Crônicas O espírito da literatura não é o livro

O espírito da literatura não é o livro

Não me parece que haja muitos lugares mais enigmáticos do que o que havia por detrás dessa porta, em meados do séc. XIX. Hoje, não. Hoje é apenas o quarto de um museu. Ele fica em Amherst, no norte dos EUA. É a porta do quarto de Emily Dickinson, em cujas frestas ela teria guardado — reza a lenda — os seus envelope poems. Talvez o quarto de Fernando Pessoa no Largo do Carmo, em Lisboa, tenha sido assim também fascinante. O pequeno quarto onde Simone Weil morreu sozinha no Sanatório Grosvenor, na mesma Ashford pela qual anos antes haviam passado Charles Darwin e sua filha Anne, em busca de uma salvação que não veio para a menina.

Mais certo é que por detrás dessa porta fosse apenas possível encontrar o quarto de dormir de Emily, a cama onde contorcia-se em razão das dores causadas pela nefrite, sua pequena escrivaninha quadrada e uma única cadeira, na qual ela sentava-se para escrever. Tampouco transparece mistério no quarto de Pessoa. Ali estaria o baú entreaberto com anotações de criaturas que por seu intermédio puderam conhecer este mundo, uma estante dupla de livros e alguma garrafa vazia de vinho ou absinto no piso. Detrás da porta em Ashford, o colchão que uma Simone desnutrida e diáfana deixou intacto, para o próximo convalescente.

Não escolhi esses três nomes por sua aura, nada disso. Escolhi porque estão no topo do meu panteão, um pouco acima de outro autor que morreu praticamente inédito: Franz Kafka. São deles as coisas mais impressionantes que já li, embora de Simone não como poeta. A não ser por um poema chamado justamente “A porta”, o seu é um texto do pensamento, e de “graça”, mas de uma força impressionante.

É uma coincidência estranha que os nomes acima, quase todos eles permaneceram em vida praticamente inéditos em livro. Pessoa ainda chegou a ver Mensagem, Kafka uma coleção de contos, mas tanto Simone quanto Emily publicaram apenas em jornais e suplementos. Nada que denunciasse a imensidão da obra por trás de cada um deles. Mas talvez não seja coincidência, apenas que se dedicaram mais a escrever do que publicar. Emily parecia ter muitos receios de se expor e de ter uma má apreciação. Pessoa acho que não conseguiu se organizar para tanto, embora seus planos fossem até conhecidos de amigos próximos. Kafka incumbiu um amigo para queimar seus originais, não sei se sabendo que o outro não o faria. E de Simone Weil a obra foi mantida por amigos para depois de sua morte ser editada e divulgada por Albert Camus.

Tenho um carinho muito especial pelos autores inéditos, reservados. Não estou falando daqueles que não conseguem editora (hoje alguém não consegue?), mas daqueles que não se entregam à carreira literária, mas vivem tão intensamente a literatura que ela praticamente se consome neles mesmos. Porque são pessoas organizadas por outra ordem que não a do auto-proveito, muitas vezes é preciso que atravessem a última porta para que só então sejam valorizadas. Às vezes, nem assim. Acho isso de uma indignidade terrível, ainda mais porque muitas vezes este espólio é objeto de familiares desinteressados na pessoa e na obra, mas não nessa exposição e exploração comercial. Muito complicado isso.

Neste ano de 2024 eu perdi um amigo muito especial, que morreu praticamente inédito em livro. Salvo um volume juvenil, feito com parcos recursos, sua obra está praticamente perdida. E o que ele mesmo não eliminou, decidiu por não guardar. Então, simplesmente perdeu-se. Eu tenho comigo algumas coisas que ele publicava num blogue e eu salvei, mas não é suficiente para um livro. No meu juízo, a sua poesia é superior a de muitos livros bem-sucedidos por aí, mas me incomoda mesmo é a consciência de que ninguém saberá das horas intensas que ele dedicou à escrita. A intensidade terá sido apenas aquele frêmito momentâneo que poucos conseguem fixar a contento no papel. Este foi um poeta que me abriu a porta e eu pude conhecer um pouco, mas quantos há, como ele, que o mundo ignorará por completo?

No ano passado ou retrasado eu escrevi um prefácio para um livro que deveria existir e ser celebrado por quem gosta de boa poesia. A poeta me pediu para escrevê-lo e eu acho que nunca gostei tanto de escrever um prefácio como o para ela, mas ela não conseguiu ainda se organizar para publicar. Eu lamento, mas entendo perfeitamente. Fato é que obras como a sua estão em falta, no meu juízo, enquanto livros não faltam. É uma pena que as coisas sejam assim, mas cada vez mais eu me convenço de que foi assim sempre.

A história do livro é muito violenta e tem capítulos cruéis. Ao lado disso, feliz e incrivelmente o espírito criativo se mantém. A literatura se mantém a despeito do livro. Mas na minha idade eu já testemunhei injustiças e apagamentos absurdos. Talvez as obras de uma Emily Dickinson ou de um Fernando Pessoa hoje não fossem sequer notadas, ou menosprezadas. Talvez Kafka preferisse lançar ele mesmo seus livros às chamas. É um mundo que se fecha por dentro, o do livro, e que de certa forma sufoca os leitores.. Mas é preciso salvar as obras que estão morrendo por descaso com a memória cultural e as que estão agonizando dentro da casca do ovo por falta de uma mínima atenção, de espaços, de tudo.

Isso não tem a ver com o livro ou o sucesso comercial ou as editoras ou as livrarias ou os suplementos, tem a ver com a literatura. A internet, que lucra com a objetificação de tudo, com a inteligência artificial vai se tornando cada vez mais a “internet das coisas”. A literatura na internet não precisa seguir esse modelo, mas, se acreditarmos apenas nisso, é no que ela fatalmente acabará se tornando.

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