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Não se aconselha a compaixão

Para a Isabel

For every little lie you tell so you can hide
Will grow inside your chest
Your heart will need to rest
So come into my arms

November Ultra

Não se aconselha a compaixão. Isto é o que se deveria dizer em muitos lugares onde ela havia trabalhado. É que as pessoas primeiro olhavam seus braços e pensavam que ela seria um bom guindaste para os velhos que já não levantam mais pelas próprias pernas. Um guindaste humano e de bom coração que, ao tempo em que erguesse pelas axilas alguém sem esperança em sobreviver, sussurraria em seus ouvidos palavras cândidas, inocentes, como se extraídas de uma canção de ninar. Por isso eu digo sem piscar: compaixão ela não tinha. Na verdade, era outra coisa; algo que não entendi por completo, pois também não houve tempo o bastante.

Para quantos não tenham força para viver, deve haver tantos que os ajudem a suportar, a mãe lhe disse ainda uma criança, a única menina entre sete irmãos nascidos em escadinha, ela a mais velha, e que se tornaria responsável pelos demais se a mãe morresse (e ela morreu de droga e bebida, quer dizer, de uma morte quase planejada). Alguém precisa ser o guindaste, a mãe avisou e antes que entendesse outras coisas elementares de uma vida serviu-lhe a lição.

O que a distraiu nestes anos foram os gatos que a mãe havia deixado que se acomodassem em seu pátio. Ela gostava de ficar olhando os animais como se aquilo fosse uma selva particular, um mundo de natureza, ordenado pela natureza e onde, por consequência, apenas aconteciam as coisas que desejava a natureza. Mas um a um os gatos partiram ou morreram e coube a ela enterrá-los junto aos arbustos que foram tomando conta do lugar. Isso tudo uma ordem da natureza, exceto ela, que desde então adquiriu aos olhos dos outros o hábito dos anjos.

“Eu vou comprar comida, algo que você nos prepare para enfrentar o frio. Não demoro…”, o pai disse na última vez em que o viu. Mais tarde, atrás dele foram os três filhos mais velhos, numa tentativa de reencontro que ela nunca soube se malfadada ou bem sucedida. Às vezes, ela estava encostada na porta da enfermaria, fumando, e me parecia que imaginava ainda que os quatros se encontraram, é claro, e agora vivem da pesca numa cidade portuária e nem é preciso que retornem, mas, se um dia retornarem, ela terá arranjado algo do que comeriam todos, como deve ser numa família.

Nos olhos dos seus irmãos nunca houve gratidão e nem ela esperou por isso. “Vive-se”, é o que ela dizia quando os vizinhos indagavam se precisava de algo e ela recusava, dizendo que com o seu trabalho eles tinham o suficiente.

Eu sinto tristeza que nas cidades, todas elas, nunca tenha um monumento a criaturas assim. Imagino que ela recusaria como recusou um pedido de noivado de um sujeito que disse por ela estar apaixonado, mas ela não o entendeu, não entendeu do que se tratava. Menos mal que uma prima entendeu as tentativas dele, subsequentes as que lhe dedicara. E ela entendeu ainda mais porque, de fato, não havia nada disso de paixão. Sabe-se lá o que havia..

Hoje desde cedo me pareceu que seria um dia estranho. Avisaram que ela não viria almoçar conosco, no refeitório. Foi deslocada para outro andar, outro setor, eu imagino. Não quero saber. Para onde ela tiver ido estará um lugar melhor, isso é que é. Haverá risos de histórias angelicais, sem qualquer maldade ou frivolidade, canções cantadas sem pronúncia, em boca chiusa, e seus músculos trabalhando como a mãe ensinou-a a fazer. Haverá alguém sendo ajudado ou então não haverá realmente mais nada. Em dezembro costumam dar folga aos funcionários, é isso que deve ser. A maldita está de folga e eu aqui, sem quem me conte o desfecho de uma história qualquer, dessas que rolam pelos telefones e eu tenho preguiça de ler até ao final. Irá comer os caramelos todos sozinha, não guardará ao menos um para mim. E é assim mesmo que deve ser. Não se aconselha a compaixão.

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Nos últimos dias, estive revisando (e revisitando) os textos e trabalhos que, no longínquo 2015, resultaram na edição de um e-book e depois de um livro impresso no qual procurei registrar e conservar um trabalho de quase 10 anos que realizei com muitos amigos e parceiros do movimento social pela inclusão da pessoa com deficiência.

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EpílogoEpílogo

Não são muitos a essa hora na rua, ainda mais que maio já exulta um frio que emerge das superfícies, por tudo… Brota das gretas e das rachaduras da tinta uma espécie de suor. Os tijolos suam do tanto que fazem em suportar as vidas em seu interior. Aqui onde estou não há ninguém, mas alguém ainda mantém um fogo aceso. Sinto o ardido da lenha verde queimando e exalando o perfume de uma lareira ou um fogão a lenha aceso já por um desses velhos madrugadores. Mas, na rua, ninguém. A cerração é uma nuvem que desistiu de voar, a mãe disse um dia, e a essa hora há como uma fusão das duas neblinas, a da noite e a do dia. O Fernando não está aqui como disse que estaria e em lugar nem um me parece haver alguém conhecido a quem possa mostrar o recorte de jornal que trago no bolso traseiro da calça jeans. Uma folha do Correio do Sul dobrada em oito ou doze partes, uma imagem borrada ali dentro, a face imberbe de um Alexandre como eu o conheci. Não pode ser a mesma pessoa, eu penso. E por isso preciso tirar a limpo essa informação com alguém. Morreu mesmo? Mas isso é verdade? Quando foi? Alguém foi a esse velório? Era ele mesmo? E se ele botou alguém no lugar dele? Um cupincha que se prestasse… E se ele fez isso para fugir ao Uruguai, Bolívia, o raio que o parta? Quem é que numa hora dessas pode andar por essa maldita cidade e me dar certeza? “Morreu, sim”, quem vai me dizer? Viu a certidão de óbito? Doente de quê? Morto por quem? Pensa bem, tu estás falando do Alexandre e ele tem tantas vidas como um gato, um gato vadio que ninguém segura ou aprisiona. O Alexandre, eu quero dizer, é ladino e felino, o filho-da-mãe, e só vocês mesmo, que são burros, acreditam nas lorotas dele. Eu sei bem que ele está solto a essa hora. Aonde? Que sei eu? Na zona, num boteco fuleiro, na cama do prefeito, o Alexandre ele pode estar onde ele bem entender e é por isso que eu vim aqui, que de outro modo não viria. Não tenho interesse nesse lugar depois da morte do pai e de que consegui finalmente levar a mãe comigo. Vim porque me deram a certeza de que era verdade, mas eu não acredito em ninguém que ainda viva aqui. Este lugar sempre foi um poço de mentiras, meias verdades, um precipício de ilusões dementes. Ali adiante, onde morei, a mesma casa. Se olho ao sul, só o vento de sempre, anavalhando o que encontra pela frente. Pela noite, ruínas de memórias revestem a cidade que parece a mesma, mas não há mais ninguém aqui se ele morreu. É um lugar propício onde morrer de tanta paz, de tanto tédio, de tanto nada para fazer. Eu vim buscar quem me confirme da morte desse traste humano e nem o Fernando, que gostava de mim, consegue estar ainda aqui, ele que resistiu mais que todos nós. Escorado nessa mesma parede, ele fumava lentamente e olhava adiante como se pudesse tocar outro destino com os olhos. E raspava as palmas das mãos como se fosse dizer algo surpreendente, mas só se queixava do frio. “Que frio é esse?”, indagava num discurso pró-forma, sem esperar resposta, sem esperar nada. Ao lado dele, não me intimidava o Alexandre, porque nesse caso ele é quem se intimidava. Nem ao menos o Fernando aqui, claro que não… Ninguém que parecesse conhecido, somente a figura de um Alexandre pálido no bolso das calças. E nem ele poderia me salvar mais de estar aqui, porque nunca me deixaria escapar, pegar a estrada de volta e fugir. Espero que venha de uma vez o dia antes que a noite me deixe também sem alma.