Extinção

Para mim, o mais incrível na música é a sua dissolução à execução. Você ouviu um acorde que acabou nesse instante e que ainda assim se mantém no espanto que ele causou. O arpejo que já deixou de existir e levou sua imaginação sabe-se lá para onde. A dissonância que há pouco agredira os ouvidos e foi convertida numa harmoniosa e inusitada solução. O improviso ao tema feito um subtexto imperceptível, mas também irrepetível. Não há perenidade na música, permanência, história. Trata-se de percebê-la e senti-la ou nada. Acho que por isso, de todas as artes, a música é a mais convidativa, aérea e insinuante. É a que contraditoriamente menos e mais fala. E definitivamente a que mais tira as palavras dos ineptos musicais. Enquanto as outras artes lutam para permanecer no tempo, a música se realiza justamente ao se desfazer nele. Há meios de competir com isso?

Deixe uma resposta

Related Post

Down House, 1858: o memorial de Charles Waring DarwinDown House, 1858: o memorial de Charles Waring Darwin

Eu sei que a minha falta de pressa quase exasperou os editores da Editora Dialogar, especialmente a Letícia Möller, por divulgar a chegada de “Down House” do parque gráfico. Bom, este é um livro que está nascendo há quase dez anos, então isso explica a minha falta de pressa. As pessoas que me julgam impaciente na verdade cometem uma grande injustiça. Eu tenho muita paciência e cautela com as coisas que me disponho a fazer.

Nestes dias que já estamos com o livro temos trabalhado bastante no sentido de viabilizar o seu lançamento e outras providências. Eu nem digo que eu tenho a boa sorte de ter uma editora tão compenetrada quanto ela, pois não é sorte, eu tinha certeza de que seria assim e fico muito feliz que agora, sim, temos data e local de lançamento deste livro que, como peça gráfica, é uma joia nas suas 180 páginas. Isso vale para a concepção, para o design maravilhoso bolado pela Cintia Belloc, para tudo.

Em relação ao texto e ao que o motivou eu convido a que visitem o site que preparamos para divulgar e também para comercializá-lo. Em breve, espero poder dar mais informações e tb tirar dúvidas dos leitores e curiosos. Até lá, estaremos trabalhando para que essa breve história possa chegar o mais longe possível.

Vou aproveitar a oportunidade e registrar meu profundo agradecimento à minha querida amiga Ana Claudia Brandão, que gentilmente leu e só depois escreveu a orelha do livro, como tem que ser..

O lançamento vai ser no dia 25/05, no Museu de Ciências e Tecnologia da PUC RS e haverá um debate prévio com os os professores José Roberto Goldim e Vivian Missaglia.

O livro já está à venda tanto no próprio site como no da editora. E não é pré-venda. Quem comprar, já recebe, sem demoras.

O site fica em https://downhouse.online

A poison treeA poison tree

pois

William Blake
trad. do inglês

Uma árvore de veneno

Tenho raiva de meu amigo:
Já tive maiores comigo
E só por dizer-lhe, isso passou.
Mas, dessa vez, aumentou.

Para regá-la, usei dos temores
Diuturnos. De lágrimas e de horrores.
E a acordei com largos sorrisos,
todos nutridos em falsos juízos.

Ela cresceu volumosa,
Noite e dia, uma maçã brilhosa.
E ele, estando eu a colher,
Soube de quem ela deveria ser.

E meu inimigo, sem saber que o via,
Com sua cobiça a colhia.
De manhã, contente eu o vi
Jazendo a seu pé, como previ.

A letra fria da leiA letra fria da lei

 

Não é segredo ou novidade que a grande maioria dos livros sobre o direito são a personificação da chatice empolada, mas os livros escritos sobre a justiça sabem ser tocantes na medida em que não reduzem o ser humano a mero objeto da lei e sua letra fria. Por isso é de lamentar e muito que um livro como Descasos, de Alexandra Szafir, talvez sequer conste ou pelo menos seja mencionado nas bibliografias necessárias à formação dos advogados brasileiros.

Pois é justamente no país em que há mais faculdades formando advogados que em todo o restante do mundo somado que esse livro foi escrito, numa necessidade expressa de registrar a existência de um sem-número de pessoas padecendo pelos descasos da justiça, logo no país onde abunda um contingente gigantesco dos assim chamados operadores do direito.

Ao lado das pesadas doutrinas penais, Descasos: uma advogada às voltas com os direitos dos excluídos, só aparentemente é um livro menor. O formato pocket lembra que pudesse ser uma espécie de livro de bolso, útil sobremaneira àqueles que, nos bancos da faculdade, aprenderam a judicializar a dignidade humana ou a coisificá-la, igualando ou inferiorizando seu valor às coisas materiais.

De caso em caso, ou como quer a autora, de descaso em descaso, rapidamente se percebe que o livro não traz e não quer trazer achados jurídicos inovadores nem remete suas histórias aos territórios hermenêuticos tão cruciais à sobrevivência do estado de direito. De outra forma, a autora mostra que há fraturas no sistema jurídico aguardando operação, mas de um tipo que vem sendo postergada apenas porque nela estão envolvidos especialmente os mais pobres.

Dessas postergações, desses abandonos sistemáticos e sem qualquer sutileza é que se compõem os casos que ela traz. Uns chamarão de mazelas. Outros tantos lhes dirão inevitáveis. Ela, Alexandra, é clara – quase ao ponto de cegar – ao demonstrar que o injusto e o insano das situações que relata se devem, sobretudo, a pessoas que com sua ação vem consolidando o descaso como forma de atenção jurídica e social. Mas se a institucionalização do descaso deveria deprimir a vontade das pessoas, o livro de Alexandra – e seu exemplo de vida – poderia servir para deprimir justamente o estrelismo que ronda parte do judiciário e seus regiamente pagos agentes.

Sobre a vida de Alexandra há muito a ser dito, mas nada que se compare ao imenso legado que registra nas 80 páginas de seu livro. Seu pequeno grande livro que, a despeito da fria letra da lei, aquece o sangue exatamente da forma que é preciso, num momento histórico no qual ainda infelizmente é muito necessário distinguir os homens das coisas. Convém lembrar que Descasos foi produzido livre de custos pelos profissionais da Editora Saraiva e Aero Comunicação e sua renda será revertida à ABRELA – Associação Brasileira de Esclerose Lateral Amiotrófica, doença neuromuscular que acometeu Alexandra após os casos relatados no livro e que fez com que o livro fosse escrito com o nariz.

Mas seria uma simplificação grosseira dizer que um livro como Descasos tenha sido escrito com o nariz. Foi toda a Alexandra que o escreveu.