Outros Mantiqueira range

Mantiqueira range

Essa mania que tinha o Tom Jobim de batizar em inglês os nomes de suas músicas me induziu por anos a uma sucessão de erros que não faz muito descobri incorrer.

O primeiro dos erros era atribuir a ele (e não ao seu filho Paulo) a composição “Mantiqueira Range”, gravada em 1973, no seu “Matita Perê”.

Eu lia “Mantiqueira range” obviamente como tradução de “Serra da Mantiqueira”. Segundo erro. É “range” de ranger mesmo. Está na letra que eu também desconhecia, de autoria de Ronaldo Bastos e com o artigo “A” antes de “Mantiqueira range”, para não deixar dúvidas.

Outro. Sempre achei que era uma composição inteiramente instrumental como as que Tom gravou nos seus discos orquestrais. Não era. Erro três.

Há uns dias eu lia que a serra da Mantiqueira é uma cadeia montanhosa que é apenas parte superior de uma entidade geológica subterrânea, a Província Mantiqueira, um dos escudos da Plataforma Sulamericana (o outro é o Cráton do São Francisco), que une (no subsolo) o Rio da Prata à Bahia, passando pelo Rio Grande do Sul, aprofundando-se no Paraná e ressurgindo São Paulo acima, onde a serra se mostra mais evidente.

Quando na letra Ronaldo Bastos diz que “vi a Mantiqueira falar” é ao rangido tectônico a que ele se refere e que todos os seres acusam (galo cantou/gado berrou/). Mas também da geografia, dos pequenos movimentos de dentes que a serra emana e que os animais escutam melhor que o homem ruidoso.

Musicalmente, “A Mantiqueira range” é praticamente toda uma linha de contrabaixo que modula sem muitas variações, tons abaixo, até ranger com um tremor gravíssimo. Uma pequena peça da joalheira que sabiamente Tom tomou do filho Paulo. Pedra bruta do subsolo, de muito abaixo da serra da Mantiqueira.

Deixe uma resposta

Posts semelhantes

ExtinçãoExtinção

Para mim, o mais incrível na música é a sua dissolução à execução. Você ouviu um acorde que acabou nesse instante e que ainda assim se mantém no espanto que ele causou. O arpejo que já deixou de existir e levou sua imaginação sabe-se lá para onde. A dissonância que há pouco agredira os ouvidos e foi convertida numa harmoniosa e inusitada solução. O improviso ao tema feito um subtexto imperceptível, mas também irrepetível. Não há perenidade na música, permanência, história. Trata-se de percebê-la e senti-la ou nada. Acho que por isso, de todas as artes, a música é a mais convidativa, aérea e insinuante. É a que contraditoriamente menos e mais fala. E definitivamente a que mais tira as palavras dos ineptos musicais. Enquanto as outras artes lutam para permanecer no tempo, a música se realiza justamente ao se desfazer nele. Há meios de competir com isso?