma espécie de mito, consagrado principalmente pelos seus contemporâneos adolescentes.
Tão logo a notícia de sua morte se espalhou, sua história foi ganhando visibilidade para além da web e reportagens na mídia impressa começaram a surgir, diferenciando-se do que costuma acontecer nos suicídios de um modo geral. No caso dele, não parecia tratar-se de mais um número entre as estatísticas, mas da morte precoce de uma mente muito criativa e com enorme talento para a música. E também porque trazia consigo uma mensagem ainda hoje complexa a respeito de um potencial um tanto quanto obscuro da web: o de, além de encerrar por muito tempo as pessoas em uma irresistível sensação de imensidão e liberdade, chocá-las de encontro a uma impessoalidade capaz de compartilhar ideias tão radicais como, por exemplo, o suicídio.
Ainda lembro-me do começo do ano de 2008 como o ano em que conheci a adaptação de Sean Penn para o cinema do livro de Jon Krakauer, Na natureza selvagem. Na verdade, conheci um pouco antes a trilha sonora que Eddie Vedder, do Pearl Jam, compôs para o filme e suas baladas folk. As letras melancólicas tratavam de um personagem real, Chris McCandless, um adolescente em franco processo de desadaptação que aos 22 anos, em 1990, resolve isolar-se da civilização e ir de encontro à solidão de uma floresta no Alasca, para lá viver por uns tempos. Quanto tempo, porém, ele teria desejado ficar mesmo por lá, isolado de todos, é algo que nunca se poderá saber ao certo. Chris, que também adotava um pseudônimo e referia a si mesmo como um certo Alex Supertramp, acabou morrendo completamente só, dentro de um ônibus, sem a ajuda de ninguém, vítima de inanição ou um possível envenenamento decorrente da ingestão de sementes tóxicas.
Naquele mesmo período, em uma revista de circulação nacional, li pela primeira vez a respeito do suicídio de Yoñlu. Retratado como um adolescente que perdia a vida após a realização de um meticuloso procedimento todo obtido e reportado na internet, ele deixara uma coleção de canções que entrevia seu talento para compor e aspectos psicológicos de sua abreviada trajetória. Logo após isso fui conhecer a sua música, disponível em registros caseiros aos quais se dedicava intensamente. Na escrivaninha do quarto onde compunha suas músicas, encontrou-se um disco com suas gravações e explicações deixadas aos pais. Além dos registros no CD, Yoñlu deixara gravados em seu computador algo em torno de cem canções. Mais tarde, parte delas seria transformada em dois discos, um produzido no Brasil e outro nos EUA, pelo selo Luaka Bop, de David Byrne dos Talking Heads.
Assim foi que as duas histórias (e músicas) se misturaram por algum tempo em minha mente. Dois adolescentes, duas espécies distintas de morte, mas duas perdas de garotos excepcionalmente inteligentes numa época da vida em que excessos (e sentir em excesso) são muito comuns, mas o único que não se deveria aceitar tão tranquilamente é o de que justamente pessoas com um potencial tremendo deixem, de repente, de acreditar que ao menos vale a pena continuar vivo.
Sempre pensei na adolescência como o momento da vida em que o tempo perde toda a linearidade e, todavia, não se pode saber ao certo quando aquilo vai acabar nem quando será possível chegar ao próximo platô, ou o que se costuma denominar por “maturidade”. Importa dizer que para muitos adolescentes este pode tratar-se de um processo muito difícil e, se o entorno não colabora, muitas vezes a sensação subjacente é a de aprisionamento, isolamento. E, diga-se de passagem, um isolamento que nem a rede das redes costuma ser capaz de romper ou ainda que, de outro modo, muitas vezes parece colaborar ainda mais em certo confinamento, dado que na internet se configura uma espécie de duplo do mundo real em suas muitas representações, declarações e uma sorte infinita de contatos indiretos e impessoais. Mesmo assim, sob o argumento de ajudar as pessoas até onde seja possível, a rede social mais utilizada no mundo, o Facebook, tem entre suas políticas de conteúdo a permissão para que os usuários realizem inclusive a transmissão ao vivo de tentativas de automutilação ou suicídio. A informação foi divulgada em maio do ano passado pelo jornal britânico The Guardian, após investigação que revelou as diretrizes mais secretas da rede de Mark Zuckerberg.
A implicação de adolescentes em um mundo em que a representação da morte é banalizada e até certo ponto erotizada, como o psicanalista Contardo Caliigaris alertou em seu artigo Sempre há um exército dos mortos, que amam e propagam a morte, não é exatamente uma novidade. Desde a publicação de Werther, de Goethe, em 1774, teme-se pela replicação entre o público juvenil do drama suicida e as ideias românticas, afinal, são ideias que não podem simplesmente extirpar-se da cultura. Na realidade, são ideias e valores que estão integrados a ela e nela são recicladas periodicamente. Seja na literatura, no cinema ou na música, não poderia haver medida mais infrutífera ou contraproducente do que limitar-se o acesso do público, ainda mais o adolescente, do que se pode obter na internet. Felizmente, em anos recentes, se tem procurado outras condutas e alternativas, como o esforço educativo e campanhas de esclarecimento como o “Setembro Amarelo” e a inserção da temática no âmbito escolar, reduto por excelência do público adolescente.
A ocorrência suicida entre a população adolescente parece não decorrer de mera insegurança ou exclusivamente pela falta de perspectivas econômicas, ainda que tudo isso tenha seu peso na situação de vida de qualquer pessoa. Talvez a situação seja um pouco mais complicada que isso e, para pessoas que já não são mais crianças e ainda não completamente adultas, implica muitas vezes em sentir-se e saber-se impotente em dar conta de um legado ao qual não deram causa e nunca estiveram integrados ativamente, mas que, de repente, é todo o mundo que há para existir. Como lidar com tudo isso não é algo simples ou que se resolva com simples recomendações, isto é, trata-se de um tema socialmente tenso, eu só consigo ficar muito curioso em saber como o filme que conta a história de Yoñlu irá tratar disso tudo, tendo-se em vista um ano que começou com o furor em torno a 13 Reasons Why e logo a seguir entrou em pânico com a disseminação do jogo de automutilação “a baleia azul”.
Se Hannah Baker, a personagem central de 13 Reasons Why causou apreensão por um suicídio decorrente da violência sexual e do bullying por que passou, nesta história não há propriamente um incômodo externo, mas um interno, e por isso mesmo de mais difícil abordagem. Não que as causas de diferentes mortes possam ser comparadas, mas enquanto é relativamente simples localizar num personagem um elemento externo, uma razão prática, do outro permanece uma nebulosa associação com a depressão e uma dificuldade de abordar-se adequadamente – e em tempo hábil – as dificuldades de natureza psicológica que muitas vezes transformam adolescentes em alvos potenciais de ideações suicidas. Seja como for, neste terreno não se tem o direito de ser leviano nem por um instante, dado que as estatísticas apontam para números crescentes entre a população dessa faixa etária por aqui e em todo o mundo.
Embora muitas vezes a associação entre depressão e suicídio pareça a mais óbvia, é relevante pensar que outros elementos possam colaborar tanto para o desfecho quanto para que se aventem medidas para que se o evite. No livro O demônio do meio-dia: uma anatomia da depressão, o jornalista e escritor norte-americano Andrew Solomon destaca que depressão e suicídio nem sempre fazem uma equação indissociável. Ele diz ainda que, embora apareçam juntos muitas vezes, a ideia e pulsão de morte são inerentes à vida e que ambas as situações têm vida própria e, portanto, generalizações deveriam ser evitadas a fim de não estigmatizar-se ainda mais as pessoas. Para a psicanalista Julia Kristeva, autora de O sol negro: depressão e melancolia, mesmo a pessoa mais deprimida debate-se com o afeto e sua expressão. Para ela, talvez seja justamente pelo afeto, pela recuperação da saúde afetiva, que passe muito do que pode ser feito em prol das pessoas, especialmente os adolescentes, antes de qualquer outro desfecho.
Até que se possa saber mais e chegue em definitivo aos cinemas, não se pode dizer ainda como Yoñlu, o filme será recebido pelo público. Antes mesmo de seu lançamento, entretanto, já é possível perceber o quanto tem despertado o interesse. Seja como for, o inegável é que cada pessoa é única e tem sua história, seu percurso inigualável e sua forma peculiar de lidar com a informação. Por enquanto, não se pode saber se o filme dará mais eco ao que nunca se entenderá por completo, isto é, a morte em si mesma, ou então da vida e do que se pode fazer por ela. Como uma está imbricada na outra e compõem espontaneamente o drama humano, não se trata de simples desmistificação, mas de uma perspectiva a qual todos estão vulneráveis e para a qual, ao mesmo tempo, ninguém nunca está preparado.
Mito que é cada vez mais decomposto, o suicídio continua assombrando e fascinando as pessoas justamente porque, dos gestos humanos, talvez seja o que mais desestabiliza o mundo como ele é, isto é, o mundo de quem fica. Tudo ao que se confere apreço, que está imbuído de valor e pelo que se preza, em um momento apenas se evapora diante de quem confere sentido ao mundo e lhe dá significação. Se o adolescente está especialmente vulnerável ao suicídio, assim como também a outras formas de violência, e isso em qualquer classe social ou geografia, seu gesto fala não apenas de si, mas de todo o seu entorno afetivo e social. É preciso falar sobre suicídio, sem dúvida, mas também do que isso importa à família, à escola, à sociedade e, já que não se restringe exclusivamente aos adolescentes, aos sentimentos de todas as pessoas. Yoñlu, o filme certamente não tem o dever de fornecer todas as respostas de que precisamos. Por outro lado, nós é que temos o de aproveitar a oportunidade do filme e incrementar as necessárias discussões a respeito do assunto.
* * *
Há quase duas décadas atrás, no ano de 2000, a OMS publicava um guia voltado aos profissionais da mídia na intenção de instruir as abordagens e notícias sobre o suicídio. Em linhas gerais, as recomendações giravam em torno de evitar-se o detalhamento de métodos, certa tendência à espetacularização, associações diretas com outros transtornos mentais, alusões que possa levar a uma estigmatização das pessoas e suas famílias, bem como destacar-se informações alternativas e fontes de informação confiáveis sobre o assunto.
Seguindo o exemplo da OMS, há cerca de uma década o governo federal, através do Ministério da Saúde, publicou as Diretrizes Nacionais para Prevenção ao Suicídio, oferecendo indicações a respeito da necessidade de ações de prevenção ao suicídio e de sua caracterização como um problema de saúde pública. Apenas desde 2004 a OMS passou a publicar relatório exclusivo sobre o tema. Dois anos atrás, em 2015, foi instituído no Brasil o “Setembro Amarelo”, iniciativa conjunta do Centro de Valorização da Vida (CVV), Conselho Federal de Medicina (CFM) e Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) dedicada a reflexão e medidas de enfrentamento ao suicídio.
Na última semana (21/09), o Ministério da Saúde divulgou o primeiro Boletim Epidemiológico de Tentativas e Óbitos por Suicídio no Brasil, contendo dados obtidos entre 2011 e 2015. Importante destacar que a interpretação cuidadosa de estatísticas, o evitamento de generalizações e comparações geográficas, recomendações publicadas pela OMS no longínquo ano de 2000, parecem ainda muito distantes de serem observadas.
Os links abaixo remetem aos conteúdos publicados em alguns meios de comunicação sobre a publicação do boletim: