Encurralados

As ondas não estão no mar.
Onde estão as ondas?

O mar, essa gigante
desembaraçadamente nua,

engoliu o que havia,
e agora como alcanço dormir?

Por isso, agarro-me ao nada,
uma insuficiente artimanha

de que sabem os náufragos
que morrem de frio.

O tempo se vai acabando.
Onde está o tempo?

Voltará amanhã, depois
de partirmos?

Ao espelho, essa neblina
que nos divide a alma

em duas, tu quebrarias?
Mas já pensaste…

Se do outro lado
tu mesma estivesses?

Na imagem que enxergas
não estou eu, não

está ninguém. O tempo
nos esquecerá a ambos

na mesma solidão
em que nos amamos.

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Amazona feridaAmazona ferida

Jennifer Franklin
trad. do inglês

Com seu rosto sereno e inclinado que nunca
denunciaria a dor, posso procurá-la outra vez.

Você sempre a amou – a primeira obra de arte
Que conheceu pelo nome. Toda a semana

Você me trouxe até ela. Desatenta pelo
Vislumbre do mármore e de seu porte

Eu não sabia que você estava mostrando a quem
Eu precisava tornar-me para protegê-la

De tudo o que não você não entendia –
A mulher poderosa surgindo acima de tudo,

Tendo de aprender a sentir cada açoite, cada corte
E continuar em pé, com olhos vazios,

Registrando tudo. Você sabia que ela era
A mãe que você precisava, que desnudaria

Seu peito e sangraria sem demonstrar
Tristeza nem arrependimento. Eu gostaria de ter

Aprendido cedo suas lições e que você
Não me tivesse visto derramar-me em lágrimas. Eu

Deveria pairar sobre você como uma rocha,
Apoiando-me em uma coluna, com o braço

Sobre a cabeça e a ferida estancada. Você me quer assim,
O terror branco ocultando meus olhos vazios,

O freio do animal amarrando meu traje rasgado –
Nua, para que visse minhas costas curvas e vazias o bastante

Para suportar o peso de todo o seu temor. Eu finjo
Ser ela, em pé sobre as pernas fortes que se recusam

A sustentar-me. Mas ela não pode amá-la. Se eu tivesse
Toda essa força, você estaria perdida. Ela não permitiria

Que você enterrasse a cabeça sob o braço amputado,
Em seu peito frio, e cantasse sua canção indistinguível.

Um pedidoUm pedido

Passos acima
o reino perfeito do amor
dorme um sono de séculos
de que não pode acordar.

Ao subir, desistira
de um regresso, e o retorno
impossível à cúpula
revela ainda mais dor.

Aqui, a indiferente natureza
prossegue frutificando
pasmos sempre novos
a novos olhos ferrugentos.

A relva na relva, o mar
no mar, tudo se recolhe
noite após noite
ante a noite replicada.

Cores copiosas do crepúsculo
vazam sua cor de clara de ovo.
A desafortunada visão
sequer percebe a si mesma.

*

Há uma mão pendurada
em silêncio que não alcança
nada a ninguém
em mais um gesto irrefletido.

Melhor que não visses
ao espelho quem foste,
quem viste, o que amaste
e o que dizes..

Mas uma centelha me pedes
desta rigorosa ambiguidade.
Eu digo: não sei.. Se digo,
é a intimação de um pedido..

Quando vais, me ausentas
do teu ser e estar
miraculoso. Como, sem tua
voz, me sustento?

Colocaste o pé sobre o meu.
Me acordaste. Do mais profundo
dos sonos, vieste. Se não sabes
quem és, não importa.. Vieste,
apenas. E então me causaste.

O bilheteO bilhete

O novo ano trouxe velhas penitências
bem embrulhadas, como presentes
preparados há tempos, de um antigo banquete.

Há tempos ouvindo a mesma coisa,
tomo cuidado com o que posso escutar.
Não são tantas lascas nas pedras, mas há.

É raro quando o comum se revela estranho.
É uma tempestade que permanece em segredo –
e o que existe se reveste de ausências.

Aperto os joelhos entre os braços, gasto
tempo demais com máquinas quebradas
e coisas arruinadas que nem valem nada.

Os olhos eu abro porque vai começar a chover.
Tudo parece tão limpo.. E, o frio, glacial.
O relógio é que bate cada vez mais cedo…

Desse modo qualquer um pode vir a morrer:
não há o sustento do sol e a noite vindoura
ainda dorme, malgrado lhe envie o bilhete.