Extinção

Para mim, o mais incrível na música é a sua dissolução à execução. Você ouviu um acorde que acabou nesse instante e que ainda assim se mantém no espanto que ele causou. O arpejo que já deixou de existir e levou sua imaginação sabe-se lá para onde. A dissonância que há pouco agredira os ouvidos e foi convertida numa harmoniosa e inusitada solução. O improviso ao tema feito um subtexto imperceptível, mas também irrepetível. Não há perenidade na música, permanência, história. Trata-se de percebê-la e senti-la ou nada. Acho que por isso, de todas as artes, a música é a mais convidativa, aérea e insinuante. É a que contraditoriamente menos e mais fala. E definitivamente a que mais tira as palavras dos ineptos musicais. Enquanto as outras artes lutam para permanecer no tempo, a música se realiza justamente ao se desfazer nele. Há meios de competir com isso?

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IncréduloIncrédulo

Sei que muitos que me conhecem me tomam por cético (como se isso fosse algo essencialmente ruim e não apenas um método tortuoso de pensamento que somente me dificulta as coisas), mas, na verdade, sou apenas incrédulo. Não sou nem um pouco cético quanto às pessoas desenvolverem e aplicarem suas melhores capacidades, apenas sou incrédulo quanto a que boa parte destas mesmas pessoas deseje isso efetivamente, portanto basta que me seja demonstrado o contrário e eu mudo de ideia sem dificuldade alguma.

Darwin DayDarwin Day

Tenho certeza que a leitura de “Down House” pode ser um tanto frustrante para pessoas que buscam nele algo inédito ou muito relevante para a história da ciência ou as ciências biológicas. Tudo que há ali sobre isso é bem sabido e difundido nas excelentes biografias de Darwin que há nas livrarias. Eu diria que os momentos em que essas coisas aparecem no livro me serviram de “escoras” para contar o que me despertou, de fato, interesse narrativo: a breve vida do seu filho Charles Waring que ele reportou logo da morte do bebê num memorial que, penso eu, é um documento de tanta relevância histórica quanto os seus textos e artigos sobre ciências naturais.

O bebê Charles Waring, ou Charlie, como era chamado em casa, provavelmente nasceu com a síndrome de Down e morreu no mesmo dia em que a teoria da seleção natural foi revelada ao mundo, no salão principal da Biblioteca Linneana, em Londres. Esses tempos perguntei às “inteligências artificiais”, e DeepSeek e ChatGpt foram categóricos: o décimo filho de Darwin e Emma nasceu com a síndrome de Down. Não é que eu confie cegamente nessas coisas, mas acho que elas “leram” bastante para ter tanta certeza assim nisso.

Meu livro é uma ficção histórica contada a partir do mordomo da casa, Joseph Parslow, um narrador comedido e emocionado, efetivamente envolvido com a vida da família e que, além de mordomo, foi o principal auxiliar de Darwin na introdução dos visitantes de Down House nos estudos do naturalista.

Parslow foi tão importante na vida de Darwin e tão reconhecido pela família, que, no funeral que o levou à abadia de Westminster, integrou a primeira fila dos acompanhantes, ao lado de membros da Royal Society, da nobreza britânica e representantes da própria realeza. Darwin não escolheu onde seria sepultado, o documentos referem que preferia o adro da capela de St. Mary, mas assim a Coroa decidiu. Emma principalmente fez questão do acompanhamento do mordomo, deixando nas galerias gente como Herbert Spencer, de quem Darwin gostava de manter certa distância.

Spencer foi o autor da deturpação que deu origem ao darwinismo social e suas derivações mais absurdas e inaceitáveis. A “sobrevivência do mais apto” em lugar da “adaptação”. A “seleção natural” aplicada ao mundo social sem qualquer nuance e consideração. Mas essa é uma discussão que extrapola e muito ao âmbito do meu livro, embora me interesse muito em seus desdobramentos. Até o fim da vida, Darwin manteve o espírito investigativo e em torno do ano de 1873 (15 anos após a morte do bebê) trocou correspondências com o Dr. John Langdon Down, médico que descreveu pela primeira vez a síndrome que depois levou seu nome. Nas cartas, o Dr. Down explicava a Darwin características do “mongolismo” sem entender sua etiologia de fundo genético, mas garantia-lhe que aquele não era um fato da “reversão”, pois ocorria em todas as etnias.

Esta não é a história do livro, mas é uma história muito interessante, pois Darwin havia notado e registrado os atrasos do filho no memorial. Mas o mais importante lá não me parece ser isso, e sim o encanto e os temores para com o bebê. Imaginar estes sentimentos íntimos e esboçá-los sem dar certeza de nada foi a intenção do meu livro.

* * *

Algumas vezes, jornalistas e pessoas da ciência me pediram para dizer coisas absurdas em razão de ter escrito o livro.

“Nos dê um resumo rápido sobre a seleção natural…”

“Por que Darwin não se refere a Mendel no seu trabalho?”

Lamentavelmente, minha pesquisa não chegou a tanto. Cheguei mesmo, não escondo isso, a negligenciar fatos que para os biólogos são indispensáveis na compreensão da sua teoria.

Não. Meu livro é de âmbito doméstico. Privado. Um que os biógrafos não viram nem nunca verão. Só um intruso como eu me camuflaria sob a pele do mordomo para narrar coisas assim. A minha sorte é que o mordomo Joseph Parslow era um sujeito de uma nobreza invejável. Nobreza de espírito, aliás, a única que importa.

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Hoje no mudo inteiro é celebrado o Darwin Day em memória ao nascimento de Charles. Com algum atraso, acho que vamos mesmo fazer a live para falar do livro. Estou só esperando que minha interlocutora tenha condições.

A editora Dialogar colocou nesta semana o livro em preço promocional.

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